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domingo, 10 de dezembro de 2017

Dia Internacional dos Direitos Humanos


A propósito das comemorações do Dia Internacional das Vítimas do Crime de Genocídio (9 de dezembro) e do Dia Internacional dos Direitos Humanos (10 de dezembro), aqui deixamos a sugestão do filme-documentário Nuit et Brouillard (Noite e Nevoeiro), do realizador francês Alain Resnais.

Em 1955, para assinalar os 10 anos da libertação dos campos de concentração e de extermínio, o Comité Francês de História para a Segunda Guerra Mundial encomenda a Alain Resnais a realização de um documentário sobre o sistema concentracionário alemão.
Desta encomenda nasce o filme Nuit et Brouillard (Noite e Nevoeiro, em português), título que alude ao decreto publicado na Alemanha nazi em 7 de dezembro de 1941, da autoria de Heinrich Himmler e assinado por Hitler, que obriga à deportação para a Alemanha de todas as pessoas acusadas de crimes contra o III Reich em territórios ocupados e que “representassem perigo para a segurança do exército alemão”, como suspeitos de ações de sabotagem ou de serem membros da resistência, opositores ou refratários à política nazi. Este decreto dá origem à operação Nacht und Nebel (NN), Noite e Nevoeiro.


Alain Resnais utiliza imagens de arquivo, a maior parte filmada pelos próprios nazis, acrescentando as que os soviéticos realizaram aquando da libertação dos campos de concentração e de extermínio, em 1945, e as que ele próprio regista dez anos depois. A acompanhar as imagens da guerra e do pós-guerra, ouvimos, pela voz do ator Michel Bouquet, o texto/poema de Jean Cayrol, um dos sobreviventes do drama e autor do argumento.



A deportação


O campo de concentração (imagem recolhida em 1955)

Numa atividade inserida no Plano Nacional de Cinema, após a visualização deste documentário numa aula de História A, os alunos do 12º E, curso científico-humanístico de línguas e humanidades, foram desafiados a produzir um pequeno texto sobre a temática em questão, escolhendo, quando assim o entendessem, uma banda sonora para acompanhar o texto.

Publicamos alguns dos textos elaborados:



Estrela Amarela




Wolgang e Frank são grandes amigos. Os dois rapazes têm várias coisas em comum: além de terem ambos 12 anos, frequentam a mesma escola e têm gostos semelhantes. No entanto, há uma diferença, para eles pequena, para outros gigante, que os irá colocar em lados completamente opostos.
Certo dia, Frank aparece na escola com algo diferente na sua roupa. Cosida no seu casaco está uma estrela amarela. Quando este se aproxima dos colegas, todos se afastam. Todos exceto Wolfgang. Ao contrário de todos os outros rapazes, Wolfgang não conhecia o significado daquela estrela e, por isso, não via razão para se afastar do amigo.
Achando que o seu companheiro deveria saber a verdade, Frank conta a Wolfgang a razão pela qual tem de usar a estrela. Apesar de todas as explicações, Wolfgang recusa afastar-se de Frank. Para ele, nenhuma estrela amarela cosida num casaco o pode impedir de brincar com o amigo.
Frank passou a usar aquela estrela todos os dias e, por isso, a sua única companhia era Wolfgang, que continuava a achar que nada o poderia separar separar do colega. Estava enganado.
Num dia tão normal como todos os outros, os dois meninos estavam a brincar perto da casa de Frank. A certa altura, alguns militares entram na casa do rapaz e, pouco depois, voltam a sair trazendo toda a sua família. Já na rua, os militares veem a estrela no casaco de Frank e este é obrigado a juntar-se à família.
A última coisa que Wolfgang viu do amigo foi a estrela amarela. Aquela que, para ele, não tinha qualquer significado, mas que para os outros foi suficiente para levarem Frank para longe.

Banda sonora:
A música que escolhi para acompanhar o meu texto foi “I won’t complain” de Benjamin Clementine porque penso que a letra pode retratar aquilo que foi a vida dos que sofreram com o Holocausto. Após serem levadas para guetos ou campos de concentração, as pessoas sabiam que os tempos que se aproximavam não seriam, de todo, melhores que os anteriores, por isso, restava-lhes manter a esperança de que tudo iria melhorar, não no imediato, mas mais tarde.


(Mariana Lourenço)


Poema

Uma memória triste
De quem já perdi…
Lembranças no sonho, e no olhar
Lembranças de como seria
Se não tivesses partido.
Só queria que tudo tivesse sido um sonho
Ficaste longe, desde aquele dia…
Ficaste tão longe, como o fim do mar
Quem me dera recordar
Todos os poucos momentos que vivemos
Todos os beijos, abraços e brincadeiras
Só queria mais uma oportunidade, para te voltar a dizer
AMO-TE…
(Sobrevivente que perdeu o pai no campo de concentração de Auschwitz)

(Beatriz Aguiar)




(Auschwitz, 2016)


Poema

Foi por volta de 1933
que o horror começou.
Esse maldito ano!
Essa maldita década!
Esses malditos homens!
Foram mais de 10 milhões
as pessoas torturadas.
Uma gigantesca quantidade de canhões
dispararam sobre terras devastadas.
Auschwitz, esse lugar amaldiçoado,
tanto sangue sobre esse sítio foi derramado.
Nem das mulheres e das crianças tiveram piedade,
os meninos dos pijamas às riscas em fornos queimados.
Os doentes eram aniquilados,
era assim que Hitler mandava matar os coitados.
Vivia-se o inferno na terra
e onde estava Deus nesse momento de guerra?

