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domingo, 1 de julho de 2018

Autor do mês de Julho - Mia Couto


"Agora ela sabia: um livro é uma canoa. [...] Tivesse livros e ela faria a travessia para o outro lado do mundo, para o outro lado de si mesma."
Mia Couto, em O outro pé da sereia. Editorial Caminho, 2006.


Escritor, biólogo e jornalista, Mia Couto (António Emílio Leite Couto) nasceu em 5 de Julho de 1955, na cidade da Beira, capital da província de Sofala, em Moçambique. Adotou este pseudónimo porque tinha uma paixão por gatos e porque o seu irmão não sabia pronunciar o seu nome.
Mia Couto é considerado um dos escritores mais importantes de Moçambique e o mais traduzido e divulgado no exterior. É também um dos autores estrangeiros mais vendidos em Portugal. As suas obras estão traduzidas e publicadas em mais de 24 países.
Aos 14 anos publicou os primeiros poemas, no jornal Notícias da Beira.
Em 1972 começou a estudar Medicina em Lourenço Marques, curso que abandonaria em 1974, quando enveredou pelo jornalismo, tornando-se, com a independência de Moçambique, repórter e diretor da Agência de Informação de Moçambique (AIM). Esteve ainda na revista semanal Tempo e no jornal Notícias. Em 1985 abandonou a carreira jornalística e reingressou na Universidade de Eduardo Mondlane para se formar em Biologia, especializando-se na área de ecologia.
Como biólogo, tem realizado trabalhos de pesquisa em diversas áreas, com incidência na gestão de zonas costeiras e na recolha de mitos, lendas e crenças que intervêm na gestão tradicional dos recursos naturais. É diretor da empresa Impacto, Lda. - Avaliações de Impacto Ambiental, realizando estudos em Moçambique. Em 1992, foi o responsável pela preservação da reserva natural da Ilha de Inhaca. É professor da disciplina de Ecologia em diversos cursos da Universidade Eduardo Mondlane.
Excelente contador de histórias, Mia Couto é considerado um "escritor telúrico": escreve e descreve as próprias raízes do mundo, explorando a natureza humana na sua relação umbilical com a terra. A sua linguagem, extremamente rica e muito fértil em neologismos, confere-lhe um atributo de singular perceção e interpretação da beleza interna das coisas. Em muitas das suas obras, tenta recriar a língua portuguesa com uma influência moçambicana, utilizando o léxico de várias regiões do país e produzindo um novo modelo de narrativa africana. Cada palavra inventada como que adivinha a secreta natureza daquilo a que se refere, como se nenhuma outra pudesse ter sido utilizada no seu lugar. As imagens de Mia Couto evocam mundos fantásticos e em certa medida surrealistas, subjacentes ao mundo em que se vive, que envolve de uma ambiência terna e pacífica de sonhos - o mundo vivo das histórias. Talvez por isso seja muitas vezes comparado ao escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez ou ao brasileiro Guimarães Rosa.
Em 1983, publicou o seu primeiro livro de poesia, Raiz de Orvalho.
Em 1992, surgiu o primeiro romance, Terra Sonâmbula, com o qual ganhou o Prémio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos em 1995 e que foi considerado um dos dez melhores livros africanos do século XX por um júri criado pela Feira do Livro do Zimbabué.
A 25 de Novembro de 1998 foi feito Comendador da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada.
Entre romances, poesia, contos, crónicas e livros infantis, tem publicados mais de 30 títulos.

OBRA PUBLICADA EM PORTUGAL:
(*) no catálogo da Biblioteca do ECB

Poesia
  • (*) Raiz de orvalho e outros poemas. 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 1999.
  • Idades, cidades, divindades. 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2007.
  • Tradutor de chuvas. 1ª ed., Lisboa/Portugal: Editorial Caminho, 2011.
  • Vagas e lumes. 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2014.

Contos
  • (*) Vozes anoitecidas. 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho,1987.
  • (*) Cada homem é uma raça. 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho,1990.
  • (*) Estórias abensonhadas. 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho,1994.
  • (*) Contos do nascer da terra. 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho,1997.
  • (*) Na Berma de nenhuma estrada. 1ª ed., Lisboa/Portugal: Editorial Caminho, 1999.
  • O fio das missangas. 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2003.

Crónicas
  • (*) Cronicando. 1ª ed. em 1988; 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 1991.
  • Pensatempos. 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2005.
  • E se Obama fosse Africano? e outras interinvenções. 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2009.
  • (*) Pensageiro frequente. Lisboa: Editorial Caminho, 2010; 2ª ed., 2014.

Romances
  • (*) Terra sonâmbula. 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 1992.
  • (*) A varanda do frangipani. 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 1996.
  • (*) Mar me quer. 1ª ed., Parque Expo/NJIRA em 1998, [como contribuição para o pavilhão de Moçambique na Exposição Mundial Expo '98 em Lisboa]; e 1ª ed., [ilustrações João Nasi Pereira]. Lisboa: Editorial Caminho, 2000.
  • (*) Vinte e zinco. 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 1999.
  • (*) O último voo do flamingo. 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2000.
  • (*) Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2002.
  • O outro pé da sereia. 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2006.
  • (*) Venenos de Deus, remédios do diabo. Lisboa: Editorial Caminho, 2008.
  • (*) Jesusalém [no Brasil, o título do livro é "Antes de nascer o mundo"], Lisboa: Editorial Caminho, 2009.
  • (*) A Confissão da leoa. 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2012.
  • Mulheres de cinza (1º livro da trilogia ”As areias do Imperador“). 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2015.
  • A Espada e a Azagaia (segundo volume da trilogia ”As Areias do Imperador“) 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2016
  • O Bebedor de Horizontes (terceiro volume da trilogia ”As Areias do Imperador“) 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2017.

