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quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Autor do mês de Agosto



"O meticuloso exercício da escrita pode ser a nossa salvação."


Considerada a escritora mais vendida de língua espanhola, Isabel Allende nasceu na cidade de Lima, Peru, no dia 2 de agosto de 1942. De ascendência chilena, a carreira de diplomata do pai (Tomás Allende, primo do presidente Salvador Allende) levou a família a deslocar-se por vários países. Em 1945 regressaram ao Chile, país onde Isabel Allende viveu até ao golpe militar que, em setembro de 1973, derrubou o governo de Salvador Allende e levou Augusto Pinochet ao poder. O clima de terror e de insegurança instaurado obrigou Isabel Allende, juntamente com o marido, Miguel Frías, e os seus dois filhos, a abandonar o Chile, refugiando-se em Caracas, na Venezuela, onde Isabel iniciará a sua produção literária. Em 1988, após o divórcio, foi viver para a Califórnia, onde se casou com o americano Willie Gordon, adquirindo a nacionalidade norte-americana.
Em 1982, publicou o primeiro romance, A casa dos espíritos, baseado numa carta que escreveu para o avô que estava a morrer e inspirado nas lembranças de infância e juventude passadas no velho casarão familiar, onde viveu com os avós e tios, rodeada de uma atmosfera liberal e intelectual que cedo despertaram o seu interesse pela literatura. O facto de a carta para o avô ter sido escrita no dia 8 de janeiro leva Isabel Allende a começar todos os livros novos nesse dia, não apenas por uma questão de superstição, como diz, mas também de disciplina.
Apesar de ter cerca de trinta títulos publicados, traduzidos em trinta e cinco línguas, com vendas superiores a mais de 60 milhões de cópias em todo o mundo, a sua carreira de escritora começou apenas quando tinha quase quarenta anos. Antes, tinha trabalhado como redatora e colunista para jornais e para a televisão e escreveu obras para o teatro e contos infantis.
Desde a publicação de A casa dos espíritos, e sobretudo após a sua adaptação ao cinema, em 1993, pelo realizador dinamarquês Bille August, com Jeremy Irons e Meryl Streep nos papéis principais (com grande parte das filmagens feitas em Lisboa e no Alentejo), Isabel Allende é considerada uma das principais revelações da literatura latino-americana da década de 1980, com uma obra marcada pela ditadura no Chile, implantada com o golpe militar que, em 1973, derrubou o governo de Salvador Allende e levou Augusto Pinochet ao poder.
Questões como a liberdade, a justiça, a lealdade, a violência, o amor e a morte são alguns dos temas recorrentes nos seus livros. Isabel Allende é uma autora consciente do mistério que nos rodeia a todos, por isso também escreve sobre coincidências, premonições, sonhos, emoções, o poder da natureza e a magia. Os seus romances estão repletos de mulheres poderosas à procura do amor e do seu lugar na sociedade.

Obra publicada
(*) disponível no catálogo da Biblioteca do ECB

Romances
1982 - A Casa dos Espíritos (*)
1983 - A Lagoa Azul
1984 - De amor e de sombra (*)
1987 - Eva Luna (*)
1991 - O plano infinito (*)
1995 - Paula (*)
1998 – Afrodite (*)
1999 - Filha da fortuna (*)
2000 - Retrato a sépia (*)
2002 - A cidade dos deuses selvagens (*)
2003 - O reino do dragão de ouro (*)
2004 - O bosque dos Pigmeus (*)
2005 - Zorro, começa a lenda (*)
2006 - Inés da minha alma
2007 - A soma dos dias
2009 - A ilha debaixo do mar (*)
2011 - O Caderno de Maya (*)
2014 - O Jogo de Ripper (*)
2015 - O Amante Japonês (*)
2017 - Para além do inverno (*)

Memórias
2003 - O meu país inventado (*)

Contos
1984 - La gorda de porcelana
1989 - Contos de Eva Luna (*)

Teatro
1971 - El embajador
1973 - La balada del medio pelo
1974 - Los siete espejos
2004 - Los Tomates Del Fábio Cagón

Prémios e distinções
Premio Nacional de Literatura de Chile (2010)
Medalha Presidencial da Liberdade (EUA, 2014), a mais importante distinção civil dos Estados Unidos da América, atribuída pelo Presidente Barack Obama.

A obra de Isabel Allende é muitas vezes integrada na corrente do realismo mágico, da qual fazem parte autores como o cubano Alejo Carpentier, os argentinos Julio Cortázar e Jorge Luis Borges ou o colombiano Gabriel García Márquez.
O realismo mágico, escola literária surgida no início do século XX, também é conhecido como realismo fantástico ou realismo maravilhoso, e é considerado a resposta latino-americana à literatura fantástica europeia. Esta corrente desenvolveu-se fortemente nas décadas de 1960 e 1970, como produto de duas visões que conviviam na América hispânica e também no Brasil: a cultura da tecnologia e a cultura da superstição. Surgiu também como forma de reação, através da palavra, contra os regimes ditatoriais que proliferaram na América Latina durante este período.
Apesar de aparentemente desatento à realidade, o realismo mágico partilha algumas características com o realismo épico, como a intenção de dar verossimilhança interna ao fantástico e ao irreal, diferenciando-se assim da atitude niilista assumida originalmente pelas vanguardas do início do século XX, como o surrealismo.
Algumas características têm sido identificadas, presentes em muitas obras do realismo mágico:
  • Conteúdo de elementos mágicos ou fantásticos percebidos como parte da "normalidade" pelos personagens;
  • Presença de elementos mágicos algumas vezes intuitivos, mas nunca explicados;
  • Presença do sensorial como parte da perceção da realidade;
  • Realidade dos acontecimentos fantásticos, embora alguns não tenham explicação ou sejam improváveis de acontecer;
  • Perceção do tempo como cíclico ao invés de linear, seguindo tradições dissociadas da racionalidade moderna;
  • Distorção do tempo para que o presente se repita ou se pareça com o passado;
  • Transformação do comum e do quotidiano numa vivência que inclui experiências sobrenaturais ou fantásticas;
  • Preocupação estilística, partícipe de uma visão estética da vida que não exclui a experiência do real.

