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terça-feira, 1 de maio de 2018

Autor do mês de maio - Manuel Alegre


© Foto Luiz Carvalho


Escreverei para ti o poema mais triste
Senhora dos cabelos de alga onde se escondem as divindades
quando me tocas há um país que não existe
e um anjo poisa-me nos ombros Senhora das Tempestades.
In Senhora das Tempestades, 1998
O escritor e político português Manuel Alegre de Melo Duarte nasceu em Águeda, no dia 12 de maio de 1936.
A família de Manuel Alegre inscreve-se na tradição política liberal portuguesa: o seu trisavô paterno, Francisco Soares de Freitas, combateu ao lado de D. Pedro na guerra civil contra D. Miguel, foi fundador dos Caminhos de Ferro ao Sul do Tejo e primeiro visconde do Barreiro; o avô materno, Manuel Ribeiro Alegre, republicano e carbonário, foi deputado constituinte em 1911 e governador civil de Santarém.
Depois de percorrer vários estabelecimentos de ensino entre o ensino primário e o secundário (os primeiros estudos feitos em Águeda; o curso dos liceus em Lisboa, no Passos Manuel, no Cartaxo, no Colégio Almeida Garrett, em São João da Madeira, no Colégio Castilho, e finalmente no Porto, onde concluiu os estudos secundários no Liceu Central Alexandre Herculano), Manuel Alegre entrou em 1956 na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.
Durante o seu percurso académico, foi-se dividindo entre a intervenção política (fez parte dos grupos de oposição de estudantes ao salazarismo; em 1957, tornou-se militante do Partido Comunista Português; em 1958, foi membro da Comissão da Academia que apoiou a candidatura de Humberto Delgado à Presidência da República) e as atividades culturais (participou na fundação do Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra e foi ator do Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra, deslocando-se para atuar em Bruxelas, Cabo Verde e Bristol).
Dirigiu o jornal A Briosa, foi redator da revista Vértice e colaborador da Via Latina, periódicos onde começou a publicar os primeiros poemas, em 1960.
Em 1961, iniciou o serviço militar na Escola Prática de Infantaria, em Mafra, de onde saiu, pouco depois, para a ilha de São Miguel.
Em 1962, foi mobilizado para Angola, onde foi preso pela PIDE, em 1963, por dirigir uma tentativa pioneira de revolta militar. Regressado a Portugal, foi-lhe fixada residência em Coimbra, acabando depois por passar à clandestinidade e, em 1964, exilou-se em Paris, cidade onde foi eleito para um cargo na Direção da Frente Patriótica de Libertação Nacional, presidida por Humberto Delgado. Como representante desta organização, discursou nas Nações Unidas sobre a sua experiência em Angola e contactou com os líderes dos movimentos africanos de libertação, como Agostinho Neto, Eduardo Mondlane, Samora Machel, Amílcar Cabral ou Mário Pinto de Andrade.
Ainda em 1964, partiu para um exílio de 10 anos, em Argel. Através da emissora de rádio A Voz da Liberdade, difundia conteúdos de apoio aos movimentos de libertação das antigas províncias ultramarinas e contra o regime salazarista.

Entretanto, os seus dois primeiros livros, Praça da Canção (1965) e O Canto e as Armas (1967), são apreendidos pela censura, mas cópias manuscritas ou datilografadas circulam clandestinamente de mão em mão. Poemas seus, cantados, entre outros, por Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire e Luís Cília, tornaram-se emblemas da luta clandestina.


Um exemplo,
Trova do Vento que Passa
(Balada de Manuel Alegre, com música de António Portugal e cantada por Adriano Correia de Oliveira)

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.
Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.
Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.
Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.
Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio - é tudo o que tem
quem vive na servidão.
Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.
E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.
Vi meu poema na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.
Vi navios a partir
(Portugal à flor das águas)
vi minha trova florir
(verdes folhas verdes mágoas).
Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.
E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.
Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.
E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.
Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.
Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.
Manuel Alegre, in Praça da Canção (1965)

