menu

Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura. Mostrar todas as mensagens

domingo, 1 de julho de 2018

Mia Couto - sugestões de leitura

(© Maria José Cabral)

Do catálogo da Biblioteca do Externato Cooperativo da Benedita, apresentamos as seguintes sugestões de leitura da obra do escritor moçambicano Mia Couto:

Raiz de orvalho e outros poemas


A edição portuguesa de Raiz de Orvalho e Outros Poemas reúne poemas com datas diversas, com um conjunto de novos poemas (todos da década de 80) e seleção de outros que faziam parte da edição moçambicana, publicada em Maputo, em 1983, com o título Raiz de Orvalho.
Segundo o próprio autor, alguns não resistiram ao tempo, noutros ele próprio não se reconhece já. Mas todos estes versos fazem parte do seu percurso. E daqui ele partiu para desvendar outros terrenos. Mas (e ainda segundo o próprio Mia), se sem esta escrita nunca teria experimentado outras dimensões da palavra, nós nunca poderíamos ter partilhado da beleza comovente das imagens, da música doce e profunda dos vocábulos, da palavra certa que só ele encontrou e que tantas vezes quisemos ser nós a dizer, das cores profundas e intensas das emoções. Esta é uma poesia única, de alegria, de desespero e de amor, de solidariedade e humildade, de qualidade rara, porque sentida e escrita e lida à flor da pele. Uma experiência enriquecedora para quem a partilha. Um privilégio para quem nela se fundir.

Vozes anoitecidas


Publicado pela primeira vez em 1986, Vozes anoitecidas projetou Mia Couto para o mundo. Conhecido até então por seu trabalho como jornalista e poeta, o autor - hoje tido como um dos mais influentes escritores da língua portuguesa - lançou aqui as bases daquela que viria a ser uma das principais características de sua obra ficcional: a reconstrução de laços entre registo oral e escrito.

Em doze pequenos contos, um rol de personagens esfarrapados e alheios ao palco principal dos acontecimentos narra, de seu ponto de vista marginal, histórias que flertam com o mágico e com o absurdo sem, no entanto, se desviarem completamente do plano factual.
Ao promover uma espécie de vertigem, sob efeito da qual não se pode afirmar se uma narrativa é absurda ou se absurda é a realidade de que ela trata, o autor apresenta a perplexidade como ponto de partida para o fazer literário.
Excerto:
"O que mais dói na miséria é a ignorância que ela tem de si mesma. Confrontados com a ausência de tudo, os homens abstêm-se do sonho, desarmando-se do desejo de serem outros. Existe no nada essa ilusão de plenitude que faz parar a vida e anoitecer as vozes. Estas estórias desadormeceram em mim sempre a partir de qualquer coisa acontecida de verdade mas que me foi contada como se tivesse ocorrido na outra margem do mundo. Na travessia dessa fronteira de sombra escutei vozes que vazaram o sol. Outras foram asas do meu voo de escrever. A umas e a outras dedico este desejo de contar e de inventar."

Cada homem é uma raça


Neste livro, que reúne onze contos, publicado originalmente em 1990, Mia Couto prova mais uma vez que é um escritor sobretudo generoso. Os indivíduos são sempre objeto de fascínio e a descrição das suas vidas não traz qualquer julgamento.
Com uma escrita poética inconfundível, que resulta num português com a melodia das línguas africanas, apresenta-nos um rico universo de vivências de figuras moçambicanas. Se no conto “A Rosa Caramela” acompanhamos os dissabores de uma mulher corcunda que enlouqueceu depois de ter sido abandonada ao pé do altar, em “A princesa russa” a situação é de uma estrangeira que se vê num país desconhecido e com um marido hostil, e se alia a um dos seus empregados nativos para sobreviver.
“A lenda da noiva e do forasteiro” e “O embondeiro que sonhava pássaros” são exemplos dos contos mágicos e exuberantes de Mia, ao passo que “O apocalipse privado do tio Geguê” e “Os mastros de Paralém” têm um cunho político mais claro.
Excerto:
Inquirido sobre a sua raça, respondeu:
— A minha raça sou eu, João Passarinheiro.
Convidado a explicar-se, acrescentou:
— Minha raça sou eu mesmo. A pessoa é uma humanidade individual. Cada homem é uma raça, senhor polícia.
(Extrato das declarações do vendedor de pássaros)

Estórias abensonhadas


Depois de Terra Sonâmbula estas estórias fazem regressar o imaginário moçambicano pela mão de Mia Couto. Reúnem-se aqui contos em que se inscreve o mesmo estilo e a mesma capacidade de sonhar já consagrados em obras anteriores.

São breves estórias em que Mia Couto capta o renascimento de um país em transição, depois da assinatura do Acordo de Paz que pôs fim à guerra civil que assolou Moçambique entre 1976 e 1992.
Em todas as estórias se reconhece o trabalho profundamente pessoal de recriação da linguagem, o aproveitamento literário da fala popular moçambicana e o pleno exercício da poesia. Numa prosa poética e carregada das tradições orais africanas, o autor tece pequenas fábulas e registos que, sem irromper em grandes acontecimentos, capturam os movimentos íntimos dessa passagem.

Contos do nascer da terra


A maior parte das histórias que compõem Contos do nascer da Terra foi publicada originalmente em jornais e revistas em 1996, e depois adaptada pelo escritor para este livro, que inclui também alguns contos inéditos. Ao todo são 35 histórias breves que se baseiam no quotidiano quase mágico de Moçambique e exploram a sonora linguagem do português africano, revelando na escrita a identidade de um povo e o domínio muito próprio da cultura e da criatividade literária.
Excerto do conto “A menina sem palavra”:
«Era uma vez uma menina que pediu ao pai que fosse apanhar a lua para ela. O pai meteu-se num barco e remou para longe. Quando chegou à dobra do horizonte pôs-se em bicos de sonhos para alcançar as alturas. Segurou o astro com as duas mãos, com mil cuidados. O planeta era leve como uma baloa. Quando ele puxou para arrancar aquele fruto do céu se escutou um rebentamundo. A lua se cintilhaçou em mil estrelinhações. O mar se encrispou, o barco se afundou, engolido num abismo. A praia se cobriu de prata, flocos de luar cobriram o areal. A menina se pôs a andar ao contrário em todas as direcções, para lá e para além, recolhendo os pedaços lunares.»