(Diana Freitas)

Uma vítima do Holocausto

Comecei por viver no gueto, bairro Judeu que servia para nos separar dos Arianos, a raça pura, não poderíamos ficar misturados pois isso seria uma vergonha para os arianos, estarem perto de com uma raça tão suja como a nossa.
Vivi cerca de sete meses no gueto, a vida lá era complicada, cada um por si a lutar pela sobrevivência pois cada dia era uma vitória para quem sobrevivia ali. As fontes de alimento cada vez ficavam mais fracas e todos os dias eram levados vários judeus para campos de trabalho, segundo o que corria dentro do gueto. Até ao dia em que chegou a minha vez, tinha vinte e nove anos, acabados de fazer no ano de 1935, eu e a minha irmã mais nova, Suzy, as únicas que restavam da nossa família, fomos levadas para ir para um campo de trabalho. Na altura ela tinha dezassete anos, estava quase a atingir a idade que consideramos “a idade adulta”, mas aos meus olhos ela ainda era uma criança, com uma alma jovem e inocente que de pouco se apercebia do que acontecia à nossa volta, pois sempre fiz questão de a colocar à minha frente e mantê-la afastada de tudo o que pudesse ser considerado “mau”, afinal ela era minha irmã mais nova e eu era como se fosse a mãe dela.
No dia em que me foram buscar. Lembro-me que era já de noite e estava a remendar um vestido que pertencia à Suzy, e que se tinha descosido com o desgaste do uso, não tínhamos grande acesso a roupa e fazíamos os possíveis para andar bem vestidas. Estava sentada numa cadeira de baloiço na sala de estar, quando ouvi um barulho, pareceu-me ser um carro de grande porte e barulhos de soldados e nesse momento só gritei para a Suzy se esconder e apagar as luzes. Tinham já passado cerca de três minutos quando ouvi um estrondo, a porta do pequeno apartamento tinha sido arrombada, instantes se passaram até as luzes se acenderem e pegarem em mim e na minha irmã que estava algures escondida no quarto.
Foi uma longa viagem até chegarmos ao campo de trabalho, íamos num comboio atulhado de judeus como nós e alguns deles não foram capazes de terminar a viagem devido à falta de espaço dentro do comboio que levaria diretamente alguns deles à morte. A primeira coisa que senti quando cheguei foi um forte cheiro a carne assada, pensei que havia alimento à vontade para todos, mas eu nunca tinha estado tão enganada na minha vida.
Quando fomos despejados do comboio fomos diretamente encaminhados para uma sala onde nos era marcado na pele um número, dado um uniforme com riscas verticais azuis e brancas em conjunto com um chapéu e raparam todo o nosso cabelo. Nesse momento esforcei-me o mais que consegui para não verter lágrimas e vi o mesmo no olhar da minha irmã, que ainda se encontrava comigo. Juntamente com as roupas que tínhamos vestidas levaram também os nossos pertences, com o aviso de que seriam bem guardados para que, quando saíssemos de lá, os pudéssemos ter de volta.
Fomos enviadas para os dormitórios femininos, onde se encontravam beliches para mais de uma centena de mulheres. Na madrugada em que chegámos, só me lembro de ter adormecido num canto de um dos beliches enquanto abraçava a minha irmã para enganar o frio que corria pelo nosso corpo. Passaram cerca de 45 minutos até se ouvir o som de um género de campainha, todas nos levantámos e fomos distribuídas por espaços no trabalho no campo. Trabalhei três meses no duro sem praticamente algum tipo de alimento, todos os dias a mesma rotina desde o dia em que tinha chegado, enquanto via a minha irmã morrer sem ser mais capaz de a proteger, por essa altura já tinha entendido bem de mais o que nos estavam a fazer dentro daquele campo, e ao final de umas três semanas descobri o que era o tal cheiro a carne assada, nada mais que o cheiro dos corpos queimados de todos aqueles que eram enviados para as câmaras de gás e morriam, mas o mais importante era fazer de conta que não tinha entendido nada e apenas continuar a trabalhar, porque bastava abrir a boca para passar a carne assada em menos de cinco minutos.
Alguns deles nem tinham a oportunidade de saber o que era o cheiro a carne assada, e eram diretamente levados para as câmaras de gás, começando com gritos de socorro e terminando nove minutos depois com puro silêncio e depois apenas o cheiro incessante a carne assada.
Era impossível fazer amigos dentro dos campos, pois cada vez que fazia amigos dias depois nunca mais ouvia falar deles e isso era emocionalmente impossível de aguentar, então a melhor opção eram dar-me bem com todos, mas nunca criar ligações com ninguém porque perder a minha irmã e os meus amigos já tinha sido o suficiente para mim.
Mudei de posto de trabalho algumas vezes, através de alguns contactos dentro do campo, trabalhar nas latrinas era o melhor sítio porque, apesar do cheiro imundo, não tínhamos os nazis atrás de nós a bater e mandar trabalhar mais rapidamente. Trabalhei também no “Canada” nome dado ao armazém onde iam parar todos os nossos pertences, casacos cheios de dinheiro nos forros, pinceis de barbear que pertenciam aos homens, relógios de bolso, todo o tipo de pertences, e foi a partir do “Canada” que consegui ser evacuada com a ajuda de alguns conhecidos dentro do campo.
Mas a verdade é que tudo o que passei lá dentro foi pior que um filme de terror e o trauma que isso deixou em mim nunca me vai largar e nunca mais vou conseguir ter a mesma ligação e confiança que tinha com os seres humanos.
(Bárbara Ferreira Costa)


Memórias de um sobrevivente do Holocausto

Cheguei de madrugada a Auschwitz. Fazia muito frio, graus negativos, não percebi bem o porquê de estar ali. Os nazis tinham-me ido buscar a casa e levaram-me para aquele sítio que parecia assustador. Passaram-se dias, meses e as mesmas coisas todos os dias aconteciam ali de igual forma, percebi que maioritariamente éramos todos judeus, havia também ciganos e homossexuais, todos os dias os soldados batiam-nos porque não fazíamos rapidamente o nosso trabalho, éramos colocados em grupos e todos estavam doentes, com penumonia, outros morreram até. E eu estava fraco a cada dia que passava, não havia comida suficiente, não havia remédios, não havia condições de vida naquele lugar, éramos brutalmente agredidos, vivíamos com medo.
Vi muitos mortos, lembro-me de ver montes de pessoas mortas, todas empilhadas umas em cima das outras. Para além desta visão assustadora, todos os dias havia algo que me despertava a atenção: a fumaça que saía dos chuveiros para onde mandavam os prisioneiros ir em grandes grupos.
Hoje sei o que aquilo era, câmaras de gás onde se pretendia a destruição em massa dos judeus, ou seja, a “solução final”. Passou a ser uma questão de sobreviver naquele lugar e foi então que o grande milagre aconteceu. Numa manhã, de repente, aparecem no ar aviões e os soldados nazis tiveram de fugir. Os aviões foram o símbolo da nossa liberdade, o terror teria acabado ali...
Um sobrevivente (anónimo)

Banda sonora:
A música que escolhi para acompanhar a leitura deste texto foi “A day of sun”, de Alexander Search

https://youtu.be/CiUX-zd90ks

(Bárbara Santos)


Um poema

O fim desejado

Nesta fila interminável
sente-se os sonhos a desaparecer.
A nossa individualidade incopiável
é destruída num novo terrível amanhecer.