Em 1968, afasta-se do Partido Comunista Português para aderir à Ação Socialista Portuguesa, embrião do Partido Socialista, fundado em abril de 1973, na cidade alemã de Bad Münstereifel.
Após a revolução de abril de 1974, regressou a Portugal, entrando nos quadros da Radiodifusão Portuguesa, como diretor dos Serviços Recreativos e Culturais.
Ainda em 1974, aderiu ao Partido Socialista; em 1975 foi eleito deputado à Assembleia Constituinte, sendo o autor da proposta apresentada pelo PS para o texto do preâmbulo da Constituição Portuguesa de 1976, que foi adotado.
Deputado à Assembleia da República a partir de 1976, integrou o I Governo Constitucional (de Mário Soares), primeiro como Secretário de Estado da Comunicação Social, depois como Secretário de Estado Adjunto do Primeiro-Ministro para os Assuntos Políticos.
No Parlamento, foi presidente da Comissão Parlamentar de Negócios Estrangeiros, vice-presidente da Delegação Parlamentar Portuguesa ao Conselho da Europa, vice-presidente do Grupo Parlamentar do PS e vice-presidente da Assembleia da República.
Em 2006, foi candidato independente às eleições presidenciais, ficando em segundo lugar nas votações, tendo obtido mais votos que Mário Soares, então candidato oficial do PS. Após essas eleições, fundou o Movimento de Intervenção e Cidadania (MIC).
Em 2009, cessou o seu último mandato como deputado à Assembleia da República, após 34 anos no Parlamento, sempre eleito por Coimbra.
Em 2011, voltou a candidatar-se às eleições presidenciais, conseguindo o apoio do PS, do BE, do PCTP, bem como dos dirigentes do MIC.

Além da atividade política, é sobretudo a sua carreira literária que este mês queremos homenagear e dar a conhecer, quer como poeta, quer como ficcionista.
Reconhecido além-fronteiras, é o único autor português incluído na antologia Cent poèmes sur l'exil, editada pela Liga dos Direitos do Homem, em França (1993). Em Abril de 2010, a Universidade de Pádua, em Itália, inaugurou a Cátedra Manuel Alegre, destinada ao estudo da Língua, Literatura e Cultura Portuguesas.
Foram muitos os prémios e distinções que recebeu ao longo dos anos. Pelo conjunto da sua obra recebeu, entre outros, o Grande Prémio de Poesia, da Associação Portuguesa de Escritores (1998). Em 1999, recebeuo Prémio Pessoa. Em 2016 a Sociedade Portuguesa de Autores atribuiu-lhe o Prémio de Consagração de Carreira. Em 2017, recebeu (“finalmente”) o Prémio Camões (e, como o próprio Manuel Alegre comentou na altura, “o estranho foi não o ter recebido antes!”).
Obra publicada
(*) Disponível na Biblioteca do ECB

Poesia

1965 – Praça da Canção
1967 - O Canto e as Armas (*)
1971 - Um Barco para Ítaca
1976 - Coisa Amar (Coisas do Mar)
1979 - Nova do Achamento
1981 – Atlântico (*)
1983 - Babilónia
1984 - Chegar Aqui
1984 - Aicha Conticha
1991 - A Rosa e o Compasso
1992 - Com que Pena — Vinte Poemas para Camões
1993 - Sonetos do Obscuro Quê
1995 - Coimbra Nunca Vista (*)
1996 - As Naus de Verde Pinho
1996 - Alentejo e Ninguém
1997 - Che
1998 - Pico
1998 - Senhora das Tempestades (*)
1999 - E alegre se fez triste
2001 - Livro do Português Errante (*)
2008 - Nambuangongo, Meu Amor
2008 - Sete Partidas
2017 - Auto de António







Ficção

1989 - Jornada de África (*)
1989 - O Homem do País Azul (*)
1995 – Alma (*)
1998 - A Terceira Rosa (*)
1999 - Uma Carga de Cavalaria
2002 - Cão Como Nós (*)
2003 – Rafael (*)









Literatura Infantil

2007 - Barbi-Ruivo, O meu primeiro Camões, ilustrações de André Letria, Publicações Dom Quixote (*)
2009 - O Príncipe do Rio, ilustrações de Danuta Wojciechowska, Publicações Dom Quixote
2015 - As Naus de Verde Pinho: Viagem de Bartolomeu Dias contada à minha filha Joana. Prémio de Literatura Infantil António Botto



