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domingo, 1 de outubro de 2017

Autor do mês de outubro - Agustina Bessa-Luís


Agustina Bessa-Luís
“A grandeza dum espírito está na pluralidade e plenitude da sua sensibilidade. Todo o vasto espírito é sempre um tanto santo e outro tanto demoníaco. Todo o artista exagera ou dilui, aviva ou simplifica.”
Agustina Bessa-Luís, nome literário de Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa, nasceu em Amarante, Vila Meã, a 15 de outubro de 1922. Entre os mais de cinquenta títulos que publicou, encontram-se romances, contos, peças de teatro, biografias romanceadas, crónicas de viagem, ensaios e livros infantis.
A infância e adolescência passadas na região do Douro marcarão fortemente os ambientes da sua obra. Foram as primeiras leituras de escritores franceses e ingleses encontrados na biblioteca do avô materno que despertaram em Agustina o amor pela literatura, começando a escrever ainda na adolescência.
A sua estreia como romancista acontece em 1948, com a publicação da novela Mundo Fechado, a que se seguiu, em 1950, o romance Os Super-Homens. No entanto, seria com o romance A Sibila, publicado em 1954, que Agustina Bessa-Luís se impõe como uma das vozes mais importantes da ficção portuguesa contemporânea.
Surgindo numa altura em que o panorama literário português se caracterizava pela oposição entre o neorrealismo e o modernismo do movimento da Presença, o seu interesse pela vida e obra de um dos grandes expoentes da escola romântica, Camilo Castelo Branco, cuja herança se faz sentir quer a nível temático (inúmeras das suas obras têm como protagonista a sociedade de Entre Douro e Minho), quer a nível da técnica narrativa (explorou ficcionalmente a própria vida de Camilo), leva o ensaísta Eduardo Lourenço a associar Agustina à corrente neorromântica.
Também podemos encontrar na sua obra influências de autores como Raul Brandão, Proust ou Bergson. A preocupação de Agustina pela condição social e cultural dos portugueses leva-a a recorrer à ficção para problematizar o conhecimento histórico e vivencial.
Além da atividade literária, a escritora envolveu-se noutros projetos. Foi membro do Conselho Diretivo da Comunitá Europea degli Scrittori (Roma); colaborou em várias publicações periódicas, tendo sido entre 1986 e 1987 diretora do diário O Primeiro de Janeiro (Porto); entre 1990 e 1993 assumiu a direção do Teatro Nacional de D. Maria II (Lisboa). Foi membro da Alta Autoridade para a Comunicação Social e da Academie Européenne des Sciences, des Arts et des Lettres (Paris), da Academia Brasileira de Letras e da Academia das Ciências de Lisboa (Classe de Letras).
Em 1981, foi distinguida com o grau de Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada, tendo sido elevada ao grau de Grã-Cruz da mesma ordem em 26 de Janeiro de 2006. Em 2004, aos 81 anos, recebeu o mais importante prémio literário da língua portuguesa: o Prémio Camões. Em 2005 foi-lhe atribuído o título de doutor honoris causa pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
Vários dos seus romances foram adaptados ao cinema pelo realizador Manuel de Oliveira, com quem manteve uma relação de amizade e de colaboração próxima. Exemplos desta parceria são Fanny Owen (Francisca, 1981), Vale Abraão (filme homónimo, 1993), As Terras do Risco (O Convento, 1995) ou A Mãe de um Rio (Inquietude, 1998).
Agustina Bessa-Luís deixou de escrever em Julho de 2006, pouco depois de terminar a sua última obra, A Ronda da Noite, retirando-se da vida pública devido a razões de saúde.
“Fim - o que resta é sempre o princípio feliz de alguma coisa.”