Literatura Infantil
  • O gato e o escuro. [Ilustrações de Danuta Wojciechowska], 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2001.
  • A chuva pasmada. [Ilustrações de Danuta Wojciechowska; 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2004; 2ª ed., 2012.
  • O beijo da palavrinha. [com ilustrações de Malangatana; 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2008.
  • O menino no sapatinho. [Ilustrações Danuta Wojciechowska], 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2013.

Prémios

1989 – Prémio Anual de Jornalismo Areosa Pena (Moçambique) com o livro Cronicando
1995 – Prémio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos, com o livro Terra Sonâmbula
1999 – Prémio Vergílio Ferreira, pelo conjunto da sua obra
2001 – Prémio Mário António (ficção) da Fundação Calouste Gulbenkian, pelo livro O último voo do flamingo
2007 – Prémio União Latina de Literaturas Românicas
2007 – Prémio Passo Fundo Zaffari e Bourbon de Literatura, na Jornada Nacional de Literatura, com o livro O Outro Pé da Sereia
2011 - Prémio Eduardo Lourenço pelo seu contributo para o desenvolvimento da língua portuguesa
2013 – Prémio Camões
2014 – Neustadt International Prize for Literature, da Universidade de Oklahoma, Estados Unidos



quinta-feira, 7 de junho de 2018

A árvore generosa: um Tapete de Estórias


"Era uma vez uma árvore que amava um menino."

Todos os dias,
o menino subia o seu tronco,
balançava-se nos seus ramos,
comia as suas maçãs,
descansava à sua sombra
e a árvore sentia-se feliz.

Mas o tempo passou.
O menino cresceu...


O livro A árvore generosa, do escritor e ilustrador norte-americano Shel Silverstein, serviu de inspiração para o “Tapete de Estórias” produzido pelos alunos de Educação Especial do ECB.






Escrita em 1964, esta é a história de uma árvore e de um menino e da relação entre o homem e a natureza. A árvore oferece tudo a um menino, que ao crescer a deixa de lado, tornando-se um homem egoísta. Mas, para agradar ao menino que ama, a generosidade desta árvore não tem fim - ainda que isto signifique a sua própria destruição.

Através de uma narrativa muito sóbria, aliada a uma grande sensibilidade estética visível nas ilustrações de traço simples e preciso, o autor aborda questões fundamentais como o tempo, a morte, a vida, a relação amorosa e de amizade, tudo o que nos posiciona face aos outros e a nós próprios.


sexta-feira, 1 de junho de 2018

O nome dos meses – junho


A deusa Juno

Junho é o sexto mês do calendário gregoriano e tem 30 dias. O seu nome surgiu em homenagem à deusa romana Juno, irmã e mulher de Júpiter, filha de Saturno e de Reia, associada à deusa grega do amor e do casamento, Hera, mulher de Zeus.

Segundo a mitologia romana, Juno é a Deusa da Mulher, investida de algumas características associadas à feminilidade, adorada como Juno Lucina (a Deusa da Luz e, portanto, dos partos que trazem os recém-nascidos à luz do dia e por associação deusa da maternidade), Juno Caprotina (Deusa da Fecundidade) e Juno Pronubia (Deusa dos Casamentos e protetora das mulheres casadas, as matronas). O seu culto também aparece associado à cidade de Roma, da qual é protetora enquanto Juno Regina. Esta deusa conciliava, assim, a dupla função de soberania e de fecundidade, constituindo ”a representação divina da função social desempenhada em Roma pela matrona.” (in Dicionário cultural da mitologia greco-romana, dir. René Martin, Publicações Dom Quixote).

O calendário juliano foi criado por Júlio César no ano 46 a.C., na qualidade de pontífice máximo do Império Romano, tornando o calendário romano num calendário solar, alinhado pelas estações do ano, à semelhança do calendário egípcio.
Este era o calendário em uso no tempo da vida de Cristo e foi usado como base de cálculo da Páscoa pelos cristãos. No século IV, por ocasião do Concílio de Niceia, o Equinócio da Primavera ocorria por volta do dia 21 de Março. A partir do século XIII, as observações astronómicas e o cálculo da medida do ano solar mostraram que o Equinócio da Primavera ocorria vários dias antes dessa data, considerada fixa. A necessidade de correção e mudança suscitou longos debates durante cerca de três séculos. O calendário juliano foi oficialmente reformado em 1582, pelo papa Gregório XIII, dando origem ao calendário que temos hoje, o calendário gregoriano, progressivamente adotado por países onde a Igreja Católica era predominante. A Igreja Ortodoxa não aceitou esta mudança e ainda hoje, nos países onde esta confissão religiosa é maioritária, se mantém a diferença de 13 dias nos dois calendários.


Autor do mês de junho - Thomas Mann



A 6 de junho de 1875, nascia em Lübeck, cidade livre no norte do antigo Império Alemão, o escritor Thomas Mann, considerado um dos maiores romancistas do século XX e irmão mais novo do também romancista Heinrich Mann. Morreu em Zurique, a 12 de agosto de 1955.

Oriundo de uma família burguesa ligada ao comércio e à política, após a morte do pai, em 1892, quando Thomas Mann tinha 17 anos, a mãe mudou-se para Munique, cidade católica do sul da Alemanha. Em 1893, Thomas Mann começou a escrever alguns textos em prosa e artigos para a revista Der Frühlingssturm (“Tempestade de primavera”) da qual era co-editor. No ano seguinte, 1894, juntou-se à família em Munique, onde começou um estágio não remunerado numa sociedade de seguros, atividade que acabou por abandonar em 1895, tornando-se escritor livre. Entre 1896 e 1898, fez uma longa viagem a Itália, em visita ao seu irmão Heinrich Mann, e começou a trabalhar no manuscrito de Os Buddenbrook. De volta a Munique, tornou-se um dos editores do jornal satírico-humorístico Simplicissimus.