Outros

1997 - Contra a Corrente (discursos e textos políticos) (*)
2002 - Arte de Marear (ensaios) (*)
2006 - O Futebol e a Vida, Do Euro 2004 ao Mundial 2006 (crónicas)
2016 - Uma outra memória - A escrita, Portugal e os camaradas dos sonhos




Principais condecorações e medalhas

Portugal – Grã-Cruz da Ordem da Liberdade de Portugal (maio de 1989)
Marrocos – Comendador da Ordem de Ouissam Alaoui de Marrocos (fevereiro de 1992)
Chile – Grande-Oficial da Ordem de Bernardo O'Higgins do Chile (abril de 1995)
Itália – Grande-Oficial da Ordem "Stella Della Solidarietá" Italiana de Itália, atribuída pelo Presidente de Itália (junho de 2008)
União Europeia – Medalha de Mérito do Conselho da Europa, de que é Membro-Honorário.
Portugal – Medalha de Honra da Sociedade Portuguesa de Autores (maio de 2008)
Itália – Medalha da Cidade de Veneza, por ocasião do Convénio Internacional "La Porta d’Oriente -Viaggi e Poesia" (novembro de 1999)
Portugal – Medalha de Ouro da Cidade de Águeda
Itália – Medalha da Cidade de Pádua, tendo sido agraciado com o título de Cidadão-Honorário (abril de 2010)
Portugal – Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada (maio de 2016)
Itália – Doutoramento Honoris Causa em Línguas e Literaturas Modernas Europeias e Americanas, pela Universidade de Pádua (novembro de 2017)

Prémios

Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (1998)
Prémio da Crítica da Associação Portuguesa de Críticos Literários (1998)
Prémio de Literatura Infantil António Botto (1998)
Prémio Pessoa (1999)
Prémio Fernando Namora (1999)
Prémio D. Dinis (2007)
Grande Prémio Vida Literária (2016)
Grande Prémio de Literatura dst (2016)
Prémio de Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores (2016)
Prémio Guerra Junqueiro instituído pelo FFIL - Freixo Festival Internacional de Literatura (2017)
Prémio Camões (2017) (o maior prémio literário da língua portuguesa, instituído pelos governos do Brasil e de Portugal)


Um poema para a eternidade...

Uma flor de verde pinho
Eu podia chamar-te pátria minha
dar-te o mais lindo nome português
podia dar-te um nome de rainha
que este amor é de Pedro por Inês.
Mas não há forma não há verso não há leito
para este fogo amor para este rio.
Como dizer um coração fora do peito?
Meu amor transbordou. E eu sem navio.
Gostar de ti é um poema que não digo
que não há taça amor para este vinho
não há guitarra nem cantar de amigo
não há flor não há flor de verde pinho.
Não há barco nem trigo não há trevo
não há palavras para dizer esta canção.
Gostar de ti é um poema que não escrevo.
Que há um rio sem leito. E eu sem coração.
(canção portuguesa no Festival Eurovisão da Canção 1976, interpretada em português pelo fadista Carlos do Carmo, com letra de Manuel Alegre, música de José Niza e orquestração do maestro Thilo Krasman)

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Solveme Puzzles - uma plataforma de resolução de puzzles matemáticos



A ligação 
permite aceder à Solveme, uma plataforma de resolução de exercícios de matemática constituída por três jogos diferentes:
Mobiles - É um jogo que utiliza o esquema do raciocínio da balança, em que através de símbolos, permite a resolução do puzzle (equação).
Who am I - Consiste em encontrar o número baseado nas regras que são fornecidas.
Mystery grid - Colocar todos os "azulejos" na grelha de forma que nenhum se repita e que o total de todas as linhas seja igual ao total de todas as colunas.

domingo, 1 de abril de 2018

Autor do mês de abril - Marguerite Duras




“Sou mais escritora do que vivente, que uma pessoa que vive. Naquilo que vivi, sou mais escritora do que alguém que vive. É assim que eu me vejo.”

