menu

Mostrar mensagens com a etiqueta História. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta História. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

1936 - O ano da morte de Ricardo Reis



Ricardo Reis nasceu no Porto, no dia 19 de setembro de 1887, estudou num colégio de jesuítas, formou-se em medicina e, por ser monárquico, expatriou-se espontaneamente em 1919, indo viver para o Brasil. Na sua biografia não consta a sua morte, no entanto, no seu livro O Ano da Morte de Ricardo Reis, José Saramago situou-a em 1936.

1936 é o ano em que o ambiente internacional se começou a degradar. A Grande Depressão e consequentes dificuldades económicas e sociais favorecem a irradiação do fascismo na Europa, ao mesmo tempo que se assiste à formação de governos de coligação de partidos de esquerda, como é o caso das Frentes Populares em Espanha e em França. A eclosão da Guerra Civil Espanhola será um prenúncio da II Guerra Mundial.

Os alunos do 12º D partiram destas primeiras ideias e pesquisaram sobre o que aconteceu no ano de 1936: da estreia do filme "Tempos Modernos", de Charlie Chaplin, à criação do Voskswagen na Alemanha de Hitler; da publicação do livro "E tudo o vento levou", da escritora norte-americana Margaret Mitchell, à viagem inaugural do zepelim Hiddenburg (que a 7 de setembro sobrevoou Lisboa); do assassinato de Federico García Lorca à remilitarização da Renânia pela Alemanha, muitos foram os acontecimentos que marcaram 1936, além dos que aparecem referidos na obra de Saramago: a fundação da Mocidade e da Legião Portuguesa, a conquista da Etiópia por Mussolini ou os Jogos Olímpicos de Berlim.

Da pesquisa efetuada pelos alunos nasceu uma Exposição de cartazes que pode ser visitada durante o mês de fevereiro na Biblioteca do ECB.


"Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo"
Ricardo Reis







“… as notícias que estavam a vir de Espanha, sobre as eleições […], a direita tinha ganho em dezassete províncias, mas, contados os votos todos, viu-se que a esquerda elegera mais deputados que o centro e a direita juntos…” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, pp. 148-149)




“… duzentos e cinquenta mil soldados alemães estão prontos a ocupar a Renânia e […] uma força militar alemã penetrou há poucos dias em território checoslovaco…” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 142)

“… por estes dias denunciou a Alemanha o pacto de Lucarno e ocupou a zona renana” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 198)




“Agora o que vamos ter de mais certo é virem por aí abaixo outros tantos franceses, que já a esquerda de lá ganhou as eleições, e o socialista Blum declarou-se pronto a constituir governo de Frente Popular…” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 291)




“O mundo, como destas amostras se pode concluir, não promete soberbas felicidades, agora foi Alcalá Zamora destituído da presidência da República e logo começou a correr o boato de que haverá um movimento popular em Espanha, se tal coisa lá fizerem, tristes dias estão guardados para muita gente.” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 253)

“[…] Ricardo Reis deve ter sido o último habitante de Lisboa a saber que se dera um golpe militar em Espanha. […] O exército espanhol, guardião das virtudes da raça e da tradição, ia falar com a voz das suas armas, expulsaria os vendilhões do templo, restauraria o altar da pátria, restituiria à Espanha a imorredoira grandeza que alguns degenerados filhos haviam feito decair. […] O levantamento começou no Marrocos espanhol e […] é seu principal chefe o general Franco.” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, pp. 363-364)





“Porventura com vistas a essa aprendizagem se decretou a criação da Mocidade Portuguesa que, lá para Outubro, quando iniciar a sério os seus trabalhos, abrangerá, logo de entrada, cerca de duzentos mil rapazes, flor ou nata da nossa juventude, da qual […] há-de sair a elite que nos governará depois …” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 355)




“… considere-se o exemplo dos italianos, que […] lá vão ganhando a sua guerra, ainda há poucos dias bombardearam a cidade de Harrar, voaram até lá os aviões e reduziram tudo a cinzas…” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 253)

“As tropas de Badoglio preparam-se para retomar o avanço sobre Addis-Abeba…” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 278)

“E terminou a guerra da Etiópia. Disse-o Mussolini do alto da varanda do palácio, Anuncio ao povo italiano e ao mundo que acabou a guerra, e a esta voz poderosa as multidões de Roma, de Nápoles, da Itália inteira, milhões de bocas, todos gritaram o nome do Duce […]” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 292)






“Como amostra do que virá a ser a nossa juventude patriótica, irão a Berlim, já fardados, os representantes da MP, […] e assistirão aos Jogos Olímpicos, onde, escusado será dizê-lo, causarão impressão magnífica, estes belos e aprumados moços, orgulho da lusitana raça…“ (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 355)




“Viu ontem o balão, Qual balão, O zepelim, passou mesmo por cima do hotel, o gigantesco, adasmatórico dirigível, Graf Zeppelin, de nome e título do seu construtor, conde Zeppelin, general e aeronauta alemão, ei-lo a sobrevoar a cidade de Lisboa […] tão grande, […] e aquela cruz que leva atrás, Chamam-lhe gamada, ou suástica, […] o dirigível é alemão, e a suástica é hoje o emblema da Alemanha…” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 278)

“[…] enquanto os ingleses protestam contra a passagem do dirigível Hindemburgo sobre fábricas e pontos estratégicos britânicos, o que se vai dizendo é que tudo parece indicar que a incorporação da Cidade Livre de Danzig no território alemão não virá longe.” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 361)





“… lidos foram e tornados a ler estes dessangrados jornais de Lisboa, desde as notícias da primeira página, Eduardo VIII será o novo rei de Inglaterra…” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 119)



Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo

Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo,
E ao beber nem recorda
Que já bebeu na vida,
Para quem tudo é novo
E imarcescível sempre.

Coroem-no pâmpanos. ou heras. ou rosas volúveis,
Ele sabe que a vida
Passa por ele e tanto
Corta a flor como a ele
De Átropos a tesoura.

Mas ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto,
Que o seu sabor orgíaco
Apague o gosto às horas,
Como a uma voz chorando
O passar das bacantes.

E ele espera, contente quase e bebedor tranquilo,
E apenas desejando
Num desejo mal tido
Que a abominável onda
O não molhe tão cedo.

19-6-1914
Odes de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1946

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Dia Internacional da Comemoração em Memória das Vítimas do Holocausto

Resultado de imagem para Dia Internacional da Comemoração em Memória das Vítimas do Holocausto

A 27 de janeiro comemora-se a libertação pelas tropas soviéticas do maior campo de extermínio nazi, em Auschwitz-Birkenau, em 1945. Em dezembro de 2005, a Assembleia Geral das Nações Unidas, durante a sua 42ª sessão plenária, estabeleceu este dia como o Dia Internacional da Comemoração em Memória das Vítimas do Holocausto.