Em 1901, quando Thomas Mann tem 26 anos, é publicado é seu primeiro romance, Os Buddenbrook.
Publicado originalmente em dois volumes, as suas quase 600 páginas tinham levado o editor a sugerir a Mann que encurtasse o texto. Thomas Mann não concordou e o livro foi publicado na íntegra. Mais tarde, Thomas Mann dirá que julgava que o livro iria passar despercebido e seria possivelmente o fim da sua carreira literária. A realidade foi bem diferente: em 1903 uma segunda edição da obra catapulta Thomas Mann para o sucesso, tornando-se um dos escritores mais notáveis do século XX. Em 1929, a Academia Sueca atribuiu-lhe o Prémio Nobel da Literatura e, embora reconhecesse o valor do conjunto da obra já publicada pelo autor, admitiu que o romance Os Buddenbrook tinha sido a principal razão para a atribuição do prémio.

Durante a juventude e inícios da idade adulta, Thomas Mann teve várias paixões e relações com outros homens. Apesar disso, apaixonou-se por Katharina (Katia) Pringsheim, com quem casou em 1905. Deste casamento, nasceram seis filhos.

Em 1912, publica a novela Morte em Veneza, escrita durante uma estadia no Lido de Veneza e considerada a sua obra mais confessional.

Durante a Primeira Guerra Mundial, Thomas Mann entra em conflito com o irmão Heinrich Mann pois defende a entrada da Alemanha na guerra e a política do Kaiser Guilherme II, enquanto o irmão defende a causa da França. Thomas Mann chegou a penhorar a casa que possuía em Bad Tölz em 1917 a favor do esforço de guerra. A perspetiva de Thomas Mann ao longo deste período encontra-se sumariada no ensaio «Considerações de um Apolítico» (1918) e no romance Montanha Mágica, escrito entre 1912 e 1924.
Em 1922, teve lugar um acontecimento que alguns críticos literários consideram decisivo para a transformação política de Thomas Mann a favor da democracia e da República: o assassínio do ministro dos negócios estrangeiros de ascendência judaica, Walter Rathenau, numa ação desencadeada por elementos radicais ultra-nacionalistas.

Em 1933, após a chegada de Hitler ao poder, exilou-se na cidade suíça de Zurique, perdendo a nacionalidade alemã em 1936. Em 1938 mudou-se para os Estados Unidos, obtendo a nacionalidade norte-americana em 1944. O período do “mccarthismo” (a cruzada anticomunista promovida pelo Senador republicano Joseph McCarthy, caracterizada por uma acentuada perseguição e repressão política dos comunistas, ou suspeitos de o serem, assim como por uma campanha de medo quanto à sua influência deles nas instituições norte-americanas, ações também conhecidas como “caça à bruxas”) levou Thomas Mann a regressar à Suíça, vivendo em Kilchberg, próximo de Zurique, até à sua morte, em 1955. Encontra-se sepultado no Kilchberg Village Cemetery, Kilchberg, Zurique, Suíça.

Obras (*disponíveis na Biblioteca do ECB)
  • Der kleine Herr Friedemann (1898)
  • Os Buddenbrook (1901) (Buddenbrooks - Verfall einer Familie) *
  • Tonio Kröger (1903)
  • Sua Alteza Real (1909) (Königliche Hoheit)
  • A Morte em Veneza (1912) (Der Tod in Venedig) *
  • Betrachtungen eines Unpolitischen (Considerações de um apolítico) (1918)
  • The German Republic (1922) (Von deutscher Republik)
  • Montanha Mágica (1924) (Der Zauberberg) *
  • Unordnung und frühes Leid (1926)
  • Mário e o Mágico (1930)
  • José e os seus Irmãos (1933-1943) (Joseph und seine Brüder) *
  • As Histórias de Jacó (1933)
  • O Jovem José (1934)
  • José no Egito (1936)
  • José, o Provedor (1943)
  • Das Problem der Freiheit (1937)
  • Lotte in Weimar or The Beloved Returns (1939)
  • As Cabeças Trocadas (1940) (Die vertauschten Köpfe - Eine indische Legende) *
  • Doutor Fausto (1947) (Doktor Faustus) *
  • Der Erwählte (1951)
  • As Confissões do Félix Krull, Cavalheiro de Indústria (1922/1954) (Bekenntnisse des Hochstaplers Felix Krull. Der Memoiren erster Teil, não terminado)
  • O Cisne Negro (1954) (Die Betrogene: Erzählung) *




Os Buddenbrook
O romance Os Buddenbrook, publicado em 1901, é uma saga familiar de proporções épicas na qual começou a trabalhar em 1887 e que retrata, ao longo de quatro gerações, a progressiva decadência de uma família abastada protestante de comerciantes de cereais de Lübeck, ao mesmo tempo que lança um olhar penetrante e crítico sobre a burguesia alemã do século XIX.
Thomas Mann é considerado um romancista analítico, que descreve como poucos a tensão entre o caráter nórdico, protestante, frio e ascético (características típicas da sua Lübeck natal) e as personagens mais rústicas, simples, bonacheironas, das regiões católicas do sul, de onde se destaca o senhor "Permaneder", o paradigma do bávaro de Munique, em Os Buddenbrook. Thomas Mann viveu entre estes dois mundos: por um lado, a origem familiar e o ambiente da ética protestante de Lübeck, por outro, a voz interior e a influência da mãe, que o faziam interessar-se menos pelos negócios e mais pela literatura, influência que acabou por ser a dominante.
Thomas Mann via nos Buddenbrook um exemplo de uma família em decadência, em que os descendentes não saberiam levar avante o negócio que herdaram. Fortemente inspirado na história da sua própria família, o romance foi lido com especial interesse pelos habitantes de Lübeck que ali descobriram muitos traços de personalidades conhecidas. A publicação deste livro valeu a Thomas Mann uma reprimenda de um tio, que o acusou de ser um "pássaro que emporcalhou o próprio ninho".
Mais do que a crónica em torno da vida e dos costumes dos seus personagens, Os Buddenbrook é a metáfora exemplar das contradições e dilemas de uma classe, cujo poder e domínio se constroem sobre a fraude, a hipocrisia e a alienação. Ao mesmo tempo, como posteriormente acontecerá noutros romances, Thomas Mann propõe e desenvolve o tema da arte como a instância privilegiada em que o homem pode refletir sobre si, a sua época e o seu meio.