Obra (assinalam-se a negrito os títulos que integram o catálogo da Biblioteca do Externato Cooperativo da Benedita)
Ficção
1948 - Mundo Fechado (novela)
1950 - Os Super-Homens (romance)
1951-1953 - Contos Impopulares (romance)
1954 - A Sibila (romance)
1956 - Os Incuráveis (romance)
1957 - A Muralha (romance)
1958 - O Susto (romance)
1960 - Ternos Guerreiros (romance)
1961 - O Manto (romance)
1962 - O Sermão do Fogo (romance)
1964 - As Relações Humanas: I - Os Quatro Rios (romance)
1965 - As Relações Humanas: II - A Dança das Espadas (romance)
1966 - As Relações Humanas: III - Canção Diante de uma Porta Fechada (romance)
1967 - A Bíblia dos Pobres: I - Homens e Mulheres (romance)
1970 - A Bíblia dos Pobres: II - As Categorias (romance)
1971 - A Brusca (contos)
1975 - As Pessoas Felizes (romance)
1976 - Crónica do Cruzado OSB (romance)
1977 - As Fúrias (romance)
1979 - Fanny Owen (romance histórico)
1980 - O Mosteiro (romance)
1983 - Os Meninos de Ouro (ação)
1983 - Adivinhas de Pedro e Inês (romance histórico)
1984 - Um Bicho da Terra (romance histórico, biografia de Uriel da Costa)
1984 - Um Presépio Aberto (narrativa)
1985 - A Monja de Lisboa (romance histórico, biografia de Maria de Visitação)
1987 - A Corte do Norte (romance histórico)
1988 - Prazer e Glória (romance)
1988 - A Torre (conto)
1989 - Eugénia e Silvina (romance)
1991 - Vale Abraão (romance)
1992 - Ordens Menores (romance)
1994 - As Terras do Risco (romance)
1994 - O Concerto dos Flamengos (romance)
1995 - Aquário e Sagitário (narrativa)
1996 - Memórias Laurentinas (romance)
1997 - Um Cão que Sonha (romance)
1998 - O Comum dos Mortais (romance)
1999 - A Quinta Essência (romance)
1999 - Dominga (conto)
2000 - Contemplação Carinhosa da Angústia (antologia)
2001 - O Princípio da Incerteza: I — Jóia de Família (romance)
2002 - O Princípio da Incerteza: II — A Alma dos Ricos (romance)
2003 - O Princípio da Incerteza: III — Os Espaços em Branco (romance)
2004 - Antes do Degelo (romance)
2005 - Doidos e Amantes (romance)
2006 - A ronda da noite (romance)
Biografias
1979 - Santo António
1979 - Florbela Espanca
1981 - Sebastião José
1982 - Longos Dias Têm Cem Anos — Presença de Vieira da Silva
1986 - Martha Telles: o Castelo Onde Irás e Não Voltarás (ensaio e biografia)
Teatro
1958 - Inseparável ou o Amigo por Testamento
1986 - A Bela Portuguesa
1992 - Estados Eróticos Imediatos de Soren Kierkegaard
1996 - Party: Garden-Party dos Açores — Diálogos
1998 - Garret: O Eremita do Chiado
Crónicas, memórias, textos ensaísticos
1961 - Embaixada a Calígula (relato de viagem)
1979 - Conversações com Dimitri e Outras Fantasias (crónicas)
1980 - Arnaldo Gama — “Gente de Bem”
1981 - A Mãe de um Rio (texto e fotografia)
1981 - Dostoievski e a Peste Emocional
1981 - Camilo e as Circunstâncias
1982 - António Cruz, o Pintor e a Cidade
1982 - D.Sebastião: o Pícaro e o Heroíco
1982 - O Artista e o Pensador como Minoria Social
1984 - ”Menina e Moça” e a Teoria do Inacabado
1986 - Apocalipse de Albrecht Dürer
1987 - Introdução à Leitura de “A Sibila”
1988 - Aforismos
1991 - Breviário do Brasil (diário de viagem)
1994 - Camilo: Génio e Figura
1995 - Um Outro Olhar sobre Portugal (relato de viagem), com fotografias de Pierre Rossollin e ilustrações de Maluda
1996 - Alegria do Mundo I: escritos dos anos de 1965 a 1969
1997 - Douro (texto e fotografia), em colaboração com Mónica Baldaque