Considerada uma das principais vozes femininas da literatura do Século XX, Marguerite Duras, pseudónimo de Marguerite Donnadieu, nasceu em Saigão, atual cidade de Ho Chi Minh, Vietname, no dia 4 de abril de 1914, e morreu em Paris, a 3 de março de 1996. Publicou mais de 50 títulos, entre romances, ensaios, peças de teatro e argumentos para cinema. Foi também realizadora.

Os pais de Marguerite Duras emigraram para a colónia francesa da Indochina (atualmente Vietname), numa fase em que o governo francês concedia incentivos à emigração para aquela colónia asiática de forma a consolidar a sua presença no território. O pai viria a morrer pouco tempo depois de lá terem chegado, pelo que Duras cresceu com a mãe, professora, e os seus dois irmãos. As condições de vida, difíceis e precárias, agravadas após a mãe perder um investimento feito numa propriedade no Cambodja, e que marcaram a sua infância e adolescência, percorrem parte da obra da escritora, incluindo alegadas agressões que sofreu por parte da mãe e do irmão mais velho. Quase toda a sua obra é autobiográfica: a infância, o pensionato em Saigão, a descoberta da sexualidade; a vida em Paris, a dor e o sofrimento da Segunda Guerra Mundial, o marido que regressa de Dachau; os filhos que morreram; a depressão, o alcoolismo; o encontro com o último amante a derradeira paixão. E a memória, sempre a memória em cada palavra, em cada título.


Com a família



Aos 17 anos Marguerite emigrou para França, onde estudou Matemática, Ciências Políticas e Direito.
Quando completou os estudos, foi trabalhar para o departamento do governo francês relativo à colónia da Indochina. Durante a Segunda Guerra Mundial, trabalhou para o Governo de Vichy,ao mesmo tempo que fazia parte da Resistência Francesa contra as forças nazis.

Marguerite Duras publicou o seu primeiro livro, Les Impudents (Os Insolentes, em português), em 1943, ou seja, ainda durante a guerra. Este seria o primeiro de um vasto número de peças, filmes, entrevistas, ensaios, pequenos contos de ficção e romances que escreverá até 1995.


A obra Os Insolentes gira em torno de personagens que se encontrarão noutros romances da autora: a relação mãe/irmão mais velho, a personagem de Maud que reaparecerá também noutros romances, uma mulher que é vítima de uma «armadilha» que a transcende, uma mulher ignorante de si mesma.
A crítica considera que o universo de Duras está todo nesta primeira obra onde se assiste ao nascimento de uma voz que, no início dos anos 40, era francamente invulgar.

Em A Vida Tranquila, a segunda obra que publicou, Marguerite Duras constrói um romance sereno, onde a paixão funciona no próprio comportamento das personagens, marcadas pela paisagem e pela vida da antiga colónia francesa (ainda a Indochina, sempre a Indochina...).




Em 1950, é publicado aquele que foi considerado o primeiro grande romance de Marguerite Duras, Uma Barragem contra o Pacífico, obra autobiográfica onde o delta de Mekong, no Vietname, é o pano de fundo da narrativa e expõe a difícil vida logística e material da família, para além dos caminhos mais ou menos transparentes que a mãe tenta descortinar para superar essa débil situação. É também uma narrativa sobre o passado colonial francês, onde cada um procurava
“o seu quinhão da herança de espaço e mundos novos, ou tão só um lugar seu, onde viver e trabalhar, um canto da planície, entre a floresta e o Pacífico, só com o Sol por cima e hectares de terra fértil a perder de vista, onde apenas haveria que produzir, criar uma família (e, naturalmente, enriquecer) sem problemas nem políticas, sem a sensação de desespero e asfixia das metrópoles [...]” e onde, “face à monstruosidade insensível do Pacífico e à transparência mesquinha das suas existências de «brancos pobres» sem horizontes, mais não possuem entre mãos e no corpo do que a raiva surda, que só jovens que batam com a cabeça contra um muro tão duro e tão pouco sólido como o Pacífico podem conhecer, uma raiva que é surda porque não há onde nem a quem reclamar contra a fraude. Precisamente porque «a mãe» morre, a lutar até à insanidade, para dar corpo a uma perfeita loucura — uma barragem que detivesse o Pacífico! —, acreditando em si mais do que no sonho, é verdade, e dessa luta inglória retirando todo um orgulho inútil e toda uma liberdade que é só riso da sua própria situação” (da badana da edição portuguesa de 1988, Difel).