No dia em que se recordam os milhões de vítimas do genocídio da Alemanha nazi sobre os judeus, ciganos, homossexuais, entre outros, ocorrido durante a II Guerra Mundial, pretende-se preservar a memória do holocausto, sensibilizando as novas gerações para a dimensão e consequências do genocídio, de forma a que acontecimentos como este não se repitam.
Algumas ligações da Organização das Nações Unidas sobre esta temática:
http://www.un.org/en/holocaustremembrance/2019/calendar2019.html


Mensagem de António Guterres, Secretário-Geral das Nações Unidas:

http://www.un.org/en/holocaustremembrance/2019/SG.html


Mensagem de Audrey Azoulay, Diretora Geral da UNESCO:

https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000366485_eng



sexta-feira, 1 de junho de 2018

O nome dos meses – junho


A deusa Juno

Junho é o sexto mês do calendário gregoriano e tem 30 dias. O seu nome surgiu em homenagem à deusa romana Juno, irmã e mulher de Júpiter, filha de Saturno e de Reia, associada à deusa grega do amor e do casamento, Hera, mulher de Zeus.

Segundo a mitologia romana, Juno é a Deusa da Mulher, investida de algumas características associadas à feminilidade, adorada como Juno Lucina (a Deusa da Luz e, portanto, dos partos que trazem os recém-nascidos à luz do dia e por associação deusa da maternidade), Juno Caprotina (Deusa da Fecundidade) e Juno Pronubia (Deusa dos Casamentos e protetora das mulheres casadas, as matronas). O seu culto também aparece associado à cidade de Roma, da qual é protetora enquanto Juno Regina. Esta deusa conciliava, assim, a dupla função de soberania e de fecundidade, constituindo ”a representação divina da função social desempenhada em Roma pela matrona.” (in Dicionário cultural da mitologia greco-romana, dir. René Martin, Publicações Dom Quixote).

O calendário juliano foi criado por Júlio César no ano 46 a.C., na qualidade de pontífice máximo do Império Romano, tornando o calendário romano num calendário solar, alinhado pelas estações do ano, à semelhança do calendário egípcio.
Este era o calendário em uso no tempo da vida de Cristo e foi usado como base de cálculo da Páscoa pelos cristãos. No século IV, por ocasião do Concílio de Niceia, o Equinócio da Primavera ocorria por volta do dia 21 de Março. A partir do século XIII, as observações astronómicas e o cálculo da medida do ano solar mostraram que o Equinócio da Primavera ocorria vários dias antes dessa data, considerada fixa. A necessidade de correção e mudança suscitou longos debates durante cerca de três séculos. O calendário juliano foi oficialmente reformado em 1582, pelo papa Gregório XIII, dando origem ao calendário que temos hoje, o calendário gregoriano, progressivamente adotado por países onde a Igreja Católica era predominante. A Igreja Ortodoxa não aceitou esta mudança e ainda hoje, nos países onde esta confissão religiosa é maioritária, se mantém a diferença de 13 dias nos dois calendários.


sexta-feira, 18 de maio de 2018

Dia Internacional dos Museus


No dia 18 de maio celebra-se o Dia Internacional dos Museus, criado em 1977 pelo Conselho Internacional de Museus – ICOM –, com o objetivo de promover, junto da sociedade, uma reflexão sobre o papel dos Museus no seu desenvolvimento. Para 2018, o ICOM propõe o tema - Museus hiperconectados: novas abordagens, novos públicos.

Um museu é, na definição do ICOM (2001), "uma instituição permanente, sem fins lucrativos, ao serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao público e que adquire, conserva, investiga, difunde e expõe os testemunhos materiais do homem, para educação e deleite da sociedade".

A palavra “museu” tem origem etimológica no grego antigo mouseion. Apesar de a arqueologia revelar que desde os seus primórdios a Humanidade adquiriu o hábito do colecionismo (por exemplo, no Paleolítico os homens primitivos já reuniam vários tipos de artefactos, como o provam achados em sepulturas), é somente a partir da Antiguidade que surgem espaços com um sentido mais próximo do conceito moderno de museu quando, além de colecionar objetos a que atribui valor, seja afetivo, cultural ou simplesmente material, o homem começa a organizar museus enquanto sítios para exposição e preservação de objetos com uma finalidade cultural e educativa.
Na Grécia Antiga o mouseion era um templo das musas, divindades que presidiam à poesia, música, oratória, história, tragédia, comédia, dança e astronomia. Esses templos, bem como os de outras divindades, recebiam muitas oferendas em objetos preciosos ou exóticos, que podiam ser exibidos ao público mediante o pagamento de uma pequena taxa. Os romanos expunham coleções públicas nos fóruns, jardins públicos, templos, teatros e termas. No oriente, onde o culto à personalidade de reis e heróis era forte, reuniam-se objetos históricos com a função de preservação da memória e dos feitos gloriosos desses personagens.
Durante a Idade Média, também resultado das vicissitudes políticas e económicas deste período, a noção de museu quase desapareceu, embora o colecionismo continuasse vivo: por um lado, os acervos de preciosidades eram considerados património de reserva que podia ser convertido em dinheiro em caso de necessidade, como para financiamento de guerras; por outro, muitas coleções se formaram com objetos ligados ao culto cristão, acumulando-se em catedrais e mosteiros quantidades de relíquias de santos, manuscritos iluminados e alfaias litúrgicas em metais e pedras preciosos.
No Renascimento, com a recuperação dos ideais clássicos e a consolidação do humanismo, ressurgiu o colecionismo privado de grandes banqueiros e comerciantes, integrantes da burguesia em ascensão, que financiavam uma grande produção de arte profana e ornamental e se dedicavam à procura de relíquias da Antiguidade. Reis, nobres e burgueses abastados de toda a Europa competiam, como mecenas, na propaganda das suas coleções que se tornaram célebres pela sua riqueza, como a dos Medici, em Florença.


Palácio Medici, Florença


Palácio Medici

É também durante o Renascimento que aparecem os “gabinetes de curiosidades”, ou “salas das maravilhas”, como eram designados os lugares onde, durante a época das grandes explorações e descobrimentos dos séculos XVI e XVII, se colecionava uma multiplicidade de objetos raros ou estranhos dos três ramos da biologia considerados na época, animal, vegetal e mineral, além das realizações humanas. Formavam assim coleções muito heterogéneas e assistemáticas de peças das mais variadas naturezas e procedências, incluindo fósseis, esqueletos, animais empalhados, minerais, curiosidades, aberrações da natureza, miniaturas, objetos exóticos de países distantes, obras de arte, máquinas e inventos, e todo o tipo de objetos raros e maravilhosos. Por isto são considerados os precursores dos atuais museus de arte.


