Trabalho
realizado por alunos do 11º B sobre o Doping Sanguíneo.
https://prezi.com/p/g7iqh1poduxz/
quinta-feira, 17 de janeiro de 2019
Mutações Génicas e Cromossómicas
Vídeo realizado por um grupo de alunas do 11.º B sobre
Mutações Génicas e Cromossómicas
Parte I
https://www.powtoon.com/online-presentation/fNvzew99abU/untitled
Parte II
https://www.powtoon.com/online-presentation/cpbP08xCan1/untitled-4
terça-feira, 1 de janeiro de 2019
Eugénio de Andrade - autor do mês de janeiro
"Eu nem
sequer gosto de escrever. Acontece-me às vezes estar tão desesperado que me
refugio no papel como quem se esconde para chorar. E o mais estranho é arrancar
da minha angústia palavras de profunda reconciliação com a vida."
Rosto Precário
Nasceu
a 19 de janeiro de 1923, em Póvoa de Atalaia, pequena aldeia da Beira Baixa. Filho
de camponeses, deram-lhe o nome de José Fontinhas. Após a separação dos pais,
viveu com a mãe em Castelo Branco, mudando-se em 1932 para Lisboa, onde
frequentou o Liceu Passos Manuel e a Escola Técnica Machado de Castro. Em 1936
começou a escrever os primeiros poemas. Em 1938, enviou alguns desses poemas ao
escritor António Botto que o incentivou a publicar: em 1940, aparecia assim Narciso, o seu primeiro livro de poesia,
assinado ainda com o seu verdadeiro nome, que mais tarde viria a rejeitar. No segundo
livro, Adolescente, publicado em
1942, é como Eugénio de Andrade que se dá a conhecer.
Depois
de prestar serviço militar em Coimbra, onde conviveu com Miguel Torga e Eduardo
Lourenço (foi Eduardo Lourenço quem disse que a poesia de Eugénio de Andrade
era a “primeira poesia da poesia da nossa literatura”), regressou a Lisboa, em
1947, passando a exercer funções de inspetor administrativo do Ministério da Saúde.
Em
1948 publicou As Mãos e os Frutos, livro
que o consagrou e mereceu os aplausos de críticos como Jorge de Sena ou
Vitorino Nemésio.
Em
1950 foi transferido para o Porto, cidade onde viverá até ao fim da vida,
sempre distanciado da vida social, literária ou mundana, justificando as suas
raras aparições públicas com «essa debilidade do coração que é a amizade».
Publicou
mais de vinte livros de poesia, obras em prosa, antologias, livros infantis e
traduziu poetas como Federico García Lorca, Jorge Luís Borges, René Char ou a poetisa
grega clássica Safo, entre outros.
Eugénio
de Andrade foi elemento da Academia Mallarmé (Paris) e membro fundador da
Academia Internacional "Mihail Eminescu" (Roménia).
Manteve
sempre uma postura de independência relativamente aos vários movimentos
literários com que a sua obra coexistiu ao longo de mais de cinquenta anos de
atividade poética.
O prestígio
nacional e internacional granjeou-lhe diversas distinções e prémios, entre os
quais, o Grau de Grande-Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada (1982),
o Prémio da Associação Internacional de Críticos Literários (1986), o Prémio D.
Dinis da Fundação Casa Mateus (1988), o Grande Prémio da Poesia da Associação
Portuguesa de Escritores (1989), o Prémio Europeu de Poesia da Comunidade de
Varchatz (República da Sérvia, 1996), a Grã-Cruz da Ordem do Mérito (1989) e o
Prémio Camões (2001).
Em
maio de 2001, recebeu o primeiro prémio de poesia "Celso Emilio
Ferreiro" atribuído em Orense, na Galiza. Ainda em maio de 2001, foi
homenageado na Universidade de Bordéus por altura da realização do
"Carrefour des Littératures", tendo sido considerado um dos mais
importantes escritores do século XX. Em 2003, com a obra Os Sulcos da Sede, recebeu o Prémio de Poesia do Pen Clube Português.
