«Contai aos vossos filhos não é “mais” um livro sobre o Holocausto.
É um livro diferente. Não é uma obra de história, no sentido académico da
palavra, mas sim um documento de “história viva”: conta o Holocausto com base
em testemunhos, em fotografias, em diálogos simples, em pequenas histórias
tragicamente verídicas. Através da simplicidade da linguagem, revela-nos toda a
dimensão monstruosa da máquina de morte nazi.»
Do prefácio de Esther Mucznik (da
comunidade israelita de Lisboa) à edição portuguesa.
O
livro Contai aos vossos filhos… um livro
sobre o Holocausto na Europa, 1933-1945, deStéphane Bruchfeld e Paul A. Levine, foi inicialmente
publicado pelo Governo sueco no âmbito do projeto educativo “História Viva” sobre
o Holocausto. Este projeto, que nasceu em 1997, visava suscitar a discussão
sobre temas como a solidariedade, a democracia e a igualdade, tomando como
ponto de partida o Holocausto perpetrado pelos nazis durante a Segunda Guerra Mundial.
Com
este livro, composto sobretudo por testemunhos e fotografias de alguma
dureza, pretendia-se divulgar, numa linguagem acessível aos estudantes e ao
público em geral, uma informação devidamente documentada sobre um dos
acontecimentos mais tenebrosos do século XX, apresentando uma história do
Holocausto que os pais pudessem utilizar como ponto de partida para o diálogo
com os filhos sobre valores morais e democráticos e sobre ética social.
Na sua tradução para
português, a obra foi enriquecida com textos da autoria da historiadora Irene
Pimentel visando contextualizar a política portuguesa durante a Segunda Guerra
Mundial, a passagem e a vivência dos refugiados em Portugal e ainda a ação
humanitária do cônsul Aristides de Sousa Mendes.
A
9 de novembro assinala-se o Dia Internacional Contra o Fascismo e o Antissemitismo.
Este dia foi instituído pelo Parlamento Europeu, no âmbito da luta contra o
racismo e a xenofobia na União Europeia, para lembrar a que ficou conhecida
como a "Noite de Cristal" (do alemão Kristallnacht), em 9 de novembro de 1938, quando centenas de sinagogas
e mais de 7500 lojas de judeus foram incendiadas, assaltadas e saqueadas em
toda a Alemanha e Áustria, então sob o domínio nazi ou Terceiro Reich. Foram
ainda mortas centenas de pessoas e cerca de 25 a 30 mil judeus foram presos e
levados para campos de concentração, dos quais mais de 10 mil foram deportados
para o campo de concentração de Dachau (uma antiga fábrica de armamento perto
de Munique).
As
ordens determinavam ainda que os homens do poder deviam estar vestidos à
paisana, para que o movimento parecesse espontâneo, de uma população furiosa
contra os judeus. Os incêndios chocaram uma parte da população - mas não o
facto de os judeus terem sido atacados fisicamente.
No
fim, as autoridades nazis ainda cobraram aos judeus uma multa de mil milhões de
marcos, pela desordem e prejuízos, dos quais eles foram as vítimas.
O
pretexto para estas ações foi o assassinato do secretário da embaixada alemã em
Paris, Von Rath, cometido por um jovem judeu polaco, a 7 de novembro.
Esta
noite é considerada o início do Holocausto, que seria responsável por mais de 6
milhões de mortes.
Neste
dia apela-se a um momento de reflexão e de congregação de esforços na luta pela
eliminação de todas as formas de discriminação racial, de que ainda são vítimas,
infelizmente, vários cidadãos em diferentes localidades do mundo.
Curiosamente,
o dia 9 de novembro marca também a queda do muro de Berlim, em 1989, marco
emblemático na queda dos regimes comunistas do Leste europeu.
A
7 de novembro de 2017 assinalam-se os 100 anos da Revolução Soviética,
revolução que fez da Rússia o primeiro Estado socialista do mundo. A este
propósito, recordamos também uma das obras clássicas da literatura ocidental.