O romance A Dor, publicado em 1985, é um diário, íntimo e pungente, carregado de sofrimento, de uma mulher (a própria Duras) que, nos finais da Segunda Guerra Mundial e após saber por um resistente chamado François Mitterrand que o marido está vivo no campo de concentração de Dachau, espera por um homem morto ou um homem vivo e o que recebe é «uma espécie de árvore morta embrulhada num cobertor: o marido. Algo que está justamente entre a vida e a morte».
Encontrei este diário em dois cadernos dos armários azuis de Neauphle le G'hâteau.
Não me lembro de o ter escrito.
Sei que o fiz, fui eu que escrevi, reconheço a minha escrita e os pormenores daquilo que conto, volto a ver o local, a gare de Orsay, os trajectos, mas não me vejo a mim a escrever este Diário. Quando é que o escrevi, em que ano, a que horas do dia, em que casa? Já não sei nada.
Não me parece pensável - e isso é certo, evidente - que possa ter escrito este texto enquanto esperava por Robert L. Como é que pude escrever esta coisa a que ainda não sei dar nome e que me apavora quando a releio. E como é que pude deixar ficar este texto tantos anos abandonado naquela casa de campo que regularmente se inunda no Inverno.
A primeira vez que me lembrei dele foi porque a revista Sorciéres me pediu um texto de juventude.
A Dor é uma das coisas mais importantes da minha vida. A palavra "escritos" não seria adequada. Encontrei-me frente a páginas regularmente cheias de uma letra pequena extraordinariamente regular e calma. Encontrei-me frente a uma fenomenal desordem do pensamento e do sentimento, em que não ousei tocar - e face a ela, a literatura envergonha-me. (Marguerite Duras, do Prefácio)


"La douleur est une des choses les plus importantes de ma vie."


Em 1959, o cineasta francês Alain Resnais realiza Hiroshima Meu Amor, a sua primeira longa-metragem, a partir de um guião escrito por Marguerite Duras, que lhe valeu a nomeação para o Óscar de Melhor Argumento Original. O filme, protagonizado por Emmanuelle Riva, tem o mérito de, mantendo-se fiel à visão de Duras, a ter dotado de imagens icónicas cuja beleza nada fica a dever às palavras escritas.



Uma mulher, uma atriz, está em Hiroshima no pós-guerra a rodar um filme sobre a paz e vive um romance com um homem casado, um arquiteto japonês. O passado é, em Hiroshima, um fantasma que a persegue.
Hiroshima Meu Amor é, assim, um filme sobre um filme, uma história de amor impossível sobre outra história de amor impossível que, num cenário após os bombardeamentos americanos, recorda a ocupação da França pelo exército alemão. Na vida que regressou ao normal, na cidade plenamente reconstruída, onde a catástrofe não é mais do que uma memória longínqua que se afugenta, há uma ameaça eminente de que o que Hiroshima viveu seja esquecido. Hiroshima tem de ser lembrada sempre, como o têm de ser todas as grandes tragédias. Mas a vida teima em cobrir os acontecimentos desagradáveis com um véu apaziguador. Até que não restem mais do que sombras. Até que comecemos a duvidar que o que aconteceu aconteceu realmente.


Embora considerado um dos filmes mais importantes da história do cinema, um dos grandes ícones do cinema francês e um dos mais famosos e influentes da Nouvelle Vague, foi retirado da competição oficial do Festival de Cannes em 1959, sendo apenas apresentado e sem poder concorrer à Palma de Ouro, por ser “politicamente incorreto”, pois podia “ofender descendentes alemães”. Não deixa de ser curioso, num filme que nos leva a meditar sobre a capacidade de perdoar e o valor da memória...

Marguerite Duras também realizou cerca de quinze filmes em nome próprio, como India Song, de 1975, que retoma a história de amor que encontramos em O Vice-Cônsul (romance publicado em 1965), uma história de amor imobilizada no culminar da paixão, vivida na Índia, nos anos 30, numa cidade sobrepovoada nas margens do Ganges, entre Anne-Marie Stretter, mulher do embaixador de França nas Índias, e o vice-cônsul de França em Lahore.