1998 - Alegria do Mundo II: escritos dos anos de 1970 a 1974
1998 - Os Dezassete Brasões (texto e fotografia)
1999 - A Bela Adormecida
2000 - O Presépio: Escultura de Graça Costa Cabral (texto e fotografia), em colaboração com Pedro Vaz
2001 - As Meninas (texto e pintura)
2002 - O Livro de Agustina (autobiografia)
2002 - Azul (divulgação), em colaboração com Luísa Ferreira
2002 - As Estações da Vida (texto e fotografia), fot. Jorge Correia Santos
2004 - O Soldado Romano, com ilustrações de Chico
2016 - Ensaios e artigos
Literatura infantil
1983 - A Memória de Giz, com ilustrações de Teresa Dias Coelho
1987 - Contos Amarantinos, com ilustrações de Manuela Bacelar
1987 - Dentes de Rato, com ilustrações de Martim Lapa
1990 - Vento, Areia e Amoras Bravas, com ilustrações de Mónica Baldaque
2007 - O Dourado, com ilustrações de Helena Simas
Adaptações cinematográficas
1981 - Francisca, realizado por Manoel de Oliveira (adaptação do romance Fanny Owen)
1993 - Vale Abraão, realizado por Manoel de Oliveira (adaptação do romance Vale Abraão)
1995 - O Convento, realizado por Manoel de Oliveira, com Catherine Deneuve e John Malkovich (adaptação do romance As Terras do Risco)
1996 - Party, realizado por Manoel de Oliveira (adaptação da peça Party: Garden-Party dos Açores)
1998 - Inquietude, realizado por Manoel de Oliveira (adaptação do conto A Mãe de um Rio), Prémio Globo de Ouro (1999) para a melhor realização
2002 - O Princípio da Incerteza, realizado por Manoel de Oliveira (adaptação do romance O Princípio da Incerteza)
2005 - Espelho Mágico, realizado por Manoel de Oliveira (adaptação do romance A Alma dos Ricos)
2001 - Porto da minha infância, realizado por Manoel de Oliveira
2009 - A Corte do Norte, realizado por João Botelho
Prémios
Prémios à autora
1975 - Prémio "Adelaide Ristori" (Centro Cultural Italiano de Roma)
1982 - Prémio da Cidade do Porto
1988 - Prémio Seiva de Literatura (Companhia de Teatro Seiva Trupe), Porto
1993 - Medalha de Mérito Cultural
1996 - Prémio Bordalo de Literatura (Casa da Imprensa)
2004 - Prémio Camões - o mais importante prémio literário da língua portuguesa
2004 - Prémio Vergílio Ferreira (Universidade de Évora)
2005 - Prémio de Literatura do Festival Grinzane Cinema, Turim (Itália)
Prémios às obras
1953 - Prémio Delfim Guimarães (Guimarães Editores) (A Sibila)
1954 - Prémio Eça de Queirós (Secretariado Nacional de Informação) (A Sibila)
1966 - Prémio Ricardo Malheiros (Academia das Ciências de Lisboa) (Canção Diante de uma Porta Fechada)
1967 - Prémio Nacional de Novelística (Secretariado Nacional de Informação) (Homens e Mulheres)
1977 - Prémio Ricardo Malheiros (Academia das Ciências de Lisboa) — Prémio Literário (As Fúrias)
1980 - Prémio P.E.N. Clube Português de Ficção (O Mosteiro)
1980 - Prémio D. Dinis (Fundação Casa de Mateus) (O Mosteiro)
1983 - Prémio de Romance e Novela, Associação Portuguesa de Escritores (Os Meninos de Ouro)
1988 - Prémio RDP Antena 1 da Literatura (Ex-aequo) (Prazer e Glória)
1993 - Prémio da Crítica (Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários) (Ordens Menores)
1994 - Prémio Municipal Eça de Queirós (Câmara Municipal de Lisboa) — Prémio de Prosa de Ficção (As Terras do Risco)
1996 - Prémio Máxima de Literatura (Memórias Laurentinas e Party)
1997 - Prémio Internacional União Latina, Itália (Um Cão que Sonha)