Na Berma de Nenhuma Estrada e Outros Contos


A reunião de um conjunto de 38 histórias, escolhidas pelo autor entre textos publicados em revistas e jornais portugueses e moçambicanos ao longo de vários anos.

São histórias de um universo mágico, onde o fantástico e o sobrenatural coexistem com o quotidiano, com personagens intensas e uma capacidade de efabulação extraordinária, que nos prendem e nos encantam.
A intensidade das personagens, a multiplicidade de registos em que as várias tramas ocorrem, o universo do fantástico e do sobrenatural coexistindo em perfeita sintonia com o dia-a-dia da tradição, da cultura e da vivência experienciadas, a capacidade de efabulação, a oralidade que emana da palavra escrita transformando-a em puro som, são portos a que acostamos e que nunca desvendamos por completo.
E donde emanam estas histórias? "Vêm da berma de nenhuma estrada. Quero inventar um sítio onde me invente a mim, um sítio onde tudo seja possível outra vez, onde a palavra possa ter essa dimensão mágica. É desse não lugar que surge a escrita, mas ele pertence a um lugar meu, que é Moçambique, a minha infância." (Mia Couto, em entrevista ao portal ajanela.com)

Cronicando


Neste livro reúnem-se crónicas com que o escritor moçambicano colaborou com a imprensa de Moçambique durante os dois últimos anos da década de 80. Este conjunto de textos mereceu o Prémio Anual de Jornalismo Areosa Pena, atribuído pela Organização dos Jornalistas Moçambicanos em 1989.
Mais do que crónicas, estes textos são pequenos contos condensados de forma a se enquadrarem no espaço dos jornais a que se destinavam. Aos textos inseridos nos jornais de Moçambique, o autor acrescentou outros inéditos. Uns e outros estão profundamente marcados pela arte de recriar a língua portuguesa que caracteriza toda a escrita deste autor africano.

Pensageiro frequente



Originalmente concebidos como artigos para a revista Índico, das Linhas Aéreas de Moçambique, estes 26 textos ganham autonomia e atuam como breves mas indeléveis peças literárias. “Textos ligeiros, cujo destinatário não é exatamente um leitor «típico», mas um passageiro que pretende vencer o tempo e, tantas vezes, o medo. [… o meu desejo foi ] fazer com que o meu país voasse pelos dedos do viajante, numa visita às múltiplas identidades que coexistem numa única nação.”
O autor diz que a bordo de um avião torna-se um pensageiro, ou seja, um passageiro que apesar de frequente continua a sentir o mesmo medo a cada viagem. Para entreter o medo põe-se a escrever. Estas crónicas surgem na sequência de alguns desses voos e foram feitas a pensar no passageiro que entre fusos horários procura uma distração.

Terra Sonâmbula


Primeiro romance de Mia Couto, Terra Sonâmbula é uma verdadeira aula sobre a velha arte de contar histórias. No Moçambique pós-independência, mergulhado em uma devastadora guerra civil, um velho e um menino empreendem uma viagem recheada de fantasias míticas numa camioneta incendiada numa estrada poeirenta que serve de abrigo ao velho Tuahir e ao menino Muidinga, em fuga da guerra civil devastadora que alastra por todo o lado em Moçambique.
O veículo está cheio de corpos carbonizados. Mas há também um outro corpo à beira da estrada, junto a uma mala que abriga os "cadernos de Kindzu", o longo diário do morto em questão. A partir daí, duas histórias são narradas paralelamente: a viagem de Tuahir e Muidinga e, em flashback, o percurso de Kindzu em busca dos “naparamas”, guerreiros tradicionais, abençoados pelos feiticeiros, que são, aos olhos do garoto, a única esperança contra os senhores da guerra.
Ao explorar os efeitos devastadores da guerra civil pelo olhar de um negro de uma aldeia, Kindzu, que fala a língua portuguesa, Mia Couto revela que o colonialismo não desapareceu com a obtenção da independência e que a persistência da relação colonial afeta ainda os espíritos dos moçambicanos.
Terra Sonâmbula é um romance em abismo, escrito numa prosa poética em que Mia Couto se vale também de recursos do realismo mágico e da arte narrativa tradicional africana para compor esta fábula, que nos ensina que sonhar, mesmo nas condições mais adversas, é um elemento indispensável para se continuar vivendo.
Em 2006, este romance foi adaptado ao cinema pela realizadora Teresa Prata, numa co-produção Filmes de Fundo e ZDF/ARTE, com rodagem em Portugal/ Moçambique/ França/ Alemanha
O filme recebeu os seguintes prémios:
International Film Festival Kerala, Índia (2008) – Prémio FIPRESCI
Pune International Film Festival, Índia (2008) – Melhor Realização
FAMAFEST, Portugal (2008) – Prémio da Lusofonia
Asian, African and Latin American Film Festival, Milão (2008) – Prémio SIGNIS
Indie Lisboa, Portugal (2008) – Prémio do público e menção honrosa da Amnistia Internacional
Festival Internacional de Cinema de Bursa, Turquia (2008) – Melhor Argumento