A primeira ilustração de um gabinete de curiosidades,
publicada por Ferrante Imperato em Dell'Historia Naturale, Nápoles, 1599


Um exemplo de um rei-colecionador é Rodolfo II (Viena, 18 de julho de 1552 – Praga, 20 de janeiro de 1612), Imperador Romano-Germânico desde 1575 até à sua morte, além de Arquiduque da Áustria e Rei da Hungria, Croácia e Boémia. Era filho do imperador Maximiliano II e da arquiduquesa Maria da Áustria e foi um dos mais excêntricos monarcas europeus de todos os tempos. Colecionava anões e possuía um regimento de gigantes no seu exército. Rodeava-se de astrólogos, orientava-se pelas ciências ocultas e era fascinado por jogos, códigos e música. Defensor da alquimia, Rodolfo II financiou a impressão de literatura alquimista. Além disso, o seu gosto pelo exótico fez deste Imperador um dos principais protetores e mecenas de Giuseppe Arcimboldo, pintor italiano (1526-1593), considerado por alguns críticos de arte como um dos precursores ou inspiradores do surrealismo, umas das vanguardas europeias do século XX. Uma das principais obras do artista é justamente o retrato de Rodolfo II como o deus romano Vertumnus, pintado provavelmente entre 1590 e 1591 e feito com vários tipos de frutas, legumes, cereais e outros vegetais.


Vertumnus
Giuseppe Arcimboldo (1590–1591)

Outro exemplo de um colecionador particular é o médico e antiquário dinamarquês Olaus Wormius, ou Ole Worm (Aarhus, 13 de maio de 1588 – Copenhaga, 31 de agosto de 1654).
Ole Worm foi de alguma forma um "estudante perpétuo": depois de estudar na escola em Aarhus, continuou a sua educação na Universidade de Marburg; recebeu o título de Doutor em Medicina pela Universidade de Basileia, em 1611, e o título de Mestre em Artes pela Universidade de Copenhaga, em 1617. O resto de sua carreira académica foi feito em Copenhaga, onde aprendeu latim, grego, medicina e física. Foi o médico pessoal do rei Cristiano V da Dinamarca.
Na medicina, as principais contribuições de Worm aconteceram na área da embriologia. Os ossos de Worm (pequenos ossos que cobrem os espaços no crânio) receberam o seu nome em honra do seu contributo para esta área.
Worm tornou-se também conhecido como colecionador de literatura primitiva em idiomas escandinavos. Escreveu vários tratados sobre runas e colecionou textos escritos em alfabetos rúnicos.
Como naturalista, Worm reuniu uma grande coleção no seu "Gabinete de curiosidades", que incluía desde artefatos nativos do Novo Mundo a animais dissecados ou fósseis. Em 1655, já depois da sua morte, é publicado o catálogo do seu Museum Wormianum.
A principal utilidade das coleções de história natural de Worm era a pedagogia.


Frontispício do livro Musei Wormiani Historia
que mostra o quarto das maravilhas de Worm
No entanto, quer os Gabinetes de Curiosidades, quer as galerias privadas de reis, nobres ou burgueses estavam ainda essencialmente dentro dos círculos privados, inacessíveis à população em geral.
Movidas por interesses científicos foram fundadas inúmeras sociedades e instituições, como os jardins botânicos de Pisa (1543) e o de Pádua (1545), a Real Sociedade de Londres (1660) e a Academia de Ciências de Paris (1666), que reuniam as suas próprias coleções.
É durante o século XVII que o museu se consolidou mais ou menos como atualmente o conhecemos.
Em 1671, surgiu em Basileia o primeiro museu universitário e, em 1683, é criado em Inglaterra, pela Universidade de Oxford, aquele que é considerado o primeiro museu moderno com  o objetivo declarado de educar o público, o Museu Ashmolean. O seu acervo era eclético e assemelhava-se aos antigos gabinetes de curiosidades, procedente de várias partes do mundo, reunido pela família Tradescant e previamente exibido na sua casa de Londres.


Museu Ashmolean, Oxford

No século XVIII, o espírito enciclopédico dos iluministas fortaleceu a associação do conhecimento com a razão, a ordem e a moral, favorecendo a formação de acervos sistemáticos e a atuação de instituições culturais com objetivos educativos e públicos.
Importantes museus fundados no século XVIII foram o Museu Britânico, aberto em Londres em 1759, e o Museu do Louvre, em Paris, em 1793, por iniciativa dos respetivos governos.


Museu Britânico, Londres



Museu do Louvre, Paris

O exemplo europeu, por força do colonialismo, frutificou também em territórios do Oriente e na América. Em Jacarta, a Sociedade de Artes e Ciência de Batavia iniciou uma coleção em 1778, que evoluiu para se tornar o Museu Nacional da Indonésia.


Museu Nacional da Indonésia, Jacarta

Na Índia, em 1784 é fundado o primeiro museu, o Museu Indiano, a partir das coleções reunidas pela Sociedade Asiática de Bengal.


Museu Indiano (ou Museu da Índia), Chowringhee - Kolkata, West Bengal

Nos Estados Unidos, a Charleston Library Society da Carolina do Sul anunciou em 1773 a sua intenção de formar uma coleção de produtos naturais para fomentar e promover a agricultura e a medicina da província.


Charleston Library Society, Charleston, Carolina do Sul

Entretanto, os Gabinetes de Curiosidades vão desaparecendo durante os séculos XVIII e XIX, sendo substituídos por instituições oficiais e coleções privadas. Os objetos considerados mais interessantes foram transferidos para os museus de artes e de história natural que começaram a ser fundados.
No século XIX, o museu continuou a sua transformação, expandindo os seus horizontes para incluir novas categorias e temas, e progressivamente abandonando o simples colecionismo para oferecer a exibição e catalogação rigorosamente sistemáticas, possibilitando ao público percorrer roteiros que apresentavam panoramas de toda a história e cultura da humanidade, reservando secções para apresentação das mais recentes conquistas da ciência e tecnologia.
O museu também desempenhou um papel no sentimento nacionalista romântico, contribuindo para a consciencialização popular e a construção de identidades nacionais, reunindo objetos ligados ao património cultural das nações, também como forma de legitimar os seu direito à independência. Pelos mesmos motivos aparece uma profusão de museus regionais e locais, voltados para os interesses de pequenas áreas geográficas.
Até meados do século XX, as práticas colecionistas continuaram a caracterizar-se acima de tudo por uma postura passiva diante da sociedade, seguindo critérios aquisitivos e administrativos vagos e que alguns críticos consideram arbitrários. A partir dos anos 70, assistiu-se a um aprofundamento científico da definição e das potencialidades dos museus enquanto recurso de atuação ativa, interdisciplinar e educativa, sendo lícito considerar esta reorientação como uma verdadeira revolução na conceção do museu público e como a fundação da museologia moderna.

