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segunda-feira, 1 de abril de 2019

Fernando Namora - autor do mês de abril



No mês em que se comemora o centenário do seu nascimento, prestamos homenagem a um dos grandes nomes da literatura portuguesa.

Romancista, ensaísta, poeta, pintor e também médico, Fernando Namora nasceu em Condeixa-a-Nova, no dia 15 de abril de 1919, e morreu em Lisboa, a 31 de Janeiro de 1989.
Fez a escola primária em Condeixa, iniciou o liceu em Coimbra, terminado depois em Lisboa, no Liceu Camões, a Coimbra voltaria para ingressar no curso de Medicina.
O seu volume de estreia foi Relevos, livro de poesia, a que se seguiu o romance As Sete Partidas do Mundo, ambos publicados em 1938, ainda estudante de Medicina na Universidade de Coimbra (curso que terminaria em 1942). Com As Sete Partidas do Mundo viria a ser receber o Prémio Almeida Garrett, no mesmo ano em que recebe o Prémio Mestre António Augusto Gonçalves, de artes plásticas - na categoria de pintura.
Ainda estudante e com outros companheiros de tertúlia em Coimbra, fundou a revista Altitude e envolveu-se no projeto do Novo Cancioneiro, coleção poética de 10 volumes que se inicia com o seu livro-poema Terra (1941), assinalando o advento do neorrealismo, ponto de viragem na literatura portuguesa.
Em 1943, o romance Fogo na Noite Escura é publicado na coleção dos Novos Prosadores, pela Coimbra Editora, coleção que reunirá romances como Casa na Duna, de Carlos de Oliveira, Onde Tudo Foi Morrendo, de Vergílio Ferreira, Nevoeiro, de Mário Braga ou O Dia Cinzento, de Mário Dionísio, entre outros.
O exercício da profissão médica, primeiro na sua terra natal, depois na Beira Baixa (em Tinalhas, concelho de Castelo Branco, e Monsanto, concelho de Idanha-a-Nova) e no Alentejo (Pavia), e, a partir de 1951, em Lisboa, como médico assistente do Instituto Português de Oncologia, reflete-se em muitos dos textos que escreveu: com uma grande capacidade de análise social e psicológica, Fernando Namora apresenta-nos retratos com aspetos de picaresco, observações naturalistas e existencialistas.

A sua obra pode ser dividida e sistematizada em fases distintas de criação literária:
(1) o ciclo de juventude, principalmente enquanto estudante em Coimbra, coincidente com o livro-poema Terra e o romance Fogo na Noite Escura;
(2) o ciclo rural, entre 1943 e 1950, representado pelas novelas Casa da Malta e Minas de San Francisco, ou pelos romances A Noite e a Madrugada, O Trigo e o Joio e ainda Retalhos da Vida de um Médico;
(3) o ciclo urbano, coincidente com a sua vinda para Lisboa, marcado pela solidão e vivências do quotidiano, e que se terá refletido nos romances O Homem Disfarçado, Cidade Solitária ou Domingo à Tarde;
(4) o ciclo cosmopolita, entre finais dos anos 60 e durante a década de 70, explicado pelas muitas viagens que fez;
(5) o ciclo final, entre a ficção contemporânea, onde se inserem os romances O Rio Triste ou Resposta a Matilde, e as reflexões íntimas de Jornal sem Data.

Várias das obras de Fernando Namora foram adaptadas ao cinema ou para televisão, tais como Retalhos da Vida de um Médico, talvez uma das suas obras mais conhecidas e a primeira a ser adaptada ao cinema, pelo realizador Jorge Brum do Canto (em 1962), seguindo-se a série televisiva, dirigida por Artur Ramos e Jaime Silva (1979-1980). O Trigo e o Joio foi adaptado para o cinema em 1965, por Manuel Guimarães. Domingo à Tarde foi realizado por António de Macedo em 1965 e contou com atores como Isabel de Castro, Ruy de Carvalho e Isabel Ruth. Em 1975, surge Fernando Namora – Vida e Obra, realizado por Sérgio Ferreira. A Noite e a Madrugada deve a sua realização a Artur Ramos, em 1985. Resposta a Matilde, de 1986, foi adaptado a televisão por Dinis Machado e Artur Ramos, com a participação de Raúl Solnado e Rogério Paulo. Em 1990, Vítor Silva realiza a curta-metragem O Rapaz do Tambor.