Em
1919, o jornalista, ativista e escritor norte-americano John Reed publica nos Estados Unidos da América a obra que o
tornaria célebre e que ainda hoje é encarada como um dos principais relatos da
que foi a primeira revolução socialista no mundo: em Dez dias que abalaram o mundo (Ten
Days That Shook the World, no original) descreve em primeira mão os
acontecimentos que testemunha e que constituíram a que ficou conhecida como “Revolução
de Outubro”, quando os bolcheviques tomaram o poder na Rússia.
(John Reed)
Governada
autocraticamente pelo czar Nicolau II e composta maioritariamente por uma
população camponesa explorada pelos proprietários das terras, a Rússia era, nos
inícios do século XX, um imenso Império territorial, agregando muitas
nacionalidades e palco de inúmeras tensões sociais e políticas. A participação
na Primeira Guerra Mundial desorganizou a economia russa e agravou as condições
de vida da população, desencadeando manifestações e greves, o que também
contribuiu para expor as fraquezas do regime: liberais e socialistas
denunciavam a incompetência do czar e dos seus ministros, incapazes de resistir
às investidas da Alemanha.
A
23 de fevereiro de 1917 (de acordo com o calendário juliano, que a Rússia
seguiu até fevereiro de 1918 e que tinha um atraso de 13 dias relativamente ao
calendário gregoriano, correspondendo por isso esta data a 8 de março segundo o
calendário ocidental) começam em Petrogrado, a capital do Império Russo,
grandes manifestações de mulheres, acompanhadas de greves dos operários da
cidade. Reunidos numa assembleia popular denominada Soviete, os operários
exigiam o derrube do czar e a retirada da Rússia da Primeira Guerra Mundial. O apoio dos soldados ao Soviete de Petrogrado
resultou no assalto ao Palácio de Inverno, conduzindo dias depois à abdicação
do czar e à transformação da Rússia numa República.
O Governo
Provisório que então entrou em funções, dirigido pelo Príncipe Lvov e mais
tarde por Kerensky, instaurou uma democracia parlamentar à maneira ocidental e
manteve a Rússia na Primeira Guerra Mundial. Entretanto, em todo o território
se constituíram sovietes de operários, camponeses, soldados e marinheiros que,
descontentes com o caráter burguês da nova República e com a permanência do
conflito com a Alemanha, apelavam a uma nova revolução que, destituindo o
governo, lhes entregasse o poder, retirasse o país da guerra e procedesse à
abolição da propriedade privada. Estas reivindicações aparecem plasmadas nas “Teses
de abril”, documento redigido por Lenine (pseudónimo de Vladimir Ilitch
Ulianov), fundador e dirigente do Partido Social-Democrata Russo (mais tarde
designado por Partido Bolchevique ou Partido Comunista), que havia regressado
do exílio em Zurique.
Em
24 e 25 de outubro (7 e 8 de março no calendário ocidental), Petrogrado
assistiu a uma nova revolução, protagonizadas por milícias bolcheviques que
controlaram pontos estratégicos da cidade, assaltaram o Palácio de Inverno e
derrubaram o Governo Provisório. O poder foi então entregue ao Conselho dos
Comissários do Povo, composto exclusivamente por bolcheviques, presidido por
Lenine e com Trotsky na Pasta da Guerra e Estaline na das Nacionalidades.
(Estaline, Lenine e Trotsky)
São então publicados os primeiros decretos revolucionários: o decreto sobre a guerra (que determina a retirada da Rússia da guerra, efetivada em março de 1918, com a assinatura de uma paz separada com a Alemanha, pelo Tratado de Brest-Litovsk); o decreto sobre a terra (que aboliu sem indemnização a propriedade privada das terras, entregando-a aos sovietes camponeses); o decreto sobre o controlo operário (que atribuía aos operários a superintendência e a gestão da produção nas fábricas); e o decreto sobre as nacionalidades (que conferia a todos os povos do antigo Império Russo o estatuto de igualdade e o direito à autodeterminação).