No século XXI, os museus, enquanto espaço e enquanto conceito, têm de acompanhar e refletir as transformações sociodemográficas e tecnológicas. O tema para as comemorações do Dia Internacional dos Museus em 2018, Museus hiperconectados: novas abordagens, novos públicos, reflete isso mesmo.
No sítio da Direção Geral do Património Cultural, Ministério da Cultura de Portugal, podemos ler

“Os museus, enquanto parte integrante das suas comunidades, não podem alhear-se da rede global de conexões que caracteriza a sociedade contemporânea, quer no que respeita ao modo de interpretar e apresentar os seus acervos, quer no que se refere aos meios utilizados para cativar novos públicos. A digitalização das coleções, a presença de elementos multimédia nas exposições ou o hashtag são apenas alguns dos recursos proporcionados pelas novas tecnologias.
No entanto, a hiperconectividade dos museus deve ser também entendida no sentido de estes alcançarem uma aproximação mais abrangente aos vários setores da sociedade, cada vez mais sujeita a transformações, nomeadamente com o aparecimento de novas minorias, grupos étnicos ou instituições locais.” 



domingo, 10 de dezembro de 2017

Dia Internacional dos Direitos Humanos


A propósito das comemorações do Dia Internacional das Vítimas do Crime de Genocídio (9 de dezembro) e do Dia Internacional dos Direitos Humanos (10 de dezembro), aqui deixamos a sugestão do filme-documentário Nuit et Brouillard (Noite e Nevoeiro), do realizador francês Alain Resnais.

Em 1955, para assinalar os 10 anos da libertação dos campos de concentração e de extermínio, o Comité Francês de História para a Segunda Guerra Mundial encomenda a Alain Resnais a realização de um documentário sobre o sistema concentracionário alemão.
Desta encomenda nasce o filme Nuit et Brouillard (Noite e Nevoeiro, em português), título que alude ao decreto publicado na Alemanha nazi em 7 de dezembro de 1941, da autoria de Heinrich Himmler e assinado por Hitler, que obriga à deportação para a Alemanha de todas as pessoas acusadas de crimes contra o III Reich em territórios ocupados e que “representassem perigo para a segurança do exército alemão”, como suspeitos de ações de sabotagem ou de serem membros da resistência, opositores ou refratários à política nazi. Este decreto dá origem à operação Nacht und Nebel (NN), Noite e Nevoeiro.


Alain Resnais utiliza imagens de arquivo, a maior parte filmada pelos próprios nazis, acrescentando as que os soviéticos realizaram aquando da libertação dos campos de concentração e de extermínio, em 1945, e as que ele próprio regista dez anos depois. A acompanhar as imagens da guerra e do pós-guerra, ouvimos, pela voz do ator Michel Bouquet, o texto/poema de Jean Cayrol, um dos sobreviventes do drama e autor do argumento.



A deportação


O campo de concentração (imagem recolhida em 1955)

Numa atividade inserida no Plano Nacional de Cinema, após a visualização deste documentário numa aula de História A, os alunos do 12º E, curso científico-humanístico de línguas e humanidades, foram desafiados a produzir um pequeno texto sobre a temática em questão, escolhendo, quando assim o entendessem, uma banda sonora para acompanhar o texto.

Publicamos alguns dos textos elaborados:



Estrela Amarela




Wolgang e Frank são grandes amigos. Os dois rapazes têm várias coisas em comum: além de terem ambos 12 anos, frequentam a mesma escola e têm gostos semelhantes. No entanto, há uma diferença, para eles pequena, para outros gigante, que os irá colocar em lados completamente opostos.
Certo dia, Frank aparece na escola com algo diferente na sua roupa. Cosida no seu casaco está uma estrela amarela. Quando este se aproxima dos colegas, todos se afastam. Todos exceto Wolfgang. Ao contrário de todos os outros rapazes, Wolfgang não conhecia o significado daquela estrela e, por isso, não via razão para se afastar do amigo.
Achando que o seu companheiro deveria saber a verdade, Frank conta a Wolfgang a razão pela qual tem de usar a estrela. Apesar de todas as explicações, Wolfgang recusa afastar-se de Frank. Para ele, nenhuma estrela amarela cosida num casaco o pode impedir de brincar com o amigo.
Frank passou a usar aquela estrela todos os dias e, por isso, a sua única companhia era Wolfgang, que continuava a achar que nada o poderia separar separar do colega. Estava enganado.
Num dia tão normal como todos os outros, os dois meninos estavam a brincar perto da casa de Frank. A certa altura, alguns militares entram na casa do rapaz e, pouco depois, voltam a sair trazendo toda a sua família. Já na rua, os militares veem a estrela no casaco de Frank e este é obrigado a juntar-se à família.
A última coisa que Wolfgang viu do amigo foi a estrela amarela. Aquela que, para ele, não tinha qualquer significado, mas que para os outros foi suficiente para levarem Frank para longe.

Banda sonora:
A música que escolhi para acompanhar o meu texto foi “I won’t complain” de Benjamin Clementine porque penso que a letra pode retratar aquilo que foi a vida dos que sofreram com o Holocausto. Após serem levadas para guetos ou campos de concentração, as pessoas sabiam que os tempos que se aproximavam não seriam, de todo, melhores que os anteriores, por isso, restava-lhes manter a esperança de que tudo iria melhorar, não no imediato, mas mais tarde.


(Mariana Lourenço)


Poema

Uma memória triste
De quem já perdi…
Lembranças no sonho, e no olhar
Lembranças de como seria
Se não tivesses partido.
Só queria que tudo tivesse sido um sonho
Ficaste longe, desde aquele dia…
Ficaste tão longe, como o fim do mar
Quem me dera recordar
Todos os poucos momentos que vivemos
Todos os beijos, abraços e brincadeiras
Só queria mais uma oportunidade, para te voltar a dizer
AMO-TE…
(Sobrevivente que perdeu o pai no campo de concentração de Auschwitz)

(Beatriz Aguiar)




(Auschwitz, 2016)


Poema

Foi por volta de 1933
que o horror começou.
Esse maldito ano!
Essa maldita década!
Esses malditos homens!
Foram mais de 10 milhões
as pessoas torturadas.
Uma gigantesca quantidade de canhões
dispararam sobre terras devastadas.
Auschwitz, esse lugar amaldiçoado,
tanto sangue sobre esse sítio foi derramado.
Nem das mulheres e das crianças tiveram piedade,
os meninos dos pijamas às riscas em fornos queimados.
Os doentes eram aniquilados,
era assim que Hitler mandava matar os coitados.
Vivia-se o inferno na terra
e onde estava Deus nesse momento de guerra?