Fernando Namora morreu em Lisboa, no dia 31 de Janeiro de 1989. Foi sepultado no Talhão dos Artistas do Cemitério dos Prazeres, em Lisboa.

Obras
(*) incluídas no catálogo da Biblioteca do ECB

As Sete Partidas do Mundo, romance, 1938 (*)
Terra, romance, 1941
Fogo na Noite Escura, romance, 1943 (*)
Casa da Malta, romance, 1945 (*)
Minas de San Francisco, romance, 1946 (*)
Retalhos da Vida de um Médico, narrativas / primeira série, 1949 (*)
A Noite e a Madrugada, romance, 1950 (*)
Deuses e Demónios da Medicina, biografias romanceadas, 1952 (*)
O Trigo e o Joio, romance, 1954 (*)
O Homem Disfarçado, romance, 1957 (*)
Cidade Solitária, narrativas1959 (*)
As Frias Madrugadas, poesia / antologia1959 (*)
Domingo à Tarde, romance1961 (*)
Retalhos da Vida de um Médico, narrativas / segunda série1963 (*)
Diálogo em Setembro, crónica romanceada1966 (*)
Um Sino na Montanha, cadernos de um escritor1968 (*)
Marketing, poesia1969 (*)
Os Adoradores do Sol, cadernos de um escritor1971 (*)
Os Clandestinos, romance1972 (*)
Estamos no Vento, narrativa literário-sociológica1974 (*)
A Nave de Pedra, cadernos de um escritor1975 (*)
Cavalgada Cinzenta, narrativa1977 (*)
Encontros, entrevistas1979 (*)
Resposta a Matilde, divertimento1980 (*)
O Rio Triste, romance1982 
Nome para uma Casa, poesia1984
URSS mal amada, bem amada, crónica1986
Sentados na Relva, cadernos de um escritor1986
Jornal sem Data, cadernos de um escritor1988

Prémios e honras
Prémio Ricardo Malheiros (1953)
Medalha de Ouro da "Societé d'Encouragement au Progrés" (1979)
Grande Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada (1979)
Prémio D. Dinis (1982)
Casa-Museu de Fernando Namora, em Condeixa



A casa-museu de Fernando Namora, em Condeixa (a casa onde nasceu, inaugurada em 1990), sublinha as três facetas de Namora: o escritor, simbolizado no seu escritório, a sua poltrona de pele, a secretária e a máquina de escrever, ídolos e amigos na parede (Jorge Amado) e prémios literários, condecorações, primeiras edições e dedicatórias. Mas também o médico e o pintor







Em Monsanto, a casa onde exerceu atividade como médico municipal




quinta-feira, 14 de março de 2019

Dia Internacional do Pi


Hoje é o dia internacional do pi! 14 de março às 1:59:26.
Foi precisamente a esta hora, mas em 1988 que pela primeira vez se comemorou o Dia de Pi, no Exploratorium de São Francisco.
14 de março é também o dia de nascimento de Albert Einstein (em 1879).

Algumas ligações úteis sobre este dia:


A vida infinita do pi - Reynaldo Lopes

sexta-feira, 1 de março de 2019

Autor do mês de março - Gabriel García Marquéz



E então a escrita tornou-se tão fluída que eu às vezes me sentia como se estivesse a escrever pelo simples prazer de contar uma história, que pode bem ser a condição humana que mais se assemelha à levitação.
Gabriel José García Márquez nasceu em Aracataca, Colômbia, no dia 6 de março de 1927 e morreu a 17 de abril de 2014, na Cidade do México. Prémio Nobel da Literatura em 1982, é sem dúvida um dos autores mais importantes do século XX, com mais de 40 milhões de livros vendidos em 36 idiomas. Foi o maior representante do que ficou conhecido como realismo mágico, uma escola literária surgida no início do século XX e considerada a resposta latino-americana à literatura fantástica europeia.
Na infância foi deixado ao cuidado dos seus avós maternos, Nicolás Márquez, coronel na reserva, e Tranquilina Iguarán, apaixonada pelas tradições orais indígenas. Um e outro hão de ser forte influência em toda a sua obra literária.