Acordar.
Trabalhar.
Tentar adormecer.

Um ciclo interminável
sem condições, sem comida.
A única "recompensa" poderá ser
O fim da nossa vida.

Uma recompensa desejada por muitos
neste espaço sem esperança, desconhecido por todos
os que se distraem com batalhas.

No que parece um momento de descanso,
encontra-se a nossa salvação disfarçada.
Um simples "duche" dá-nos a paz
já há muito desejada.

(Ana Sofia Ferreira)




A carta que nunca será lida

Olá, sou o Stefan. Pelo menos era esse o meu nome, agora já só me chamam “tu aí” ou “judeu nojento”, nem nome tenho, sou denominado “NN”, embora não saiba o que significa, e não gosto de ser tratado assim.
Estou em Belzec, na Polónia, há cerca de duas semanas. Vim com o meu pai para cá.
Todos os dias acordo quando o sol nasce, como o que os guardas me dão, que tanto pode ser um pouco de pão duro como uma mão cheia de nada. Vou trabalhar ainda esgotado do dia anterior. No trabalho não faço pausas nem para respirar e quem o tentar fazer é espancado pelos guardas sem dó nem piedade. O pior de tudo isto, o mais horrível, é ver pessoas, amigos, familiares, a serem mortos a sangue frio, mesmo ao meu lado.
Vivo todos os dias com medo que um dia seja eu, agora já nem tenho o abraço do meu pai para me confortar, desde que há dois dias foi levado por um guarda para tomar banho nunca mais o vi.
Sempre que me deito pergunto-me por que é que fomos nós os escolhidos para todo este sofrimento, que mal é que nós fizemos no passado para merecer semelhante castigo e, antes de adormecer, penso ainda no que será pior: acordar na manhá seguinte ou morrer.
Quando acordo, penso que tudo isto não passou de um pesadelo, mas não é, continuo fechado neste local de tortura e sacrifício do meu povo.
Não posso escrever mais, o papel está a acabar. Talvez mais tarde consiga encontrar outro pedaço de papel caído do bolso de um soldado e continue a contar como são passados os dias neste inferno.
(Ricardo Costa)



Campo de concentração

Passa-se pelo campo de concentração
Como se faz uma viagem.
Entra-se num comboio com tudo na mão
Mas sai-se com o horror como paisagem.
Somos as máquinas deles.
Todos os dias nos ligam.
Até à noite temos que trabalhar.
No nosso corpo, só ossos e peles
Só nos dão pão duro e sopa para manjar.
Aqui não tomamos banho
Isso significaria a morte.
E até medo disso eu tenho.
Até à noite cuidado há que ter.
Eles não gostam de nós.
No meio do nevoeiro, uma flor,
Poderia ficar
Como fica a cor
Numa pequena tela.
Mas vou me deitar,
E apagar a vela.
Eles vêm aí!
(Sara Félix)



Uma carta
18 novembro 1942
Auschwitz-Birkenau
Querido alguém,
Esta é a história de um judeu, enviado para um campo de concentração por não ser “puro”, ariano, e sujeito a todos os tipos de tortura, física e psicologicamente, com praticamente nada para comer, camas duras, obrigado a trabalhar desde o amanhecer até ao anoitecer.
Em 1935, alemães de origem judaica foram privados da nacionalidade, do casamento, relações sexuais e outros tipos de relacionamento entre arianos e judeus. Sendo judeu, privaram-me de viver livremente, pois sempre fui julgado por ser quem sou. Mas, com todas estas leis, o amor falou mais alto e apaixonei-me por Beate, uma mulher ariana, pior ainda foi ela também se apaixonar por mim. Apesar de ninguém se ter apercebido deste relacionamento, como já percebeste, não me livrei da “morte”, do campo de concentração. Sim, Morte. Ao entrar no campo de concentração percebi que não iria sair daqui vivo ou morto. Fui reconhecido como judeu devido à minha aparência, acabando por ser trazido para aqui.
No meio de toda esta desgraça, o que mais me custa ver são as crianças, famintas, impedidas de serem crianças, já não podem brincar, aprender, e isto é algo que ninguém merece, principalmente crianças indefesas, agora também utilizadas para trabalhar e em experiências médicas.
Enquanto escrevo esta carta, aqui, já não tenho forças para trabalhar, e não sei como ainda tenho forças para escrever. Espero que ninguém tenha de passar por o que estas pessoas, inocentes, e eu estamos a passar.
Se, por algum motivo, estás a ler esta carta, foi porque não sobrevivi e espero que, quem nos fez isto, pague pelos crimes que cometeu contra a humanidade.