Apesar de considerado um produto da literatura latino-americana, segundo alguns críticos, o realismo mágico terá influenciado escritores europeus, como o italiano Italo Calvino, o checo Milan Kundera ou o inglês Salman Rushdie.

Obras disponíveis no catálogo da Biblioteca do ECB

A casa dos espíritos


Nesta surpreendente obra de estreia, Isabel Allende constrói um universo repleto de espíritos, de personagens multifacetadas e humanas, entre elas Esteban Trueba, o patriarca, que vive obcecado pela terra e pela paixão absoluta pela mulher, Clara, que ele sente sempre estar para lá do seu alcance.
Clara é a matriarca esquiva e misteriosa, dotada de poderes sobrenaturais, que prediz as tragédias da família e estabelece o destino da casa e dos Trueba. Blanca, a sua filha suave e rebelde, nutre um amor pelo filho do capataz do seu pai, o que provoca o desprezo de Esteban, mesmo quando deste amor nasce a neta que ele adora: Alba, uma beleza luminosa e uma mulher ardente e voluntariosa.
As paixões da família Trueba, as suas lutas e segredos desenvolvem-se ao longo de três gerações e de um século de violentas mudanças. Num contexto de revolução e contrarrevolução, a autora dá vida a uma família unida por laços de amor e ódio mais complexos e duradouros que as lealdades políticas que a poderiam separar.

De amor e de sombra


O segundo romance de Isabel Allende relata a apaixonada relação de duas personagens dispostas a arriscar tudo em nome da justiça e da verdade, num país onde as detenções arbitrárias e execuções sumárias são uma prática constante.
A jornalista Irene Beltrán provém de uma família burguesa, mas isso não impede Francisco Leal, um jovem fotógrafo e membro da resistência, de se apaixonar por ela. A partir de uma reportagem rotineira, um mundo estranho, oculto pelo discurso oficial, é-lhes revelado, fazendo-os sentir-se responsáveis perante os factos cruéis que se sucedem. É nas sombras do poder, do abuso e das injustiças que o amor de Irene e Francisco se aprofunda.

Eva Luna


Em Eva Luna, obra marcada por um profundo humanismo, Isabel Allende recupera o seu país através da memória e da imaginação. Eva, a cativante protagonista da narrativa, constitui um nostálgico alter ego da autora, pois também ela acredita que radica nas histórias o segredo da vida e do mundo. Filha da selva, do analfabetismo e da pobreza, Eva luta tenazmente por conquistar o seu espaço no mundo, sem nunca perder o encanto feminino.

Contos de Eva Luna


Se em Eva Luna Isabel Allende narra a vida aventureira de uma jovem latino-americana que encontra a amizade, o amor e o sucesso no mundo graças às suas qualidades como contadora de histórias, em Contos de Eva Luna, a autora volta a presentear-nos com um valioso tesouro. Nesta memorável coletânea de histórias, reencontramos várias das personagens já conhecidas dos leitores, como Rolf Carlé, o fotógrafo marcado pelos horrores da guerra, Riad Halabí, o árabe de coração compassivo, a professora Inês ou o Benfeitor.
Narrados com prodigiosa imaginação e ternura, estes contos confirmaram Isabel Allende como uma das escritoras mais admiradas em todo o mundo.

O plano infinito


Explorando pela primeira vez uma realidade distante do mundo sul-americano que lhe é tão familiar, Isabel Allende conduz-nos até à Califórnia da segunda metade do século XX, seguindo os passos de duas famílias: a do pregador Reeves que percorre o Oeste num velho camião, anunciando um Plano Infinito que justifica a existência humana; e a dos Morales, imigrantes mexicanos que vivem num bairro hispânico marcado pela violência.
Gregory Reeves, a personagem central do livro, cresce à sombra da pobreza e da negligência. Quando decide que o futuro só pode estar longe do bairro hispânico onde vive, e onde não passa de um “gringo”, parte em busca de algo melhor. O plano de que o seu pai tanto falava parece ser mais real do que Gregory gostaria de acreditar, e tudo acontece como se o destino estivesse traçado, sem que ele consiga evitar a sucessão de más decisões que afetam a sua vida.
Depois de um casamento falhado, da guerra do Vietname, da dor de perder um amigo e ver morrer tanta gente, Gregory regressa ao seu passado, sem aprender nada com os erros cometidos. Só mais tarde, quando é obrigado a enfrentar a realidade, começa a perceber que o seu destino depende apenas de si mesmo, e que o Plano Infinito pode afinal ainda estar em aberto.

Paula


Escrito para a sua filha que estava em coma devido a um ataque de porfiria. Como não sabia se a sua memória voltaria após a saída do coma, Isabel Allende resolveu contar a sua história para auxiliar a filha a lembrar-se dos factos. Paula passou por isso a ser considerado também um retrato autobiográfico da autora. Foi após a morte da filha que criou uma fundação que apoia mulheres no mundo todo, a Fundação Isabel Allende.

Afrodite


Um passeio deslumbrante por receitas, histórias, e dissertações que aliam gastronomia e sensualidade, onde os pratos, assim como o preparo dos mesmos, adquirem todo um contexto afrodisíaco.
Em Afrodite, Isabel Allende presenteia-nos com receitas que primam pela leveza e pelo equilíbrio entre aromas, sabores e texturas, como prefácio incisivo e determinante de um ritual de sedução. Mas mais do que isso, ou numa sintonia paralela, a autora conta-nos histórias, mostra-nos poemas, faz citações, compilando tudo num relato poético e bem-humorado, que nos contagia e nos desperta para a consciência da capacidade que possuímos em exacerbar toda a sensualidade que nos é latente, bastando para isso que, em nome do amor, saibamos recorrer às ferramentas que a conduzem.
Como a própria autora propõe: “apetite e sexo são os grandes motores da história, preservam e propagam a espécie, provocam guerras e canções, influenciam religiões, lei e arte. (...) Gula e luxúria, que tantas loucuras nos fazem cometer, têm a mesma origem: o instinto de sobrevivência”.