A Varanda do Frangipani


A narrativa de A Varanda do Frangipani decorre na Fortaleza de S. Nicolau, algures em Moçambique, vinte anos após a Independência, depois dos acordos de paz de 1992. A fortaleza há muito que deixou de ser reduto de defesa e ocupação estrangeira para se transformar num asilo de velhos. A trama policial, as reflexões sobre a guerra e sobre a paz, o Universo mágico, a riqueza de personagens, aliados a uma narrativa pujante e amadurecida, fazem deste livro uma das mais belas obras de Mia Couto.
O romance é narrado pelo carpinteiro Ermelindo Mucanga, que morreu às vésperas da Independência, quando trabalhava nas obras de restauro da Fortaleza de S. Nicolau. Ele é um "xipoco", um fantasma que vive numa cova sob a árvore de frangipani na varanda da fortaleza colonial.
As autoridades do país querem transformar Mucanga em herói nacional, mas ele pretende, ao contrário, morrer definitivamente. Para tanto, precisa "remorrer". Então, seguindo conselho de seu pangolim (uma espécie de tamanduá africano), encarna no inspetor de polícia Izidine Naíta, que está a caminho da Fortaleza para investigar a morte do diretor.
Mais de vinte anos depois da independência de Moçambique, quando a guerra civil já arrefeceu, a Fortaleza é um lugar em que convergem heranças, memórias e contradições de um país novo e ao mesmo tempo profundamente ligado às tradições e aos mitos ancestrais. Da sua varanda pode-se enxergar o horizonte. Este romance de Mia Couto esboça, assim, uma saída utópica para um país em reconstrução.

Mar me quer


“Lançamos o barco, sonhamos a viagem: quem viaja é sempre o mar.”

Uma história de três gerações de uma família narrada em oito curtos capítulos. Cada um deles é introduzido por um dos “ditos” do avô Celestiano, muitos deles supostamente baseados em provérbios da nação macua, uma das etnias mais antigas, ao norte de Moçambique. Aqui encontramos crenças e vivências de gentes moçambicanas que vivem no litoral de Moçambique e usam o mar para lhe roubarem o peixe que os alimenta. E é com o mar que se estabelecem relações de vida e de morte, é o mar que determina esse desenrolar de (a)casos fulcrais para as personagens.
Excerto:
“Um dia o padre Nunes me falou de Luarmina, seus brumosos passados. O pai era um grego, um desses pescadores que arrumou rede em costas de Moçambique, do lado de lá da baía de S. Vicente. Já se antigamentara há muito. A mãe morreu pouco tempo depois. Dizem que de desgosto. Não devido da viuvez, mas por causa da beleza da filha. Ao que parece, Luarmina endoidava os homens graúdos que abutreavam em redor da casa. A senhora maldizia a perfeição de sua filha. Diz-se que, enlouquecida, certa noite intentou de golpear o rosto de Luarmina. Só para a esfeiar e, assim, afastar os candidatos. Depois da morte da mãe, enviaram Luarmina para o lado de cá, para ela se amoldar na Missão, entregue a reza e crucifixo. Havia que arrumar a moça por fora, engomá-la por dentro. E foi assim que ela se dedicou a linhas, agulhas e dedais. Até se transferir para sua atual moradia, nos arredores de minha existência.”


Vinte e zinco


“Vinte e cinco é para vocês que vivem em bairros de cimento
para nós, negros pobres que vivemos
na madeira e zinco, o nosso dia
ainda está para vir.”
(Jessumina, a adivinhadora)

Este livro surgiu de uma iniciativa da Editorial Caminho para assinalar o 25º Aniversário do 25 de Abril. Entre personagens fantásticas que povoam este livro, Mia Couto conta-nos como foi o 25 de abril vivido em Moçambique através de uma espécie de diário dos últimos dias de um agente da PIDE e da sua família. Uma viagem entre fantasmas e medos dos que viviam na «casa grande» e os que viviam sob os telhados de zinco.

O último voo do flamingo


Tizangara, primeiros anos do pós-guerra. Nesta vila tudo parecia correr bem. Os capacetes azuis já haviam chegado para vigiarem o processo de paz, e o dia a dia da população corria numa aparente normalidade. Mas por razões que quase todos desconheciam, esses mesmos capacetes azuis começaram, de súbito, a explodir. Massimo Risi, o soldado italiano das Nações Unidas destacado para investigar estas estranhas explosões, chega a Tizangara. Colocam-lhe um tradutor à disposição, e é através do relato deste que tomamos conhecimento dos factos. Entramos num mundo de vivos e de mortos, de realidade e de fantasia, de feitiços e de sobrenatural. A verdade e a ficção passam por nós em personagens densamente construídas, de que o feiticeiro Andorinho, a prostituta Ana Deusqueira, o padre Muhando, o administrador Estêvão Jonas e a sua mulher Ermelinda, a velha-moça Temporina, o velho Sulplício, são apenas alguns exemplos... O mistério adensa-se. Os soldados da paz morreram ou foram mortos?

Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra


O estudante universitário Marianinho volta à ilha de Luar-do-Chão depois de anos de ausência. O seu retorno é um imperativo: ele fora incumbido de comandar as cerimónias fúnebres do avô Dito Mariano, de quem recebera o mesmo nome. Neto favorito do patriarca, o rapaz chega à ilha e vê-se no centro de uma série de intrigas e de segredos familiares, que envolvem o seu pai, Fulano Malta, a avó Dulcineusa, os tios Abstinêncio, Ultímio e Admirança, e também as nebulosas circunstâncias em torno da morte da sua mãe, Mariavilhosa.
Aos poucos, Marianinho percebe que voltou à ilha para um renascimento. Enquanto aguarda pela cerimónia, ele é testemunha de estranhas visitações na forma de pessoas e de cartas que lhe chegam do outro lado do mundo e descobre que o falecimento do avô permanece estranhamente incompleto e esconde desígnios que escapam à força dos homens - como tudo nessa enigmática Luar-do Chão, onde um rio armazena a memória dos espíritos e a terra sofre com feitiços arcaicos e modernos. São revelações de um universo dominado por uma espiritualidade que ele vai reaprendendo. À medida que se apercebe desse universo frágil e ameaçado, ele redescobre uma outra história para a sua própria vida e para a da sua terra. A sua tarefa é encontrar uma forma de levar adiante uma história que, além de pessoal e familiar, na África pós-colonial é também política e de destino humano. Trata-se de um momento de passagem, crucial para o protagonista e para o seu lugar de origem. Luar-do-Chão encontra-se num estado de abandono, decadência e miséria. Trata-se também de um impasse cultural, religioso e político, que guarda correspondência com a situação social da África de hoje.