Sendo de uma leitura mais acessível do que grande parte da sua obra mais tardia (Montanha Mágica ou Doutor Fausto), Os Buddenbrook são já um exemplo das obsessões de Mann ao nível da escrita: a narrativa imaculada, um subtil tom irónico e as detalhadas descrições das personagens, num cruzamento entre a tradição realista do século XIX e o simbolismo do início do século XX.




Morte em Veneza
O romance Morte em Veneza foi escrito entre julho de 1911 e julho de 1912 e inicialmente publicado nos números de Outubro e Novembro de 1912 da revista alemã Die Neue Rundschau. Sob a forma de livro, é publicado em Fevereiro de 1913. Nesta obra, Thomas Mann apresenta uma escrita complexa e profunda, onde quase cada parágrafo pode ter várias leituras. Em contraponto, o enredo é praticamente inexistente: um homem de meia-idade, Gustav Aschenbach, viaja até Veneza, apaixona-se platonicamente por um jovem rapaz polaco, extremamente atraente, Tadzio,e morre sem sequer ter trocado uma palavra com ele.
Se, a uma primeira leitura, a homossexualidade se torna evidente, à medida que a narrativa prossegue, essa questão mostra-se secundária à análise da obra. Não foi esta a preocupação central do autor, visto que nem sequer houve contacto físico entre as personagens, estando o amor de Aschenbach por Tadzio no âmbito da idealização: a verdadeira atração mostra-se ser pela beleza e perfeição do rapaz, reflexo temporal da beleza eterna, como se Aschenbach buscasse na arte a forma física e a perfeição que gostaria de ter.
“Era mais belo do que é possível descrever-se e Aschenbach sentiu dolorosamente, como tantas vezes antes, que a palavra só pode enaltecer a beleza, não consegue reproduzi-la. [...] E recostado, com os braços pendentes, subjugado e percorrido por frequentes calafrios, murmurou num sussurro a fórmula eterna do desejo – impossível aqui, absurda, abjeta, ridícula e, contudo, sagrada e, apesar de tudo, venerável: "Amo-te!"




Montanha Mágica
Em 1924, Thomas Mann publica aquele que é considerado um dos romances mais influentes da literatura mundial do século XX, Montanha Mágica (no original em alemão Der Zauberberg). É um exemplo clássico da literatura que os alemães classificam como Bildungsroman (romance de desenvolvimento ou de formação).

A obra narra a visita que Hans Castorp, um jovem engenheiro naval alemão, de Hamburgo, faz ao primo Joachim Ziemssen que se encontra internado num sanatório destinado ao tratamento de doenças respiratórias localizado em Davos, nos Alpes suíços, pouco antes do começo da Primeira Guerra Mundial. Apesar de se dirigir ao sanatório apenas para a visita e para tratar uma anemia, Hans Castorp vai aos poucos mostrando sinais de que tem tuberculose pulmonar e acaba por prolongar a sua estadia por meses e anos, pois a sua saída vai sendo adiada por causa da doença.
Nesse período, Castorp, pouco a pouco, afasta-se da vida "na planície" e conquista o que chama” liberdade da vida normal”. Desliga-se do tempo, da carreira e da família e é atraído pela doença, pela introspeção e pela morte. Ao mesmo tempo, amadurece e trava contacto mais profundo com a política, a arte, a cultura, a religião, a filosofia, a fragilidade humana (incluindo a morte e o suicídio), o caráter subjetivo do tempo (um dos temas mais importantes da obra) e o amor.
O sanatório forma um microcosmo europeu. Os numerosos personagens do livro, muitos com descrições e reflexões detalhadas, são representações de tendências e pensamentos que predominavam na Europa antes da Primeira Guerra Mundial, conhecido como o período da Belle Epoque. Em particular os personagens Lodovico Settembrini (humanista e enciclopedista) e Leo Naphta (um jesuíta totalitário) representam, respetivamente, o contraste entre ideias liberais e conservadoras. Também se destacam o hedonista Mynheer Peeperkorn e Madame Clawdia Chauchat, por quem Castorp desenvolve um interesse romântico e sensual.
A subjetividade da passagem do tempo abordada por Mann reflete-se na estrutura do livro. A narrativa é ordenada cronologicamente, mas acelera ao longo do romance. Desse modo, os primeiros cinco capítulos relatam apenas o primeiro dos anos de Castorp no sanatório, em grande detalhe. Os restantes seis anos, marcados pela monotonia e pela rotina, são descritos nos últimos dois capítulos. Essa assimetria corresponde à própria perceção distorcida de Castorp quanto à passagem do tempo.
O final da narrativa coincide com o deflagrar da Grande Guerra e Castorp une-se às fileiras do exército. Apesar de assistirmos ao processo de amadurecimento do personagem ao longo do romance, não fica claro, no final, se ele conseguiu formar uma sólida individualidade: a sua última aparição será a de um soldado anónimo, entre milhares, num qualquer campo de batalha da Primeira Guerra Mundial.
Thomas Mann iniciou a escrita de Montanha Mágica em 1912, o mesmo ano em que a mulher, Katharina Mann, foi internada num sanatório de Davos, na Suíça, para se curar de uma tuberculose. O livro teria sido inspirado nesse episódio.
Em 1915, Thomas Mann interrompeu o trabalho no manuscrito, indeciso sobre o fim a dar ao romance. É deste período o conflito com o irmão Heinrich Mann, um apoiante da França e dos aliados, que desprezava o espírito filisteu, provinciano, totalitário, acrítico dos alemães e do Kaiser Guilherme II. Thomas Mann continuou a escrever Montanha Mágica em 1919, já depois da guerra. Terminaria o romance apenas em 1924, ano da publicação, influenciado também pela experiência da Alemanha durante a República de Weimar.