Gabriel García Márquez (Gabo para os amigos) refere na sua biografia que foi aos 17 anos que decidiu tornar-se escritor, após ler A Metamorfose, de Kafka, cuja escrita e enredo lhe faziam lembrar as histórias que a sua avó contava. Ao ler a primeira frase do livro, "Certa manhã, ao acordar após sonhos agitados, Gregor Samsa  viu-se na sua cama metamorfoseado num monstruoso inseto", pensou "então eu posso fazer isso com as personagens? Criar situações impossíveis?"

Em 1947, publicou o primeiro conto, La Hojarasca (A revoada, em português), no mesmo ano em que começava o curso de Direito na Universidade de Bogotá, curso que abandonou, transferindo-se para a Universidade de Cartagena, onde recebeu preparação académica em Jornalismo. Em 1948, começou a escrever como jornalista e correspondente internacional, profissão que continuou a desempenhar ao longo da vida.

Em 1955, publicou o seu primeiro livro, uma coletânea de contos que já haviam aparecido em publicações periódicas, e que levou o título do mais famoso, A revoada.


Ainda em 1955, publicou Relato de um náufrago, que conta a história verídica do naufrágio de Luis Alejandro Velasco, publicado inicialmente em edições semanais no jornal "El Espectador", e mais tarde em formato de livro, sem que o autor soubesse.



Em 1961, publicou Ninguém escreve ao coronel, obra que, embora tenha representado um grande avanço no sentido de alcançar o domínio estrutural do romance, ainda não prenunciava o modo maravilhoso que iria surgir nos seus romances futuros.


Ainda em 1962, publica outro romance, O veneno da madrugada, além de um volume de contos, Os funerais da Mamã Grande.




“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que o seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e, para mencioná-las, era preciso apontar com o dedo.”

Assim começa Cem Anos de Solidão, a obra que, publicada em 1967, haveria de catapultar Gabriel García Márquez para o reconhecimento internacional.

(capa da 1ª edição)

Este romance, considerado a segunda obra mais importante de toda a literatura hispânica, ficando apenas atrás de Dom Quixote de la Mancha, é ainda hoje um marco da literatura latino-americana e exemplo maior do "realismo fantástico ou mágico". Aqui encontramos a história da família Buendía-Iguarán com os seus “milagres, fantasias, obsessões, tragédias, incestos, adultérios, rebeldias, descobertas e condenações”, que são a representação ao mesmo tempo do mito e da história, da tragédia e do amor do mundo inteiro, na cidade fictícia de Macondo, desde a sua fundação pela família Buendía até à sétima geração.
A primeira geração da família é formada por José Arcadio Buendía e Úrsula Iguarán. Este casal teve três filhos: José Arcadio, um rapaz forte, viril e trabalhador; Aureliano, que contrasta interiormente com o irmão mais velho no sentido em que era filosófico, calmo e terrivelmente introvertido; e por fim, Amaranta, a típica dona de casa de uma família de classe média do século XIX. Na família surge ainda Rebeca, uma filha adotiva.
A história desenrola-se à volta desta geração e dos seus filhos, netos, bisnetos e trinetos, com a particularidade de que todas as gerações foram acompanhadas por Úrsula (que viveu entre 115 e 122 anos). Esta personagem dará conta do facto de as características físicas e psicológicas dos seus herdeiros estarem associadas a um nome: todos os José Arcadio são impulsivos, extrovertidos e trabalhadores, enquanto os Aurelianos são pacatos, estudiosos e muito fechados no seu próprio mundo interior. Os Aurelianos terão ao longo do livro a missão de desvendar os misteriosos pergaminhos de Melquíades, o Cigano, que foi amigo de José Arcadio Buendía. Estes pergaminhos encerram em si a história dramática da família e apenas serão decifradas quando o último da estirpe estiver às portas da morte.

(25ª edição em Portugal)

Ao sucesso de Cem Anos de Solidão, seguiu-se a publicação de um outro volume de contos, A incrível e triste história da Cândida Erêndira e da sua avó desalmada (1972).


Depois de anos sem publicar nenhum romance, García Márquez escreveu aquele que considerou o seu maior logro literário, O outono do patriarca (1975), livro que relata a história de um ditador sul-americano, que vive a situação absurda e solitária do "poder total".


Em 1981, publica novo romance, Crónica de uma morte anunciada, baseado na trágica história de Santiago Nasar, assassinado em frente à sua casa, em consequência da violação de um código de honra, depois de a sua morte ter sido anunciada a toda a cidade, sem que o próprio soubesse.