Filha da Fortuna


Eliza Sommers é uma jovem chilena que vive em Valparaíso em 1849, ano em que se descobre ouro na Califórnia. O seu amante, Joaquin Andieta, parte para o Norte decidido a fazer fortuna e ela decide segui-lo. A viagem infernal, escondida no porão de um veleiro, e a procura do amante numa terra de homens sós e de prostitutas, atraídos pela febre do ouro, transformam a jovem inocente numa mulher fora do comum. Eliza recebe ajuda e afeto de Tao Chi’en, um médico chinês que a amparará ao longo de uma viagem inesquecível pelos mistérios e contradições da condição humana.
Filha da Fortuna é o retrato palpitante de uma época marcada pela violência e pela cobiça, onde os protagonistas redescobrem o amor, a amizade, a compaixão e a coragem. Num romance ambicioso, Isabel Allende descobre um universo fascinante, povoado de estranhas personagens que, como tantas outras da autora, ficarão para sempre na memória e no coração dos leitores.

Retrato a sépia


Um romance histórico ambientado no Chile de finais de século XIX, Retrato a sépia é uma saga familiar onde reencontramos algumas das personagens de Filha da fortuna e de A casa dos espíritos.
Aurora del Valle sofre um trauma brutal que determina o seu caráter e apaga da sua mente os primeiros cinco anos de vida. Criada pela sua avó, Paulina del Valle, Aurora cresce num ambiente privilegiado, livre das limitações que oprimem as mulheres da sua época, mas atormentada por pesadelos horríveis. Quando tem de enfrentar a traição do homem que ama e a solidão, decide explorar o mistério do seu passado.
Obra de uma dimensão humana extraordinária, Retrato a sépia eleva a narrativa da autora ao auge da perfeição literária.

Trilogia As Memórias da Águia e do Jaguar

A Cidade dos Deuses Selvagens


Depois de a sua mãe adoecer, o jovem Alexander Cold parte com a extravagante avó Kate numa expedição da International Geographic à selva amazónica, em busca de um estranho animal que muito pouca gente viu e a que os indígenas chamam «a besta». Os outros membros da expedição dirigida por um petulante antropólogo são dois fotógrafos, uma bela médica, um guia brasileiro e a sua surpreendente filha Nadia, com quem Alexander trava uma amizade especial. Entre as missões da expedição está também a de vacinar os escorregadios índios, conhecidos como «o povo do nevoeiro».
Uma história emocionante, que alerta para os problemas ecológicos e para o drama terrível da extinção das tribos índias da região do Amazonas como consequência direta da exploração desenfreada e irresponsável praticada pelos brancos. A Cidade dos Deuses Selvagens é uma viagem repleta de perigos, maravilhosas experiências e espetaculares surpresas.

O Reino do Dragão de Ouro


A estátua do Dragão de Ouro permanece oculta num pequeno e misterioso reino encravado na Cordilheira dos Himalaias. Segundo reza a lenda, este magnífico objeto, um poderoso instrumento de adivinhação incrustado de pedras preciosas, guarda a paz destas terras. Uma paz que agora, devido à cobiça na alma dos homens, pode vir a ser perturbada.
Em O Reino do Dragão de Ouro, Isabel Allende convida-nos a entrar numa dupla aventura. Alexander Cold, a sua avó Kate e Nadia Santos, os protagonistas de A Cidade dos Deuses Selvagens, voltam a reunir-se. O leitor viverá com eles as suas peripécias e vicissitudes, na beleza nua e límpida das montanhas e vales dos Himalaias, agora na companhia de novos amigos.
Mas a escrita mágica da autora também desvela o valor e a simplicidade dos ensinamentos budistas através do lama Tensing, mestre e guia espiritual de Dil Bahadur, o jovem herdeiro do reino, a quem dá a conhecer os valores da compaixão, do respeito pela Natureza, da vida e da paz.

O Bosque dos Pigmeus


Depois da Amazónia e dos Himalaias - cenários dos primeiros livros da trilogia -, desta vez a aventura decorre em África, onde Nadia e Alexander acompanham a avó Kate em mais uma expedição da International Geographic. Uma série de peripécias e os ciúmes de um elefante vão animar a semana que o grupo passa num safari. Mas o aparecimento de um padre espanhol vai alterar completamente os planos de terminar a reportagem e voltar para a capital, arrastando todo o grupo para um bosque misterioso habitado por pigmeus. Aí, e seguindo o rasto de dois missionários desaparecidos, instalam-se numa aldeia governada pelo rei Kosongo, pelo comandante Mbembelé e pelo bruxo Sombe, um triunvirato assustador que escraviza os pigmeus e o seu próprio povo para enriquecer com o contrabando.
Em O Bosque dos Pigmeus, o livro que encerra a trilogia As Memórias da Águia e do Jaguar, Isabel Allende faz-nos descobrir novamente um mundo mágico e misterioso.

O meu país inventado


O amor pelo Chile e uma grande nostalgia são a origem deste livro. A presença contínua do passado, o sentimento de ver-se ausente da pátria, a melancolia por essa perda, a consciência de ter sido peregrina e forasteira: em O Meu País Inventado, Isabel Allende recolhe toda a emoção causada pelo seu afastamento e transmite-a com inteligência e humor. Analisado pelo olhar e pelas recordações da autora, o Chile torna-se um país real e simultaneamente fantástico, uma terra estoica e hospitaleira, de homens machistas e mulheres fortes, apegadas à terra. Mas, essencialmente, é o cenário da sua infância que aparece retratado: evocados com graça, aqui ganham vida de novo a sua original família, a casa dos avós, o cerimonial dos almoços, as histórias entrelaçadas, a do seu país e a sua própria, num tom intimista, de poética confissão autobiográfica.