2001 - Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (Jóia de Família)


quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Prémio de Escrita Gonçalves Sapinho



Edição 2017/2018
Criação e Justificação
O Prémio de Escrita Gonçalves Sapinho, instituído pelo Externato Cooperativo da Benedita, e sob a forma de concurso, surge com um triplo objetivo:
1. Homenagear a memória do Dr. José Gonçalves Sapinho por ter amado, lutado e desenvolvido a educação, a comunidade da vila da Benedita e a região de Alcobaça;
2. Desenvolver as boas práticas de escrita, de leitura e de envolvimento da comunidade escolar na promoção da língua portuguesa.
3. Promover o sentido estético e a fruição artística.

Regulamento
1. O Prémio de Escrita Gonçalves Sapinho, na sua quarta edição, 2017/2018, tem género textual obrigatório: carta ou email, em registo de língua padrão e/ou cuidado.
2. Os concorrentes deverão escrever a carta ou email a uma criança (ou a um jovem) do mundo.
3. Poderão concorrer ao Prémio de Escrita Gonçalves Sapinho, na edição 2017/2018, os ex-alunos do Externato Cooperativo da Benedita e todos os alunos e professores da comunidade escolar beneditense, i.e. do Agrupamento de Escolas da Benedita, do Externato Cooperativo da Benedita e da Universidade Sénior da Benedita.
4. Os concorrentes, consoante o ano de escolaridade que frequentam, inserir-se-ão num dos oito escalões, a saber:
Escalão 1 — 1.º Ciclo do Ensino Básico
Escalão 2 — 2.º Ciclo do Ensino Básico
Escalão 3 — 3.º Ciclo do Ensino Básico
Escalão 4 — Ensino Secundário
Escalão 5 — Universidade Sénior
Escalão 6 — Professores
Escalão 7 — Alunos de Educação Especial
Escalão 8 – Ex-alunos do Externato Cooperativo da Benedita
5. Os concorrentes dos diferentes escalões (1 a 8) candidatam-se por iniciativa própria e por pertencerem, no ano letivo 2017-2018, à comunidade escolar beneditense.
6. Os textos dos concorrentes do escalão 7 terão como responsáveis os professores de Educação Especial que os acompanham no ano letivo relativo ao concurso.
7. As obras concorrentes deverão respeitar as normas que a seguir se apresentam:
a)      O texto deve ser processado em Word, tipo de letra Calibri, tamanho 11, margens de 1.5, espaçamento entre linhas 1,5 e esquema de página vertical;
b)      A dimensão do texto não pode exceder as seis páginas com a formatação referida na alínea anterior.

8. Dos trabalhos a concurso deverão constar as seguintes informações: Nome do concorrente, Escola que frequenta e o endereço eletrónico. Os ex-alunos concorrentes deverão indicar o último ano que frequentaram o Externato Cooperativo da Benedita.
9. Os trabalhos a concurso serão enviados para o email premiogoncalvessapinho@gmail.com. A comissão organizadora acusará a receção do texto até 24 horas após o envio.
10. O prazo de entrega dos originais termina no dia 9 de fevereiro de 2018, às 23:59.
11. Os três melhores trabalhos de cada escalão serão publicados na Antologia intitulada L@CRE.
12. O Prémio de Escrita Gonçalves Sapinho será entregue a 22 de março de 2018 às 14.30 (em local a definir). Será divulgado nos órgãos de comunicação social.
13. O júri, nomeado pela comissão organizadora, será constituído por três elementos de reconhecido mérito, no âmbito da escrita e do ensino.
14. As deliberações do júri serão tomadas por maioria. Das suas decisões não haverá recurso.
15. Neste concurso poderá haver textos em ex-aequo e textos com menções honrosas.
16. O júri poderá não atribuir o Prémio a um ou vários escalões se entender que as produções não possuem a qualidade adequada.
17. Os concorrente premiados serão informados através do email premiogoncalvessapinho@gmail.com no dia 17 de março de 2017.
18. Da publicação da Antologia L@CRE, junto ao texto premiado constará o nome do autor, a escola a que pertence, o escalão em que concorreu e o prémio atribuído 1.º, 2.º ou 3.º.
19. Os textos premiados serão ilustrados pelos alunos de Artes Visuais do Externato Cooperativo da Benedita.
20. As ilustrações apresentadas também estarão a concurso, sendo premiadas as três melhores.
21. A antologia estará à venda na Feira do Livro do Externato Cooperativo da Benedita.
22. As obras não premiadas serão arquivadas pela comissão organizadora em arquivo digital.
23. O não cumprimento da Normas de Participação apresentadas conduzirá à exclusão da participação neste concurso.
24. Os casos omissos nestas Normas serão resolvidos pela comissão organizadora.