José e seus irmãos

José e seus irmãos (Joseph und seine Brüder) é um romance em quatro partes, escrito ao longo de cerca de 16 anos. Mann reelabora as histórias familiares do Génesis, de Jacob a José (capítulos 27-50), enquadrando-as no contexto histórico do Período Amarna. A tetralogia consiste em:
  • A história de Jacob, escrita entre dezembro de 1926 e outubro de 1930 (Genesis 27–36);
  • O jovem José, escrita entre janeiro de 1931 e Junho de 1932 (Genesis 37);
  • José no Egipto, escrita entre julho de 1932 e agosto de 1936 (Genesis 38–40);
  • José, o Provedor, escrita entre agosto de 1940 e janeiro de 1943 (Genesis 41–50).

Mann considerou-a a sua maior obra. Situou a história no século XIV a.C. e atribuiu ao faraó Akhenaton a designação de José como seu vice-regente.
Um tema dominante do romance é a exploração por Mann da posição da mitologia e da sua representação na mentalidade do final da Idade do Bronze no que se refere a verdades míticas e ao surgimento do monoteísmo. Os acontecimentos da história do Génesis são frequentemente associados e identificados com outros temas míticos.
Na obra, é nuclear a noção de mundo inferior e a mítica descida ao mundo inferior. A estada de Jacob na Mesopotâmia (escondendo-se da ira de Esaú) está em paralelo com a vida de José no Egito (exilado pelo ciúme dos seus irmãos) e, em menor escala, com o seu cativeiro no poço; estes são a seguir comparados à "descida ao inferno" de Inanna-Ishtar-Demeter, ao Mito de Tammuz da Mesopotâmia, ao cativeiro judaico na Babilónia, bem como à descida ao inferno de Jesus Cristo.

Doutor Fausto
A escrita do romance Doutor Fausto: A vida do compositor alemão Adrian Leverkühn, contada por um Amigo foi iniciada em 1943 e a obra publicada em 1947.
O romance retoma a lenda de Fausto no contexto da primeira metade do século XX e da convulsão da Alemanha naquele período. A história é centrada na vida e obra do compositor fictício Adrian Leverkühn. O narrador é Serenus Zeitblom, seu amigo de infância. Leverkühn escreve na Alemanha entre 1943 e 1946 (no contexto do ambiente cultural e político que levou à ascensão e queda dos nazis) e a sua ambição, apesar de uma inteligência e criatividade extraordinárias, leva-o a fazer um pacto faustiano para atingir o génio criativo: intencionalmente contrai a sífilis para aprofundar a sua inspiração artística. Posteriormente, é visitado por um ser mefistofélico que diz, com efeito, "que apenas tu me possas ver porque estás louco, não significa que eu realmente não existo", e, renunciando ao amor, negoceia a sua alma em troca de vinte e quatro anos de génio. A sua loucura – a sua inspiração demoníaca – leva-o a uma extraordinária criatividade musical.
Os últimos anos criativos de Leverkühn são cada vez mais assombrados pela sua obsessão com o Apocalipse e o Juízo Final. Sente o progresso inexorável da sua loucura de neuro-sifilítico que conduzirá à derrocada total. Como em algumas das lendas de Fausto, reúne os amigos mais próximos para que testemunhem o seu colapso final. Ao som da sua cantata, "A lamentação de Doutor Fausto", ele confessa enraivecido o seu pacto demoníaco, antes de se tornar incoerente. A sua loucura leva-o a um estado infantil, em que vive sob os cuidados dos seus parentes por mais de dez anos.

Podem encontrar-se nesta obra influências de grandes nomes da literatura alemã, como Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832, ele próprio autor do drama trágico Fausto, publicado em fragmento em 1790, depois numa primeira parte definitiva em 1808 e, por fim, numa segunda parte, em 1832, ano da sua morte) e Friedrich Nietzsche (desde a sua suposta contração de sífilis até ao seu colapso mental em 1889, proclamando o Anti-Cristo, e a sua morte em 1900, a vida de Nietzsche apresenta um exemplo célebre imitado em Leverkühn).
Para preparar este romance, Mann estudou musicologia e biografias dos grandes compositores (Mozart, Beethoven, Hector Berlioz, Hugo Wolf, Franz Schreker, Alban Berg) e entrou em contacto com compositores contemporâneos, incluindo Igor Stravinsky, Arnold Schoenberg e Hanns Eisler.
Através da reelaboração do mito de Fausto, Thomas Mann reflete as suas preocupações com temas como o orgulho, a tentação, o custo de ser grande, a perda de humanismo. Outra preocupação é a queda intelectual da Alemanha na época que antecedeu a Segunda Guerra Mundial. O estado de espírito e a ideologia do próprio Leverkühn imitam a mudança do humanismo para o niilismo irracional que se encontra na vida intelectual da Alemanha na década de 1930.