Zorro, começa a lenda


Califórnia, ano de 1790: tem início uma aventura numa época fascinante e turbulenta, com personagens cativantes e de espírito indômito, e um homem de coração romântico e temperamento firme chamado... o Zorro. Isabel Allende lança mão de seu talento literário para narrar a história do maior e mais famoso herói de todos os tempos. Zorro: Começa a lenda é uma aventura sem igual, para leitores de todas as gerações. A autora resgata a figura do cavaleiro mascarado e, com ironia e sensibilidade, cria um personagem superior à própria lenda. Aventureiro, apaixonado, intrépido e brincalhão. É a trajetória do Zorro. E esta é a crónica de uma vida extraordinária em tempos excecionais: a de um nobre despojado da sua máscara. Um relato que começa no ano de 1790, em terras da Alta Califórnia, quando um jovem capitão espanhol se apaixona por uma índia de alma rebelde. Zorro é o retrato de personagens de carne e osso, com virtudes e fraquezas, sensíveis e impetuosas, que nos arrastam em suas aventuras através de uma época vibrante. Com a sua habitual maestria, Isabel Allende revela-nos a vida simples das missões espanholas na Califórnia no início do século XIX e a agitação nas ruas de uma Barcelona ocupada pelas tropas napoleónicas em plena Guerra da Independência; os ritos de iniciação das tribos indígenas e os mistérios para o acesso a uma sociedade secreta europeia; a espiritualidade de um código de honra sem fronteiras e as contradições da alma humana... Zorro: Começa a lenda, de Isabel Allende, é uma aventura como as de antigamente.

A ilha debaixo do mar


Zarité foi vendida aos 9 anos a um rico fazendeiro de Saint-Domingue. No entanto, não conheceu o esgotamento das plantações de cana nem a asfixia e o sofrimento dos moinhos, porque foi sempre uma escrava doméstica. A sua bondade natural, força de espírito e noção de honra permitiram-lhe partilhar os segredos e a espiritualidade que ajudavam os seus, os escravos, a sobreviver, e conhecer as misérias dos amos, os brancos. Isabel Allende dá voz a uma mulher lutadora que singrará na vida, apesar das partidas do destino. Zarité é uma heroína que, contra todas as adversidades, conseguirá abrir caminho para alcançar a liberdade.

O Caderno de Maya


"Sou Maya Vidal, dezanove anos, sexo feminino, solteira, sem namorado por falta de oportunidade e não por esquisitice, nascida em Berkeley, Califórnia, com passaporte americano, temporariamente refugiada numa ilha no sul do mundo. Chamaram-me Maya porque a minha Nini adora a Índia e não ocorreu outro nome aos meus pais, embora tenham tido nove meses para pensar no assunto. Em hindi, Maya significa feitiço, ilusão, sonho, o que não tem nada a ver com o meu caráter. Átila teria sido mais apropriado, pois onde ponho o pé a erva não volta a crescer."

Maya Vidal, americana de 19 anos, filha de um chileno e de uma dinamarquesa, criada com muito amor pelos avós paternos, Nini e Popo, num casarão em Berkeley. Com a morte do avô, a avó caiu numa depressão e Maya revoltou-se. Más companhias levam-na a cometer atos delinquentes, a conhecer as drogas e a promiscuidade, acabando num centro para menores. Fugiu desse centro em Oregon, foi para Las Vegas, onde acabou a trabalhar para um traficante de droga e falsificador de dinheiro, logo assassinado por dois dos seus “colaboradores”, Maya teve que fugir. Sua avó enviou-a para a ilha de Chiloé no Chile, para fugir dos traficantes. Na casa de Manuel Arias, descobriu-se a si mesma, o amor e o desamor, o misticismo do povo chileno, a história da sua família, além da história da ditadura no Chile, comandada pelo general Pinochet.

O Jogo de Ripper


Indiana e Amanda Jackson sempre se apoiaram uma à outra. No entanto, mãe e filha não poderiam ser mais diferentes. Indiana, terapeuta holística, valoriza a bondade e a liberdade de espírito. Há muito divorciada do pai de Amanda, resiste a comprometer-se em definitivo com qualquer um dos homens que a deseja: Alan, membro de uma família da elite de São Francisco, e Ryan, um enigmático ex-navyseal marcado pelos horrores da guerra.
Enquanto a mãe vê sempre o melhor nas pessoas, Amanda sente-se fascinada pelo lado obscuro da natureza humana. Brilhante e introvertida, a jovem é uma investigadora nata, viciada em livros policiais e em Ripper, um jogo de mistério online em que participa com outros adolescentes espalhados pelo mundo e com o avô, com quem mantém uma relação de estreita cumplicidade.
Quando uma série de crimes ocorre em São Francisco, os membros de Ripper encontram terreno para saírem das investigações virtuais, descobrindo, bem antes da polícia, a existência de uma ligação entre os crimes. No momento em que Indiana desaparece, o caso torna-se pessoal, e Amanda tentará deslindar o mistério antes que seja demasiado tarde.

O Amante Japonês


Em 1939, quando a Polónia capitula sob o jugo dos nazis, os pais da jovem Alma Belasco enviam-na para casa dos tios, uma opulenta mansão em São Francisco. Aí, Alma conhece Ichimei Fukuda, o filho do jardineiro japonês da casa. Entre os dois nasce um romance ingénuo, mas os jovens amantes são forçados a separar-se quando, na sequência do ataque a Pearl Harbor, Ichimei e a família - como milhares de outros nipo-americanos - são declarados inimigos e enviados para campos de internamento. Alma e Ichimei voltarão a encontrar-se ao longo dos anos, mas o seu amor permanece condenado aos olhos do mundo.
Décadas mais tarde, Alma prepara-se para se despedir de uma vida emocionante. Instala-se na Lark House, um excêntrico lar de idosos, onde conhece Irina Bazili, uma jovem funcionária com um passado igualmente turbulento. Irina torna-se amiga do neto de Alma, Seth, e juntos irão descobrir a verdade sobre uma paixão extraordinária que perdurou por quase setenta anos.
Em O amante japonês, Isabel Allende regressa ao estilo que tanto entusiasma o seu público, relatando de forma soberba uma história de amor que sobrevive às rugas do tempo e atravessa gerações e continentes.