Paula Cristina Ferreira

A coordenadora do Projeto Prémio de Escrita Gonçalves Sapinho

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Autor do mês de setembro – Mário de Carvalho



O escritor Mário Costa Martins de Carvalho nasceu em Lisboa, no dia 25 de Setembro de 1944, e tem publicada uma vasta obra que integra romances, contos, peças de teatro, ensaios e argumentos para cinema. Licenciou-se em Direito pela Universidade de Lisboa e, paralelamente à escrita, dedicou-se a uma advocacia de causas, nomeadamente sindicais e de inquilinato, manifestando desde sempre um grande envolvimento com uma cidadania ativa e interventiva politicamente. Ainda estudante universitário, participou nas greves estudantis de 1961-1962 e, já nos inícios da década de 70 do século XX, na resistência clandestina antifascista, tendo sido preso nas cadeias políticas de Caxias e Peniche. Em 1973 saiu ilegalmente de Portugal e exilou-se na Suécia, regressando ao país após a Revolução de Abril.

Publicou o seu primeiro livro em 1981, Contos da Sétima Esfera, conquistando de imediato os leitores pelo inesperado da abordagem ficcional e pelas peculiares atmosferas em que decorrem os contos, entre o maravilhoso e o fantástico.


Ainda na década de 80, publicou Os Casos do Beco das Sardinheiras (1981), O Livro Grande de Tebas, Navio e Mariana (1982), A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho (1983), Fabulário (1984), A Paixão do Conde de Fróis (1986) e Os Alferes (1989), entre outros.


Em 1991, publica a peça de teatro Água em pena de pato.


Em 1994, surge o seu livro mais reeditado, traduzido e premiado, o romance Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde (1994), cuja ação se situa no século II d. C., em Tarcisis, cidade romana da Lusitânia. O magistrado Lúcio Valério Quíncio, recebendo notícias de uma invasão bárbara iminente, proveniente do Norte de África, vê-se obrigado a tomar medidas drásticas, enquanto, no interior das muralhas da cidade, uma nova seita, a Congregação do Peixe, põe em causa os valores da romanidade, evocando os ensinamentos de um obscuro crucificado. No plano íntimo, a paixão devastadora por uma mulher, Iunia, perturba-o e confunde-o, mas sem o afastar do cumprimento do dever. Neste romance em que a ficção se sobrepõe à História, Mário de Carvalho (que garante, numa epígrafe provocatória, não se tratar de um romance histórico) reconstitui as características culturais, políticas e quotidianas do Império Romano, sem nunca esquecer a «intercessão de certo deus que, nos primórdios, ao que parece, passeava num jardim pela brisa da tarde...».


Com este romance, Mário de Carvalho obteve sucessivos prémios, entre os quais o Prémio Pégaso de Literatura, o Prémio Fernando Namora, o Prémio de Romance e Novela da APE e o Prémio Literário Giuseppe Arcebi. Estando traduzido para inglês, francês, alemão, italiano e outras línguas, em capa dura e edições de bolso, é ainda um livro recomendado para o Ensino Secundário como sugestão de leitura.
Antes do final da década de 90, publicou Era Bom que Trocássemos Umas Ideias sobre o Assunto (1995) e Se Perguntarem por Mim, não Estou seguido de Haja Harmonia (1999). Já nos inícios do século XXI, surgem Contos Vagabundos (2000), Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina (2003), A Sala Magenta (2008), A Arte de Morrer Longe (2010), O Homem do Turbante Verde (2011), Quando o Diabo Reza (2011), O Varandim seguido de Ocaso em Carvangel (2012), A Liberdade De Pátio (2013), Quem disser o contrário é porque tem razão (2014), Novelas Extravagantes (2015).


A Ronda das Mil Belas em Frol, publicado em 2016, é o seu mais recente romance.
Com um estilo muito versátil, percorrendo vários registos, desde temas históricos a narrativas da atualidade, numa escrita sempre pontuada por uma sátira viva e certeira, Mário de Carvalho é, sem dúvida, um autor a conhecer e a apreciar!