(Miguel Luís)


Linha do destino

Nesta linha caminho
Sem conhecer o meu vizinho
À minha frente vai um miudinho
Com medo do destino, anda devagarinho.
Nesta linha caminho
Pensando no glorioso passado,
Que ainda é tão presente
E o futuro que ficou limitado,
Mas com que sonho frequentemente.
Se é possível sonhar neste lugar?
É a única coisa que não podem roubar,
E dá-nos o poder de imaginar,
Uma vida fora deste lugar peculiar
Onde a liberdade possamos recuperar.
Caminhamos sem identidade,
Sem diferenciação de idade,
Tendo de encarar a dura realidade
De que a morte é pura fatalidade.
O destino que se aproxima
É algo que a todos intimida,
Um destino que a dor subestima
Só desejamos que seja mínima.
Aquele que caminha à minha frente
Talvez seja bom homem, inteligente,
Seria homem de família, afortunado
Que agora pela religião é discriminado.
Nesta linha caminho
Em trajes riscados de azul-marinho,
Caminho sozinho,
Sem conhecer o meu vizinho.
Nesta linha caminho
Sentido o cheiro a morte,
Sigo para norte,
Rumo a um destino de pouca sorte.
(Rafaela Boita)


Um poema

Ambíguo de verdade

Ambíguo de verdade
que asqueroso és,
vede o que fez à Humanidade
(conheço-o com a palma dos meus pés):
assim que viu oportunidade,
como a hiena que persegue a rês,
pela vontade de matar,
ataca de surpresa e o Mundo
              desfez.

Ambíguo de verdade
que gatuno rezingão,
vede o que fez à Humanidade
(atitude sem perdão):
assim que viu oportunidade,
como coelhos que comem a sua espécie sem razão,
pela vontade de matar,
ataca de surpresa e o Mundo
              desfez.

Ambíguo de verdade
que caótico aleivoso,
vede o que fez à Humanidade
(que preconceituoso és):
assim que viu oportunidade,
como a abelha que pica sabendo que vai para o fosso,
pela vontade de matar,
ataca de surpresa e o Mundo
              desfez.

Banda sonora:
A música que escolhi para acompanhar a leitura deste texto foi "Baba Yetu", composta por Christopher Tin, sendo a letra uma tradução em swahili da oração "Pai Nosso".
Escolhi esta música porque, considerando que a prática da ideologia nazi devastou o Mundo, sobretudo no plano humanitário, onde o terror e o desrespeito pelos direitos humanos foram uma constante, e perdoar as pessoas que estiveram por detrás de todo esse massacre me parece impossível, vejo esta música, uma tradução em swahili do "Pai Nosso", como uma prece a uma força superior, divina, para que perdoe aquelas pessoas (se tal for possível), pois só mesmo uma divindade o poderá fazer, uma vez que nós, enquanto sociedade, não o conseguimos.


(Beatriz Lopes)


Testemunho

Já sem cabelo e sem barba, o que me resta é trabalhar, porque o trabalho liberta, como está escrito no cimo do "portão da morte", ao qual cheguei num comboio com carruagens muito desproporcionais à quantidade de pessoas que levavam, e onde muitas acabaram por morrer. Irónico, não é? Mesmo que trabalhemos muito, o nosso fim é sempre o mesmo, e não é a liberdade, e não o podemos contestar, a nossa vida está nas mãos dos nazis e eles podem acabar com ela quando bem entenderem.
Olho à minha volta e o que vejo são "cadáveres vivos" sedentos de um simples pedaço de pão, arrastando-se pela lama e submetidos a trabalhos forçados, muitos vão resistindo ao fim inevitável.
A vida é como a chama de uma vela, frágil e efémera.
Aqui, as pessoas deixam de ser pessoas e passam a ser apenas números que se vão apagando à medida que vão desistindo daquilo a que nem se pode chamar vida. E o mais triste é ver crianças de tenra idade a conhecerem a faceta negra e cruel do ser humano, simples inocentes a quem é tirada uma vida cheia de sonhos por concretizar, e todas elas separadas da família que provavelmente nunca mais voltarão a abraçar.
Aqui os gritos de dor vindos das câmaras de gás são difíceis de esquecer e ecoam no ouvido como recordações do maior genocídio alguma vez cometido.
Dor é o sentimento que define este campo, com o chão coberto de cadáveres, tudo aqui chora por dentro e faz um luto doloroso por todas as pessoas aqui assassinadas.
No fim disto, somos apenas "animais", homens sem dignidade.

Banda sonora:
A música que escolhi para acompanhar a leitura deste texto foi "Theme from Schindler's List", de John Williams, interpretado por Itzhak Perlman e pela Orquestra Sinfónica de Boston, e que faz parte da banda sonora do filme "The Schindler's List" (1993).
Escolhi esta música porque mesmo sendo instrumental, sem ninguém a cantar, o sentimento das pessoas que estiveram no campo de concentração é-nos transmitido através da harmonia entre todos os instrumentos e faz com que ninguém fique indiferente à dor das vítimas do Holocausto.


(Sofia Gonçalves)


Cobaias humanas

Durante a visualização do filme "A Noite e o Nevoeiro", vimos alguns dos horrores feitos às pessoas trazidas para os campos de concentração, incluindo as experiências realizadas com seres humanos. Decidi investigar sobre isto e encontrei a história das gémeas Eva e Miriam Mozes, que sobreviveram a Joseph Mengele, o "Anjo da Morte".

Eva e Miriam Mozes nasceram a 31 de janeiro de 1934, na Roménia. Quando tinham 10 anos, juntamente com os seus pais e as duas irmãs mais velhas foram levadas para Auschwitz. Assim que lá chegaram, foram separadas da família e não tiveram tempo de dizer adeus a ninguém.
Sendo gémeas, foram objeto de experiências, foram medidas e comparadas, tiraram-lhes sangue e deram-lhes injeções de líquidos que não se sabe o que eram até aos dias de hoje. Uma destas injeções fez com que Eva ganhasse uma febre altíssima e foi enviada para o hospital do campo para morrer. Os seus braços e pernas incharam e doíam-lhe demasiado para conseguir andar. Ela recorda-se de rastejar para chegar ao lavatório que havia no fim do corredor para beber água. Os nazis acharam que ela ia morrer, mas em duas semanas Eva recuperou e foi juntar-se à sua gémea.
Qunado, em janeiro de 1945, os soviéticos libertaram o campo, elas eram as únicas sobreviventes da família e foram viver com uma tia. Nunca mais falaram de Auschwitz até que Miriam teve filhos.
Na sua primeira gravidez, Miriam teve muitos problemas; na segunda, descobriu-se que os seus rins não tinham crescido desde que ela tinha 10 anos. Miriam tinha tido problemas nos rins na altura em que Eva esteve no hospital em Auschwitz. Quando os seus rins falharam, Eva ainda fez uma doação de um dos seus, mas Miriam acabou por morrer devido a uma forma rara de cancro no sangue.
Eva teve dois filhos, Alex e Rina Kor, depois de sofrer vários abortos espontâneos.
Eva veio a escrever um livro, fundou com o marido, Michael Kor (também um sobrevivente do Holocausto), o CANDLES Holocaust Museum (CANDLES é um acrónimo para "Children of Auschwitz Nazi Deadly Lab Experiments Survivors"), através do qual conseguiram encontrar muitos sobreviventes, e tem dado muitas entrevistas, algumas das quais deram origem a documentários. Conseguiu uma prova assinada pelo Dr. Much, um nazi, de que o Holocausto aconteceu.
Eva Mozes Kor diz que perdoou a Joseph Mengele, o que considera libertador e terapêutico, mesmo que outras vítimas não concordem.