Para lá do inverno


«No meio do inverno, aprendi por fim que havia em mim um verão invencível.»

Isabel Allende parte desta frase de Albert Camus para nos apresentar um conjunto de personagens próprios da América contemporânea que se encontram «no mais profundo inverno das suas vidas»: uma mulher chilena, uma jovem imigrante ilegal guatemalteca e um cauteloso professor universitário.
Os três sobrevivem a uma terrível tempestade de neve que se abate sobre Nova Iorque e acabam por perceber que para lá do inverno há espaço para o amor e para o verão invencível que a vida nos oferece quando menos se espera.
Para lá do inverno é um dos romances mais pessoais da autora: uma obra absolutamente atual que aborda a realidade da migração e a identidade da América de hoje através de personagens que encontram a esperança no amor e nas segundas oportunidades.



terça-feira, 17 de julho de 2018

Produção de Alimentos e Sustentabilidade


No âmbito da unidade Produção de Alimentos e Sustentabilidade da disciplina de Biologia do 12º ano, as turmas A e C realizaram uma pesquisa sobre técnicas de conservação e a informação recolhida foi organizada de forma a ser apresentada em póster.
Desde a Antiguidade que o Homem se preocupa e desenvolve métodos de rendibilizar a produção de alimentos. Esta preocupação é cada vez mais premente se tivermos em consideração a forma como a nossa espécie tem evoluído a nível demográfico. A necessidade de alimentos obriga a que, no mínimo, se desenvolvam técnicas eficazes de conservação dos mesmos.
Estes métodos evoluíram a par dos progressos do conhecimento científico e das aplicações tecnológicas e têm contribuído para: evitar perdas/desperdícios de alimentos; tornar a disponibilidade de alimentos independente da localização geográfica e da sazonalidade de produção; aumentar a adaptação a um novo estilo de vida urbano, rápido e distanciado dos locais de produção.







domingo, 1 de julho de 2018

Mia Couto - sugestões de leitura

(© Maria José Cabral)

Do catálogo da Biblioteca do Externato Cooperativo da Benedita, apresentamos as seguintes sugestões de leitura da obra do escritor moçambicano Mia Couto:

Raiz de orvalho e outros poemas


A edição portuguesa de Raiz de Orvalho e Outros Poemas reúne poemas com datas diversas, com um conjunto de novos poemas (todos da década de 80) e seleção de outros que faziam parte da edição moçambicana, publicada em Maputo, em 1983, com o título Raiz de Orvalho.
Segundo o próprio autor, alguns não resistiram ao tempo, noutros ele próprio não se reconhece já. Mas todos estes versos fazem parte do seu percurso. E daqui ele partiu para desvendar outros terrenos. Mas (e ainda segundo o próprio Mia), se sem esta escrita nunca teria experimentado outras dimensões da palavra, nós nunca poderíamos ter partilhado da beleza comovente das imagens, da música doce e profunda dos vocábulos, da palavra certa que só ele encontrou e que tantas vezes quisemos ser nós a dizer, das cores profundas e intensas das emoções. Esta é uma poesia única, de alegria, de desespero e de amor, de solidariedade e humildade, de qualidade rara, porque sentida e escrita e lida à flor da pele. Uma experiência enriquecedora para quem a partilha. Um privilégio para quem nela se fundir.

Vozes anoitecidas


Publicado pela primeira vez em 1986, Vozes anoitecidas projetou Mia Couto para o mundo. Conhecido até então por seu trabalho como jornalista e poeta, o autor - hoje tido como um dos mais influentes escritores da língua portuguesa - lançou aqui as bases daquela que viria a ser uma das principais características de sua obra ficcional: a reconstrução de laços entre registo oral e escrito.

Em doze pequenos contos, um rol de personagens esfarrapados e alheios ao palco principal dos acontecimentos narra, de seu ponto de vista marginal, histórias que flertam com o mágico e com o absurdo sem, no entanto, se desviarem completamente do plano factual.
Ao promover uma espécie de vertigem, sob efeito da qual não se pode afirmar se uma narrativa é absurda ou se absurda é a realidade de que ela trata, o autor apresenta a perplexidade como ponto de partida para o fazer literário.
Excerto:
"O que mais dói na miséria é a ignorância que ela tem de si mesma. Confrontados com a ausência de tudo, os homens abstêm-se do sonho, desarmando-se do desejo de serem outros. Existe no nada essa ilusão de plenitude que faz parar a vida e anoitecer as vozes. Estas estórias desadormeceram em mim sempre a partir de qualquer coisa acontecida de verdade mas que me foi contada como se tivesse ocorrido na outra margem do mundo. Na travessia dessa fronteira de sombra escutei vozes que vazaram o sol. Outras foram asas do meu voo de escrever. A umas e a outras dedico este desejo de contar e de inventar."

Cada homem é uma raça


Neste livro, que reúne onze contos, publicado originalmente em 1990, Mia Couto prova mais uma vez que é um escritor sobretudo generoso. Os indivíduos são sempre objeto de fascínio e a descrição das suas vidas não traz qualquer julgamento.
Com uma escrita poética inconfundível, que resulta num português com a melodia das línguas africanas, apresenta-nos um rico universo de vivências de figuras moçambicanas. Se no conto “A Rosa Caramela” acompanhamos os dissabores de uma mulher corcunda que enlouqueceu depois de ter sido abandonada ao pé do altar, em “A princesa russa” a situação é de uma estrangeira que se vê num país desconhecido e com um marido hostil, e se alia a um dos seus empregados nativos para sobreviver.
“A lenda da noiva e do forasteiro” e “O embondeiro que sonhava pássaros” são exemplos dos contos mágicos e exuberantes de Mia, ao passo que “O apocalipse privado do tio Geguê” e “Os mastros de Paralém” têm um cunho político mais claro.
Excerto:
Inquirido sobre a sua raça, respondeu:
— A minha raça sou eu, João Passarinheiro.
Convidado a explicar-se, acrescentou:
— Minha raça sou eu mesmo. A pessoa é uma humanidade individual. Cada homem é uma raça, senhor polícia.
(Extrato das declarações do vendedor de pássaros)

Estórias abensonhadas


Depois de Terra Sonâmbula estas estórias fazem regressar o imaginário moçambicano pela mão de Mia Couto. Reúnem-se aqui contos em que se inscreve o mesmo estilo e a mesma capacidade de sonhar já consagrados em obras anteriores.