Em 2005, o realizador português José Carlos de Oliveira dirigiu e produziu a adaptação cinematográfica deste romance. Com argumento de António Cabrita, José Carlos de Oliveira e Luís Carlos Patraquim, o filme recebe o título “Um Rio”.


Venenos de Deus, remédios do diabo


O jovem médico português Sidónio Rosa, perdido de amores pela mulata moçambicana Deolinda, que conheceu em Lisboa num congresso médico, deslocou-se como cooperante para Moçambique em busca da sua amada. Em Vila Cacimba, onde encontra os pais dela, espera pacientemente que ela regresse do estágio que está a frequentar algures. Mas regressará ela algum dia?
Entretanto vão-se-lhe revelando, por entre a névoa que a cobre, os segredos e mistérios, as histórias não contadas de Vila Cacimba, um lugarejo imerso em poeira e cacimbas (neblinas) enganadoras. Aqui encontramos a família de Deolinda: o pai, Bartolomeu Sozinho, é um velho mecânico naval moçambicano, aposentado do trabalho, mas não dos sonhos ardentes e dos pesadelos ressentidos que elabora no seu escuro quarto de doente terminal. A narrativa entrelaça a vida de Bartolomeu, da sua rancorosa mulher, Munda, da ausente e quase mitológica Deolinda, e ainda de Suacelência, o suarento e corrupto administrador de Vila Cacimba, e sua Esposinha, a misteriosa mensageira do vestido cinzento espalhando as flores do esquecimento. São vidas feitas de mentiras e ilusões que tornam difícil diferenciar o sonho da realidade.

Jesusalém

"A vida é demasiado preciosa para ser esbanjada num mundo desencantado."

Jesusalém é a história de Mwanito, o menino. Um menino em África, terra de guerra, solidão e encanto. Jesusalém é também a terra sem tempo inventada por Silvestre Vitalício, pai de Mwanito que, fugido da cidade, procura a libertação numa antiga propriedade colonial. Junto com eles segue Ntunzi, o irmão mais velho e Zacarias, o antigo soldado que combateu do lado errado de todas as guerras.
Vitalício foge da cidade mas também da vida, da culpa e do tempo. Jesusalém seria a terra sem tempo nem dono, onde a solidão resgataria todas as mágoas. Ali, onde não há mulheres nem mundo, tudo é batizado de novo e só Vitalício decide o que ali acontece. De preferência, procura que nada aconteça porque só o vazio faria sentido. O vazio e o silêncio.
O papel central do romance é assumido por Mwanito, o “afinador de silêncios”. Sobre isto, afirmou Mia Couto na apresentação da obra: “Em África, os silêncios são parte da conversa. O silêncio é uma outra maneira da palavra viver e há coisas que não podem ser ditas de outra maneira”. Mwanito personifica a paz, a única paz que Vitalício encontra e, ao mesmo tempo, a sua única ligação ao passado.
No entanto, não é possível fugir ao tempo nem ao mundo; é nesse aspeto que Jesusalém é uma história desencantada, onde a escrita poética e belíssima de Mia Couto encontra terreno fértil. A literatura ao lado do sofrimento, sem o qual não consegue viver.

A confissão da leoa


Um acontecimento real - as sucessivas mortes de pessoas provocadas por ataques de leões numa remota região do norte de Moçambique - é pretexto para Mia Couto escrever este surpreendente romance. Não tanto sobre leões e caçadas, mas sobre homens e mulheres vivendo em condições extremas.
A confissão da leoa, através da versão de Mariamar, habitante da aldeia de Kulumani, e do diário de Arcanjo Baleeiro, o caçador contratado para matar os leões, vai expondo diante dos nossos olhos como a guerra, a fome, a superstição, podem transformar os homens em animais selvagens.


Autor do mês de Julho - Mia Couto


"Agora ela sabia: um livro é uma canoa. [...] Tivesse livros e ela faria a travessia para o outro lado do mundo, para o outro lado de si mesma."
Mia Couto, em O outro pé da sereia. Editorial Caminho, 2006.


Escritor, biólogo e jornalista, Mia Couto (António Emílio Leite Couto) nasceu em 5 de Julho de 1955, na cidade da Beira, capital da província de Sofala, em Moçambique. Adotou este pseudónimo porque tinha uma paixão por gatos e porque o seu irmão não sabia pronunciar o seu nome.
Mia Couto é considerado um dos escritores mais importantes de Moçambique e o mais traduzido e divulgado no exterior. É também um dos autores estrangeiros mais vendidos em Portugal. As suas obras estão traduzidas e publicadas em mais de 24 países.
Aos 14 anos publicou os primeiros poemas, no jornal Notícias da Beira.
Em 1972 começou a estudar Medicina em Lourenço Marques, curso que abandonaria em 1974, quando enveredou pelo jornalismo, tornando-se, com a independência de Moçambique, repórter e diretor da Agência de Informação de Moçambique (AIM). Esteve ainda na revista semanal Tempo e no jornal Notícias. Em 1985 abandonou a carreira jornalística e reingressou na Universidade de Eduardo Mondlane para se formar em Biologia, especializando-se na área de ecologia.
Como biólogo, tem realizado trabalhos de pesquisa em diversas áreas, com incidência na gestão de zonas costeiras e na recolha de mitos, lendas e crenças que intervêm na gestão tradicional dos recursos naturais. É diretor da empresa Impacto, Lda. - Avaliações de Impacto Ambiental, realizando estudos em Moçambique. Em 1992, foi o responsável pela preservação da reserva natural da Ilha de Inhaca. É professor da disciplina de Ecologia em diversos cursos da Universidade Eduardo Mondlane.
Excelente contador de histórias, Mia Couto é considerado um "escritor telúrico": escreve e descreve as próprias raízes do mundo, explorando a natureza humana na sua relação umbilical com a terra. A sua linguagem, extremamente rica e muito fértil em neologismos, confere-lhe um atributo de singular perceção e interpretação da beleza interna das coisas. Em muitas das suas obras, tenta recriar a língua portuguesa com uma influência moçambicana, utilizando o léxico de várias regiões do país e produzindo um novo modelo de narrativa africana. Cada palavra inventada como que adivinha a secreta natureza daquilo a que se refere, como se nenhuma outra pudesse ter sido utilizada no seu lugar. As imagens de Mia Couto evocam mundos fantásticos e em certa medida surrealistas, subjacentes ao mundo em que se vive, que envolve de uma ambiência terna e pacífica de sonhos - o mundo vivo das histórias. Talvez por isso seja muitas vezes comparado ao escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez ou ao brasileiro Guimarães Rosa.
Em 1983, publicou o seu primeiro livro de poesia, Raiz de Orvalho.
Em 1992, surgiu o primeiro romance, Terra Sonâmbula, com o qual ganhou o Prémio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos em 1995 e que foi considerado um dos dez melhores livros africanos do século XX por um júri criado pela Feira do Livro do Zimbabué.
A 25 de Novembro de 1998 foi feito Comendador da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada.
Entre romances, poesia, contos, crónicas e livros infantis, tem publicados mais de 30 títulos.