O cisne negro

Publicado pela primeira vez em 1953, O Cisne Negro é a última “longa novela” escrita por Thomas Mann. Conta a história de uma mulher viúva, Rosália von Tummler, que se apaixona por um jovem americano de vinte e quatro anos, Ken Keaton, professor de inglês dos filhos de Rosália, Ana e Eduardo. Thomas Mann retoma assim, em termos inovadores, o tema recorrente da mulher que se apaixona por alguém muito mais novo que ela, o drama de Jocasta e Fedra.
A cidade de Dusseldorf, nas margens do Rio Reno, serviu como cenário para a dramática história de uma viúva na pós-menopausa a quem é diagnosticado um tumor nos ovários e que toma por um regresso da juventude os sintomas do mal que a afeta. Em determinado momento do romance, a protagonista percebe sinais de rejuvenescimento em si mesma, notados através do retorno da menstruação, o que a faz acreditar no reaparecimento de sua mocidade lamentavelmente perdida:

Voltei a ser mulher, um ser completo, uma mulher que reencontrou as suas aptidões. É-me permitido, portanto, sentir-me digna da juventude viril que me enfeitiçou e perante ela já não tenho que baixar os olhos com um sentimento de impotência!

Em todo este drama, sobressai também a personagem Ana, filha de Rosália e que, por uma singularidade inversão de papéis, desempenha junto da mãe a função de conselheira e confidente.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Dez Mil Guitarras, de Catherine Clément: uma sugestão de leitura no Dia Internacional dos Museus

Porto Editora, 2010

No Dia Internacional dos Museus, apresentamos como sugestão de leitura o romance Dez Mil Guitarras, de Catherine Clément. Entre as suas personagens, encontramos Rodolfo II, Imperador da Áustria, cujas "Câmaras de Arte e Prodígios" (ou "Salas das Maravilhas") podem ser consideradas precursoras do moderno conceito de Museu. 

Catherine Clément nasceu em França, em 1939, e é autora de mais de trinta livros. Iniciou a sua carreira académica na área da Filosofia, formando-se na Ecole Normale Supérieure, onde teve como professores Claude Lévi-Strauss ou Jacques Lacan, com quem trabalhou em estudos de antropologia e psicanálise. Mais tarde começou a dedicar-se à ficção, particularmente no género do romance histórico.
As suas obras estão hoje traduzidas em mais de 24 línguas.



Em Dez Mil Guitarras, Catherine Clément transporta-nos para a Europa de finais do século XVI, apresentando-nos uma galeria de retratos de uma Europa em mutação: o peso dos Habsburgo, a violência das guerras religiosas, a loucura do Imperador da Áustria, a rebelião da jovem rainha Cristina da Suécia e a sua paixão por Descartes.
Entretanto, em Marrocos, dez mil guitarras jazem ao abandono no campo de batalha de Alcácer-Quibir. D. Sebastião desapareceu. Morto ou vivo? Há quem espere por ele...
Ao contar-nos essa espera, Catherine Clément compõe um romance como uma ópera, pleno de fantasia e de verdades pouco conhecidas, dando voz a personagens memoráveis, como o famoso rinoceronte que atravessou toda a Índia e que, depois de ter navegado de Goa para Lisboa, se encontra enjaulado para deleite de soberanos: um jovem rei português, um velho rei de Espanha, um imperador alquimista, uma rainha bárbara.

“Tive como proprietários dois reis, um imperador e uma rainha que semeava tempestades. Nenhum deles foi francamente mau; místico, devoto, iluminado, rebelde, procuravam uma grande ideia, que eu vi nascer. As belezas da ideia e os seus crimes, as suas loucuras, as guerras intermináveis, os prazeres desenfreados e a sua obstinação em perseguir não sei o quê, a ramagem das árvores, as caçadas, as divisões, era a obstinação da Europa em sobreviver.”

Quem assim fala é o rinoceronte (o bada, na terminologia da época), um ser extraordinário que é a alma migrada de um brâmane hindu. E é através dos seus relatos que vamos percorrendo as cortes mais afamadas da Europa entre 1577, vésperas da batalha de Alcácer-Quibir, e 1689, data da morte da Rainha Cristina da Suécia.
Adquirido pelo rei D. Sebastião de Portugal, herdado por Filipe II de Espanha, e depois (já morto e com o corno transformado em cálice) pelo imperador Rodolfo II do Sacro-Império Romano-Germânico, levado para a corte sueca em 1648, este rinoceronte encontra-se hoje no Kunsthistorisches Museum de Viena.
São muito diferentes as personalidades dos sucessivos proprietários do bada:
  • D. Sebastião de Portugal, um rei que nasce Desejado e morre Encoberto, eivado ainda do ideal de cruzada e que, em nome de Deus e do Império, morrerá (ou não...) em Marrocos;
  • Rodolfo de Habsburgo, imperador da Áustria, verdadeiro espírito da época, prenúncio da modernidade, para quem as descobertas científicas são mais importantes do que as divisões religiosas ou políticas; as suas Câmaras de Arte e Prodígios (ou Salas das Maravilhas) reuniam tudo o que na época era considerado exótico ou maravilhoso, desde animais a objetos; conhecido como “O Alquimista”, na sua corte encontramos homens como os astrónomos Tycho Brahé e Johannes Kepler, ou o pintor Giuseppe Arcimboldo, que retratará Rodolfo II no célebre Vertumnus;
  • e ainda a rainha Cristina da Suécia, em cujo reinado assistimos ao desenrolar da Guerra dos Tinta Anos, que começa por uma questão religiosa e se transforma numa guerra por territórios.

No final, o bada dirá

“Na verdade, os reis são pouca coisa.”