O seu último grande livro foi O amor nos tempos de cólera, publicado em 1985, após ter sido laureado com o prémio Nobel de Literatura, em 1982. Este livro, que Gabo considerava o seu melhor romance e aquele que mais gostou de escrever, narra a história do amor de Florentino Ariza por Fermina Daza, a história de um amor obsessivo, nos moldes do amor romântico.

“Cinquenta anos, nove meses e quatro dias é o tempo que Florentino Ariza espera para conquistar a sua amada. ”

Durante a narrativa, a Colômbia está a ser flagelada por um surto de cólera, doença que não poupou ricos nem pobres. O amor romântico aparece assim associado a uma peste, a cólera: Florentino Ariza, que está loucamente apaixonado por Fermina, tem sintomas que são confundidos com os da cólera: vómitos, diarreia e febre.


Em 2002, após lhe ter sido diagnosticado um tumor no sistema linfático, publicou a sua autobiografia Viver para contá-la.

Em abril de 2009, Gabriel García Márquez declarou que não pretendia escrever mais livros, notícia confirmada em 2012, quando o seu irmão, Jaime García Márquez, anunciou que lhe fora diagnosticada uma demência e que, embora estivesse em bom estado físico, havia perdido a memória e não voltaria a escrever.
Gabriel García Márquez morreu em 17 de abril de 2014, na Cidade do México, vítima de uma pneumonia, pouco mais de um mês após completar 87 anos.
Não é verdade que as pessoas param de perseguir os sonhos porque estão a ficar velhas, elas estão a ficar velhas porque pararam de perseguir os sonhos.


OBRAS
(*) constam do catálogo da Biblioteca do ECB

A Revoada (1955) (*)
Relato de um náufrago (1955) (*)
Em Viagem pela Europa de Leste (1959)
Ninguém escreve ao coronel (1961) (*)
Os funerais da mamã grande (1962) (*)
A sesta de terça-feira (1962)
A hora má: o veneno da madrugada (1962) (*)
Cem anos de solidão (1967) (*)
A última viagem do navio fantasma (1968)
Um senhor muito velho com umas asas enormes (1968)
A incrível e triste história de Cândida Eréndira e da sua avó desalmada (1972)
Olhos de cão azul (1972) (*)
O outono do Patriarca (1975) (*)
Maria dos prazeres (1979)
Crónica de uma morte anunciada (1981) (*)
Textos Caribenhos (1948-1952) - Obra Jornalística - Volume 1 (1981)
Textos Andinos (1954-1955) - Obra Jornalística - Volume 2 (1982)
O aroma da goiaba (1982) (Conversas de Plinio Apuleyo de Mendoza com Gabriel García Márquez) (*)
Da Europa e da América - (1955-1960) - Obra Jornalística - Volume 3 (1983)
Reportagens Políticas (1974-1995) - Obra Jornalística - Volume 4 (1984)
O Amor nos tempos de cólera (1985) (*)
O verão feliz da senhora Forbes (1986)
A aventura de Miguel Littín Clandestino no Chile (1986) (*)
O general no seu labirinto (1989) (*)
Crónicas (1961-1984) - Obra Jornalística - Volume 5 (1991)
Entre amigos (1990)
Doze contos peregrinos (1992) (*)
Do amor e outros demónios (1994) (*)
Notícia de um Sequestro (1996)
Como contar um conto (1998)
Viver para contar (2002)
Memória das minhas putas tristes (2004) (*)
Eu não vim fazer um discurso (2010)

PRÉMIOS
Prémio de Novela ESSO por "A hora má: o veneno da madrugada" (1961)
Doutor Honoris Causa da Universidade de Columbia em Nova Iorque (1971)
Prémio Latino-Americano de Romance Rómulo Gallegos por “Cem anos de solidão” (1972)
Prémio Internacional Neustadt de Lietratura (1972)
Medalha da Legião Francesa em Paris (1981)
Condecoração Águila Azteca no México (1982)
Nobel de Literatura (1982)
Prémio quarenta anos do Círculo jornalístico de Bogotá (1985)
Membro honorário do Instituto Caro y Cuervo em Bogotá (1993)
Doutor Honoris Causa da Universidade de Cádiz (1994)


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

1936 - O ano da morte de Ricardo Reis



Ricardo Reis nasceu no Porto, no dia 19 de setembro de 1887, estudou num colégio de jesuítas, formou-se em medicina e, por ser monárquico, expatriou-se espontaneamente em 1919, indo viver para o Brasil. Na sua biografia não consta a sua morte, no entanto, no seu livro O Ano da Morte de Ricardo Reis, José Saramago situou-a em 1936.