OBRA PUBLICADA EM PORTUGAL:
(*) no catálogo da Biblioteca do ECB

Poesia
  • (*) Raiz de orvalho e outros poemas. 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 1999.
  • Idades, cidades, divindades. 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2007.
  • Tradutor de chuvas. 1ª ed., Lisboa/Portugal: Editorial Caminho, 2011.
  • Vagas e lumes. 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2014.

Contos
  • (*) Vozes anoitecidas. 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho,1987.
  • (*) Cada homem é uma raça. 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho,1990.
  • (*) Estórias abensonhadas. 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho,1994.
  • (*) Contos do nascer da terra. 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho,1997.
  • (*) Na Berma de nenhuma estrada. 1ª ed., Lisboa/Portugal: Editorial Caminho, 1999.
  • O fio das missangas. 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2003.

Crónicas
  • (*) Cronicando. 1ª ed. em 1988; 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 1991.
  • Pensatempos. 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2005.
  • E se Obama fosse Africano? e outras interinvenções. 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2009.
  • (*) Pensageiro frequente. Lisboa: Editorial Caminho, 2010; 2ª ed., 2014.

Romances
  • (*) Terra sonâmbula. 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 1992.
  • (*) A varanda do frangipani. 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 1996.
  • (*) Mar me quer. 1ª ed., Parque Expo/NJIRA em 1998, [como contribuição para o pavilhão de Moçambique na Exposição Mundial Expo '98 em Lisboa]; e 1ª ed., [ilustrações João Nasi Pereira]. Lisboa: Editorial Caminho, 2000.
  • (*) Vinte e zinco. 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 1999.
  • (*) O último voo do flamingo. 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2000.
  • (*) Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2002.
  • O outro pé da sereia. 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2006.
  • (*) Venenos de Deus, remédios do diabo. Lisboa: Editorial Caminho, 2008.
  • (*) Jesusalém [no Brasil, o título do livro é "Antes de nascer o mundo"], Lisboa: Editorial Caminho, 2009.
  • (*) A Confissão da leoa. 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2012.
  • Mulheres de cinza (1º livro da trilogia ”As areias do Imperador“). 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2015.
  • A Espada e a Azagaia (segundo volume da trilogia ”As Areias do Imperador“) 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2016
  • O Bebedor de Horizontes (terceiro volume da trilogia ”As Areias do Imperador“) 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2017.

Literatura Infantil
  • O gato e o escuro. [Ilustrações de Danuta Wojciechowska], 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2001.
  • A chuva pasmada. [Ilustrações de Danuta Wojciechowska; 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2004; 2ª ed., 2012.
  • O beijo da palavrinha. [com ilustrações de Malangatana; 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2008.
  • O menino no sapatinho. [Ilustrações Danuta Wojciechowska], 1ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2013.

Prémios

1989 – Prémio Anual de Jornalismo Areosa Pena (Moçambique) com o livro Cronicando
1995 – Prémio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos, com o livro Terra Sonâmbula
1999 – Prémio Vergílio Ferreira, pelo conjunto da sua obra
2001 – Prémio Mário António (ficção) da Fundação Calouste Gulbenkian, pelo livro O último voo do flamingo
2007 – Prémio União Latina de Literaturas Românicas
2007 – Prémio Passo Fundo Zaffari e Bourbon de Literatura, na Jornada Nacional de Literatura, com o livro O Outro Pé da Sereia
2011 - Prémio Eduardo Lourenço pelo seu contributo para o desenvolvimento da língua portuguesa
2013 – Prémio Camões
2014 – Neustadt International Prize for Literature, da Universidade de Oklahoma, Estados Unidos



sexta-feira, 1 de junho de 2018

Autor do mês de junho - Thomas Mann



A 6 de junho de 1875, nascia em Lübeck, cidade livre no norte do antigo Império Alemão, o escritor Thomas Mann, considerado um dos maiores romancistas do século XX e irmão mais novo do também romancista Heinrich Mann. Morreu em Zurique, a 12 de agosto de 1955.

Oriundo de uma família burguesa ligada ao comércio e à política, após a morte do pai, em 1892, quando Thomas Mann tinha 17 anos, a mãe mudou-se para Munique, cidade católica do sul da Alemanha. Em 1893, Thomas Mann começou a escrever alguns textos em prosa e artigos para a revista Der Frühlingssturm (“Tempestade de primavera”) da qual era co-editor. No ano seguinte, 1894, juntou-se à família em Munique, onde começou um estágio não remunerado numa sociedade de seguros, atividade que acabou por abandonar em 1895, tornando-se escritor livre. Entre 1896 e 1898, fez uma longa viagem a Itália, em visita ao seu irmão Heinrich Mann, e começou a trabalhar no manuscrito de Os Buddenbrook. De volta a Munique, tornou-se um dos editores do jornal satírico-humorístico Simplicissimus.