São breves estórias em que Mia Couto capta o renascimento de um país em transição, depois da assinatura do Acordo de Paz que pôs fim à guerra civil que assolou Moçambique entre 1976 e 1992.
Em todas as estórias se reconhece o trabalho profundamente pessoal de recriação da linguagem, o aproveitamento literário da fala popular moçambicana e o pleno exercício da poesia. Numa prosa poética e carregada das tradições orais africanas, o autor tece pequenas fábulas e registos que, sem irromper em grandes acontecimentos, capturam os movimentos íntimos dessa passagem.

Contos do nascer da terra


A maior parte das histórias que compõem Contos do nascer da Terra foi publicada originalmente em jornais e revistas em 1996, e depois adaptada pelo escritor para este livro, que inclui também alguns contos inéditos. Ao todo são 35 histórias breves que se baseiam no quotidiano quase mágico de Moçambique e exploram a sonora linguagem do português africano, revelando na escrita a identidade de um povo e o domínio muito próprio da cultura e da criatividade literária.
Excerto do conto “A menina sem palavra”:
«Era uma vez uma menina que pediu ao pai que fosse apanhar a lua para ela. O pai meteu-se num barco e remou para longe. Quando chegou à dobra do horizonte pôs-se em bicos de sonhos para alcançar as alturas. Segurou o astro com as duas mãos, com mil cuidados. O planeta era leve como uma baloa. Quando ele puxou para arrancar aquele fruto do céu se escutou um rebentamundo. A lua se cintilhaçou em mil estrelinhações. O mar se encrispou, o barco se afundou, engolido num abismo. A praia se cobriu de prata, flocos de luar cobriram o areal. A menina se pôs a andar ao contrário em todas as direcções, para lá e para além, recolhendo os pedaços lunares.»

Na Berma de Nenhuma Estrada e Outros Contos


A reunião de um conjunto de 38 histórias, escolhidas pelo autor entre textos publicados em revistas e jornais portugueses e moçambicanos ao longo de vários anos.

São histórias de um universo mágico, onde o fantástico e o sobrenatural coexistem com o quotidiano, com personagens intensas e uma capacidade de efabulação extraordinária, que nos prendem e nos encantam.
A intensidade das personagens, a multiplicidade de registos em que as várias tramas ocorrem, o universo do fantástico e do sobrenatural coexistindo em perfeita sintonia com o dia-a-dia da tradição, da cultura e da vivência experienciadas, a capacidade de efabulação, a oralidade que emana da palavra escrita transformando-a em puro som, são portos a que acostamos e que nunca desvendamos por completo.
E donde emanam estas histórias? "Vêm da berma de nenhuma estrada. Quero inventar um sítio onde me invente a mim, um sítio onde tudo seja possível outra vez, onde a palavra possa ter essa dimensão mágica. É desse não lugar que surge a escrita, mas ele pertence a um lugar meu, que é Moçambique, a minha infância." (Mia Couto, em entrevista ao portal ajanela.com)

Cronicando


Neste livro reúnem-se crónicas com que o escritor moçambicano colaborou com a imprensa de Moçambique durante os dois últimos anos da década de 80. Este conjunto de textos mereceu o Prémio Anual de Jornalismo Areosa Pena, atribuído pela Organização dos Jornalistas Moçambicanos em 1989.
Mais do que crónicas, estes textos são pequenos contos condensados de forma a se enquadrarem no espaço dos jornais a que se destinavam. Aos textos inseridos nos jornais de Moçambique, o autor acrescentou outros inéditos. Uns e outros estão profundamente marcados pela arte de recriar a língua portuguesa que caracteriza toda a escrita deste autor africano.

Pensageiro frequente



Originalmente concebidos como artigos para a revista Índico, das Linhas Aéreas de Moçambique, estes 26 textos ganham autonomia e atuam como breves mas indeléveis peças literárias. “Textos ligeiros, cujo destinatário não é exatamente um leitor «típico», mas um passageiro que pretende vencer o tempo e, tantas vezes, o medo. [… o meu desejo foi ] fazer com que o meu país voasse pelos dedos do viajante, numa visita às múltiplas identidades que coexistem numa única nação.”
O autor diz que a bordo de um avião torna-se um pensageiro, ou seja, um passageiro que apesar de frequente continua a sentir o mesmo medo a cada viagem. Para entreter o medo põe-se a escrever. Estas crónicas surgem na sequência de alguns desses voos e foram feitas a pensar no passageiro que entre fusos horários procura uma distração.