(Diana Freitas)

Uma vítima do Holocausto

Comecei por viver no gueto, bairro Judeu que servia para nos separar dos Arianos, a raça pura, não poderíamos ficar misturados pois isso seria uma vergonha para os arianos, estarem perto de com uma raça tão suja como a nossa.
Vivi cerca de sete meses no gueto, a vida lá era complicada, cada um por si a lutar pela sobrevivência pois cada dia era uma vitória para quem sobrevivia ali. As fontes de alimento cada vez ficavam mais fracas e todos os dias eram levados vários judeus para campos de trabalho, segundo o que corria dentro do gueto. Até ao dia em que chegou a minha vez, tinha vinte e nove anos, acabados de fazer no ano de 1935, eu e a minha irmã mais nova, Suzy, as únicas que restavam da nossa família, fomos levadas para ir para um campo de trabalho. Na altura ela tinha dezassete anos, estava quase a atingir a idade que consideramos “a idade adulta”, mas aos meus olhos ela ainda era uma criança, com uma alma jovem e inocente que de pouco se apercebia do que acontecia à nossa volta, pois sempre fiz questão de a colocar à minha frente e mantê-la afastada de tudo o que pudesse ser considerado “mau”, afinal ela era minha irmã mais nova e eu era como se fosse a mãe dela.
No dia em que me foram buscar. Lembro-me que era já de noite e estava a remendar um vestido que pertencia à Suzy, e que se tinha descosido com o desgaste do uso, não tínhamos grande acesso a roupa e fazíamos os possíveis para andar bem vestidas. Estava sentada numa cadeira de baloiço na sala de estar, quando ouvi um barulho, pareceu-me ser um carro de grande porte e barulhos de soldados e nesse momento só gritei para a Suzy se esconder e apagar as luzes. Tinham já passado cerca de três minutos quando ouvi um estrondo, a porta do pequeno apartamento tinha sido arrombada, instantes se passaram até as luzes se acenderem e pegarem em mim e na minha irmã que estava algures escondida no quarto.
Foi uma longa viagem até chegarmos ao campo de trabalho, íamos num comboio atulhado de judeus como nós e alguns deles não foram capazes de terminar a viagem devido à falta de espaço dentro do comboio que levaria diretamente alguns deles à morte. A primeira coisa que senti quando cheguei foi um forte cheiro a carne assada, pensei que havia alimento à vontade para todos, mas eu nunca tinha estado tão enganada na minha vida.
Quando fomos despejados do comboio fomos diretamente encaminhados para uma sala onde nos era marcado na pele um número, dado um uniforme com riscas verticais azuis e brancas em conjunto com um chapéu e raparam todo o nosso cabelo. Nesse momento esforcei-me o mais que consegui para não verter lágrimas e vi o mesmo no olhar da minha irmã, que ainda se encontrava comigo. Juntamente com as roupas que tínhamos vestidas levaram também os nossos pertences, com o aviso de que seriam bem guardados para que, quando saíssemos de lá, os pudéssemos ter de volta.
Fomos enviadas para os dormitórios femininos, onde se encontravam beliches para mais de uma centena de mulheres. Na madrugada em que chegámos, só me lembro de ter adormecido num canto de um dos beliches enquanto abraçava a minha irmã para enganar o frio que corria pelo nosso corpo. Passaram cerca de 45 minutos até se ouvir o som de um género de campainha, todas nos levantámos e fomos distribuídas por espaços no trabalho no campo. Trabalhei três meses no duro sem praticamente algum tipo de alimento, todos os dias a mesma rotina desde o dia em que tinha chegado, enquanto via a minha irmã morrer sem ser mais capaz de a proteger, por essa altura já tinha entendido bem de mais o que nos estavam a fazer dentro daquele campo, e ao final de umas três semanas descobri o que era o tal cheiro a carne assada, nada mais que o cheiro dos corpos queimados de todos aqueles que eram enviados para as câmaras de gás e morriam, mas o mais importante era fazer de conta que não tinha entendido nada e apenas continuar a trabalhar, porque bastava abrir a boca para passar a carne assada em menos de cinco minutos.
Alguns deles nem tinham a oportunidade de saber o que era o cheiro a carne assada, e eram diretamente levados para as câmaras de gás, começando com gritos de socorro e terminando nove minutos depois com puro silêncio e depois apenas o cheiro incessante a carne assada.
Era impossível fazer amigos dentro dos campos, pois cada vez que fazia amigos dias depois nunca mais ouvia falar deles e isso era emocionalmente impossível de aguentar, então a melhor opção eram dar-me bem com todos, mas nunca criar ligações com ninguém porque perder a minha irmã e os meus amigos já tinha sido o suficiente para mim.
Mudei de posto de trabalho algumas vezes, através de alguns contactos dentro do campo, trabalhar nas latrinas era o melhor sítio porque, apesar do cheiro imundo, não tínhamos os nazis atrás de nós a bater e mandar trabalhar mais rapidamente. Trabalhei também no “Canada” nome dado ao armazém onde iam parar todos os nossos pertences, casacos cheios de dinheiro nos forros, pinceis de barbear que pertenciam aos homens, relógios de bolso, todo o tipo de pertences, e foi a partir do “Canada” que consegui ser evacuada com a ajuda de alguns conhecidos dentro do campo.
Mas a verdade é que tudo o que passei lá dentro foi pior que um filme de terror e o trauma que isso deixou em mim nunca me vai largar e nunca mais vou conseguir ter a mesma ligação e confiança que tinha com os seres humanos.
(Bárbara Ferreira Costa)


Memórias de um sobrevivente do Holocausto

Cheguei de madrugada a Auschwitz. Fazia muito frio, graus negativos, não percebi bem o porquê de estar ali. Os nazis tinham-me ido buscar a casa e levaram-me para aquele sítio que parecia assustador. Passaram-se dias, meses e as mesmas coisas todos os dias aconteciam ali de igual forma, percebi que maioritariamente éramos todos judeus, havia também ciganos e homossexuais, todos os dias os soldados batiam-nos porque não fazíamos rapidamente o nosso trabalho, éramos colocados em grupos e todos estavam doentes, com penumonia, outros morreram até. E eu estava fraco a cada dia que passava, não havia comida suficiente, não havia remédios, não havia condições de vida naquele lugar, éramos brutalmente agredidos, vivíamos com medo.
Vi muitos mortos, lembro-me de ver montes de pessoas mortas, todas empilhadas umas em cima das outras. Para além desta visão assustadora, todos os dias havia algo que me despertava a atenção: a fumaça que saía dos chuveiros para onde mandavam os prisioneiros ir em grandes grupos.
Hoje sei o que aquilo era, câmaras de gás onde se pretendia a destruição em massa dos judeus, ou seja, a “solução final”. Passou a ser uma questão de sobreviver naquele lugar e foi então que o grande milagre aconteceu. Numa manhã, de repente, aparecem no ar aviões e os soldados nazis tiveram de fugir. Os aviões foram o símbolo da nossa liberdade, o terror teria acabado ali...
Um sobrevivente (anónimo)

Banda sonora:
A música que escolhi para acompanhar a leitura deste texto foi “A day of sun”, de Alexander Search

https://youtu.be/CiUX-zd90ks

(Bárbara Santos)


Um poema

O fim desejado

Nesta fila interminável
sente-se os sonhos a desaparecer.
A nossa individualidade incopiável
é destruída num novo terrível amanhecer.