(Mariana Encarnação)


(Eva Mozes Kor, em Auschwitz)


Um poema

Luta Jazida

Enterrei o machado
Jaz, agora, do outro lado
Junto dos que antes o seguravam
Esperaram, resistiram, lutaram.

Agora tenho medo.
De morrer? Não!
Há muito que não sei o que é viver
Nunca o irei reaprender.

Tenho medo de estalar um só dedo.
Assusta-me que se quebre todo o corpo
Como se quebrou outrora a alma.
Se ao menos estivesse morto
Saberia de novo calma.

Os fumos apagaram todas as razões.
Despiram-me de emoções
Cobriram de cinza o meu olhar
Nu, baço e só, desisti
Já não quero mais lutar
Pois todo o tempo sinto que menti.

Enterrei o machado
Com ele vou apodrecer
Faz parte de um passado armado
Mas nada mais posso fazer.

(Inês Justino)


Páginas de um diário

17 de novembro de 1943
Eu não consigo aguentar durante muito mais tempo, a fome aperta e a escassa comida que nos dão diariamente não chega para repor as energias que gastamos a trabalhar. Mais vale morrer.

3 de dezembro de 1943
Hoje a Beate morreu, houve uma "limpeza" na camarata dela. Era judia como eu. Foi a minha primeira amiga. E morreu.

31 de janeiro de 1944
Tenho saudades do meu pai. Gostava de saber do seu paradeiro. Será que ainda está entre nós? Será que não? Espero bem que não. Não quero que ele sofra sozinho.

17 de março de 1944
Desisti, vou deixar de tentar fazer amigos. Faço-o para tentar tornar esta tortura mais tolerável. Desisto. Eles vão-se todos embora e eu fico. Porquê?

25 de abril de 1944
Hoje sonhei! Ah, como eu já não sonhava há tanto tempo! Sonhei que estava reunida com a minha família a jantar. Tenho saudades desse tempo. Será que significa algo?

18 de julho de 1944
Limpeza. Hoje houve uma limpeza na nossa camarata. Os guardas juntavam-se à nossa volta, rodeando-nos, quem ficasse dentro do círculo ia-se embora. Eu fiquei, mas consegui fugir por entre os guardas para junto da minha mãe. Não posso deixar a minha mãe sozinha.

23 de outubro de 1944
Quando é que isto vai acabar?

26 de dezembro de 1944
Está tanto frio, mas nem por isso nos dão mais cobertores.

13 de janeiro de 1945
Será que as pessoas lá fora sabem o que está a acontecer? Elas têm de saber, não?

28 de fevereiro de 1945
Gostava de poder pensar que vem aí alguém para nos salvar, mas agora só peço por uma morte rápida.

25 de março de 1945
Tu consegues. Não a podes abandonar!

(...) abril de 1945
Estamos Livres! Eu e a minha mãe sobrevivemos, mas o meu pai não. O que é que nos vai acontecer agora?

(Gisela Felizardo)


A questão judaica e a solução final

No fim da Primeira Guerra Mundial, a nação alemã estava humilhada e mais ficou a seguir às medidas impostas pelo Tratado de Versalhes. Hitler, ao subir ao poder em 1933, deu à população alemã o bode expiatório de que esta precisava para culpar os judeus que integravam o exército alemão pela derrota na Guerra e pela crise que se lhe seguiu. Hitler dizia que os judeus eram parasitas e que "poluíam" a raça ariana. Se antes os judeus eram tratados de igual maneira, agora vão ser perseguidos, vão ser proibidos de se envolver com alemães, vivendo nos guetos e, numa fase posterior, levados para campos de concentração, para servirem de mão de obra e depois morrerem de muitas maneiras, mas principalmente nas câmaras de gás.

Banda sonora:
A música que escolhi para acompanhar a leitura deste texto foi "Sleep Forever", de Portugal. The Man


(Francisco Pedro)