Obras de Mário de Carvalho na Biblioteca do ECB:

- Contos da Sétima Esfera (1981)
- A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho (1983)
- Fabulário (1984)
- A Paixão do Conde de Fróis (1986)
- Os Alferes (1989)
- Água em Pena de Pato (1991)
- Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde (1994)
- Era Bom que Trocássemos Umas Ideias Sobre o Assunto (1995)
- Contos Vagabundos (2000)
- A Sala Magenta (2008)
- Quem disser o contrário é porque tem razão (2014)




sábado, 26 de agosto de 2017

Dia Internacional da Igualdade Feminina


A comemoração do Dia Internacional da Igualdade Feminina pretende celebrar a igualdade de género e as conquistas das mulheres na sociedade ao longo da história, num mundo onde a desigualdade continua a ser uma realidade em muitas sociedades.

Se ao longo do século XX as mulheres foram alcançando muitas vitórias, como o direito ao voto, a entrada no mercado de trabalho, no ensino e na vida política, entre outros, hoje são ainda muitas as situações a melhorar, como o fim dos preconceitos e dos estereótipos, a igualdade salarial, o fim da violência ou o fim da discriminação em geral.

A efeméride é comemorada neste dia em alusão à aprovação da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão pela Assembleia Nacional Constituinte de França, a 26 de agosto de 1789.
Na sequência da Revolução iniciada em 14 de julho em Paris, com a tomada da Bastilha, e inspirada nos ideais iluministas, esta Declaração afirmava a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão como direitos naturais e imprescritíveis do homem, numa ambiguidade de género que não deixou algumas mulheres indiferentes. Na verdade, a Declaração não contemplava explicitamente as mulheres, às quais não foram concedidos quaisquer direitos, nomeadamente de acesso a instituições públicas, liberdade profissional, direitos de propriedade ou o direito ao voto (este último apenas alcançado em 1944 pelas mulheres francesas).

Em 1791, a escritora Marie Gouze, conhecida por Olympe de Gouges, escreveu a “Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã” (Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne), decalcada sobre o modelo da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.



É o primeiro documento da Revolução Francesa a mencionar a igualdade jurídica das mulheres em comparação com os homens e foi elaborado para ser apresentado e votado na Assembleia Nacional em 28 de outubro de 1791. No entanto, a Convenção rejeitou o projeto e a declaração foi ignorada política e academicamente.


Marie Gouze (Olympe de Gouges)
Pintura de Alexander Kucharsky – Fonte da Imagem: Wikipédia
Olympe de Gouges, pseudónimo de Marie Gouze, nasceu em Montauban, a 7 de maio de 1748, e morreu em Paris, a 3 de novembro de 1793. Foi dramaturga, ativista política, feminista e abolicionista.
Escreveu uma peça de teatro anti-esclavagista, L'Esclavage des Nègres, e algumas obras feministas relacionadas com os temas do direito ao divórcio e às relações sexuais fora do casamento. O início da Revolução Francesa é um momento de esperança para Olympe de Gouges que, no entanto, cedo se desilude por constatar que a “igualdade” da Revolução não incluía as mulheres no que se referia aos direitos.
Em 1791, ano em que escreveu a “Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã”, ingressou no Cercle Social, uma associação cujo principal objetivo era a luta pela igualdade dos direitos políticos e jurídicos para as mulheres e que se reunia na casa de Sophie de Condorcet, uma defensora da causa feminista.
Por se envolver ativamente em questões que lhe pareciam injustas, como a condenação à morte de Luis XVI, por ser contra a pena de morte e por se sentir desapontada nas suas expectativas, Olympe de Gouges passou a escrever de forma mais veemente e contundente. No entanto, os Jacobinos não estavam dispostos a aceitar a causa da defesa dos direitos das mulheres: exilaram Sophie de Condorcet e, em 3 de novembro de 1793, guilhotinaram Olympe de Gouges.

Olympe de Gouges ficou esquecida e quase desconhecida até a “Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã” ter sido publicada em 1986 por Benoîte Groult. Desde então, várias homenagens lhe têm sido feitas em França.
Em 6 de março de 2004, foi atribuído o nome Olympe de Gouges a uma praça em Paris. Na sua inauguração, a atriz Véronique Genest leu um excerto da “Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã”. Em 2007, a então candidata à Presidência da Repúblical francesa Ségolène Royal expressou o desejo de que os restos mortais de Gouges fossem movidos para o Panteão. No entanto, como aconteceu a outras vítimas do período da Revolução Francesa conhecido como “o Terror”, a sepultura de Olympe de Gouges numa vala comum impossibilitou a realização deste cerimonial.