Dia Internacional dos Museus


No dia 18 de maio celebra-se o Dia Internacional dos Museus, criado em 1977 pelo Conselho Internacional de Museus – ICOM –, com o objetivo de promover, junto da sociedade, uma reflexão sobre o papel dos Museus no seu desenvolvimento. Para 2018, o ICOM propõe o tema - Museus hiperconectados: novas abordagens, novos públicos.

Um museu é, na definição do ICOM (2001), "uma instituição permanente, sem fins lucrativos, ao serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao público e que adquire, conserva, investiga, difunde e expõe os testemunhos materiais do homem, para educação e deleite da sociedade".

A palavra “museu” tem origem etimológica no grego antigo mouseion. Apesar de a arqueologia revelar que desde os seus primórdios a Humanidade adquiriu o hábito do colecionismo (por exemplo, no Paleolítico os homens primitivos já reuniam vários tipos de artefactos, como o provam achados em sepulturas), é somente a partir da Antiguidade que surgem espaços com um sentido mais próximo do conceito moderno de museu quando, além de colecionar objetos a que atribui valor, seja afetivo, cultural ou simplesmente material, o homem começa a organizar museus enquanto sítios para exposição e preservação de objetos com uma finalidade cultural e educativa.
Na Grécia Antiga o mouseion era um templo das musas, divindades que presidiam à poesia, música, oratória, história, tragédia, comédia, dança e astronomia. Esses templos, bem como os de outras divindades, recebiam muitas oferendas em objetos preciosos ou exóticos, que podiam ser exibidos ao público mediante o pagamento de uma pequena taxa. Os romanos expunham coleções públicas nos fóruns, jardins públicos, templos, teatros e termas. No oriente, onde o culto à personalidade de reis e heróis era forte, reuniam-se objetos históricos com a função de preservação da memória e dos feitos gloriosos desses personagens.
Durante a Idade Média, também resultado das vicissitudes políticas e económicas deste período, a noção de museu quase desapareceu, embora o colecionismo continuasse vivo: por um lado, os acervos de preciosidades eram considerados património de reserva que podia ser convertido em dinheiro em caso de necessidade, como para financiamento de guerras; por outro, muitas coleções se formaram com objetos ligados ao culto cristão, acumulando-se em catedrais e mosteiros quantidades de relíquias de santos, manuscritos iluminados e alfaias litúrgicas em metais e pedras preciosos.
No Renascimento, com a recuperação dos ideais clássicos e a consolidação do humanismo, ressurgiu o colecionismo privado de grandes banqueiros e comerciantes, integrantes da burguesia em ascensão, que financiavam uma grande produção de arte profana e ornamental e se dedicavam à procura de relíquias da Antiguidade. Reis, nobres e burgueses abastados de toda a Europa competiam, como mecenas, na propaganda das suas coleções que se tornaram célebres pela sua riqueza, como a dos Medici, em Florença.


Palácio Medici, Florença


Palácio Medici

É também durante o Renascimento que aparecem os “gabinetes de curiosidades”, ou “salas das maravilhas”, como eram designados os lugares onde, durante a época das grandes explorações e descobrimentos dos séculos XVI e XVII, se colecionava uma multiplicidade de objetos raros ou estranhos dos três ramos da biologia considerados na época, animal, vegetal e mineral, além das realizações humanas. Formavam assim coleções muito heterogéneas e assistemáticas de peças das mais variadas naturezas e procedências, incluindo fósseis, esqueletos, animais empalhados, minerais, curiosidades, aberrações da natureza, miniaturas, objetos exóticos de países distantes, obras de arte, máquinas e inventos, e todo o tipo de objetos raros e maravilhosos. Por isto são considerados os precursores dos atuais museus de arte.


A primeira ilustração de um gabinete de curiosidades,
publicada por Ferrante Imperato em Dell'Historia Naturale, Nápoles, 1599


Um exemplo de um rei-colecionador é Rodolfo II (Viena, 18 de julho de 1552 – Praga, 20 de janeiro de 1612), Imperador Romano-Germânico desde 1575 até à sua morte, além de Arquiduque da Áustria e Rei da Hungria, Croácia e Boémia. Era filho do imperador Maximiliano II e da arquiduquesa Maria da Áustria e foi um dos mais excêntricos monarcas europeus de todos os tempos. Colecionava anões e possuía um regimento de gigantes no seu exército. Rodeava-se de astrólogos, orientava-se pelas ciências ocultas e era fascinado por jogos, códigos e música. Defensor da alquimia, Rodolfo II financiou a impressão de literatura alquimista. Além disso, o seu gosto pelo exótico fez deste Imperador um dos principais protetores e mecenas de Giuseppe Arcimboldo, pintor italiano (1526-1593), considerado por alguns críticos de arte como um dos precursores ou inspiradores do surrealismo, umas das vanguardas europeias do século XX. Uma das principais obras do artista é justamente o retrato de Rodolfo II como o deus romano Vertumnus, pintado provavelmente entre 1590 e 1591 e feito com vários tipos de frutas, legumes, cereais e outros vegetais.


Vertumnus
Giuseppe Arcimboldo (1590–1591)

Outro exemplo de um colecionador particular é o médico e antiquário dinamarquês Olaus Wormius, ou Ole Worm (Aarhus, 13 de maio de 1588 – Copenhaga, 31 de agosto de 1654).
Ole Worm foi de alguma forma um "estudante perpétuo": depois de estudar na escola em Aarhus, continuou a sua educação na Universidade de Marburg; recebeu o título de Doutor em Medicina pela Universidade de Basileia, em 1611, e o título de Mestre em Artes pela Universidade de Copenhaga, em 1617. O resto de sua carreira académica foi feito em Copenhaga, onde aprendeu latim, grego, medicina e física. Foi o médico pessoal do rei Cristiano V da Dinamarca.
Na medicina, as principais contribuições de Worm aconteceram na área da embriologia. Os ossos de Worm (pequenos ossos que cobrem os espaços no crânio) receberam o seu nome em honra do seu contributo para esta área.
Worm tornou-se também conhecido como colecionador de literatura primitiva em idiomas escandinavos. Escreveu vários tratados sobre runas e colecionou textos escritos em alfabetos rúnicos.
Como naturalista, Worm reuniu uma grande coleção no seu "Gabinete de curiosidades", que incluía desde artefatos nativos do Novo Mundo a animais dissecados ou fósseis. Em 1655, já depois da sua morte, é publicado o catálogo do seu Museum Wormianum.
A principal utilidade das coleções de história natural de Worm era a pedagogia.