Em 1992, o cineasta francês Jean-Jacques Annaud realizou o filme O Amante, a partir do romance homónimo de Duras, publicado em 1984.


Saigão, anos 30. Uma bela jovem francesa conhece o elegante filho de um negociante chinês. Deste encontro nasce uma paixão. Ela tem quinze anos e é pobre. Ele tem vinte e sete e é rico. Os amantes, isolados num mundo privado de erotismo e autodescoberta, desafiam as convenções da sociedade. Enquanto ela desperta para a possibilidade de traçar o seu próprio caminho no mundo, para o seu amante não há fuga possível. A separação é inevitável e tragicamente cadenciada pelos últimos acordes da presença colonial francesa no Oriente.


Indochina: a travessia do rio Mekong


A jovem é a própria autora e este é o relato exacerbado de uma paixão inquieta e dilacerante. De tão etérea, a sua realidade gravar-lhe-ia no rosto marcas implacáveis de maturidade. Para o mundo, fica uma obra que contém toda a vida.

Este romance, de cariz autobiográfico, relato de um tempo e de um mundo perdido, foi vencedor do prestigiado Prémio Goncourt em 1984, galardão atribuído em França a um autor de grande virtude imaginativa no género da prosa. Em 1991, Marguerite Duras viria a reescrever esta história com a publicação de O Amante da China do Norte.


Marguerite Duras morreu no dia 3 de março de 1996, com 81 anos, em Paris, e foi sepultada no cemitério de Montparnasse. Na sua última obra, C’ est Tout (É tudo), publicada em 1995, confronta-se a escritora e a morte, a obra e a vida vividas. Obra de despedida, é acima de tudo um livro de amor, livro oferecido a Yann Andréa, com quem Duras viveu durante dezasseis anos, entre 29 de Julho de 1980 e 3 de Março de 1996, dia da morte da escritora.


Escrevi durante uma vida inteira.
Como uma imbecil, fiz isso.
Também não é mau ser assim.
Nunca fui pretensiosa.
Escrever durante uma vida inteira ensina a escrever.
Não salva de nada.

Vem amar-me.
Vem.
vem para este papel branco.
Comigo.

Dou-te a minha pele.
Vem.
Depressa.

Diz-me adeus.
É tudo.
Não sei mais nada de ti.

Parto com as algas.
Vem comigo.

Acabou.
Tudo acabou.
É o horror.

Amo-te.
Adeus.

(Excertos de C' est Tout, as últimas palavras)


Yann Lemée (Andréa foi o nome que Duras lhe atribuiu), 38 anos mais novo, era um estudante de Filosofia quando, em 1975, leu o livro de Duras Os Cavalos de Tarquínia. O fascínio que então o arrebatou levou-o a procurar todos os livros de Duras. Encontraram-se pela primeira vez nesse mesmo ano, quando a escritora foi ao cinema Lux, em Caen, onde foi exibido India Song, para participar num debate. Yann pensou levar-lhe flores, mas não teve coragem. No final da sessão pediu-lhe um autógrafo no livro Détruire, dit-elle e disse-lhe que gostava de lhe escrever. Duras deu-lhe a morada de Paris. No dia seguinte, Yann escreveu-lhe pela primeira vez e nunca mais parou, durante cinco anos até 1980, ano em que ela lhe respondeu pela primeira vez, enviando-lhe Homme assis dans le coulouir (O homem sentado no corredor). Ele não sabia o que pensar do livro e não lhe respondeu. Em Julho, ganhou coragem, telefonou-lhe e ela pediu-lhe que fosse ter com ela. Ela tinha 66 anos, ele 28 e era homossexual. A partir de então, viveram juntos até à morte da escritora.