1936 é o ano em que o ambiente internacional se começou a degradar. A Grande Depressão e consequentes dificuldades económicas e sociais favorecem a irradiação do fascismo na Europa, ao mesmo tempo que se assiste à formação de governos de coligação de partidos de esquerda, como é o caso das Frentes Populares em Espanha e em França. A eclosão da Guerra Civil Espanhola será um prenúncio da II Guerra Mundial.

Os alunos do 12º D partiram destas primeiras ideias e pesquisaram sobre o que aconteceu no ano de 1936: da estreia do filme "Tempos Modernos", de Charlie Chaplin, à criação do Voskswagen na Alemanha de Hitler; da publicação do livro "E tudo o vento levou", da escritora norte-americana Margaret Mitchell, à viagem inaugural do zepelim Hiddenburg (que a 7 de setembro sobrevoou Lisboa); do assassinato de Federico García Lorca à remilitarização da Renânia pela Alemanha, muitos foram os acontecimentos que marcaram 1936, além dos que aparecem referidos na obra de Saramago: a fundação da Mocidade e da Legião Portuguesa, a conquista da Etiópia por Mussolini ou os Jogos Olímpicos de Berlim.

Da pesquisa efetuada pelos alunos nasceu uma Exposição de cartazes que pode ser visitada durante o mês de fevereiro na Biblioteca do ECB.


"Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo"
Ricardo Reis







“… as notícias que estavam a vir de Espanha, sobre as eleições […], a direita tinha ganho em dezassete províncias, mas, contados os votos todos, viu-se que a esquerda elegera mais deputados que o centro e a direita juntos…” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, pp. 148-149)




“… duzentos e cinquenta mil soldados alemães estão prontos a ocupar a Renânia e […] uma força militar alemã penetrou há poucos dias em território checoslovaco…” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 142)

“… por estes dias denunciou a Alemanha o pacto de Lucarno e ocupou a zona renana” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 198)




“Agora o que vamos ter de mais certo é virem por aí abaixo outros tantos franceses, que já a esquerda de lá ganhou as eleições, e o socialista Blum declarou-se pronto a constituir governo de Frente Popular…” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 291)




“O mundo, como destas amostras se pode concluir, não promete soberbas felicidades, agora foi Alcalá Zamora destituído da presidência da República e logo começou a correr o boato de que haverá um movimento popular em Espanha, se tal coisa lá fizerem, tristes dias estão guardados para muita gente.” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 253)

“[…] Ricardo Reis deve ter sido o último habitante de Lisboa a saber que se dera um golpe militar em Espanha. […] O exército espanhol, guardião das virtudes da raça e da tradição, ia falar com a voz das suas armas, expulsaria os vendilhões do templo, restauraria o altar da pátria, restituiria à Espanha a imorredoira grandeza que alguns degenerados filhos haviam feito decair. […] O levantamento começou no Marrocos espanhol e […] é seu principal chefe o general Franco.” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, pp. 363-364)





“Porventura com vistas a essa aprendizagem se decretou a criação da Mocidade Portuguesa que, lá para Outubro, quando iniciar a sério os seus trabalhos, abrangerá, logo de entrada, cerca de duzentos mil rapazes, flor ou nata da nossa juventude, da qual […] há-de sair a elite que nos governará depois …” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 355)




“… considere-se o exemplo dos italianos, que […] lá vão ganhando a sua guerra, ainda há poucos dias bombardearam a cidade de Harrar, voaram até lá os aviões e reduziram tudo a cinzas…” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 253)

“As tropas de Badoglio preparam-se para retomar o avanço sobre Addis-Abeba…” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 278)

“E terminou a guerra da Etiópia. Disse-o Mussolini do alto da varanda do palácio, Anuncio ao povo italiano e ao mundo que acabou a guerra, e a esta voz poderosa as multidões de Roma, de Nápoles, da Itália inteira, milhões de bocas, todos gritaram o nome do Duce […]” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 292)






“Como amostra do que virá a ser a nossa juventude patriótica, irão a Berlim, já fardados, os representantes da MP, […] e assistirão aos Jogos Olímpicos, onde, escusado será dizê-lo, causarão impressão magnífica, estes belos e aprumados moços, orgulho da lusitana raça…“ (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 355)