Em
1991, foi criada no Porto a Fundação Eugénio de Andrade, extinta em 2011. Para
além de ter servido de residência ao poeta, esta instituição teve como
principais objetivos o estudo e a divulgação da obra do autor assim como a
organização de diversos eventos como lançamentos de livros, recitais e
encontros de poesia.
Eugénio
de Andrade faleceu em Porto, a 13 de junho de 2005, após uma doença neurológica
prolongada. Encontra-se enterrado no Cemitério do Prado do Repouso, no Porto. A
sua campa é rasa em mármore branco, desenhada pelo arquiteto amigo Siza Vieira,
com versos do seu livro As Mãos e os
Frutos gravados.
Obra
(*) Disponível na Biblioteca do ECB
Poesia
Narciso,
José Fontinhas. Lisboa: ed. do Autor, 1940.
Adolescente,
1942.
Pureza,
1945.
As
Mãos e os Frutos, 1948, 21ª edição, 2000.
Os
Amantes sem Dinheiro, 1950, 16ª edição, 2000.
As
Palavras Interditas, 1951, 13ª edição, 2002.
Até
Amanhã, 1956, 13ª edição, 2002.
Coração
do Dia, 1958, 12ª edição, 1994.
Mar
de Setembro, 1961, 12ª edição, 1994.
Ostinato
Rigore, 1964, 11ª edição, 1997.
Obscuro
Domínio, 1971, 8ª edição, 2000.
O
Inverno
Véspera
de Água, 1973, 6ª edição, Limiar, 1990.
Escrita
da Terra, 1974, 7ª edição, 2002.
Homenagens
e outros Epitáfios, 1974, 8ª edição, 1993.
Limiar
dos pássaros, 1976, 7ª edição, 1994.
Primeiros
Poemas, 1977, 10ª edição, 2000.
Memória
Doutro Rio, 1978, 4ª edição, Limiar, 1985.
Matéria
Solar, 1980, 5ª edição, 2000. (*)
O
Peso da Sombra, 1982, 3ª edição, Limiar, 1989.
Branco
no Branco, 1984, 5ª edição, 19.
Vertentes
do Olhar, 1987, 5ª edição, 2003.
O
Outro Nome da Terra, 1988, 2ª edição, Limiar, 1989.
Contra
a Obscuridade, 1988, 5ª edição, 1993.
Rente
ao Dizer, 1992, 4ª edição, 2002.
Ofício
de Paciência, 1994, 2ª edição, 2000.
O
Sal da Língua, 1995, 4ª edição, Associação Portuguesa de Escritores, 2001.
Pequeno
Formato, 1997, 2ª edição, 1997.
Os
Lugares do Lume, 1998, 2ª edição, 1998.
Os
Sulcos da Sede, 2001, 3ª edição, 2002.
Antologias poéticas
Antologia
[1945-1961], Delfos, 1961.
Poemas
(1945-1966), 3ª edição, 1971.
Poesia
e prosa (1940-1979), 2 vol., 1980. (*)
Poesia
e prosa (1940-1980), 1981; 2a ed. e aumentada.
Poesia
e prosa (1940-1986). Lisboa: Círculo de Leitores, 1987, 3 vol.
Poesia
e Prosa (1940-1989), 4ª edição, O Jornal/Limiar, 1990.
Poemas
de Eugénio de Andrade, select., est. e notas de Arnaldo Saraiva, Nova
Fronteira, Rio de Janeiro, 1999.
Poesia,
2000.
Prosa
Os
afluentes do silêncio. Porto: Inova, 1968.
Rosto
precário. Porto: Limiar, 1979. (*)
À
sombra da memória. Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 1993.
Antologias
Daqui
Houve Nome Portugal, 1968, 4ª edição, Edições Asa, 2000.