Frontispício do livro Musei Wormiani Historia
que mostra o quarto das maravilhas de Worm
No entanto, quer os Gabinetes de Curiosidades, quer as galerias privadas de reis, nobres ou burgueses estavam ainda essencialmente dentro dos círculos privados, inacessíveis à população em geral.
Movidas por interesses científicos foram fundadas inúmeras sociedades e instituições, como os jardins botânicos de Pisa (1543) e o de Pádua (1545), a Real Sociedade de Londres (1660) e a Academia de Ciências de Paris (1666), que reuniam as suas próprias coleções.
É durante o século XVII que o museu se consolidou mais ou menos como atualmente o conhecemos.
Em 1671, surgiu em Basileia o primeiro museu universitário e, em 1683, é criado em Inglaterra, pela Universidade de Oxford, aquele que é considerado o primeiro museu moderno com  o objetivo declarado de educar o público, o Museu Ashmolean. O seu acervo era eclético e assemelhava-se aos antigos gabinetes de curiosidades, procedente de várias partes do mundo, reunido pela família Tradescant e previamente exibido na sua casa de Londres.


Museu Ashmolean, Oxford

No século XVIII, o espírito enciclopédico dos iluministas fortaleceu a associação do conhecimento com a razão, a ordem e a moral, favorecendo a formação de acervos sistemáticos e a atuação de instituições culturais com objetivos educativos e públicos.
Importantes museus fundados no século XVIII foram o Museu Britânico, aberto em Londres em 1759, e o Museu do Louvre, em Paris, em 1793, por iniciativa dos respetivos governos.


Museu Britânico, Londres



Museu do Louvre, Paris

O exemplo europeu, por força do colonialismo, frutificou também em territórios do Oriente e na América. Em Jacarta, a Sociedade de Artes e Ciência de Batavia iniciou uma coleção em 1778, que evoluiu para se tornar o Museu Nacional da Indonésia.


Museu Nacional da Indonésia, Jacarta

Na Índia, em 1784 é fundado o primeiro museu, o Museu Indiano, a partir das coleções reunidas pela Sociedade Asiática de Bengal.


Museu Indiano (ou Museu da Índia), Chowringhee - Kolkata, West Bengal

Nos Estados Unidos, a Charleston Library Society da Carolina do Sul anunciou em 1773 a sua intenção de formar uma coleção de produtos naturais para fomentar e promover a agricultura e a medicina da província.


Charleston Library Society, Charleston, Carolina do Sul

Entretanto, os Gabinetes de Curiosidades vão desaparecendo durante os séculos XVIII e XIX, sendo substituídos por instituições oficiais e coleções privadas. Os objetos considerados mais interessantes foram transferidos para os museus de artes e de história natural que começaram a ser fundados.
No século XIX, o museu continuou a sua transformação, expandindo os seus horizontes para incluir novas categorias e temas, e progressivamente abandonando o simples colecionismo para oferecer a exibição e catalogação rigorosamente sistemáticas, possibilitando ao público percorrer roteiros que apresentavam panoramas de toda a história e cultura da humanidade, reservando secções para apresentação das mais recentes conquistas da ciência e tecnologia.
O museu também desempenhou um papel no sentimento nacionalista romântico, contribuindo para a consciencialização popular e a construção de identidades nacionais, reunindo objetos ligados ao património cultural das nações, também como forma de legitimar os seu direito à independência. Pelos mesmos motivos aparece uma profusão de museus regionais e locais, voltados para os interesses de pequenas áreas geográficas.
Até meados do século XX, as práticas colecionistas continuaram a caracterizar-se acima de tudo por uma postura passiva diante da sociedade, seguindo critérios aquisitivos e administrativos vagos e que alguns críticos consideram arbitrários. A partir dos anos 70, assistiu-se a um aprofundamento científico da definição e das potencialidades dos museus enquanto recurso de atuação ativa, interdisciplinar e educativa, sendo lícito considerar esta reorientação como uma verdadeira revolução na conceção do museu público e como a fundação da museologia moderna.

No século XXI, os museus, enquanto espaço e enquanto conceito, têm de acompanhar e refletir as transformações sociodemográficas e tecnológicas. O tema para as comemorações do Dia Internacional dos Museus em 2018, Museus hiperconectados: novas abordagens, novos públicos, reflete isso mesmo.
No sítio da Direção Geral do Património Cultural, Ministério da Cultura de Portugal, podemos ler

“Os museus, enquanto parte integrante das suas comunidades, não podem alhear-se da rede global de conexões que caracteriza a sociedade contemporânea, quer no que respeita ao modo de interpretar e apresentar os seus acervos, quer no que se refere aos meios utilizados para cativar novos públicos. A digitalização das coleções, a presença de elementos multimédia nas exposições ou o hashtag são apenas alguns dos recursos proporcionados pelas novas tecnologias.
No entanto, a hiperconectividade dos museus deve ser também entendida no sentido de estes alcançarem uma aproximação mais abrangente aos vários setores da sociedade, cada vez mais sujeita a transformações, nomeadamente com o aparecimento de novas minorias, grupos étnicos ou instituições locais.”