Acordar.
Trabalhar.
Tentar adormecer.

Um ciclo interminável
sem condições, sem comida.
A única "recompensa" poderá ser
O fim da nossa vida.

Uma recompensa desejada por muitos
neste espaço sem esperança, desconhecido por todos
os que se distraem com batalhas.

No que parece um momento de descanso,
encontra-se a nossa salvação disfarçada.
Um simples "duche" dá-nos a paz
já há muito desejada.

(Ana Sofia Ferreira)




A carta que nunca será lida

Olá, sou o Stefan. Pelo menos era esse o meu nome, agora já só me chamam “tu aí” ou “judeu nojento”, nem nome tenho, sou denominado “NN”, embora não saiba o que significa, e não gosto de ser tratado assim.
Estou em Belzec, na Polónia, há cerca de duas semanas. Vim com o meu pai para cá.
Todos os dias acordo quando o sol nasce, como o que os guardas me dão, que tanto pode ser um pouco de pão duro como uma mão cheia de nada. Vou trabalhar ainda esgotado do dia anterior. No trabalho não faço pausas nem para respirar e quem o tentar fazer é espancado pelos guardas sem dó nem piedade. O pior de tudo isto, o mais horrível, é ver pessoas, amigos, familiares, a serem mortos a sangue frio, mesmo ao meu lado.
Vivo todos os dias com medo que um dia seja eu, agora já nem tenho o abraço do meu pai para me confortar, desde que há dois dias foi levado por um guarda para tomar banho nunca mais o vi.
Sempre que me deito pergunto-me por que é que fomos nós os escolhidos para todo este sofrimento, que mal é que nós fizemos no passado para merecer semelhante castigo e, antes de adormecer, penso ainda no que será pior: acordar na manhá seguinte ou morrer.
Quando acordo, penso que tudo isto não passou de um pesadelo, mas não é, continuo fechado neste local de tortura e sacrifício do meu povo.
Não posso escrever mais, o papel está a acabar. Talvez mais tarde consiga encontrar outro pedaço de papel caído do bolso de um soldado e continue a contar como são passados os dias neste inferno.
(Ricardo Costa)



Campo de concentração

Passa-se pelo campo de concentração
Como se faz uma viagem.
Entra-se num comboio com tudo na mão
Mas sai-se com o horror como paisagem.
Somos as máquinas deles.
Todos os dias nos ligam.
Até à noite temos que trabalhar.
No nosso corpo, só ossos e peles
Só nos dão pão duro e sopa para manjar.
Aqui não tomamos banho
Isso significaria a morte.
E até medo disso eu tenho.
Até à noite cuidado há que ter.
Eles não gostam de nós.
No meio do nevoeiro, uma flor,
Poderia ficar
Como fica a cor
Numa pequena tela.
Mas vou me deitar,
E apagar a vela.
Eles vêm aí!
(Sara Félix)



Uma carta
18 novembro 1942
Auschwitz-Birkenau
Querido alguém,
Esta é a história de um judeu, enviado para um campo de concentração por não ser “puro”, ariano, e sujeito a todos os tipos de tortura, física e psicologicamente, com praticamente nada para comer, camas duras, obrigado a trabalhar desde o amanhecer até ao anoitecer.
Em 1935, alemães de origem judaica foram privados da nacionalidade, do casamento, relações sexuais e outros tipos de relacionamento entre arianos e judeus. Sendo judeu, privaram-me de viver livremente, pois sempre fui julgado por ser quem sou. Mas, com todas estas leis, o amor falou mais alto e apaixonei-me por Beate, uma mulher ariana, pior ainda foi ela também se apaixonar por mim. Apesar de ninguém se ter apercebido deste relacionamento, como já percebeste, não me livrei da “morte”, do campo de concentração. Sim, Morte. Ao entrar no campo de concentração percebi que não iria sair daqui vivo ou morto. Fui reconhecido como judeu devido à minha aparência, acabando por ser trazido para aqui.
No meio de toda esta desgraça, o que mais me custa ver são as crianças, famintas, impedidas de serem crianças, já não podem brincar, aprender, e isto é algo que ninguém merece, principalmente crianças indefesas, agora também utilizadas para trabalhar e em experiências médicas.
Enquanto escrevo esta carta, aqui, já não tenho forças para trabalhar, e não sei como ainda tenho forças para escrever. Espero que ninguém tenha de passar por o que estas pessoas, inocentes, e eu estamos a passar.
Se, por algum motivo, estás a ler esta carta, foi porque não sobrevivi e espero que, quem nos fez isto, pague pelos crimes que cometeu contra a humanidade.

(Miguel Luís)


Linha do destino

Nesta linha caminho
Sem conhecer o meu vizinho
À minha frente vai um miudinho
Com medo do destino, anda devagarinho.
Nesta linha caminho
Pensando no glorioso passado,
Que ainda é tão presente
E o futuro que ficou limitado,
Mas com que sonho frequentemente.
Se é possível sonhar neste lugar?
É a única coisa que não podem roubar,
E dá-nos o poder de imaginar,
Uma vida fora deste lugar peculiar
Onde a liberdade possamos recuperar.
Caminhamos sem identidade,
Sem diferenciação de idade,
Tendo de encarar a dura realidade
De que a morte é pura fatalidade.
O destino que se aproxima
É algo que a todos intimida,
Um destino que a dor subestima
Só desejamos que seja mínima.
Aquele que caminha à minha frente
Talvez seja bom homem, inteligente,
Seria homem de família, afortunado
Que agora pela religião é discriminado.
Nesta linha caminho
Em trajes riscados de azul-marinho,
Caminho sozinho,
Sem conhecer o meu vizinho.
Nesta linha caminho
Sentido o cheiro a morte,
Sigo para norte,
Rumo a um destino de pouca sorte.
(Rafaela Boita)


Um poema

Ambíguo de verdade

Ambíguo de verdade
que asqueroso és,
vede o que fez à Humanidade
(conheço-o com a palma dos meus pés):
assim que viu oportunidade,
como a hiena que persegue a rês,
pela vontade de matar,
ataca de surpresa e o Mundo
              desfez.