Memórias
da Alegria, 1971, 2ª edição, Campo das Letras, 1996.
Antologia
Breve, 1972, 7ª edição, 1999.
A
Cidade de Garrett, 1993, 3ª edição, 1997.
Fernando
Pessoa, Poesias Escolhidas, 1995, 6ª edição, Campo das Letras, 2001.
Versos
e Alguma Prosa de Luís de Camões, 1972, 5ª edição, Campo das Letras, 1996.
Erros
de Passagem, seleção e prefácio, 1982, 3ª edição, Campo das Letras, 1998.
Antologia
Pessoal da Poesia Portuguesa, 1999, 7ª edição, Campo das Letras, 2002. (*)
Sonetos
de Luís de Camões, Assírio & Alvim, 2000.
Poemas
Portugueses para a Juventude, Edições Asa, 2002.
Literatura Infantil
História
de égua branca. Porto: Asa, 1976. Com ilustrações de Manuela Bacelar.
Aquela
Nuvem e Outras, 1986, 10ª edição, Campo das Letras, 2002.
Tradução
Poemas
de García Lorca, 1946, 5ª edição, 2000.
Cartas
Portuguesas, 1969, 9ª edição, Assírio & Alvim, 1998.
Poemas
e Fragmentos de Safo, 1974, 5ª edição, 1995.
Trocar
de Rosa, 1980, 5ª edição, 1995.
sábado, 1 de dezembro de 2018
Alves Redol - Autor do mês de dezembro
"Este romance [Gaibéus] não pretende ficar na literatura como obra de arte.
Quer ser, antes de tudo, um documentário humano fixado no Ribatejo.
Depois disso, será o que os outros entenderem."
Quer ser, antes de tudo, um documentário humano fixado no Ribatejo.
Depois disso, será o que os outros entenderem."
A
29 de dezembro de 1911, nasce em Vila Franca de Xira o romancista e dramaturgo
português Alves Redol.
Filho
de um pequeno comerciante ribatejano, desde muito novo conhece o mundo dos
jornaleiros que trabalhavam nas lezírias durante as mondas (os “gaibéus”) e dos
pescadores da sua região.
Sonhando
ser escritor e jornalista, começou a escrever aos 12 anos num dos jornais do
Colégio Arriaga, em Lisboa, onde frequentava o curso comercial. Com 14 anos, envia
os primeiros textos para um jornal de Vila Franca, apresentando as suas
impressões sobre as precárias condições de vida do homem rural, tema que o
acompanhará ao longo da sua obra. Aos 15 anos, após concluir o curso comercial,
começa a trabalhar como vendedor de mercearias e, mais tarde, de tecidos.
Em
1928, parte para Angola, onde desembarcou “com
50$00, uma garrafa de vinho do Porto na mão e a experiência de uma viagem com
emigrantes de 3ª classe e condenados por crimes na militança” (in Gaibéus, Breve memória, na edição de 1965). Arranja emprego como
empregado de escritório, complementando o salário curto com aulas numa escola
noturna. A pobreza e uma doença obrigam-no a regressar à Metrópole (“Quando voltei de Luanda, vinha mais para a
morte do que para a vida. Pagava a peita de três anos com uma anemia palustre,
regressando na mesma classe em que abalara. Fui sempre até aí passageiro de 3ª”
- in Gaibéus, op.cit.).
Em
Vila Franca de Xira, continua a colaborar no jornal de Vila Franca e participa
de forma ativa na vida social do concelho, mobilizando muita gente das classes
trabalhadoras para as atividades do Grémio Artístico Vilafranquense – onde, em
1934, realiza a sua primeira palestra sobre a colonização portuguesa em África,
“Terra de pretos, ambição de brancos”.