Em 1901, quando Thomas Mann tem 26 anos, é publicado é seu primeiro romance, Os Buddenbrook.
Publicado originalmente em dois volumes, as suas quase 600 páginas tinham levado o editor a sugerir a Mann que encurtasse o texto. Thomas Mann não concordou e o livro foi publicado na íntegra. Mais tarde, Thomas Mann dirá que julgava que o livro iria passar despercebido e seria possivelmente o fim da sua carreira literária. A realidade foi bem diferente: em 1903 uma segunda edição da obra catapulta Thomas Mann para o sucesso, tornando-se um dos escritores mais notáveis do século XX. Em 1929, a Academia Sueca atribuiu-lhe o Prémio Nobel da Literatura e, embora reconhecesse o valor do conjunto da obra já publicada pelo autor, admitiu que o romance Os Buddenbrook tinha sido a principal razão para a atribuição do prémio.

Durante a juventude e inícios da idade adulta, Thomas Mann teve várias paixões e relações com outros homens. Apesar disso, apaixonou-se por Katharina (Katia) Pringsheim, com quem casou em 1905. Deste casamento, nasceram seis filhos.

Em 1912, publica a novela Morte em Veneza, escrita durante uma estadia no Lido de Veneza e considerada a sua obra mais confessional.

Durante a Primeira Guerra Mundial, Thomas Mann entra em conflito com o irmão Heinrich Mann pois defende a entrada da Alemanha na guerra e a política do Kaiser Guilherme II, enquanto o irmão defende a causa da França. Thomas Mann chegou a penhorar a casa que possuía em Bad Tölz em 1917 a favor do esforço de guerra. A perspetiva de Thomas Mann ao longo deste período encontra-se sumariada no ensaio «Considerações de um Apolítico» (1918) e no romance Montanha Mágica, escrito entre 1912 e 1924.
Em 1922, teve lugar um acontecimento que alguns críticos literários consideram decisivo para a transformação política de Thomas Mann a favor da democracia e da República: o assassínio do ministro dos negócios estrangeiros de ascendência judaica, Walter Rathenau, numa ação desencadeada por elementos radicais ultra-nacionalistas.

Em 1933, após a chegada de Hitler ao poder, exilou-se na cidade suíça de Zurique, perdendo a nacionalidade alemã em 1936. Em 1938 mudou-se para os Estados Unidos, obtendo a nacionalidade norte-americana em 1944. O período do “mccarthismo” (a cruzada anticomunista promovida pelo Senador republicano Joseph McCarthy, caracterizada por uma acentuada perseguição e repressão política dos comunistas, ou suspeitos de o serem, assim como por uma campanha de medo quanto à sua influência deles nas instituições norte-americanas, ações também conhecidas como “caça à bruxas”) levou Thomas Mann a regressar à Suíça, vivendo em Kilchberg, próximo de Zurique, até à sua morte, em 1955. Encontra-se sepultado no Kilchberg Village Cemetery, Kilchberg, Zurique, Suíça.

Obras (*disponíveis na Biblioteca do ECB)
  • Der kleine Herr Friedemann (1898)
  • Os Buddenbrook (1901) (Buddenbrooks - Verfall einer Familie) *
  • Tonio Kröger (1903)
  • Sua Alteza Real (1909) (Königliche Hoheit)
  • A Morte em Veneza (1912) (Der Tod in Venedig) *
  • Betrachtungen eines Unpolitischen (Considerações de um apolítico) (1918)
  • The German Republic (1922) (Von deutscher Republik)
  • Montanha Mágica (1924) (Der Zauberberg) *
  • Unordnung und frühes Leid (1926)
  • Mário e o Mágico (1930)
  • José e os seus Irmãos (1933-1943) (Joseph und seine Brüder) *
  • As Histórias de Jacó (1933)
  • O Jovem José (1934)
  • José no Egito (1936)
  • José, o Provedor (1943)
  • Das Problem der Freiheit (1937)
  • Lotte in Weimar or The Beloved Returns (1939)
  • As Cabeças Trocadas (1940) (Die vertauschten Köpfe - Eine indische Legende) *
  • Doutor Fausto (1947) (Doktor Faustus) *
  • Der Erwählte (1951)
  • As Confissões do Félix Krull, Cavalheiro de Indústria (1922/1954) (Bekenntnisse des Hochstaplers Felix Krull. Der Memoiren erster Teil, não terminado)
  • O Cisne Negro (1954) (Die Betrogene: Erzählung) *




Os Buddenbrook
O romance Os Buddenbrook, publicado em 1901, é uma saga familiar de proporções épicas na qual começou a trabalhar em 1887 e que retrata, ao longo de quatro gerações, a progressiva decadência de uma família abastada protestante de comerciantes de cereais de Lübeck, ao mesmo tempo que lança um olhar penetrante e crítico sobre a burguesia alemã do século XIX.
Thomas Mann é considerado um romancista analítico, que descreve como poucos a tensão entre o caráter nórdico, protestante, frio e ascético (características típicas da sua Lübeck natal) e as personagens mais rústicas, simples, bonacheironas, das regiões católicas do sul, de onde se destaca o senhor "Permaneder", o paradigma do bávaro de Munique, em Os Buddenbrook. Thomas Mann viveu entre estes dois mundos: por um lado, a origem familiar e o ambiente da ética protestante de Lübeck, por outro, a voz interior e a influência da mãe, que o faziam interessar-se menos pelos negócios e mais pela literatura, influência que acabou por ser a dominante.
Thomas Mann via nos Buddenbrook um exemplo de uma família em decadência, em que os descendentes não saberiam levar avante o negócio que herdaram. Fortemente inspirado na história da sua própria família, o romance foi lido com especial interesse pelos habitantes de Lübeck que ali descobriram muitos traços de personalidades conhecidas. A publicação deste livro valeu a Thomas Mann uma reprimenda de um tio, que o acusou de ser um "pássaro que emporcalhou o próprio ninho".
Mais do que a crónica em torno da vida e dos costumes dos seus personagens, Os Buddenbrook é a metáfora exemplar das contradições e dilemas de uma classe, cujo poder e domínio se constroem sobre a fraude, a hipocrisia e a alienação. Ao mesmo tempo, como posteriormente acontecerá noutros romances, Thomas Mann propõe e desenvolve o tema da arte como a instância privilegiada em que o homem pode refletir sobre si, a sua época e o seu meio.