“Viu ontem o balão, Qual balão, O zepelim, passou mesmo por cima do hotel, o gigantesco, adasmatórico dirigível, Graf Zeppelin, de nome e título do seu construtor, conde Zeppelin, general e aeronauta alemão, ei-lo a sobrevoar a cidade de Lisboa […] tão grande, […] e aquela cruz que leva atrás, Chamam-lhe gamada, ou suástica, […] o dirigível é alemão, e a suástica é hoje o emblema da Alemanha…” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 278)

“[…] enquanto os ingleses protestam contra a passagem do dirigível Hindemburgo sobre fábricas e pontos estratégicos britânicos, o que se vai dizendo é que tudo parece indicar que a incorporação da Cidade Livre de Danzig no território alemão não virá longe.” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 361)





“… lidos foram e tornados a ler estes dessangrados jornais de Lisboa, desde as notícias da primeira página, Eduardo VIII será o novo rei de Inglaterra…” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 119)



Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo

Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo,
E ao beber nem recorda
Que já bebeu na vida,
Para quem tudo é novo
E imarcescível sempre.

Coroem-no pâmpanos. ou heras. ou rosas volúveis,
Ele sabe que a vida
Passa por ele e tanto
Corta a flor como a ele
De Átropos a tesoura.

Mas ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto,
Que o seu sabor orgíaco
Apague o gosto às horas,
Como a uma voz chorando
O passar das bacantes.

E ele espera, contente quase e bebedor tranquilo,
E apenas desejando
Num desejo mal tido
Que a abominável onda
O não molhe tão cedo.

19-6-1914
Odes de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1946

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

David Mourão-Ferreira - Autor do mês de fevereiro



Considerado um dos maiores poetas portugueses do século XX, David Mourão-Ferreira nasceu em Lisboa, no dia 24 de fevereiro de 1927, e morreu na mesma cidade, a 16 de junho de 1996. Frequentou o Colégio Moderno e, em 1951, licenciou-se em Filologia Românica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Em 1958, tornou-se assistente da Faculdade de Letras e, entre 1963 e 1973, foi secretário-geral da Sociedade Portuguesa de Autores.
Colaborou em diversos jornais e revistas, dos quais se destacam o Diário Popular e a revista Seara Nova, para além de ter sido um dos fundadores e diretores da revista literária Távola Redonda, na qual começou a sua atividade poética.
Segundo as suas próprias palavras, tinha “o ofício de escreviver”, expressão que inventou para condensar toda a existência: precisava de viver para escrever e de escrever para viver. Das múltiplas linguagens que experimentou, a poesia foi a que o tornou mais conhecido e reconhecido: apesar de ter explorado outras temáticas como a obsessão da morte e a angústia de existir, ficou o “poeta do amor – e da sensualidade” (tal como lhe chamou Vasco Graça Moura).

Quando alguns dos seus poemas começaram a ser cantados por Amália Rodrigues (poemas como Sombra, Maria Lisboa, Anda o Sol na Minha Rua Nome de Rua, Fado Peniche e sobretudo Barco Negro, entre outros), não foi de imediato bem aceite, nem pelos puristas do Fado, nem pelos da Literatura: afinal, dois géneros que ainda não se tinham (aparentemente….) encontrado. Mais tarde, esta parceria entre David Mourão-Ferreira e Amália tornou-os aos dois grandes perante o público.

Depois do 25 de Abril de 1974, seria diretor do jornal A Capital e diretor-adjunto de O Dia.
No governo, desempenhou o cargo de Secretário de Estado da Cultura (entre 1976 e 1979). Em 1977, assinou o despacho que criou a Companhia Nacional de Bailado.
Foi autor de alguns programas de televisão de que se destacam "Imagens da Poesia Europeia", para a RTP.
Em 1981, foi condecorado com o grau de Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada. Em 1996, recebeu a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada e foi-lhe atribuído o Prémio de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores.

Poeta, novelista, contista, dramaturgo, ensaísta, cronista, tradutor, crítico literário, apenas em 1986 publicou o primeiro e único romance, Um amor feliz, que rapidamente se transformou num best-seller e com o qual ganhou o Prémio de Narrativa do Pen Clube Português, o Prémio D. Dinis, o Prémio de Ficção Município de Lisboa e o Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores.