Também
na Associação de Classe dos Operários da Construção Civil Alves Redol dá aulas
de aperfeiçoamento profissional para os seus membros e na coletividade Sport
Lisboa e Vila Franca, que aponta para uma cultura das classes laboriosas, profere
e organiza aulas noturnas de alfabetização, conferências e palestras, atento e
identificado com o Povo (“O meu coração
colocara-se com veemência ao lado do povo”, in Gaibéus, op.cit.). A polícia política encerra esta coletividade,
por considerar que nela se tomava consciência das injustiças da sociedade.
Em
1932 publica a sua primeira novela, Drama
na Selva, n’ “O Notícias Ilustrado”, de Lisboa. Colabora também com o
jornal vilafranquense “Mensagem do Ribatejo” onde dirige, em 1939, uma página
literária.
Gaibéus, um dos seus primeiros romances (1939),
é considerado um dos textos literários fundadores do neorrealismo, corrente
artística surgida em meados do século XX com um caráter ideológico marcadamente
de esquerda/marxista, que teve ramificações em várias formas de arte
(literatura, pintura, música, cinema), tomando os seus autores posição na luta
de classes, denunciando as desigualdades sociais e o que consideram as
injustiças da condição operária e camponesa.
Em
Gaibéus, “um romance antiassunto, ou, melhor, anti-história, sem personagens
principais, […] o tema nasce no coletivo de um rancho de ceifeiros migradores […].
O trabalho produtivo, a exploração descarnada do homem pelo homem, tomados nos
seus aspetos mais crus, na lâmina viva do dia a dia, dominam o livro“ (in Gaibéus, op.cit.). Alves Redol assim
inicia o ciclo de ficção temática ribatejana de camponeses e pescadores da
borda d’água, continuado em romances como Marés,
Avieiros ou Fanga.
Alves
Redol sempre se envolveu na luta de resistência ao regime salazarista. Nos anos
trinta, insere-se na luta antifascista clandestina, mantendo a colaboração em
jornais de relevo na luta anti Estado Novo, como “O Diabo” ou “Sol Nascente”. Compreendia
a literatura como uma forma de intervenção social e trazia para o universo da
ficção personagens, temas e situações ignorados pela literatura, o que lhe
valeu alguns conflitos com a censura (é obrigado a submeter os originais a
censura prévia), a vigilância por parte da PIDE (esteve preso várias vezes),
bem como o ataque dos críticos e a aversão de algum público. Talvez por isso,
na epígrafe de Gaibéus, o próprio
Redol afirma "Este romance não
pretende ficar na literatura como obra de arte. Quer ser, antes de tudo, um
documentário humano fixado no Ribatejo. Depois disso, será o que os outros
entenderem".
Em
Novembro de 1945, entra para a Comissão Central do Movimento de Unidade
Democrática (M.U.D.), participando ativamente nas campanhas da oposição
democrática aquando da realização de “eleições” promovidas pelo regime (e
anunciadas pelo próprio Salazar como “livres como na livre Inglaterra”).
Escritor
de importância internacional, foi traduzido em várias línguas. Pelo romance Horizonte Cerrado, primeiro volume de
uma trilogia sobre os vinhateiros do Douro, recebe, em 1950, o Prémio Ricardo
Malheiros, atribuído pela Academia das Ciências de Lisboa.
Em
1961 publica o que é considerado pela crítica o seu melhor romance: Barranco de Cegos.
Alves
Redol também escreveu para a infância, como os livros da série Maria Flor, o romance A Vida Mágica da Sementinha ou Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos, que é considerado um
dos seus mais belos livros, tendo como protagonista Constantino, um pequeno
amigo que ele vê crescer no Freixial, e que, enquanto guarda as vacas, sonha em
ser serralheiro de navios e fazer um barco que o leve até Lisboa.
Alves
Redol morreu a 29 de Novembro de 1969, em Lisboa.
[fonte bibliográfica:
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/EFEMERIDES/AlvesRedol/BiogARedol.pdf, biografia que “é a única que é
certificada pela família, não tendo os erros que muitas outras, mesmo da
responsabilidade de investigadores de mérito, têm”.]