Marguerite Duras e Yann Andréa

Em 1992, Duras escreveu Yann Andréa Steiner, romance em que descreve a sua relação com Yann Andréa, num período em que ele a ajudou a ultrapassar crises de alcoolismo e depressão. Em 1983, Yann Andréa tinha publicado M.D., escrito durante um período em que Duras esteve hospitalizada com tinha crises de alucinação.
Aquele Amor, o segundo livro de Andréa, publicado em 1999, é a sua obra mais famosa: uma longa carta a uma morta (Duras), uma morta que continua presente na vida desse homem que foi inventado por ela (Yann) e que a seguir à morte dela ficou sem vida para além da dela.

Obras de Marguerite Duras
(a negrito, as obras que constam do catálogo da Biblioteca do ECB)

Romances
  • Os Insolentes, 1943
  • Vida tranquila, 1944
  • Uma Barragem contra o Pacífico, 1950
  • O marinheiro de Gibraltar, 1952
  • Os cavalos de Tarquínia, 1953
  • Des journées entières dans les arbres, "Le Boa", "Madame Dodin", "Les Chantiers", 1954
  • O jardim, 1955
  • Moderato Cantabile, 1958
  • Les Viaducs de la Seine et Oise, 1959.
  • Dez horas e meia numa noite de verão, Paris, 1960
  • Hiroshima mon amour, 1960 (guião)
  • L'après-midi de M. Andesmas, 1960
  • A ausência de Lol V. Stein, 1964
  • Théâtre I: les Eaux et Forêts-le Square-La Musica, 1965
  • O Vice-Cônsul, 1965
  • A amante inglesa, 1967
  • Théâtre II: Suzanna Andler-Des journées entières dans les arbres-Yes, peut-être-Le Shaga-Un homme est venu me voir, 1968.
  • Destruir, diz ela, 1969
  • Abahn Sabana David, 1970
  • O amor, 1971
  • Ah! Ernesto, 1971
  • India Song, 1973
  • Nathalie Granger, suivi de "La Femme du Gange", 1973.
  • Le Camion, suivi de Entretien avec Michelle Porte1977.
  • L'Eden Cinéma, 1977
  • Le Navire Night, suivi de Cesarée, les Mains négatives, Aurélia Steiner, 1979.
  • Vera Baxter ou les Plages de l'Atlantique, 1980.
  • O homem sentado no corredor, 1980
  • Verão 80, 1980
  • Les Yeux verts, Cahiers du cinéma, n.312-313, juin 1980
  • Agatha, 1981
  • Outside, 1981
  • O homem atlântico, 1982
  • Savannah Bay, 1982
  • La Maladie de la mort, Les Éditions de Minuit, 1982
  • Théâtre III: La Bête dans la jungle, d'après H. James, adaptation de J. Lord et M. Duras,-Les Papiers d'Aspern,d'après H. James, adaptation de M. Duras et R. Antelme,-La Danse de mort, d'après A. Strindberg, adaptation de M. Duras, 1984.
  • O amante, 1984.
  • A dor, 1985
  • La Musica deuxième, 1985.
  • Olhos azuis, cabelo preto, 1986
  • La Pute de la côte normande, 1986.
  • A vida material, 1987
  • Emily L, 1987
  • La Pluie d'été, 1990
  • O amante da China do Norte, 1991
  • Yann Andréa Steiner, 1992
  • Escrever, 1993
  • É tudo, 1995

Filmes
  • La Musica (1967)
  • Détruire, dit-elle (1969)
  • Jeune le soleil (1972)
  • Nathalie Granger (1972)
  • La Femme du Gange (1974)
  • India Song (1975)
  • Son nom de Venise dans Calcutta désert (1976)
  • Des journées entières dans les arbres (1976)
  • Le Camion (1977)
  • Baxter, Vera Baxter (1977)
  • Les Mains négatives (1978)
  • Cesarée (1978)
  • Le Navire Night (1979)
  • Aurelia Steiner (Melbourne) (1979)
  • Agatha et les lectures illimitées (1981)
  • L'Homme atlantique (1981)
  • Il Dialogo di Roma (1982)
  • Les Enfants (1984)















quarta-feira, 14 de março de 2018

Dia do Pi



O Dia do Pi celebra-se em todo o mundo a 14 de março.
A escolha desta data para o Dia do Pi prende-se com o facto de a notação americana das datas ser MM/DD e não DD/MM. Assim, nos EUA, a notação do dia 14 de março é 3/14, a aproximação mais conhecida de Pi (3,141592653589793238462643383...).
A primeira comemoração do Dia do Pi aconteceu em 1988, em São Francisco, no Museu Exploratorium, por proposta do físico norteamericano Larry Shaw, considerado por muitos o "Príncipe do Pi". Em 2009, o Congresso dos Estados Unidos ratificou a designação do dia 14 de março como o “National Pi Day”. Desde então, esta comemoração tornou-se internacional.