Momentos da vida de um soldado contra o nazismo

25 de março de 1943
Parece que a guerra nunca mais acaba, a quantidade de pessoas inocentes que já morreram! Pergunto-me o que irá na cabeça de todos os soldados nazis ou daqueles que apoiam Hitler, apesar de ter visto o que esta guerra faz às pessoas que seguem Hitler com tudo o que têm, continuo chocado com o que se passa no mundo em que vivo. Lembro-me como se fosse ontem quando perseguimos um soldado nazi na esperança de lhe conseguir retirar informação que nos pudesse ser útil na luta contra o nazismo. Perseguimo-lo até ao topo de um edifício abandonado, durante a perseguição ele conseguiu agarrar numa criança e fez dela refém. Ele estava à borda do edifício, ainda com uma arma apontada à cabeça da criança quando disse:
"Salvação. O que fizemos, fazemos e fazeremos, é tudo em nome da salvação do mundo e da purificação da raça. A única maneira de nos vermos livres dos animais que se consideram nossos iguais. Acham que nos irão conseguir parar? Isto é só o inicio, o melhor ainda está para vir e não há nada que vocês possam fazer para nos deter. Nós limparemos a Terra, o Führer e senhor todo poderoso irão sentir orgulho, pois nós estamos a salvar os puros de animais que nos roubaram oportunidades de emprego, mulheres, dinheiro e muito mais. A vida deles não vale nada, eles só ocupam espaço, um desperdício de ar. Queriam retirar-me informação? Eu dou-vos a informação de que precisam, mas não será aquela que vocês querem. Eu não vos vou dar informação sobre o nosso armamento, se era isso que queriam, nem torturado vos ia dizer alguma coisa. O que vos vou dizer é que não me arrependo do que fiz, nem um pouco. Tudo o que fizemos a esses animais aos quais chamam humanos e judeus foi merecido, eles são pecadores e nós demos-lhes a punição merecida, se querem saber, na minha opinião, eu tinha-os feito sofrer mais se soubesse que ia acabar assim. Todas as judaicas com quem tive relações sexuais, todos os judeus que matei, de todas as idades, grávidas e idosos incluídos, mereceram o que lhes fiz. Não sinto nem uma pinga de remorso, apenas sinto prazer, tal como senti quando os matei, senti um prazer imenso, melhor até que o prazer dado por um orgasmo. Acharam mesmo que vos ia contar o que planeamos fazer? Acham que não sabemos o que estamos a fazer? Fomos treinados para todo o tipo de acontecimentos, o que havíamos de dizer caso fossemos capturados, como punir os prisioneiros, o que fazer caso o local onde estávamos destacados fosse atacado. Nós estamos sempre três passos à frente. Não era o que estavam à espera, pois não? O melhor ainda está para vir."
E, com estas últimas palavras, deu um tiro na sua própria cabeça, deixando o seu corpo cair do edifício, felizmente sem levar a criança com ele.
Este dia assombra-me, o olhar dele tinha um brilho quando falava do que tinha feito, fez-me lembrar o brilho que o meu melhor amigo tinha nos olhos quando falava da sua esposa, o olhar daquele soldado assombra-me nos sonhos. Foi nesse dia que percebi que ainda temos muito que lutar se queremos parar o movimento nazi e Adolf Hitler.

Banda sonora:
A música que escolhi para acompanhar a leitura deste texto foi Rienzi Ouverture, de Richard Wagner.

https://www.youtube.com/watch?time_continue=25&v=URIwWtwn6qA

(Natacha Veríssimo)


sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Autor do mês - José Eduardo Agualusa



"Escrever me diverte, e escrevo também porque quero saber como termina o poema, o conto ou o romance. E ainda porque a escrita transforma o mundo. Ninguém acredita nisto e no entanto é verdade."
O escritor angolano José Eduardo Agualusa nasceu na cidade de Nova Lisboa, hoje Huambo, Angola, a 13 de Dezembro de 1960.
Estudou Agronomia e Silvicultura no Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa, mas foi na escrita que quis fazer a sua vida. Além de jornalista (com colaboração em jornais como o Público ou o Diário de Notícias, na revista portuguesa LER, no jornal brasileiro O Globo e ainda na RDP África), é como romancista, contista, cronista e autor de literatura infantil e de peças de teatro que melhor o conhecemos.
Começa pela poesia, mas é sobretudo na prosa que se revela, publicando, em 1988, o seu primeiro romance, a Conjura, livro que lhe vale o Prémio Revelação Sonangol.


Com Nação Crioula, de 1997, foi distinguido com o Grande Prémio Literário RTP.


O livro de contos para viajar Fronteiras Perdidas, de 1999, obteve o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco da Associação Portuguesa de Escritores, enquanto Estranhões e Bizarrocos obteve o Grande Prémio Gulbenkian de Literatura para Crianças e Jovens, em 2002.


Em 2007 tornou-se o primeiro escritor africano a receber o prestigioso "Prémio Independente de Ficção Estrangeira", promovido pelo diário britânico The Independent em colaboração com o Conselho das Artes do Reino Unido, pelo livro O Vendedor de Passados.


Já em 2017, venceu um dos mais prestigiados prémios literários mundiais, o Prémio Literário Internacional IMPAC de Dublin, pela obra Teoria Geral do Esquecimento, naquela que foi a primeira distinção a um autor de língua portuguesa. Foi também com esta obra que foi finalista do Man Booker Internacional.


As suas obras percorrem várias realidades, quase sempre inseridas no mundo lusófono, mas estão mais centrados em personagens do que em lugares. Alguns dos seus romances deram a conhecer figuras reais, mas pouco conhecidas da História, como a poetisa Lídia do Carmo Ferreira (em Estação das Chuvas, de 1996) ou a rainha Ana de Sousa (em A Rainha Ginga, de 2014).



O seu último romance, A Sociedade dos Sonhadores Involuntários, publicado em 2017, é considerado uma fábula política, satírica e divertida, que desafia e questiona a natureza da realidade, ao mesmo tempo que defende a reabilitação do sonho enquanto instrumento da consciência e da transformação. O jornalista angolano Daniel Benchimol sonha com pessoas que não conhece. Moira Fernandes, artista plástica moçambicana, radicada em Cape Town, encena e fotografa os próprios sonhos. Hélio de Castro, neurocientista brasileiro, filma-os. Hossi Kaley, hoteleiro, antigo guerrilheiro, com um passado obscuro e violento, tem com os sonhos uma relação ainda mais estranha e misteriosa. Os sonhos juntam estas quatro personagens num país dominado por um regime totalitário à beira da completa desagregação. José Eduardo Agualusa inspirou-se na prisão de 17 jovens angolanos, a 20 de Junho de 2015, por se reunirem para discutir um livro de filosofia política. Por isso este livro é também uma homenagem a todos os jovens que lutam pelo cumprimento do processo democrático angolano e uma crítica à geração que, tendo lutado pela independência do país, depois se resignou, desistindo de concretizar o seu sonho de democracia e liberdade plena.