Obras
(*) constam do catálogo da Biblioteca
do ECB
Romances
Gaibéus
(1939) (*)
Marés
(1941) (*)
Avieiros
(1942) (*)
Fanga
(1943)
Anúncio
(1945)
Porto
Manso (1946) (*)
Ciclo
Port-Wine:
Horizonte Cerrado (1949) (*)
Os Homens e as Sombras (1951) (*)
Vindima de Sangue (1953) (*)
Olhos
de Água (1954) (*)
A
Barca dos Sete Lemes (1958) (*)
Uma
Fenda na Muralha (1959) (*)
Cavalo
Espantado (1960) (*)
Barranco
de Cegos (1961) (*)
O
Muro Branco (1966) (*)
Os
Reinegros (1972) (*)
Teatro
Maria
Emília (1945)
Forja
(1948)
O
Destino Morreu de Repente (1967)
Fronteira
Fechada (1972) (*)
Contos
Nasci
Com Passaporte de Turista (1940)
Espólio
(1943)
Comboio
das Seis (1946)
Noite
Esquecida (1959)
Constantino,
Guardador de Vacas e de Sonhos (1962) (*)
Histórias
Afluentes (1963) (*)
Três
Contos de Dentes Para o Ofício 4001 (1968)
Literatura
infantil para quem gosta de imaginar que está dentro destas histórias
Vida
Mágica da Sementinha (1956) (*)
Ciclo
A Flor:
A Flor Vai Ver o Mar (1968)
A Flor Vai Pescar Num Bote (1968)
Uma Flor Chamada Maria (1969)
Maria Flor Abre o Livro das
Surpresas (1970)
Estudos
Glória:
Uma Aldeia do Ribatejo (1938)
A
França: Da Resistência à Renascença (1949)
Cancioneiro
do Ribatejo (1950)
Ribatejo
(Em Portugal Maravilhoso) (1952)
Romanceiro
Geral do Povo Português (1964)
Conferência
Le
Roman de Tage (Edição da Union Française Universitaire, Paris) (1946)
quarta-feira, 14 de novembro de 2018
Recordar Amadeo de Souza-Cardoso no centenário da sua morte
“Nada é absoluto em pintura. Aquilo
que era uma verdade para os pintores de ontem, é uma mentira para os de hoje.”
(em
entrevista a O Dia, 4 de dezembro de
1916)
Nascido
em Manhufe, paróquia de Mancelos, concelho de Amarante, em 14 de novembro de
1887, Amadeo de Souza-Cardoso foi um dos maiores pintores portugueses, a quem
se deve a grande rotura no panorama da história das artes plásticas no nosso
país. Entre 1906 e 1914 viveu em Paris, cidade onde começou a sua carreira de pintor e foi amigo de grandes nomes das vanguardas europeias. Com a sua irreverência, trouxe a modernidade para Portugal quando, em
1914, regressou de Paris para fugir ao drama da I Guerra Mundial. Morreu prematuramente, aos 30 anos, no dia 25 de outubro de 1918, vítima da epidemia de gripe espanhola (ou pneumónica) que deflagrara nesse ano.
A
vida de Amadeo, tão curta, mas tão intensa, acompanha as grandes transformações
que ocorrem entre finais do século XIX e inícios do século XX: dos ecos da
Revolução Industrial às invenções tecnológicas como a lâmpada elétrica incandescente,
o automóvel ou o telefone; dos novos conhecimentos científicos nas áreas das
ciências naturais ou da medicina à teoria da relatividade restrita de Einstein
ou à Psicanálise de Freud, é todo um mundo de possibilidades em aberto que se
apresentam e ao qual as artes plásticas não ficam indiferentes.
Contra
o ensino académico, naturalista e realista, defendendo a libertação da sujeição
ao real e a independência do artista face ao gosto do público, as vanguardas
modernistas vão-se afirmando, mesmo que nem sempre compreendidas e aceites. O
início do século XX será o tempo do Fauvismo, do Expressionismo, do Cubismo, do
Abstracionismo, do Futurismo, do Dadaísmo e do Surrealismo.