Terra Sonâmbula


Primeiro romance de Mia Couto, Terra Sonâmbula é uma verdadeira aula sobre a velha arte de contar histórias. No Moçambique pós-independência, mergulhado em uma devastadora guerra civil, um velho e um menino empreendem uma viagem recheada de fantasias míticas numa camioneta incendiada numa estrada poeirenta que serve de abrigo ao velho Tuahir e ao menino Muidinga, em fuga da guerra civil devastadora que alastra por todo o lado em Moçambique.
O veículo está cheio de corpos carbonizados. Mas há também um outro corpo à beira da estrada, junto a uma mala que abriga os "cadernos de Kindzu", o longo diário do morto em questão. A partir daí, duas histórias são narradas paralelamente: a viagem de Tuahir e Muidinga e, em flashback, o percurso de Kindzu em busca dos “naparamas”, guerreiros tradicionais, abençoados pelos feiticeiros, que são, aos olhos do garoto, a única esperança contra os senhores da guerra.
Ao explorar os efeitos devastadores da guerra civil pelo olhar de um negro de uma aldeia, Kindzu, que fala a língua portuguesa, Mia Couto revela que o colonialismo não desapareceu com a obtenção da independência e que a persistência da relação colonial afeta ainda os espíritos dos moçambicanos.
Terra Sonâmbula é um romance em abismo, escrito numa prosa poética em que Mia Couto se vale também de recursos do realismo mágico e da arte narrativa tradicional africana para compor esta fábula, que nos ensina que sonhar, mesmo nas condições mais adversas, é um elemento indispensável para se continuar vivendo.
Em 2006, este romance foi adaptado ao cinema pela realizadora Teresa Prata, numa co-produção Filmes de Fundo e ZDF/ARTE, com rodagem em Portugal/ Moçambique/ França/ Alemanha
O filme recebeu os seguintes prémios:
International Film Festival Kerala, Índia (2008) – Prémio FIPRESCI
Pune International Film Festival, Índia (2008) – Melhor Realização
FAMAFEST, Portugal (2008) – Prémio da Lusofonia
Asian, African and Latin American Film Festival, Milão (2008) – Prémio SIGNIS
Indie Lisboa, Portugal (2008) – Prémio do público e menção honrosa da Amnistia Internacional
Festival Internacional de Cinema de Bursa, Turquia (2008) – Melhor Argumento


A Varanda do Frangipani


A narrativa de A Varanda do Frangipani decorre na Fortaleza de S. Nicolau, algures em Moçambique, vinte anos após a Independência, depois dos acordos de paz de 1992. A fortaleza há muito que deixou de ser reduto de defesa e ocupação estrangeira para se transformar num asilo de velhos. A trama policial, as reflexões sobre a guerra e sobre a paz, o Universo mágico, a riqueza de personagens, aliados a uma narrativa pujante e amadurecida, fazem deste livro uma das mais belas obras de Mia Couto.
O romance é narrado pelo carpinteiro Ermelindo Mucanga, que morreu às vésperas da Independência, quando trabalhava nas obras de restauro da Fortaleza de S. Nicolau. Ele é um "xipoco", um fantasma que vive numa cova sob a árvore de frangipani na varanda da fortaleza colonial.
As autoridades do país querem transformar Mucanga em herói nacional, mas ele pretende, ao contrário, morrer definitivamente. Para tanto, precisa "remorrer". Então, seguindo conselho de seu pangolim (uma espécie de tamanduá africano), encarna no inspetor de polícia Izidine Naíta, que está a caminho da Fortaleza para investigar a morte do diretor.
Mais de vinte anos depois da independência de Moçambique, quando a guerra civil já arrefeceu, a Fortaleza é um lugar em que convergem heranças, memórias e contradições de um país novo e ao mesmo tempo profundamente ligado às tradições e aos mitos ancestrais. Da sua varanda pode-se enxergar o horizonte. Este romance de Mia Couto esboça, assim, uma saída utópica para um país em reconstrução.

Mar me quer


“Lançamos o barco, sonhamos a viagem: quem viaja é sempre o mar.”

Uma história de três gerações de uma família narrada em oito curtos capítulos. Cada um deles é introduzido por um dos “ditos” do avô Celestiano, muitos deles supostamente baseados em provérbios da nação macua, uma das etnias mais antigas, ao norte de Moçambique. Aqui encontramos crenças e vivências de gentes moçambicanas que vivem no litoral de Moçambique e usam o mar para lhe roubarem o peixe que os alimenta. E é com o mar que se estabelecem relações de vida e de morte, é o mar que determina esse desenrolar de (a)casos fulcrais para as personagens.
Excerto:
“Um dia o padre Nunes me falou de Luarmina, seus brumosos passados. O pai era um grego, um desses pescadores que arrumou rede em costas de Moçambique, do lado de lá da baía de S. Vicente. Já se antigamentara há muito. A mãe morreu pouco tempo depois. Dizem que de desgosto. Não devido da viuvez, mas por causa da beleza da filha. Ao que parece, Luarmina endoidava os homens graúdos que abutreavam em redor da casa. A senhora maldizia a perfeição de sua filha. Diz-se que, enlouquecida, certa noite intentou de golpear o rosto de Luarmina. Só para a esfeiar e, assim, afastar os candidatos. Depois da morte da mãe, enviaram Luarmina para o lado de cá, para ela se amoldar na Missão, entregue a reza e crucifixo. Havia que arrumar a moça por fora, engomá-la por dentro. E foi assim que ela se dedicou a linhas, agulhas e dedais. Até se transferir para sua atual moradia, nos arredores de minha existência.”


Vinte e zinco


“Vinte e cinco é para vocês que vivem em bairros de cimento
para nós, negros pobres que vivemos
na madeira e zinco, o nosso dia
ainda está para vir.”
(Jessumina, a adivinhadora)

Este livro surgiu de uma iniciativa da Editorial Caminho para assinalar o 25º Aniversário do 25 de Abril. Entre personagens fantásticas que povoam este livro, Mia Couto conta-nos como foi o 25 de abril vivido em Moçambique através de uma espécie de diário dos últimos dias de um agente da PIDE e da sua família. Uma viagem entre fantasmas e medos dos que viviam na «casa grande» e os que viviam sob os telhados de zinco.