O romance é construído em volta de dois homens, com um percurso de vida semelhante, gostos comuns e uma estreita cumplicidade: Fernão e David, diferentes e iguais, duplos um do outro. Fernão, escultor de 55 anos (personagem construída no atelier do amigo escultor Francisco Simões, autor de algumas das capas de várias edições do livro), protagonista e ao mesmo tempo narrador da história, evoca a sua relação adúltera com uma jovem de 35 anos, Y, nome-grafismo encontrado por analogia com a postura da amante, nua com os braços estirados para trás; David, professor de literatura, crítico literário, compositor de letras de alguns fados de Amália, o autor, e que vive também uma relação adúltera. Ficção e realidade misturam-se, na busca de um ideal feminino, na ilusão de um amor feliz.
Um dia depois de ter terminado o romance, escrevia assim Mourão-Ferreira: “Um Amor Feliz: um cântico de amor e de paixão erótica; uma sátira política a certa nova sociedade portuguesa; um romance do romance em que se vêem acareados o narrador e o autor; um ajuste de contas comigo mesmo.”

Em 2005 é celebrado um protocolo entre a Universidade de Bari e o Instituto Camões, decidindo abrir naquela cidade o Centro Studi Lusofoni - Cátedra David Mourão-Ferreira que tem como objetivo o estudo da obra de David Mourão-Ferreira, assim como a divulgação da língua portuguesa e das culturas lusófonas. É também este Centro que promove o Prémio Europa David Mourão-Ferreira.
Em 2005, a Câmara Municipal de Lisboa homenageou o escritor dando o seu nome a uma avenida no Alto do Lumiar.
Obra

(*) No catálogo da Biblioteca do ECB

Poesia
1950 - A Viagem
1954 - Tempestade de Verão (Prémio Delfim Guimarães)
1958 - Os Quatro Cantos do Tempo
1961 - Maria Lisboa
1962 - In Meae
1962 - ou A Arte de Amar
1966 - Do Tempo ao Coração
1967 - A Arte de Amar (reunião de obras anteriores)
1969 - Lira de Bolso
1971 - Cancioneiro de Natal (Prémio Nacional de Poesia)
1973 - Matura Idade
1974 - Sonetos do Cativo
1976 - As Lições do Fogo (*)
1980 - Obra Poética (inclui À Guitarra e À Viola e Órfico Ofício)
1893 - Antologia Poética (*)
1985 - Os Ramos e os Remos
1988 - Obra Poética, 1948-1988 (*)
1994 - Música de Cama (antologia erótica com um livro inédito)
1954 - letra para Amália Rodrigues " Barco Negro"

Ficção narrativa
1959 - Gaivotas em Terra (*) (Novelas, Prémio Ricardo Malheiros)
1968 - Os Amantes (contos)
1978 - Maria Antónia e Outras Mulheres : contos escolhidos (*)
1980 - As Quatro Estações (Prémio Associação Internacional dos Críticos Literários)
1986 - Um Amor Feliz (Romance)
1987 - Duas Histórias de Lisboa

Outras
1961 - Aspectos da obra de M. Teixeira Gomes
1979 - Portugal a terra e o homem II 1ª série : antologia de textos de escritores do século XX (*)
1988 - O irmão : peça em 2 actos (*)






segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Dia Internacional da Comemoração em Memória das Vítimas do Holocausto

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A 27 de janeiro comemora-se a libertação pelas tropas soviéticas do maior campo de extermínio nazi, em Auschwitz-Birkenau, em 1945. Em dezembro de 2005, a Assembleia Geral das Nações Unidas, durante a sua 42ª sessão plenária, estabeleceu este dia como o Dia Internacional da Comemoração em Memória das Vítimas do Holocausto.

No dia em que se recordam os milhões de vítimas do genocídio da Alemanha nazi sobre os judeus, ciganos, homossexuais, entre outros, ocorrido durante a II Guerra Mundial, pretende-se preservar a memória do holocausto, sensibilizando as novas gerações para a dimensão e consequências do genocídio, de forma a que acontecimentos como este não se repitam.
Algumas ligações da Organização das Nações Unidas sobre esta temática:
http://www.un.org/en/holocaustremembrance/2019/calendar2019.html


Mensagem de António Guterres, Secretário-Geral das Nações Unidas:

http://www.un.org/en/holocaustremembrance/2019/SG.html


Mensagem de Audrey Azoulay, Diretora Geral da UNESCO:

https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000366485_eng