Sendo de uma leitura mais acessível do que grande parte da sua obra mais tardia (Montanha Mágica ou Doutor Fausto), Os Buddenbrook são já um exemplo das obsessões de Mann ao nível da escrita: a narrativa imaculada, um subtil tom irónico e as detalhadas descrições das personagens, num cruzamento entre a tradição realista do século XIX e o simbolismo do início do século XX.




Morte em Veneza
O romance Morte em Veneza foi escrito entre julho de 1911 e julho de 1912 e inicialmente publicado nos números de Outubro e Novembro de 1912 da revista alemã Die Neue Rundschau. Sob a forma de livro, é publicado em Fevereiro de 1913. Nesta obra, Thomas Mann apresenta uma escrita complexa e profunda, onde quase cada parágrafo pode ter várias leituras. Em contraponto, o enredo é praticamente inexistente: um homem de meia-idade, Gustav Aschenbach, viaja até Veneza, apaixona-se platonicamente por um jovem rapaz polaco, extremamente atraente, Tadzio,e morre sem sequer ter trocado uma palavra com ele.
Se, a uma primeira leitura, a homossexualidade se torna evidente, à medida que a narrativa prossegue, essa questão mostra-se secundária à análise da obra. Não foi esta a preocupação central do autor, visto que nem sequer houve contacto físico entre as personagens, estando o amor de Aschenbach por Tadzio no âmbito da idealização: a verdadeira atração mostra-se ser pela beleza e perfeição do rapaz, reflexo temporal da beleza eterna, como se Aschenbach buscasse na arte a forma física e a perfeição que gostaria de ter.
“Era mais belo do que é possível descrever-se e Aschenbach sentiu dolorosamente, como tantas vezes antes, que a palavra só pode enaltecer a beleza, não consegue reproduzi-la. [...] E recostado, com os braços pendentes, subjugado e percorrido por frequentes calafrios, murmurou num sussurro a fórmula eterna do desejo – impossível aqui, absurda, abjeta, ridícula e, contudo, sagrada e, apesar de tudo, venerável: "Amo-te!"




Montanha Mágica
Em 1924, Thomas Mann publica aquele que é considerado um dos romances mais influentes da literatura mundial do século XX, Montanha Mágica (no original em alemão Der Zauberberg). É um exemplo clássico da literatura que os alemães classificam como Bildungsroman (romance de desenvolvimento ou de formação).

A obra narra a visita que Hans Castorp, um jovem engenheiro naval alemão, de Hamburgo, faz ao primo Joachim Ziemssen que se encontra internado num sanatório destinado ao tratamento de doenças respiratórias localizado em Davos, nos Alpes suíços, pouco antes do começo da Primeira Guerra Mundial. Apesar de se dirigir ao sanatório apenas para a visita e para tratar uma anemia, Hans Castorp vai aos poucos mostrando sinais de que tem tuberculose pulmonar e acaba por prolongar a sua estadia por meses e anos, pois a sua saída vai sendo adiada por causa da doença.
Nesse período, Castorp, pouco a pouco, afasta-se da vida "na planície" e conquista o que chama” liberdade da vida normal”. Desliga-se do tempo, da carreira e da família e é atraído pela doença, pela introspeção e pela morte. Ao mesmo tempo, amadurece e trava contacto mais profundo com a política, a arte, a cultura, a religião, a filosofia, a fragilidade humana (incluindo a morte e o suicídio), o caráter subjetivo do tempo (um dos temas mais importantes da obra) e o amor.
O sanatório forma um microcosmo europeu. Os numerosos personagens do livro, muitos com descrições e reflexões detalhadas, são representações de tendências e pensamentos que predominavam na Europa antes da Primeira Guerra Mundial, conhecido como o período da Belle Epoque. Em particular os personagens Lodovico Settembrini (humanista e enciclopedista) e Leo Naphta (um jesuíta totalitário) representam, respetivamente, o contraste entre ideias liberais e conservadoras. Também se destacam o hedonista Mynheer Peeperkorn e Madame Clawdia Chauchat, por quem Castorp desenvolve um interesse romântico e sensual.
A subjetividade da passagem do tempo abordada por Mann reflete-se na estrutura do livro. A narrativa é ordenada cronologicamente, mas acelera ao longo do romance. Desse modo, os primeiros cinco capítulos relatam apenas o primeiro dos anos de Castorp no sanatório, em grande detalhe. Os restantes seis anos, marcados pela monotonia e pela rotina, são descritos nos últimos dois capítulos. Essa assimetria corresponde à própria perceção distorcida de Castorp quanto à passagem do tempo.
O final da narrativa coincide com o deflagrar da Grande Guerra e Castorp une-se às fileiras do exército. Apesar de assistirmos ao processo de amadurecimento do personagem ao longo do romance, não fica claro, no final, se ele conseguiu formar uma sólida individualidade: a sua última aparição será a de um soldado anónimo, entre milhares, num qualquer campo de batalha da Primeira Guerra Mundial.
Thomas Mann iniciou a escrita de Montanha Mágica em 1912, o mesmo ano em que a mulher, Katharina Mann, foi internada num sanatório de Davos, na Suíça, para se curar de uma tuberculose. O livro teria sido inspirado nesse episódio.
Em 1915, Thomas Mann interrompeu o trabalho no manuscrito, indeciso sobre o fim a dar ao romance. É deste período o conflito com o irmão Heinrich Mann, um apoiante da França e dos aliados, que desprezava o espírito filisteu, provinciano, totalitário, acrítico dos alemães e do Kaiser Guilherme II. Thomas Mann continuou a escrever Montanha Mágica em 1919, já depois da guerra. Terminaria o romance apenas em 1924, ano da publicação, influenciado também pela experiência da Alemanha durante a República de Weimar.