Em
Paris, para onde vai viver em 1906 para frequentar o curso de arquitetura
(depois de em Lisboa ter frequentado um curso de desenho na Real Academia de
Belas-Artes), Amadeo de Souza-Cardoso encontra-se com diversos artistas
portugueses que aí se tinham instalado, como os pintores Guilherme Santa-Rita (conhecido como Santa-Rita Pintor),
Manuel Bentes, Emerico Nunes, Eduardo Viana ou o escultor Diogo Macedo, desistindo
do curso de arquitetura para tentar a carreira de caricaturista ou artista
plástico. É também em Paris que conhece o casal Robert e Sonia Delaunay,
Constantin Brancusi e Amedeo Modigliani, entre outros artistas de vanguarda.
Em 1911, inaugura no seu ateliê de Paris uma exposição conjunta com Modigliani, recebendo as visitas de Picasso, Apollinaire e André Derain, e participa pela primeira vez numa exposição de âmbito internacional, o XXVII Salão dos Independentes de Munique.
Em 1911, inaugura no seu ateliê de Paris uma exposição conjunta com Modigliani, recebendo as visitas de Picasso, Apollinaire e André Derain, e participa pela primeira vez numa exposição de âmbito internacional, o XXVII Salão dos Independentes de Munique.
Os Galgos, 1911
Les cavaliers, 1912
1913
é um dos anos mais profícuos da sua carreira e é também o ano da sua
internacionalização. Convidado a apresentar a sua obra no Armory Show
(International Exhibition of Modern Art, que
mostraria pela primeira vez, nas cidades de Nova Iorque, Chicago e Boston, a moderna arte europeia nos Estados Unidos da América, com obras de artistas ligados ao impressionismo, expressionismo, fauvismo e cubismo), aí
participa entre fevereiro e maio com 8 quadros, sendo, entre os 300 artistas
representados, um dos 10 que mais obras venderam. Ainda no mesmo ano, entre
setembro e novembro, participa com 3 obras no Primeiro Salão Alemão de Outono.
Autorretrato, 1913
Autorretrato, 1913
Cozinha de Manhufe, 1913
Dame, menina dos cravos, 1913
Procissão
Corpus Christi, 1913
Barcos, 1913
Em 1914, entre junho e julho, expõe em Londres, no Salão da Allied Artist’s Association. Um mês depois, a Primeira Guerra Mundial apanha-o em Portugal, onde tinha vindo para se casar com Lucie Pecetto. Impossibilitados de regressar a Paris, instalam-se na Casa do Ribeiro, em Manhufe.
Lucie Pecetto
Sobreposição de imagens de Amadeo e Lucie. Manhufe (Amarante, Portugal). 1915.
Em
1915, o pintor russo Kasimir Malevitch “inventa” o Suprematismo, expondo as suas obras
na Primeira Exposição Futurista «Carro Elétrico V», em Sampetersburgo, das
quais a que mais impressiona o meio artístico é Quadrado Negro sobre Fundo Branco.
Kasimir Malevitch, Quadrado Negro sobre Fundo Branco
É com este pintor que Amadeo
de Souza-Cardoso se começa a identificar: ambos têm em comum o objetivo de
criar uma arte que seja universal. No entanto, nem
Malevitch esquece as suas raízes culturais russas, nem Amadeo se afasta das
suas próprias, mais atlânticas. A Máscara
do Olho Verde, de 1915, insere-se num conjunto de máscaras primitivas que
Amadeo vai buscar às suas referências lusitanas (as antigas máscaras de lata ou
madeira da tradição transmontana, nomeadamente os «caretos»), recriando de
forma pessoal a sua ideia de máscara, na qual podemos encontrar influências do
cubismo ou do expressionismo, mas sem ser uma coisa nem outra.