Obras
(*) Presentes no catálogo da Biblioteca do ECB

Romance:
(*) A Conjura (1988)
(*) Estação das Chuvas (1996)
(*) Nação Crioula: correspondência secreta de Fradique Mendes (1997)
(*) Um Estranho em Goa (2000)
(*) O Ano em que Zumbi Tomou o Rio (2001)
(*) O Vendedor de Passados (2004)
(*) As Mulheres do Meu Pai (2007)
Barroco Tropical (2009)
(*) Milagrário Pessoal (2010)
(*) Teoria geral do Esquecimento (2012)
(*) A educação sentimental dos pássaros (2012)
A vida no céu (2013)
(*) A Rainha Ginga (2014)
(*) A Sociedade dos Sonhadores Involuntários (2017)

Contos:
D. Nicolau Água-Rosada e outras estórias verdadeiras e inverosímeis (1990)
(*) Fronteiras Perdidas, contos para viajar (1999)
O Homem que Parecia um Domingo (2002)
(*) Catálogo de Sombras (2003)
Manual Prático de Levitação (2005)
(*) Passageiros em Trânsito (2006)
O Livro dos Camaleões (2015)

Literatura Infantil:
Estranhões e Bizarrocos (2000)
Nweti e o mar: exercícios para sonhar sereias (2011)

Outros géneros:
O coração dos Bosques (poesia, 1991)
(*) A feira dos assombrados (novela, 1992)
Lisboa Africana (reportagem, com o jornalista Fernando Semedo e a fotógrafa Elza Rocha, 1993)
(*) A Substância do Amor e Outras Crónicas (crónicas, 2000)
Geração W (teatro, 2004)
(*) A girafa que comia estrelas (novela, 2005)
O filho do vento (novela, 2006)
Chovem amores na Rua do Matador (peça de teatro escrita juntamente com Mia Couto, estreada em Portugal em 2007)
(*) Agora Luanda (fotografias de Inês Gonçalves e Kiluange Liberdade, com textos de Agualusa e Delfim Sardo, 2007)
Na rota das especiarias (guia, 2008)
Aquela Mulher (texto para monólogo teatral interpretado por Marília Gabriela e com direção de António Fagundes, 2009) 










terça-feira, 14 de novembro de 2017

Sugestão de leitura: "Prisioneiros da Geografia", de Tim Marshall




Prisioneiros da Geografia, de Tim Marshall (Editora Desassossego, chancela do grupo Saída de Emergência, 2017)


Tim Marshall
Em julho de 2017, foi publicada em Portugal a obra Prisioneiros da Geografia, do britânico Tim Marshall, jornalista e especialista em relações internacionais. O subtítulo, Dez mapas que lhe revelam tudo o que precisa de saber sobre política internacional, deixa entrever parte do que será exposto ao longo de 240 páginas.
“A terra em que vivemos sempre nos moldou. Moldou as guerras, o poder, a política e o desenvolvimento social dos povos que, hoje, habitam quase todo o planeta. A tecnologia pode parecer ultrapassar as distâncias, tanto no espaço mental como no físico, mas é fácil esquecer que a terra onde vivemos, trabalhamos e criamos os nossos filhos tem uma importância crucial e que as escolhas daqueles que lideram os sete milhões de habitantes deste planeta serão, em certa medida, sempre influenciadas pelos rios, montanhas, desertos, lagos e mares que nos rodeiam a todos – como sempre o foram.” (p. 11)
Nascido em 1959, na cidade inglesa de Leeds, ex-editor de diplomacia na Sky News e antigo colaborador da BBC, Tim Marshall esteve como correspondente em cerca de 30 países, fez a cobertura de três eleições presidenciais nos Estados Unidos e de 13 guerras, dos Balcãs ao Afeganistão, da primavera árabe no Norte de África ao conflito israelo-palestiniano ou à guerra na Síria.
Dessas experiências nasceram vários livros, entre os quais aquele que aqui se apresenta.
Em dez capítulos, dedicados a dez países ou regiões diferentes (Rússia, China, EUA, Europa Ocidental, África, Médio Oriente, Índia e Paquistão, Coreia e Japão, América Latina e o Ártico), Tim Marshall, através de mapas, ensaios e da sua longa experiência de viagens pelo globo, oferece-nos uma perspetiva do passado, presente e futuro, ajuda-nos a descobrir como a geografia é um fator tão determinante para a história do mundo e explica como a geopolítica internacional afeta todos os países, quer estejam em guerra ou em paz, e pode ser compreendida através de fatores geográficos, como a paisagem física que é moldada pelas montanhas ou pelas redes fluviais, o clima, a demografia, as regiões culturais ou o acesso a recursos naturais. E a geografia também pode ser uma prisão, que define o que um povo é ou poderá ser e da qual muitos líderes mundiais lutaram para se libertar.
É certo que a geografia não determina todos os acontecimentos. Foram as grandes ideias e alguns grandes líderes que fizeram parte dos avanços e recuos da história. No entanto, a natureza pode ser mais poderosa que os homens e todos eles tiveram de operar dentro dos limites impostos pela geografia. Quando queremos analisar ou comunicar uma situação ou decisão política, devemos olhar para a história, para o presente, para a cultura… para tudo. E nesse tudo estão incluídos os fatores geográficos. As novas realidades geográficas, como as alterações climáticas, por exemplo, trazem novas oportunidades e novos desafios, como as questões colocadas pelo aquecimento global, a desertificação ou as guerras pela água.
Na conclusão, Tim Marshall faz ainda referência à conquista do espaço, iniciada em 1961 com a viagem do cosmonauta soviético Yuri Gagarin a bordo do Volstok 1, continuada com a “guerra das estrelas” liderada pelos Estados Unidos e de que resulta, entre outras consequências, a existência de cerca de 1100 satélites operacionais no espaço e 2000 não operacionais, sendo EUA e Rússia responsáveis pela maioria, seguidos de países como a China ou o Japão. Satélites que servem, não só para transmitir as imagens que vemos na televisão ou fazer previsões meteorológicas, mas também para espiar outros países, para ver quem se move, onde e com quê, para preparar uma eventual guerra que ocorra no espaço (cada país avaliando, por exemplo, se tem condições para que o seu sistema de mísseis possa funcionar e neutralizar a versão dos concorrentes).
E é com um repto à Humanidade que termina este livro:
“Quando queremos chegar às estrelas, os desafios que nos esperam são tais que talvez tenhamos de nos juntar para os alcançarmos: talvez devamos viajar pelo universo, não como russos, americanos ou chineses, mas como representantes da Humanidade. Mas, até agora, embora nos tenhamos libertado das grilhetas da gravidade, estamos ainda aprisionados nas nossas mentes, confinados pela nossa desconfiança do «outro», e daí a nossa competição primitiva por recursos. Temos um longo caminho a percorrer.” (p. 240)
Pode acompanhar aqui a entrevista a Tim Marshall conduzida por Pedro Soares Botelho para a Sapo 24, em julho de 2017, aquando da sua vinda a Lisboa para promover o lançamento do seu livro:
Se Tim Marshall indica como referência e inspiração para este seu trabalho as conclusões do geógrafo norte-americano Jared Diamond no seu livro Guns, Germs and Steel, que revela tentativas de alterações de fronteiras em diversas regiões do mundo onde escasseiam recursos naturais, como rios navegáveis, como é o caso do Sudão ou da região do Sahel, a leitura de Prisioneiros da Geografia faz recordar o livro que, em 1976, o geógrafo e geopolítico francês Yves Lacoste publicou sob o título de A geografia serve, antes de mais nada, para fazer a guerra. Porque é verdade que, sem procurar fazer a continuação deste, Tim Marshall volta a colocar a questão sobre o papel social e político da geografia enquanto ciência e enquanto conhecimento do território.