José e seus irmãos

José e seus irmãos (Joseph und seine Brüder) é um romance em quatro partes, escrito ao longo de cerca de 16 anos. Mann reelabora as histórias familiares do Génesis, de Jacob a José (capítulos 27-50), enquadrando-as no contexto histórico do Período Amarna. A tetralogia consiste em:
  • A história de Jacob, escrita entre dezembro de 1926 e outubro de 1930 (Genesis 27–36);
  • O jovem José, escrita entre janeiro de 1931 e Junho de 1932 (Genesis 37);
  • José no Egipto, escrita entre julho de 1932 e agosto de 1936 (Genesis 38–40);
  • José, o Provedor, escrita entre agosto de 1940 e janeiro de 1943 (Genesis 41–50).

Mann considerou-a a sua maior obra. Situou a história no século XIV a.C. e atribuiu ao faraó Akhenaton a designação de José como seu vice-regente.
Um tema dominante do romance é a exploração por Mann da posição da mitologia e da sua representação na mentalidade do final da Idade do Bronze no que se refere a verdades míticas e ao surgimento do monoteísmo. Os acontecimentos da história do Génesis são frequentemente associados e identificados com outros temas míticos.
Na obra, é nuclear a noção de mundo inferior e a mítica descida ao mundo inferior. A estada de Jacob na Mesopotâmia (escondendo-se da ira de Esaú) está em paralelo com a vida de José no Egito (exilado pelo ciúme dos seus irmãos) e, em menor escala, com o seu cativeiro no poço; estes são a seguir comparados à "descida ao inferno" de Inanna-Ishtar-Demeter, ao Mito de Tammuz da Mesopotâmia, ao cativeiro judaico na Babilónia, bem como à descida ao inferno de Jesus Cristo.

Doutor Fausto
A escrita do romance Doutor Fausto: A vida do compositor alemão Adrian Leverkühn, contada por um Amigo foi iniciada em 1943 e a obra publicada em 1947.
O romance retoma a lenda de Fausto no contexto da primeira metade do século XX e da convulsão da Alemanha naquele período. A história é centrada na vida e obra do compositor fictício Adrian Leverkühn. O narrador é Serenus Zeitblom, seu amigo de infância. Leverkühn escreve na Alemanha entre 1943 e 1946 (no contexto do ambiente cultural e político que levou à ascensão e queda dos nazis) e a sua ambição, apesar de uma inteligência e criatividade extraordinárias, leva-o a fazer um pacto faustiano para atingir o génio criativo: intencionalmente contrai a sífilis para aprofundar a sua inspiração artística. Posteriormente, é visitado por um ser mefistofélico que diz, com efeito, "que apenas tu me possas ver porque estás louco, não significa que eu realmente não existo", e, renunciando ao amor, negoceia a sua alma em troca de vinte e quatro anos de génio. A sua loucura – a sua inspiração demoníaca – leva-o a uma extraordinária criatividade musical.
Os últimos anos criativos de Leverkühn são cada vez mais assombrados pela sua obsessão com o Apocalipse e o Juízo Final. Sente o progresso inexorável da sua loucura de neuro-sifilítico que conduzirá à derrocada total. Como em algumas das lendas de Fausto, reúne os amigos mais próximos para que testemunhem o seu colapso final. Ao som da sua cantata, "A lamentação de Doutor Fausto", ele confessa enraivecido o seu pacto demoníaco, antes de se tornar incoerente. A sua loucura leva-o a um estado infantil, em que vive sob os cuidados dos seus parentes por mais de dez anos.

Podem encontrar-se nesta obra influências de grandes nomes da literatura alemã, como Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832, ele próprio autor do drama trágico Fausto, publicado em fragmento em 1790, depois numa primeira parte definitiva em 1808 e, por fim, numa segunda parte, em 1832, ano da sua morte) e Friedrich Nietzsche (desde a sua suposta contração de sífilis até ao seu colapso mental em 1889, proclamando o Anti-Cristo, e a sua morte em 1900, a vida de Nietzsche apresenta um exemplo célebre imitado em Leverkühn).
Para preparar este romance, Mann estudou musicologia e biografias dos grandes compositores (Mozart, Beethoven, Hector Berlioz, Hugo Wolf, Franz Schreker, Alban Berg) e entrou em contacto com compositores contemporâneos, incluindo Igor Stravinsky, Arnold Schoenberg e Hanns Eisler.
Através da reelaboração do mito de Fausto, Thomas Mann reflete as suas preocupações com temas como o orgulho, a tentação, o custo de ser grande, a perda de humanismo. Outra preocupação é a queda intelectual da Alemanha na época que antecedeu a Segunda Guerra Mundial. O estado de espírito e a ideologia do próprio Leverkühn imitam a mudança do humanismo para o niilismo irracional que se encontra na vida intelectual da Alemanha na década de 1930.



O cisne negro

Publicado pela primeira vez em 1953, O Cisne Negro é a última “longa novela” escrita por Thomas Mann. Conta a história de uma mulher viúva, Rosália von Tummler, que se apaixona por um jovem americano de vinte e quatro anos, Ken Keaton, professor de inglês dos filhos de Rosália, Ana e Eduardo. Thomas Mann retoma assim, em termos inovadores, o tema recorrente da mulher que se apaixona por alguém muito mais novo que ela, o drama de Jocasta e Fedra.
A cidade de Dusseldorf, nas margens do Rio Reno, serviu como cenário para a dramática história de uma viúva na pós-menopausa a quem é diagnosticado um tumor nos ovários e que toma por um regresso da juventude os sintomas do mal que a afeta. Em determinado momento do romance, a protagonista percebe sinais de rejuvenescimento em si mesma, notados através do retorno da menstruação, o que a faz acreditar no reaparecimento de sua mocidade lamentavelmente perdida:

Voltei a ser mulher, um ser completo, uma mulher que reencontrou as suas aptidões. É-me permitido, portanto, sentir-me digna da juventude viril que me enfeitiçou e perante ela já não tenho que baixar os olhos com um sentimento de impotência!

Em todo este drama, sobressai também a personagem Ana, filha de Rosália e que, por uma singularidade inversão de papéis, desempenha junto da mãe a função de conselheira e confidente.