A Máscara do Olho Verde, 1915
A
I Guerra Mundial trouxe também para Portugal o casal Sonia e Robert Delaunay,
instalados em Vila do Conde no final do verão de 1915, acompanhados de Eduardo
Viana, igualmente regressado do Paris. Os Delaunay, Amadeo e Viana vão formar a
cooperativa Corporation Nouvelle (a que se juntará Almada Negreiros).
Robert Delaunay, Mulher Portuguesa, 1916
Sonia Delaunay, Mercado no Minho, 1915
Através de Almada,
Amadeo entra em contacto com o grupo dos “Futuristas” lisboetas, reunidos
inicialmente em torno da revista Orpheu, na qual estava previsto colaborar no número 3 (que nunca chegou a ser publicado), envolvendo-se mais tarde noutros projetos editoriais de Almada Negreiros, como a revista Portugal Futurista, publicando trabalhos ou encarregando-se da edição gráfica do folheto satírico,
estilo futurista K4. O quadrado azul, inspirado numa obra de Eduardo Viana.
Será Almada Negreiros que, em dezembro de 1916, publica um manifesto em defesa da pintura de Amadeo, considerando-o «a primeira descoberta de Portugal na Europa no século XX».
Em setembro de 1918, Amadeo de Souza-Cardoso vai para a casa da família em Espinho, numa tentativa de fugir à epidemia de gripe espanhola (pneumónica) que grassava na Europa e tinha já feito algumas mortes em Amarante.
No dia 25 de outubro de 1918, poucos dias depois de uma irmã, Amadeo morre em Espinho, vítima da pneumónica que tanto temia (no total, estima-se que cerca de 20 milhões de pessoas tenham sucumbido em toda a Europa).
Da obra de Amadeo de Souza-Cardoso pode dizer-se que:
Capa do folheto
Eduardo Viana, K4 Quadrado Azul, 1916
(fonte de inspiração de Almada para o folheto satírico com o mesmo nome)
Será Almada Negreiros que, em dezembro de 1916, publica um manifesto em defesa da pintura de Amadeo, considerando-o «a primeira descoberta de Portugal na Europa no século XX».
Canção popular A Russa
e o Fígaro, 1916
Coty, 1917
Sem título, 1917
No dia 25 de outubro de 1918, poucos dias depois de uma irmã, Amadeo morre em Espinho, vítima da pneumónica que tanto temia (no total, estima-se que cerca de 20 milhões de pessoas tenham sucumbido em toda a Europa).
Da obra de Amadeo de Souza-Cardoso pode dizer-se que:
- Pintou reinterpretando e reinventando a realidade;
- Geometrizou as formas, usou cores vibrantes, decompôs as imagens à maneira cubista, pintou círculos de cor, máscaras de influência etnográfica;
- Usou colagens, areia, pasta de óleo, inseriu letras;
- Estilhaçou e decompôs a imagem em múltiplas partes;
- Morreu demasiado cedo…
As mortes prematuras
de Mário de Sá-Carneiro, em 1916, e de Amadeo de Souza-Cardoso e Santa-Rita Pintor
em 1918 puseram fim a um primeiro modernismo em Portugal. Almada Negreiros dirá
que com eles desapareceu o “fogo sagrado”. Será o mesmo Almada que, juntamente
com Eduardo Viana, procurará continuar a herança.
No Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulkbenkian, em Lisboa, encontra-se a maior parte da obra de Amadeo de Souza-Cardoso exposta em Portugal .