 


Yves Lacoste

Quando a obra de Yves Lacoste foi publicada, em 1976, a geografia política da Europa e do Mundo era muito diferente daquela em que vivemos no século XXI.
Num tempo ainda marcado pela Guerra Fria e pelos efeitos, não só de duas guerras mundiais, mas do processo de descolonização que conduziu à independência de muitos países, Yves Lacoste pretendia responder à questão Para que serve a geografia e qual sua função social?, alertando para as consequências que ocorrem nas populações atingidas pela (re)organização dos seus espaços, convocando os geógrafos a assumir uma posição militante contra a instrumentalização da geografia pelos interesses estatais ou privados. Esta foi considerada uma das obras pioneiras da geografia crítica ou radical, tendo exercido grande influência na academia e no ensino.
Em 1970, Yves Lacoste lançara a revista Hérodote que, nos trinta anos seguintes, procurou revelar a “face oculta” da geografia, isto é, o seu caráter político. Esta revista suscitou acesos debates em torno do conceito de geografia política ou geopolítica e contaminou sociólogos, historiadores e geógrafos, surgindo pela primeira vez a questão: "A quem serve a geografia?".
“Dizer antecipadamente que a geografia serve, antes de mais, para fazer a guerra não implica que sirva apenas para executar operações militares; ela serve também para organizar os territórios, não só como previsão de batalhas que se deverão travar contra tal ou tal inimigo, mas também para melhor controlar os homens sobre os quais o aparelho de Estado exerce a sua autoridade”. (p. 8-9)
A par de uma abordagem epistemológica, o autor distingue ainda duas geografias: uma mais antiga, a geografia «dos estados-maiores» (o conjunto de representações e de conhecimentos sobre o espaço, um saber entendido como eminentemente estratégico pelas minorias dirigentes que o utilizam como instrumento de poder); e outra, surgida nos finais do século XIX, a geografia «dos professores» (desenvolvida como discurso científico e pedagógico de tipo enciclopédico, mas que se tornou um discurso ideológico de que uma das funções inconscientes é a de «mascarar» a importância estratégica das análises que fazem do espaço, dissimulando a eficácia do instrumento de poder que são as análises espaciais).

A Geografia é, assim, um “saber estratégico” nas mãos de alguns e, ao longo dos tempos e a par da História, foi sendo utilizada para justificar e fundamentar nacionalismos, regionalismos, separatismos ou expansionismos, mesmo enquanto disciplina integrante dos currículos do ensino básico ou secundário, como Yves Lacoste apresenta a partir do caso francês.

[T. A.]


sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Dia Mundial da Bolota


Em 10 de novembro de 2009, a Escola Secundária Quinta das Palmeiras, da Covilhã, criou o Dia Mundial da Bolota, com o objetivo de consciencializar a população sobre a destruição da floresta autóctone em Portugal, que é constituída principalmente por carvalhos. Desde então, são muitas as escolas que, por todo o país, desenvolvem atividades neste dia, semeando bolotas em vasos ou no campo ou fazendo caminhadas e recolha de bolotas, entre outras iniciativas.

Considerada nos nossos dias essencialmente como alimento para animais, desde a Antiguidade que as propriedades nutritivas deste fruto são reconhecidas: para os Gregos, a bolota era considerada o “alimento dos homens invencíveis”. Em Portugal, os Lusitanos obtinham farinha das bolotas para fazerem pão e, durante a Idade Média, utilizava-se o recheio de bolota triturada para curar doenças sexualmente transmissíveis.

Neste Dia Mundial da Bolota, além das atividades promovidas pelas escolas, associações ambientalistas como a Quercus alertam a população para as imensas qualidades nutricionais deste alimento, ainda desconhecidas por tantos. Além das propriedades alimentícias, alguns cientistas valorizam também o valor da sua utilização na composição de produtos de cosmética.
Não será por acaso que a Quercus - Associação Nacional de Conservação da Natureza, uma ONGA portuguesa fundada a 31 de outubro de 1985, em Braga, foi buscar o seu nome precisamente à designação comum em latim de um género de árvores da família das fagáceas a que pertencem os carvalhos, azinheiras e sobreiros, as árvores características dos ecossistemas florestais mais evoluídos que cobriam o país e de que restam, atualmente, apenas relíquias muito degradadas.


Num ano em que o nosso país se viu assolado pelos incêndios mais devastadores de sempre (quer em área ardida, quer em vítimas mortais), faz cada vez mais sentido consciencializarmo-nos da importância da valorização da nossa floresta autóctone, promovendo e apadrinhando iniciativas que visem a replantação de carvalhos, azinheiras e sobreiros.