Ambíguo de verdade
que gatuno rezingão,
vede o que fez à Humanidade
(atitude sem perdão):
assim que viu oportunidade,
como coelhos que comem a sua espécie sem razão,
pela vontade de matar,
ataca de surpresa e o Mundo
              desfez.

Ambíguo de verdade
que caótico aleivoso,
vede o que fez à Humanidade
(que preconceituoso és):
assim que viu oportunidade,
como a abelha que pica sabendo que vai para o fosso,
pela vontade de matar,
ataca de surpresa e o Mundo
              desfez.

Banda sonora:
A música que escolhi para acompanhar a leitura deste texto foi "Baba Yetu", composta por Christopher Tin, sendo a letra uma tradução em swahili da oração "Pai Nosso".
Escolhi esta música porque, considerando que a prática da ideologia nazi devastou o Mundo, sobretudo no plano humanitário, onde o terror e o desrespeito pelos direitos humanos foram uma constante, e perdoar as pessoas que estiveram por detrás de todo esse massacre me parece impossível, vejo esta música, uma tradução em swahili do "Pai Nosso", como uma prece a uma força superior, divina, para que perdoe aquelas pessoas (se tal for possível), pois só mesmo uma divindade o poderá fazer, uma vez que nós, enquanto sociedade, não o conseguimos.


(Beatriz Lopes)


Testemunho

Já sem cabelo e sem barba, o que me resta é trabalhar, porque o trabalho liberta, como está escrito no cimo do "portão da morte", ao qual cheguei num comboio com carruagens muito desproporcionais à quantidade de pessoas que levavam, e onde muitas acabaram por morrer. Irónico, não é? Mesmo que trabalhemos muito, o nosso fim é sempre o mesmo, e não é a liberdade, e não o podemos contestar, a nossa vida está nas mãos dos nazis e eles podem acabar com ela quando bem entenderem.
Olho à minha volta e o que vejo são "cadáveres vivos" sedentos de um simples pedaço de pão, arrastando-se pela lama e submetidos a trabalhos forçados, muitos vão resistindo ao fim inevitável.
A vida é como a chama de uma vela, frágil e efémera.
Aqui, as pessoas deixam de ser pessoas e passam a ser apenas números que se vão apagando à medida que vão desistindo daquilo a que nem se pode chamar vida. E o mais triste é ver crianças de tenra idade a conhecerem a faceta negra e cruel do ser humano, simples inocentes a quem é tirada uma vida cheia de sonhos por concretizar, e todas elas separadas da família que provavelmente nunca mais voltarão a abraçar.
Aqui os gritos de dor vindos das câmaras de gás são difíceis de esquecer e ecoam no ouvido como recordações do maior genocídio alguma vez cometido.
Dor é o sentimento que define este campo, com o chão coberto de cadáveres, tudo aqui chora por dentro e faz um luto doloroso por todas as pessoas aqui assassinadas.
No fim disto, somos apenas "animais", homens sem dignidade.

Banda sonora:
A música que escolhi para acompanhar a leitura deste texto foi "Theme from Schindler's List", de John Williams, interpretado por Itzhak Perlman e pela Orquestra Sinfónica de Boston, e que faz parte da banda sonora do filme "The Schindler's List" (1993).
Escolhi esta música porque mesmo sendo instrumental, sem ninguém a cantar, o sentimento das pessoas que estiveram no campo de concentração é-nos transmitido através da harmonia entre todos os instrumentos e faz com que ninguém fique indiferente à dor das vítimas do Holocausto.


(Sofia Gonçalves)


Cobaias humanas

Durante a visualização do filme "A Noite e o Nevoeiro", vimos alguns dos horrores feitos às pessoas trazidas para os campos de concentração, incluindo as experiências realizadas com seres humanos. Decidi investigar sobre isto e encontrei a história das gémeas Eva e Miriam Mozes, que sobreviveram a Joseph Mengele, o "Anjo da Morte".

Eva e Miriam Mozes nasceram a 31 de janeiro de 1934, na Roménia. Quando tinham 10 anos, juntamente com os seus pais e as duas irmãs mais velhas foram levadas para Auschwitz. Assim que lá chegaram, foram separadas da família e não tiveram tempo de dizer adeus a ninguém.
Sendo gémeas, foram objeto de experiências, foram medidas e comparadas, tiraram-lhes sangue e deram-lhes injeções de líquidos que não se sabe o que eram até aos dias de hoje. Uma destas injeções fez com que Eva ganhasse uma febre altíssima e foi enviada para o hospital do campo para morrer. Os seus braços e pernas incharam e doíam-lhe demasiado para conseguir andar. Ela recorda-se de rastejar para chegar ao lavatório que havia no fim do corredor para beber água. Os nazis acharam que ela ia morrer, mas em duas semanas Eva recuperou e foi juntar-se à sua gémea.
Qunado, em janeiro de 1945, os soviéticos libertaram o campo, elas eram as únicas sobreviventes da família e foram viver com uma tia. Nunca mais falaram de Auschwitz até que Miriam teve filhos.
Na sua primeira gravidez, Miriam teve muitos problemas; na segunda, descobriu-se que os seus rins não tinham crescido desde que ela tinha 10 anos. Miriam tinha tido problemas nos rins na altura em que Eva esteve no hospital em Auschwitz. Quando os seus rins falharam, Eva ainda fez uma doação de um dos seus, mas Miriam acabou por morrer devido a uma forma rara de cancro no sangue.
Eva teve dois filhos, Alex e Rina Kor, depois de sofrer vários abortos espontâneos.
Eva veio a escrever um livro, fundou com o marido, Michael Kor (também um sobrevivente do Holocausto), o CANDLES Holocaust Museum (CANDLES é um acrónimo para "Children of Auschwitz Nazi Deadly Lab Experiments Survivors"), através do qual conseguiram encontrar muitos sobreviventes, e tem dado muitas entrevistas, algumas das quais deram origem a documentários. Conseguiu uma prova assinada pelo Dr. Much, um nazi, de que o Holocausto aconteceu.
Eva Mozes Kor diz que perdoou a Joseph Mengele, o que considera libertador e terapêutico, mesmo que outras vítimas não concordem.

(Mariana Encarnação)


(Eva Mozes Kor, em Auschwitz)


Um poema

Luta Jazida

Enterrei o machado
Jaz, agora, do outro lado
Junto dos que antes o seguravam
Esperaram, resistiram, lutaram.

Agora tenho medo.
De morrer? Não!
Há muito que não sei o que é viver
Nunca o irei reaprender.

Tenho medo de estalar um só dedo.
Assusta-me que se quebre todo o corpo
Como se quebrou outrora a alma.
Se ao menos estivesse morto
Saberia de novo calma.