Fontes bibliográficas:
Amadeo de Souza-Cardoso. Fotobiografia. Catálogo Raisonné. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. 2007
Belém, Margarida Cunha e Ramalho, Margarida Magalhães - Fotobiografia de Amadeo de Souza-Cardoso. Lisboa: Temas e Debates. 2009
quinta-feira, 1 de novembro de 2018
Dia do Pão por Deus
História do Dia de Pão por Deus
Segundo a tradição, no dia 1 de novembro repartia-se pão cozido pelos
pobres que batiam às portas a pedir “Pão por Deus”. A origem deste peditório está
associada ao antigo costume de oferecer pão, bolos, vinho e outros alimentos
aos defuntos. Quem pedia à porta era encarado como a alma do morto a errar pelo
mundo e a pedir. O Pão de Deus é assim uma oferta às almas que partiram.
Em
Portugal, era costume, nos últimos dias do mês de Outubro e até ao dia 1 de
Novembro, Dia de Todos os Santos, as crianças saírem à rua e, sozinhas ou em
pequenos grupos, andarem de porta em porta de saco na mão a pedir o Pão por Deus
(ou o bolinho ou "santorinho"), ao mesmo tempo que recitavam versos e
recebendo como ofertas pão, broas, bolos, romãs e frutos secos, nozes,
tremoços, amêndoas ou castanhas que colocavam dentro dos seus sacos de pano, de
retalhos ou de borlas. Em algumas povoações da zona centro e Estremadura
chama-se ainda a este dia o ‘Dia dos Bolinhos’ ou ‘Dia do Bolinho’. Os bolinhos
típicos são especialmente confecionados para este dia, sendo à base de farinha
e erva-doce com mel (noutros locais leva batata doce e abóbora) e frutos secos
como passas e nozes.
Nos
últimos anos, têm surgido ameaças à continuidade desta tradição, em particular
nas vilas e cidades, com a progressiva substituição do “Pão por Deus” pelo
“Halloween”, festa importada da cultura norte-americana, mas com semelhanças com a tradição nacional, como por exemplo o peditório de guloseimas que as crianças
realizam pelas casas da sua comunidade ou as expressões que utilizam. No “Pão
por Deus”, se não recebem nada, as crianças podem responder com versos como os
seguintes: “Esta casa cheira a alho! Aqui
mora um espantalho!” ou “Esta casa
cheira a unto! Aqui mora algum defunto!”. Pelo contrário, se recebem
guloseimas, respondem com versos como este: “Esta
casa cheira a broa! Aqui mora gente boa!”.
"A progressiva implantação do
Halloween em Portugal constitui um exemplo de ameaça ou risco à continuidade do
“Pão-por-Deus” como manifestação do Património Imaterial português. Em primeiro
lugar, substitui os versos tradicionais, manifestações da tradição oral da
comunidade, por expressões orais originárias do Inglês (“Doçura ou travessura!”
/ “Trick or treat!”). Em segundo lugar, introduz neste peditório cerimonial
infantil o uso de máscaras e fatos muito semelhantes às
usadas no Carnaval, mas que tradicionalmente eram totalmente ausentes do
“Pão-por-Deus”. Finalmente, e como bem expressam as alterações do nome da
tradição, da forma e conteúdo da tradição oral, e também o tipo de máscaras que
passaram a ser utilizadas pelas crianças, a introdução do “Halloween” eliminou
por completo as conotações religiosas muito presentes na antiga tradição do
“Pão-por-Deus”."
In: http://www.matrizpci.dgpc.pt/MatrizPCI.Web/Download/Kit/KIT_Ficha%2002_Tradi%C3%A7%C3%B5es%20Festivas.pdf
Alguns versos tradicionais:
Bolinhos e bolinhós
Para mim e para vós,
Para dar aos finados
Que estão mortos e enterrados
À bela, bela cruz
Truz, Truz!
A senhora que está lá
dentro
Sentada num banquinho
Faz favor de
s'alevantar
Para vir
dar um tostãozinho.
Se recebem doces:
Esta casa cheira a
broa,
Aqui mora gente boa.
Esta casa cheira a
vinho,
Aqui mora um santinho.
Se não recebem doces:
Esta casa cheira a
alho
Aqui mora um
espantalho.
Esta casa cheira a
unto,
Aqui mora algum defunto.
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