Para conhecer a “Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã”, clique em 




sábado, 19 de agosto de 2017

Dia Mundial da Fotografia


Fotografar é colocar na mesma linha a cabeça, o olho e o coração.
Henri Cartier-Bresson

O Dia Mundial da Fotografia comemora-se anualmente a 19 de agosto. Este dia foi definido pelo governo francês, em 1839, para assinalar a invenção do processo fotográfico desenvolvido por Louis Jacques Mandé Daguerre, em 1837. Este processo, a que se deu o nome de daguerreótipo, foi oficialmente apresentado ao mundo, em 1839, na Academia de Ciências da França, em Paris, considerado "um presente grátis para o mundo".


Louis Daguerre


Boulevard du Temple (Louis Daguerre)


A câmara de Louis Daguerre

Antes de Daguerre, o também francês Joseph Nicéphore Niépce foi o precursor deste processo. Unindo elementos da química e da física, em 1826 criou a heliografia (gravação com o sol), sendo a imagem heliográfica feita com uma placa de estanho derivado de um petróleo fotossensível, podendo ficar cerca de 8 horas em exposição solar. O processo tinha baixa velocidade de captação e pouca qualidade de imagem. Nesse invento, Niépce aliou o princípio da "câmara escura" (utilizada por artistas desde o século XVI, entre eles Leonardo da Vinci) à característica fotossensível dos sais de prata. Após a morte de Niépce, Daguerre aperfeiçoou o invento, rebatizando-o como daguerreótipo.


Joseph Nicéphore Niépce


A 1ª fotografia (Joseph Nicéphore Niépce)



A câmara de Niépce

Outro processo fotográfico, o calótipo, inventado em 1839 pelo britânico William Fox Talbot, fez com que este ano de 1839 fosse considerado o ano da invenção da fotografia. O calótipo (ou talbótipo) foi um processo fotográfico pioneiro, antecessor da atual fotografia, e que consistia na exposição à luz, com o emprego de uma câmara escura, de um negativo em papel sensibilizado com nitrato de prata e ácido gálico. Posteriormente, este é fixado numa solução de hipossulfito de sódio. Quando pronto e seco, positiva-se por contacto direto num papel idêntico.


William Fox Talbot


A foto de Talbot


A invenção da fotografia exerceu uma forte influência sobre as artes plásticas, pois com uma nova forma de obter imagens da realidade, os pintores e escultores passaram a ter muito mais liberdade de criação, por não precisarem de se limitar a fazer uma cópia fiel da realidade. Do impressionismo ao fauvismo ou ao cubismo, do expressionismo ao abstracionismo ou ao surrealismo, a rutura com os cânones artísticos foi acontecendo desde finais do século XIX, consequência também desta nova técnica de captação do real.
Privilegiando a cor ou o preto e branco, com ou sem photoshop e efeitos de luz/sombra, para arquivo privado ou para partilhar nas redes sociais, hoje em dia todos somos, de uma ou de outra forma, fotógrafos em potência. Com o advento da fotografia digital e a proliferação dos telemóveis com câmaras, praticamente todos podemos aventurar-nos na fotografia e levar a imagem para onde quisermos. A fotografia serve para eternizar momentos, para guardar recordações, para registar a história de cada um ou a história de povos e as transformações do mundo. Acima de tudo, a fotografia serve para contar histórias em imagens, sem palavras, para mostrar a nossa visão pessoal do mundo. Ou simplesmente para nos dar prazer enquanto "fotógrafos"...
No dia Mundial da Fotografia decorrem várias iniciativas para celebrar a data, como workshops, maratonas de fotografia, concursos e palestras. O Dia Mundial da Fotografia consiste na celebração da arte de fotografar. Desde o fotógrafo amador ao profissional, neste dia o objetivo é reviver o amor pela fotografia.
Alguns fotógrafos célebres:

Henri Cartier-Bresson

Henri Cartier-Bresson – fotógrafo, fotojornalista e desenhador francês (Chanteloup-en-Brie, 22 de agosto de 1908 — Montjustin, 2 de agosto de 2004). Em 1947, juntamente com Robert Capa, Bill Vandivert, George Rodger e David Seymour, fundou a agência fotográfica Magnum, durante uma exposição no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (o nome desta cooperativa de fotógrafos terá sido retirado da marca de champagne com que se comemorava o evento).
Robert Capa