Para celebrar o dia com a NASA, clique em:


Especialmente para estudantes, a NASA, através do Jet Propulsion Laboratory, do California Institute of Technology, propõe alguns desafios onde, usando o Pi, se podem resolver problemas de matemática estelares enfrentados pelos cientistas e engenheiros da NASA. Conheça-os em:











quinta-feira, 8 de março de 2018

DIA INTERNACIONAL DA MULHER


O tempo é agora!

“Alcançar a igualdade de género e capacitação das mulheres e das meninas é a tarefa inacabada do nosso tempo e o maior desafio dos direitos humanos no nosso mundo.”
António Guterres, Secretário Geral da ONU

Desde 1975, durante o Ano Internacional da Mulher, a Organização das Nações Unidas passou a celebrar o Dia Internacional da Mulher a 8 de março.

Em 2018, ano em que questões como o assédio sexual, a violência e a discriminação contra as mulheres captaram as atenções e o discurso público, ocorrendo um movimento global sem precedentes por direitos, igualdade e justiça para as mulheres, a ONU Mulheres decidiu que o tema do Dia Internacional da Mulher deste ano é “O tempo é agora: ativistas rurais e urbanas transformam a vida das mulheres”.
Iniciativas como os movimentos #MeToo, nos Estados Unidos; #EuTambém, no México, Espanha e América Latina; #QuellaVoltaChe, na Itália; #BalanceTonPorc, na França; #Ana_kaman, nos Estados Árabes; e “Ni Una Menos”, na Argentina, mobilizam pessoas em todo o mundo através de protestos e campanhas globais.

Segundo a agência das Nações Unidas para as mulheres (ONU Mulheres), “o Dia Internacional da Mulher de 2018 é assim uma oportunidade para transformar esse impulso em medidas concretas de capacitação de mulheres de todos os ambientes — rural e urbano — e de reconhecer as ativistas que sem descanso reivindicam direitos e desenvolvimento pleno”.
Neste ano, o Dia Internacional da Mulher chama também a atenção para os direitos e o ativismo das mulheres rurais, que constituem mais de 25% da população mundial e que, cultivando as terras e plantando sementes para alimentar as populações, garantem a segurança alimentar das suas comunidades e geram resiliência face às alterações climáticas. Apesar disso, se a diferença mundial de salário entre mulheres e homens se situa em 23%, nas áreas rurais pode chegar até 40%. Em praticamente todos os indicadores de desenvolvimento, as mulheres rurais estão atrasadas em relação aos homens rurais e às mulheres urbanas, devido à permanência das desigualdades de género e da discriminação.
As mulheres rurais lutam hoje pelo seu direito a um nível de vida adequado, uma vida sem violência ou práticas nocivas, assim como o seu acesso à terra e aos bens produtivos, à segurança alimentar e à nutrição, ao trabalho decente, à educação e à saúde, incluindo a saúde sexual e reprodutiva.
Segundo a ONU Mulheres, “Este é um momento em que milhares de mulheres valentes da indústria cinematográfica, do teatro e das artes começaram a elevar as suas vozes contra o abuso e as agressões sexuais por parte de homens poderosos do setor. No âmbito das mulheres rurais, estas vozes encontram um poderoso aliado na Aliança Nacional de Camponesas, uma organização norte-americana de camponesas que conhece bem o abuso de poder”.
Assim, uma vez mais no dia 8 de março, a ONU Mulheres e ativistas em todo o mundo unem-se para aproveitar a oportunidade, celebrar os avanços, tomar medidas e transformar a vida das mulheres. O tempo é agora!, conclui a agência das Nações Unidas.

Vídeo sobre o International Women’s Day 2018: The Time is Now:





História do Dia Internacional da Mulher: