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sexta-feira, 5 de abril de 2019

Em Monsanto com Fernando Namora: Retalhos da vida de um médico




Alunos do 11º ano de Línguas e Humanidades, a recriar a vida e a obra de Fernando Namora, o escritor e médico português que ali começou a sua carreira, em 1944.




“Com vinte e quatro anos medrosos e um diploma de médico, tinha começado a minha vida em Monsanto. Ali, a província bravia despede-se da campina, ergue-se nos degraus das fragas para olhar com altivez as serras de Espanha, enquanto o friso de planaltos que corre as linhas da fronteira espreita as surtidas do contrabando e a fuga dos rios.
Aquele povo soturno, endurecido a subir e descer abismos, frutificando uma terra alheia, pressentiu o perigo da minha inexperiência. […] Esta gente granítica, com os ossos a esticarem uma pele morena, esperava de mim, como esperara e exigira do antigo médico, antes de o aceitar, a prova indiscutível que decidisse da minha reputação: um parto, por exemplo, com o seu assombroso mistério, as suas horas de mortificada expectativa. […]"

Fernando Namora, Retalhos da vida de um médico, 1ª série, Mem Martins: Publicações Europa-América, 2000, pp. 17-18




© Fotos Teresa Dias e Graça Silva

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Fernando Namora - autor do mês de abril



No mês em que se comemora o centenário do seu nascimento, prestamos homenagem a um dos grandes nomes da literatura portuguesa.

Romancista, ensaísta, poeta, pintor e também médico, Fernando Namora nasceu em Condeixa-a-Nova, no dia 15 de abril de 1919, e morreu em Lisboa, a 31 de Janeiro de 1989.
Fez a escola primária em Condeixa, iniciou o liceu em Coimbra, terminado depois em Lisboa, no Liceu Camões, a Coimbra voltaria para ingressar no curso de Medicina.
O seu volume de estreia foi Relevos, livro de poesia, a que se seguiu o romance As Sete Partidas do Mundo, ambos publicados em 1938, ainda estudante de Medicina na Universidade de Coimbra (curso que terminaria em 1942). Com As Sete Partidas do Mundo viria a ser receber o Prémio Almeida Garrett, no mesmo ano em que recebe o Prémio Mestre António Augusto Gonçalves, de artes plásticas - na categoria de pintura.
Ainda estudante e com outros companheiros de tertúlia em Coimbra, fundou a revista Altitude e envolveu-se no projeto do Novo Cancioneiro, coleção poética de 10 volumes que se inicia com o seu livro-poema Terra (1941), assinalando o advento do neorrealismo, ponto de viragem na literatura portuguesa.
Em 1943, o romance Fogo na Noite Escura é publicado na coleção dos Novos Prosadores, pela Coimbra Editora, coleção que reunirá romances como Casa na Duna, de Carlos de Oliveira, Onde Tudo Foi Morrendo, de Vergílio Ferreira, Nevoeiro, de Mário Braga ou O Dia Cinzento, de Mário Dionísio, entre outros.
O exercício da profissão médica, primeiro na sua terra natal, depois na Beira Baixa (em Tinalhas, concelho de Castelo Branco, e Monsanto, concelho de Idanha-a-Nova) e no Alentejo (Pavia), e, a partir de 1951, em Lisboa, como médico assistente do Instituto Português de Oncologia, reflete-se em muitos dos textos que escreveu: com uma grande capacidade de análise social e psicológica, Fernando Namora apresenta-nos retratos com aspetos de picaresco, observações naturalistas e existencialistas.

A sua obra pode ser dividida e sistematizada em fases distintas de criação literária:
(1) o ciclo de juventude, principalmente enquanto estudante em Coimbra, coincidente com o livro-poema Terra e o romance Fogo na Noite Escura;
(2) o ciclo rural, entre 1943 e 1950, representado pelas novelas Casa da Malta e Minas de San Francisco, ou pelos romances A Noite e a Madrugada, O Trigo e o Joio e ainda Retalhos da Vida de um Médico;
(3) o ciclo urbano, coincidente com a sua vinda para Lisboa, marcado pela solidão e vivências do quotidiano, e que se terá refletido nos romances O Homem Disfarçado, Cidade Solitária ou Domingo à Tarde;
(4) o ciclo cosmopolita, entre finais dos anos 60 e durante a década de 70, explicado pelas muitas viagens que fez;
(5) o ciclo final, entre a ficção contemporânea, onde se inserem os romances O Rio Triste ou Resposta a Matilde, e as reflexões íntimas de Jornal sem Data.

Várias das obras de Fernando Namora foram adaptadas ao cinema ou para televisão, tais como Retalhos da Vida de um Médico, talvez uma das suas obras mais conhecidas e a primeira a ser adaptada ao cinema, pelo realizador Jorge Brum do Canto (em 1962), seguindo-se a série televisiva, dirigida por Artur Ramos e Jaime Silva (1979-1980). O Trigo e o Joio foi adaptado para o cinema em 1965, por Manuel Guimarães. Domingo à Tarde foi realizado por António de Macedo em 1965 e contou com atores como Isabel de Castro, Ruy de Carvalho e Isabel Ruth. Em 1975, surge Fernando Namora – Vida e Obra, realizado por Sérgio Ferreira. A Noite e a Madrugada deve a sua realização a Artur Ramos, em 1985. Resposta a Matilde, de 1986, foi adaptado a televisão por Dinis Machado e Artur Ramos, com a participação de Raúl Solnado e Rogério Paulo. Em 1990, Vítor Silva realiza a curta-metragem O Rapaz do Tambor.

Fernando Namora morreu em Lisboa, no dia 31 de Janeiro de 1989. Foi sepultado no Talhão dos Artistas do Cemitério dos Prazeres, em Lisboa.

Obras
(*) incluídas no catálogo da Biblioteca do ECB

As Sete Partidas do Mundo, romance, 1938 (*)
Terra, romance, 1941
Fogo na Noite Escura, romance, 1943 (*)
Casa da Malta, romance, 1945 (*)
Minas de San Francisco, romance, 1946 (*)
Retalhos da Vida de um Médico, narrativas / primeira série, 1949 (*)
A Noite e a Madrugada, romance, 1950 (*)
Deuses e Demónios da Medicina, biografias romanceadas, 1952 (*)
O Trigo e o Joio, romance, 1954 (*)
O Homem Disfarçado, romance, 1957 (*)
Cidade Solitária, narrativas1959 (*)
As Frias Madrugadas, poesia / antologia1959 (*)
Domingo à Tarde, romance1961 (*)
Retalhos da Vida de um Médico, narrativas / segunda série1963 (*)
Diálogo em Setembro, crónica romanceada1966 (*)
Um Sino na Montanha, cadernos de um escritor1968 (*)
Marketing, poesia1969 (*)
Os Adoradores do Sol, cadernos de um escritor1971 (*)
Os Clandestinos, romance1972 (*)
Estamos no Vento, narrativa literário-sociológica1974 (*)
A Nave de Pedra, cadernos de um escritor1975 (*)
Cavalgada Cinzenta, narrativa1977 (*)
Encontros, entrevistas1979 (*)
Resposta a Matilde, divertimento1980 (*)
O Rio Triste, romance1982 
Nome para uma Casa, poesia1984
URSS mal amada, bem amada, crónica1986
Sentados na Relva, cadernos de um escritor1986
Jornal sem Data, cadernos de um escritor1988

Prémios e honras
Prémio Ricardo Malheiros (1953)
Medalha de Ouro da "Societé d'Encouragement au Progrés" (1979)
Grande Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada (1979)
Prémio D. Dinis (1982)
Casa-Museu de Fernando Namora, em Condeixa



A casa-museu de Fernando Namora, em Condeixa (a casa onde nasceu, inaugurada em 1990), sublinha as três facetas de Namora: o escritor, simbolizado no seu escritório, a sua poltrona de pele, a secretária e a máquina de escrever, ídolos e amigos na parede (Jorge Amado) e prémios literários, condecorações, primeiras edições e dedicatórias. Mas também o médico e o pintor







Em Monsanto, a casa onde exerceu atividade como médico municipal




quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

1936 - O ano da morte de Ricardo Reis



Ricardo Reis nasceu no Porto, no dia 19 de setembro de 1887, estudou num colégio de jesuítas, formou-se em medicina e, por ser monárquico, expatriou-se espontaneamente em 1919, indo viver para o Brasil. Na sua biografia não consta a sua morte, no entanto, no seu livro O Ano da Morte de Ricardo Reis, José Saramago situou-a em 1936.

1936 é o ano em que o ambiente internacional se começou a degradar. A Grande Depressão e consequentes dificuldades económicas e sociais favorecem a irradiação do fascismo na Europa, ao mesmo tempo que se assiste à formação de governos de coligação de partidos de esquerda, como é o caso das Frentes Populares em Espanha e em França. A eclosão da Guerra Civil Espanhola será um prenúncio da II Guerra Mundial.

Os alunos do 12º D partiram destas primeiras ideias e pesquisaram sobre o que aconteceu no ano de 1936: da estreia do filme "Tempos Modernos", de Charlie Chaplin, à criação do Voskswagen na Alemanha de Hitler; da publicação do livro "E tudo o vento levou", da escritora norte-americana Margaret Mitchell, à viagem inaugural do zepelim Hiddenburg (que a 7 de setembro sobrevoou Lisboa); do assassinato de Federico García Lorca à remilitarização da Renânia pela Alemanha, muitos foram os acontecimentos que marcaram 1936, além dos que aparecem referidos na obra de Saramago: a fundação da Mocidade e da Legião Portuguesa, a conquista da Etiópia por Mussolini ou os Jogos Olímpicos de Berlim.

Da pesquisa efetuada pelos alunos nasceu uma Exposição de cartazes que pode ser visitada durante o mês de fevereiro na Biblioteca do ECB.


"Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo"
Ricardo Reis







“… as notícias que estavam a vir de Espanha, sobre as eleições […], a direita tinha ganho em dezassete províncias, mas, contados os votos todos, viu-se que a esquerda elegera mais deputados que o centro e a direita juntos…” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, pp. 148-149)




“… duzentos e cinquenta mil soldados alemães estão prontos a ocupar a Renânia e […] uma força militar alemã penetrou há poucos dias em território checoslovaco…” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 142)

“… por estes dias denunciou a Alemanha o pacto de Lucarno e ocupou a zona renana” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 198)




“Agora o que vamos ter de mais certo é virem por aí abaixo outros tantos franceses, que já a esquerda de lá ganhou as eleições, e o socialista Blum declarou-se pronto a constituir governo de Frente Popular…” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 291)




“O mundo, como destas amostras se pode concluir, não promete soberbas felicidades, agora foi Alcalá Zamora destituído da presidência da República e logo começou a correr o boato de que haverá um movimento popular em Espanha, se tal coisa lá fizerem, tristes dias estão guardados para muita gente.” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 253)

“[…] Ricardo Reis deve ter sido o último habitante de Lisboa a saber que se dera um golpe militar em Espanha. […] O exército espanhol, guardião das virtudes da raça e da tradição, ia falar com a voz das suas armas, expulsaria os vendilhões do templo, restauraria o altar da pátria, restituiria à Espanha a imorredoira grandeza que alguns degenerados filhos haviam feito decair. […] O levantamento começou no Marrocos espanhol e […] é seu principal chefe o general Franco.” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, pp. 363-364)





“Porventura com vistas a essa aprendizagem se decretou a criação da Mocidade Portuguesa que, lá para Outubro, quando iniciar a sério os seus trabalhos, abrangerá, logo de entrada, cerca de duzentos mil rapazes, flor ou nata da nossa juventude, da qual […] há-de sair a elite que nos governará depois …” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 355)




“… considere-se o exemplo dos italianos, que […] lá vão ganhando a sua guerra, ainda há poucos dias bombardearam a cidade de Harrar, voaram até lá os aviões e reduziram tudo a cinzas…” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 253)

“As tropas de Badoglio preparam-se para retomar o avanço sobre Addis-Abeba…” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 278)

“E terminou a guerra da Etiópia. Disse-o Mussolini do alto da varanda do palácio, Anuncio ao povo italiano e ao mundo que acabou a guerra, e a esta voz poderosa as multidões de Roma, de Nápoles, da Itália inteira, milhões de bocas, todos gritaram o nome do Duce […]” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 292)






“Como amostra do que virá a ser a nossa juventude patriótica, irão a Berlim, já fardados, os representantes da MP, […] e assistirão aos Jogos Olímpicos, onde, escusado será dizê-lo, causarão impressão magnífica, estes belos e aprumados moços, orgulho da lusitana raça…“ (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 355)




“Viu ontem o balão, Qual balão, O zepelim, passou mesmo por cima do hotel, o gigantesco, adasmatórico dirigível, Graf Zeppelin, de nome e título do seu construtor, conde Zeppelin, general e aeronauta alemão, ei-lo a sobrevoar a cidade de Lisboa […] tão grande, […] e aquela cruz que leva atrás, Chamam-lhe gamada, ou suástica, […] o dirigível é alemão, e a suástica é hoje o emblema da Alemanha…” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 278)

“[…] enquanto os ingleses protestam contra a passagem do dirigível Hindemburgo sobre fábricas e pontos estratégicos britânicos, o que se vai dizendo é que tudo parece indicar que a incorporação da Cidade Livre de Danzig no território alemão não virá longe.” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 361)





“… lidos foram e tornados a ler estes dessangrados jornais de Lisboa, desde as notícias da primeira página, Eduardo VIII será o novo rei de Inglaterra…” (José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, p. 119)



Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo

Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo,
E ao beber nem recorda
Que já bebeu na vida,
Para quem tudo é novo
E imarcescível sempre.

Coroem-no pâmpanos. ou heras. ou rosas volúveis,
Ele sabe que a vida
Passa por ele e tanto
Corta a flor como a ele
De Átropos a tesoura.

Mas ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto,
Que o seu sabor orgíaco
Apague o gosto às horas,
Como a uma voz chorando
O passar das bacantes.

E ele espera, contente quase e bebedor tranquilo,
E apenas desejando
Num desejo mal tido
Que a abominável onda
O não molhe tão cedo.

19-6-1914
Odes de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1946

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

David Mourão-Ferreira - Autor do mês de fevereiro



Considerado um dos maiores poetas portugueses do século XX, David Mourão-Ferreira nasceu em Lisboa, no dia 24 de fevereiro de 1927, e morreu na mesma cidade, a 16 de junho de 1996. Frequentou o Colégio Moderno e, em 1951, licenciou-se em Filologia Românica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Em 1958, tornou-se assistente da Faculdade de Letras e, entre 1963 e 1973, foi secretário-geral da Sociedade Portuguesa de Autores.
Colaborou em diversos jornais e revistas, dos quais se destacam o Diário Popular e a revista Seara Nova, para além de ter sido um dos fundadores e diretores da revista literária Távola Redonda, na qual começou a sua atividade poética.
Segundo as suas próprias palavras, tinha “o ofício de escreviver”, expressão que inventou para condensar toda a existência: precisava de viver para escrever e de escrever para viver. Das múltiplas linguagens que experimentou, a poesia foi a que o tornou mais conhecido e reconhecido: apesar de ter explorado outras temáticas como a obsessão da morte e a angústia de existir, ficou o “poeta do amor – e da sensualidade” (tal como lhe chamou Vasco Graça Moura).

Quando alguns dos seus poemas começaram a ser cantados por Amália Rodrigues (poemas como Sombra, Maria Lisboa, Anda o Sol na Minha Rua Nome de Rua, Fado Peniche e sobretudo Barco Negro, entre outros), não foi de imediato bem aceite, nem pelos puristas do Fado, nem pelos da Literatura: afinal, dois géneros que ainda não se tinham (aparentemente….) encontrado. Mais tarde, esta parceria entre David Mourão-Ferreira e Amália tornou-os aos dois grandes perante o público.

Depois do 25 de Abril de 1974, seria diretor do jornal A Capital e diretor-adjunto de O Dia.
No governo, desempenhou o cargo de Secretário de Estado da Cultura (entre 1976 e 1979). Em 1977, assinou o despacho que criou a Companhia Nacional de Bailado.
Foi autor de alguns programas de televisão de que se destacam "Imagens da Poesia Europeia", para a RTP.
Em 1981, foi condecorado com o grau de Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada. Em 1996, recebeu a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada e foi-lhe atribuído o Prémio de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores.

Poeta, novelista, contista, dramaturgo, ensaísta, cronista, tradutor, crítico literário, apenas em 1986 publicou o primeiro e único romance, Um amor feliz, que rapidamente se transformou num best-seller e com o qual ganhou o Prémio de Narrativa do Pen Clube Português, o Prémio D. Dinis, o Prémio de Ficção Município de Lisboa e o Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores.


O romance é construído em volta de dois homens, com um percurso de vida semelhante, gostos comuns e uma estreita cumplicidade: Fernão e David, diferentes e iguais, duplos um do outro. Fernão, escultor de 55 anos (personagem construída no atelier do amigo escultor Francisco Simões, autor de algumas das capas de várias edições do livro), protagonista e ao mesmo tempo narrador da história, evoca a sua relação adúltera com uma jovem de 35 anos, Y, nome-grafismo encontrado por analogia com a postura da amante, nua com os braços estirados para trás; David, professor de literatura, crítico literário, compositor de letras de alguns fados de Amália, o autor, e que vive também uma relação adúltera. Ficção e realidade misturam-se, na busca de um ideal feminino, na ilusão de um amor feliz.
Um dia depois de ter terminado o romance, escrevia assim Mourão-Ferreira: “Um Amor Feliz: um cântico de amor e de paixão erótica; uma sátira política a certa nova sociedade portuguesa; um romance do romance em que se vêem acareados o narrador e o autor; um ajuste de contas comigo mesmo.”

Em 2005 é celebrado um protocolo entre a Universidade de Bari e o Instituto Camões, decidindo abrir naquela cidade o Centro Studi Lusofoni - Cátedra David Mourão-Ferreira que tem como objetivo o estudo da obra de David Mourão-Ferreira, assim como a divulgação da língua portuguesa e das culturas lusófonas. É também este Centro que promove o Prémio Europa David Mourão-Ferreira.
Em 2005, a Câmara Municipal de Lisboa homenageou o escritor dando o seu nome a uma avenida no Alto do Lumiar.
Obra

(*) No catálogo da Biblioteca do ECB

Poesia
1950 - A Viagem
1954 - Tempestade de Verão (Prémio Delfim Guimarães)
1958 - Os Quatro Cantos do Tempo
1961 - Maria Lisboa
1962 - In Meae
1962 - ou A Arte de Amar
1966 - Do Tempo ao Coração
1967 - A Arte de Amar (reunião de obras anteriores)
1969 - Lira de Bolso
1971 - Cancioneiro de Natal (Prémio Nacional de Poesia)
1973 - Matura Idade
1974 - Sonetos do Cativo
1976 - As Lições do Fogo (*)
1980 - Obra Poética (inclui À Guitarra e À Viola e Órfico Ofício)
1893 - Antologia Poética (*)
1985 - Os Ramos e os Remos
1988 - Obra Poética, 1948-1988 (*)
1994 - Música de Cama (antologia erótica com um livro inédito)
1954 - letra para Amália Rodrigues " Barco Negro"

Ficção narrativa
1959 - Gaivotas em Terra (*) (Novelas, Prémio Ricardo Malheiros)
1968 - Os Amantes (contos)
1978 - Maria Antónia e Outras Mulheres : contos escolhidos (*)
1980 - As Quatro Estações (Prémio Associação Internacional dos Críticos Literários)
1986 - Um Amor Feliz (Romance)
1987 - Duas Histórias de Lisboa

Outras
1961 - Aspectos da obra de M. Teixeira Gomes
1979 - Portugal a terra e o homem II 1ª série : antologia de textos de escritores do século XX (*)
1988 - O irmão : peça em 2 actos (*)






terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Eugénio de Andrade - autor do mês de janeiro


"Eu nem sequer gosto de escrever. Acontece-me às vezes estar tão desesperado que me refugio no papel como quem se esconde para chorar. E o mais estranho é arrancar da minha angústia palavras de profunda reconciliação com a vida."

Rosto Precário

Nasceu a 19 de janeiro de 1923, em Póvoa de Atalaia, pequena aldeia da Beira Baixa. Filho de camponeses, deram-lhe o nome de José Fontinhas. Após a separação dos pais, viveu com a mãe em Castelo Branco, mudando-se em 1932 para Lisboa, onde frequentou o Liceu Passos Manuel e a Escola Técnica Machado de Castro. Em 1936 começou a escrever os primeiros poemas. Em 1938, enviou alguns desses poemas ao escritor António Botto que o incentivou a publicar: em 1940, aparecia assim Narciso, o seu primeiro livro de poesia, assinado ainda com o seu verdadeiro nome, que mais tarde viria a rejeitar. No segundo livro, Adolescente, publicado em 1942, é como Eugénio de Andrade que se dá a conhecer.
Depois de prestar serviço militar em Coimbra, onde conviveu com Miguel Torga e Eduardo Lourenço (foi Eduardo Lourenço quem disse que a poesia de Eugénio de Andrade era a “primeira poesia da poesia da nossa literatura”), regressou a Lisboa, em 1947, passando a exercer funções de inspetor administrativo do Ministério da Saúde.
Em 1948 publicou As Mãos e os Frutos, livro que o consagrou e mereceu os aplausos de críticos como Jorge de Sena ou Vitorino Nemésio.
Em 1950 foi transferido para o Porto, cidade onde viverá até ao fim da vida, sempre distanciado da vida social, literária ou mundana, justificando as suas raras aparições públicas com «essa debilidade do coração que é a amizade».
Publicou mais de vinte livros de poesia, obras em prosa, antologias, livros infantis e traduziu poetas como Federico García Lorca, Jorge Luís Borges, René Char ou a poetisa grega clássica Safo, entre outros.
Eugénio de Andrade foi elemento da Academia Mallarmé (Paris) e membro fundador da Academia Internacional "Mihail Eminescu" (Roménia).
Manteve sempre uma postura de independência relativamente aos vários movimentos literários com que a sua obra coexistiu ao longo de mais de cinquenta anos de atividade poética.
O prestígio nacional e internacional granjeou-lhe diversas distinções e prémios, entre os quais, o Grau de Grande-Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada (1982), o Prémio da Associação Internacional de Críticos Literários (1986), o Prémio D. Dinis da Fundação Casa Mateus (1988), o Grande Prémio da Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (1989), o Prémio Europeu de Poesia da Comunidade de Varchatz (República da Sérvia, 1996), a Grã-Cruz da Ordem do Mérito (1989) e o Prémio Camões (2001).
Em maio de 2001, recebeu o primeiro prémio de poesia "Celso Emilio Ferreiro" atribuído em Orense, na Galiza. Ainda em maio de 2001, foi homenageado na Universidade de Bordéus por altura da realização do "Carrefour des Littératures", tendo sido considerado um dos mais importantes escritores do século XX. Em 2003, com a obra Os Sulcos da Sede, recebeu o Prémio de Poesia do Pen Clube Português.
Em 1991, foi criada no Porto a Fundação Eugénio de Andrade, extinta em 2011. Para além de ter servido de residência ao poeta, esta instituição teve como principais objetivos o estudo e a divulgação da obra do autor assim como a organização de diversos eventos como lançamentos de livros, recitais e encontros de poesia.
Eugénio de Andrade faleceu em Porto, a 13 de junho de 2005, após uma doença neurológica prolongada. Encontra-se enterrado no Cemitério do Prado do Repouso, no Porto. A sua campa é rasa em mármore branco, desenhada pelo arquiteto amigo Siza Vieira, com versos do seu livro As Mãos e os Frutos gravados.

Obra
(*) Disponível na Biblioteca do ECB

Poesia
Narciso, José Fontinhas. Lisboa: ed. do Autor, 1940.
Adolescente, 1942.
Pureza, 1945.
As Mãos e os Frutos, 1948, 21ª edição, 2000.
Os Amantes sem Dinheiro, 1950, 16ª edição, 2000.
As Palavras Interditas, 1951, 13ª edição, 2002.
Até Amanhã, 1956, 13ª edição, 2002.
Coração do Dia, 1958, 12ª edição, 1994.
Mar de Setembro, 1961, 12ª edição, 1994.
Ostinato Rigore, 1964, 11ª edição, 1997.
Obscuro Domínio, 1971, 8ª edição, 2000.
O Inverno
Véspera de Água, 1973, 6ª edição, Limiar, 1990.
Escrita da Terra, 1974, 7ª edição, 2002.
Homenagens e outros Epitáfios, 1974, 8ª edição, 1993.
Limiar dos pássaros, 1976, 7ª edição, 1994.
Primeiros Poemas, 1977, 10ª edição, 2000.
Memória Doutro Rio, 1978, 4ª edição, Limiar, 1985.
Matéria Solar, 1980, 5ª edição, 2000. (*)
O Peso da Sombra, 1982, 3ª edição, Limiar, 1989.
Branco no Branco, 1984, 5ª edição, 19.
Vertentes do Olhar, 1987, 5ª edição, 2003.
O Outro Nome da Terra, 1988, 2ª edição, Limiar, 1989.
Contra a Obscuridade, 1988, 5ª edição, 1993.
Rente ao Dizer, 1992, 4ª edição, 2002.
Ofício de Paciência, 1994, 2ª edição, 2000.
O Sal da Língua, 1995, 4ª edição, Associação Portuguesa de Escritores, 2001.
Pequeno Formato, 1997, 2ª edição, 1997.
Os Lugares do Lume, 1998, 2ª edição, 1998.
Os Sulcos da Sede, 2001, 3ª edição, 2002.

Antologias poéticas
Antologia [1945-1961], Delfos, 1961.
Poemas (1945-1966), 3ª edição, 1971.
Poesia e prosa (1940-1979), 2 vol., 1980. (*)
Poesia e prosa (1940-1980), 1981; 2a ed. e aumentada.
Poesia e prosa (1940-1986). Lisboa: Círculo de Leitores, 1987, 3 vol.
Poesia e Prosa (1940-1989), 4ª edição, O Jornal/Limiar, 1990.
Poemas de Eugénio de Andrade, select., est. e notas de Arnaldo Saraiva, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1999.
Poesia, 2000.

Prosa
Os afluentes do silêncio. Porto: Inova, 1968.
Rosto precário. Porto: Limiar, 1979. (*)
À sombra da memória. Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 1993.

Antologias
Daqui Houve Nome Portugal, 1968, 4ª edição, Edições Asa, 2000.
Memórias da Alegria, 1971, 2ª edição, Campo das Letras, 1996.
Antologia Breve, 1972, 7ª edição, 1999.
A Cidade de Garrett, 1993, 3ª edição, 1997.
Fernando Pessoa, Poesias Escolhidas, 1995, 6ª edição, Campo das Letras, 2001.
Versos e Alguma Prosa de Luís de Camões, 1972, 5ª edição, Campo das Letras, 1996.
Erros de Passagem, seleção e prefácio, 1982, 3ª edição, Campo das Letras, 1998.
Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa, 1999, 7ª edição, Campo das Letras, 2002. (*)
Sonetos de Luís de Camões, Assírio & Alvim, 2000.
Poemas Portugueses para a Juventude, Edições Asa, 2002.

Literatura Infantil
História de égua branca. Porto: Asa, 1976. Com ilustrações de Manuela Bacelar.
Aquela Nuvem e Outras, 1986, 10ª edição, Campo das Letras, 2002.

Tradução
Poemas de García Lorca, 1946, 5ª edição, 2000.
Cartas Portuguesas, 1969, 9ª edição, Assírio & Alvim, 1998.
Poemas e Fragmentos de Safo, 1974, 5ª edição, 1995.
Trocar de Rosa, 1980, 5ª edição, 1995.