Os fumos apagaram todas as razões.
Despiram-me de emoções
Cobriram de cinza o meu olhar
Nu, baço e só, desisti
Já não quero mais lutar
Pois todo o tempo sinto que menti.

Enterrei o machado
Com ele vou apodrecer
Faz parte de um passado armado
Mas nada mais posso fazer.

(Inês Justino)


Páginas de um diário

17 de novembro de 1943
Eu não consigo aguentar durante muito mais tempo, a fome aperta e a escassa comida que nos dão diariamente não chega para repor as energias que gastamos a trabalhar. Mais vale morrer.

3 de dezembro de 1943
Hoje a Beate morreu, houve uma "limpeza" na camarata dela. Era judia como eu. Foi a minha primeira amiga. E morreu.

31 de janeiro de 1944
Tenho saudades do meu pai. Gostava de saber do seu paradeiro. Será que ainda está entre nós? Será que não? Espero bem que não. Não quero que ele sofra sozinho.

17 de março de 1944
Desisti, vou deixar de tentar fazer amigos. Faço-o para tentar tornar esta tortura mais tolerável. Desisto. Eles vão-se todos embora e eu fico. Porquê?

25 de abril de 1944
Hoje sonhei! Ah, como eu já não sonhava há tanto tempo! Sonhei que estava reunida com a minha família a jantar. Tenho saudades desse tempo. Será que significa algo?

18 de julho de 1944
Limpeza. Hoje houve uma limpeza na nossa camarata. Os guardas juntavam-se à nossa volta, rodeando-nos, quem ficasse dentro do círculo ia-se embora. Eu fiquei, mas consegui fugir por entre os guardas para junto da minha mãe. Não posso deixar a minha mãe sozinha.

23 de outubro de 1944
Quando é que isto vai acabar?

26 de dezembro de 1944
Está tanto frio, mas nem por isso nos dão mais cobertores.

13 de janeiro de 1945
Será que as pessoas lá fora sabem o que está a acontecer? Elas têm de saber, não?

28 de fevereiro de 1945
Gostava de poder pensar que vem aí alguém para nos salvar, mas agora só peço por uma morte rápida.

25 de março de 1945
Tu consegues. Não a podes abandonar!

(...) abril de 1945
Estamos Livres! Eu e a minha mãe sobrevivemos, mas o meu pai não. O que é que nos vai acontecer agora?

(Gisela Felizardo)


A questão judaica e a solução final

No fim da Primeira Guerra Mundial, a nação alemã estava humilhada e mais ficou a seguir às medidas impostas pelo Tratado de Versalhes. Hitler, ao subir ao poder em 1933, deu à população alemã o bode expiatório de que esta precisava para culpar os judeus que integravam o exército alemão pela derrota na Guerra e pela crise que se lhe seguiu. Hitler dizia que os judeus eram parasitas e que "poluíam" a raça ariana. Se antes os judeus eram tratados de igual maneira, agora vão ser perseguidos, vão ser proibidos de se envolver com alemães, vivendo nos guetos e, numa fase posterior, levados para campos de concentração, para servirem de mão de obra e depois morrerem de muitas maneiras, mas principalmente nas câmaras de gás.

Banda sonora:
A música que escolhi para acompanhar a leitura deste texto foi "Sleep Forever", de Portugal. The Man


(Francisco Pedro)



Momentos da vida de um soldado contra o nazismo

25 de março de 1943
Parece que a guerra nunca mais acaba, a quantidade de pessoas inocentes que já morreram! Pergunto-me o que irá na cabeça de todos os soldados nazis ou daqueles que apoiam Hitler, apesar de ter visto o que esta guerra faz às pessoas que seguem Hitler com tudo o que têm, continuo chocado com o que se passa no mundo em que vivo. Lembro-me como se fosse ontem quando perseguimos um soldado nazi na esperança de lhe conseguir retirar informação que nos pudesse ser útil na luta contra o nazismo. Perseguimo-lo até ao topo de um edifício abandonado, durante a perseguição ele conseguiu agarrar numa criança e fez dela refém. Ele estava à borda do edifício, ainda com uma arma apontada à cabeça da criança quando disse:
"Salvação. O que fizemos, fazemos e fazeremos, é tudo em nome da salvação do mundo e da purificação da raça. A única maneira de nos vermos livres dos animais que se consideram nossos iguais. Acham que nos irão conseguir parar? Isto é só o inicio, o melhor ainda está para vir e não há nada que vocês possam fazer para nos deter. Nós limparemos a Terra, o Führer e senhor todo poderoso irão sentir orgulho, pois nós estamos a salvar os puros de animais que nos roubaram oportunidades de emprego, mulheres, dinheiro e muito mais. A vida deles não vale nada, eles só ocupam espaço, um desperdício de ar. Queriam retirar-me informação? Eu dou-vos a informação de que precisam, mas não será aquela que vocês querem. Eu não vos vou dar informação sobre o nosso armamento, se era isso que queriam, nem torturado vos ia dizer alguma coisa. O que vos vou dizer é que não me arrependo do que fiz, nem um pouco. Tudo o que fizemos a esses animais aos quais chamam humanos e judeus foi merecido, eles são pecadores e nós demos-lhes a punição merecida, se querem saber, na minha opinião, eu tinha-os feito sofrer mais se soubesse que ia acabar assim. Todas as judaicas com quem tive relações sexuais, todos os judeus que matei, de todas as idades, grávidas e idosos incluídos, mereceram o que lhes fiz. Não sinto nem uma pinga de remorso, apenas sinto prazer, tal como senti quando os matei, senti um prazer imenso, melhor até que o prazer dado por um orgasmo. Acharam mesmo que vos ia contar o que planeamos fazer? Acham que não sabemos o que estamos a fazer? Fomos treinados para todo o tipo de acontecimentos, o que havíamos de dizer caso fossemos capturados, como punir os prisioneiros, o que fazer caso o local onde estávamos destacados fosse atacado. Nós estamos sempre três passos à frente. Não era o que estavam à espera, pois não? O melhor ainda está para vir."
E, com estas últimas palavras, deu um tiro na sua própria cabeça, deixando o seu corpo cair do edifício, felizmente sem levar a criança com ele.
Este dia assombra-me, o olhar dele tinha um brilho quando falava do que tinha feito, fez-me lembrar o brilho que o meu melhor amigo tinha nos olhos quando falava da sua esposa, o olhar daquele soldado assombra-me nos sonhos. Foi nesse dia que percebi que ainda temos muito que lutar se queremos parar o movimento nazi e Adolf Hitler.

Banda sonora:
A música que escolhi para acompanhar a leitura deste texto foi Rienzi Ouverture, de Richard Wagner.

https://www.youtube.com/watch?time_continue=25&v=URIwWtwn6qA

(Natacha Veríssimo)