O último voo do flamingo


Tizangara, primeiros anos do pós-guerra. Nesta vila tudo parecia correr bem. Os capacetes azuis já haviam chegado para vigiarem o processo de paz, e o dia a dia da população corria numa aparente normalidade. Mas por razões que quase todos desconheciam, esses mesmos capacetes azuis começaram, de súbito, a explodir. Massimo Risi, o soldado italiano das Nações Unidas destacado para investigar estas estranhas explosões, chega a Tizangara. Colocam-lhe um tradutor à disposição, e é através do relato deste que tomamos conhecimento dos factos. Entramos num mundo de vivos e de mortos, de realidade e de fantasia, de feitiços e de sobrenatural. A verdade e a ficção passam por nós em personagens densamente construídas, de que o feiticeiro Andorinho, a prostituta Ana Deusqueira, o padre Muhando, o administrador Estêvão Jonas e a sua mulher Ermelinda, a velha-moça Temporina, o velho Sulplício, são apenas alguns exemplos... O mistério adensa-se. Os soldados da paz morreram ou foram mortos?

Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra


O estudante universitário Marianinho volta à ilha de Luar-do-Chão depois de anos de ausência. O seu retorno é um imperativo: ele fora incumbido de comandar as cerimónias fúnebres do avô Dito Mariano, de quem recebera o mesmo nome. Neto favorito do patriarca, o rapaz chega à ilha e vê-se no centro de uma série de intrigas e de segredos familiares, que envolvem o seu pai, Fulano Malta, a avó Dulcineusa, os tios Abstinêncio, Ultímio e Admirança, e também as nebulosas circunstâncias em torno da morte da sua mãe, Mariavilhosa.
Aos poucos, Marianinho percebe que voltou à ilha para um renascimento. Enquanto aguarda pela cerimónia, ele é testemunha de estranhas visitações na forma de pessoas e de cartas que lhe chegam do outro lado do mundo e descobre que o falecimento do avô permanece estranhamente incompleto e esconde desígnios que escapam à força dos homens - como tudo nessa enigmática Luar-do Chão, onde um rio armazena a memória dos espíritos e a terra sofre com feitiços arcaicos e modernos. São revelações de um universo dominado por uma espiritualidade que ele vai reaprendendo. À medida que se apercebe desse universo frágil e ameaçado, ele redescobre uma outra história para a sua própria vida e para a da sua terra. A sua tarefa é encontrar uma forma de levar adiante uma história que, além de pessoal e familiar, na África pós-colonial é também política e de destino humano. Trata-se de um momento de passagem, crucial para o protagonista e para o seu lugar de origem. Luar-do-Chão encontra-se num estado de abandono, decadência e miséria. Trata-se também de um impasse cultural, religioso e político, que guarda correspondência com a situação social da África de hoje.

Em 2005, o realizador português José Carlos de Oliveira dirigiu e produziu a adaptação cinematográfica deste romance. Com argumento de António Cabrita, José Carlos de Oliveira e Luís Carlos Patraquim, o filme recebe o título “Um Rio”.


Venenos de Deus, remédios do diabo


O jovem médico português Sidónio Rosa, perdido de amores pela mulata moçambicana Deolinda, que conheceu em Lisboa num congresso médico, deslocou-se como cooperante para Moçambique em busca da sua amada. Em Vila Cacimba, onde encontra os pais dela, espera pacientemente que ela regresse do estágio que está a frequentar algures. Mas regressará ela algum dia?
Entretanto vão-se-lhe revelando, por entre a névoa que a cobre, os segredos e mistérios, as histórias não contadas de Vila Cacimba, um lugarejo imerso em poeira e cacimbas (neblinas) enganadoras. Aqui encontramos a família de Deolinda: o pai, Bartolomeu Sozinho, é um velho mecânico naval moçambicano, aposentado do trabalho, mas não dos sonhos ardentes e dos pesadelos ressentidos que elabora no seu escuro quarto de doente terminal. A narrativa entrelaça a vida de Bartolomeu, da sua rancorosa mulher, Munda, da ausente e quase mitológica Deolinda, e ainda de Suacelência, o suarento e corrupto administrador de Vila Cacimba, e sua Esposinha, a misteriosa mensageira do vestido cinzento espalhando as flores do esquecimento. São vidas feitas de mentiras e ilusões que tornam difícil diferenciar o sonho da realidade.

Jesusalém

"A vida é demasiado preciosa para ser esbanjada num mundo desencantado."

Jesusalém é a história de Mwanito, o menino. Um menino em África, terra de guerra, solidão e encanto. Jesusalém é também a terra sem tempo inventada por Silvestre Vitalício, pai de Mwanito que, fugido da cidade, procura a libertação numa antiga propriedade colonial. Junto com eles segue Ntunzi, o irmão mais velho e Zacarias, o antigo soldado que combateu do lado errado de todas as guerras.
Vitalício foge da cidade mas também da vida, da culpa e do tempo. Jesusalém seria a terra sem tempo nem dono, onde a solidão resgataria todas as mágoas. Ali, onde não há mulheres nem mundo, tudo é batizado de novo e só Vitalício decide o que ali acontece. De preferência, procura que nada aconteça porque só o vazio faria sentido. O vazio e o silêncio.
O papel central do romance é assumido por Mwanito, o “afinador de silêncios”. Sobre isto, afirmou Mia Couto na apresentação da obra: “Em África, os silêncios são parte da conversa. O silêncio é uma outra maneira da palavra viver e há coisas que não podem ser ditas de outra maneira”. Mwanito personifica a paz, a única paz que Vitalício encontra e, ao mesmo tempo, a sua única ligação ao passado.
No entanto, não é possível fugir ao tempo nem ao mundo; é nesse aspeto que Jesusalém é uma história desencantada, onde a escrita poética e belíssima de Mia Couto encontra terreno fértil. A literatura ao lado do sofrimento, sem o qual não consegue viver.

A confissão da leoa


Um acontecimento real - as sucessivas mortes de pessoas provocadas por ataques de leões numa remota região do norte de Moçambique - é pretexto para Mia Couto escrever este surpreendente romance. Não tanto sobre leões e caçadas, mas sobre homens e mulheres vivendo em condições extremas.
A confissão da leoa, através da versão de Mariamar, habitante da aldeia de Kulumani, e do diário de Arcanjo Baleeiro, o caçador contratado para matar os leões, vai expondo diante dos nossos olhos como a guerra, a fome, a superstição, podem transformar os homens em animais selvagens.