Robert Capa (pseudónimo de Endre Ernő Friedmann) – fotógrafo húngaro nascido em Budapeste, a 22 de Outubro de 1913, foi um dos mais célebres fotógrafos de guerra que cobriu alguns dos mais importantes conflitos da primeira metade do século XX: a Guerra Civil Espanhola, a Segunda Guerra Sino-Japonesa, a Segunda Guerra Mundial na Europa (em Londres, na Itália, a Batalha da Normandia e a liberação de Paris) e no Norte da África, a Guerra Israelo-Árabe de 1948 e a Primeira Guerra da Indochina, durante a qual morreu, em 25 de maio de 1954, ao pisar uma mina terrestre em Thai-Binh.
Alberto Korda

Alberto Díaz Gutiérrez, conhecido como Alberto Korda (Havana, 14 de setembro de 1928 — Paris, 25 de maio de 2001), foi um fotógrafo cubano que se tornou mundialmente conhecido com a fotografia Guerrillero Heroico, a fotografia que realizou de forma quase acidental de Che Guevara, no dia 5 de março de 1960, e que se tornou uma das mais reproduzidas de todos os tempos.

Guerrillero Heroico

Robert Doisneau




Robert Doisneau (14 de abril de 1912 - 1 de abril de 1994) nasceu na cidade de Gentilly, Val-de-Marne, na França. Era um apaixonado por fotografias de rua, registando a vida social das pessoas que viviam em Paris, mas também trabalhou em fotografias para publicações em revistas. A sua fotografia mais famosa será talvez O Beijo do Hotel de Ville (Paris, 1950).

O Beijo do Hotel de Ville 

Sebastião Salgado



Sebastião Salgado é um fotógrafo brasileiro, nascido em 8 de fevereiro de 1944, em Aimorés, Minas Gerais. Em 1979, depois de passar pelas agências de fotografia Sygma e Gamma, entrou para a Magnum. É considerado um fotógrafo "comprometido" com as caudas dos excluídos.
O seu primeiro livro, Outras Américas, sobre os pobres na América Latina, foi publicado em 1986. Da sua colaboração com a ONG Médicos sem Fronteiras nasceu Sahel: O homem em pânico (1986), um livro sobre a seca e a fome na região do Sahel, na África, registadas entre 1984 e 1985. Entre 1986 e 1992, concentrou-se na documentação do trabalho manual em todo o mundo, publicada e exibida sob o nome Trabalhadores rurais. De 1993 a 1999, voltou a sua atenção para o fenómeno global das migrações em massa, que resultou nos livros Êxodos e Retratos de Crianças do Êxodo, publicados em 2000.
Na introdução de Êxodos, escreveu:
"Mais do que nunca, sinto que a raça humana é somente uma. Há diferenças de cores, línguas, culturas e oportunidades, mas os sentimentos e reações das pessoas são semelhantes. Pessoas fogem das guerras para escapar da morte, migram para melhorar sua sorte, constroem novas vidas em terras estrangeiras, adaptam-se a situações extremas…".


Ao longo dos anos, Sebastião Salgado tem colaborado com organizações humanitárias, incluindo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, (ACNUR), a Organização Mundial da Saúde (OMS), a ONG Médicos Sem Fronteiras e a Amnistia Internacional.
Em 2013, publicou, juntamente com a sua mulher Lélia Wanick Salgado, Genesis, resultado de uma expedição de oito anos para redescobrir as montanhas, desertos e oceanos, os animais e os povos que até agora escaparam à marca da sociedade moderna - a terra e a vida de um planeta ainda intocado: das ilhas Galápagos à Antártida e ao Atlântico Sul; da Papua Ocidental ao Sudão; das comunidades de Sumatra, aos vulcões da África Central; do Grand Canyon ao Alasca.
«Cerca de 46% do planeta ainda é como era no tempo da génese [...] Temos que preservar o que existe», lembra Salgado.
Tendo dedicado tanto tempo, energia e paixão para a realização deste trabalho, Sebastião Salgado considera Genesis a sua "carta de amor para o planeta".





[Fotos retiradas de Google Images]