Pela
primeira vez na História, os representantes do proletariado conquistavam o
poder político recorrendo à luta de classes e à revolução, tal como Karl Marx
havia preconizado em 1848, na obra Manifesto
do Partido Comunista, escrita em coautoria com Friedrich Engels.
Logo em 1917, chegaram a todo o mundo notícias de que o Czar fora deposto na Rússia e
que uma revolução estava em marcha. John Reed, jornalista e ativista político, nascido
em Portland a 22 de outubro de 1887, que havia já feito a cobertura de greves e
manifestações operárias nos Estados Unidos e da Revolução Mexicana de Pancho
Villa, em 1913 (a partir da qual escreveu o livro México Rebelde, em 1914), e que se encontrava na Europa como correspondente
durante a Primeira Guerra Mundial, interessou-se pela Revolução Bolchevique e, em
setembro de 1917, partiu para Petrogrado, acompanhado da mulher, a escritora Louise
Bryant.
(John Reed)
Testemunhando
todos os acontecimentos que tiveram início no dia 7 de novembro, correndo de
cena para cena, Reed tomou notas a uma velocidade incrível, reuniu folhetos, pósteres
e manifestos. No início de 1918, regressou aos EUA e escreveu a sua história, relatando
os grandes momentos, descrevendo as assembleias, resumindo os discursos,
transcrevendo entrevistas e registando em anexos os principais documentos
divulgados pelas forças em luta, incorporando também entrevistas que fez
pessoalmente aos principais líderes políticos, como as conversas que manteve
com Lenine, que entretanto conheceu.
Dez dias que abalaram o mundo transformou-se no relatório clássico
de uma testemunha ocular da Revolução Bolchevique.
Nos
Estados Unidos, John Reed ia a todos os lugares do país para dar palestras e
aulas sobre a guerra e sobre a Revolução Russa, e, em setembro de 1918, depois
de ter falado para uma plateia de quatro mil pessoas, foi preso sob acusação de
desencorajar os jovens para o recrutamento nas forças armadas.
Em
1919, Reed envolveu-se na formação do Partido Comunista dos Trabalhadores nos
EUA e, em março, foi à Rússia como delegado aos encontros da Internacional
Comunista (ou Komintern).
É neste
contexto que adoece e, a 17 de outubro de 1920, morreu de tifo num hospital de
Moscovo. O corpo de John Reed foi sepultado perto do Kremlin, na Praça
Vermelha, com honras de herói, sendo o único americano a quem tal foi concedido.
Em
1981, o ator e realizador norte-americano Warren Beatty adaptou ao cinema a
obra de John Reed, no filme a que atribuiu o nome Reds e onde desempenha o papel de John Reed. Do elenco fazem ainda
parte a atriz Diane Keaton, que interpreta o papel de Louise Bryant, mulher de
Reed, e o ator Jack Nicholson, no papel do escritor Eugene O'Neill. O filme foi
galardoado com três Óscares da Academia de Hollywood: melhor realizador, melhor
atriz secundária e melhor fotografia.
(Warren Beatty e Diane Keaton no filme Reds)
Em
junho de 2008, o American Film Institute revelou o "Ten Top Ten" – os
melhores 10 filmes americanos em 10 categorias cinematográficas. O filme Reds surge em nono lugar na categoria de
filme épico.
Depois
de Frei Luís de Sousa (2001), de
Almeida Garrett; A Corte do Norte (2009),
de Agustina Bessa-Luís; Livro do
Desassossego (2010), de Fernando Pessoa; e Os Maias (2014), de Eça de Queirós, o realizador português João Botelho regressa à literatura
portuguesa com a adaptação cinematográfica de Peregrinação, de Fernão
Mendes Pinto.
João
Botelho, que em abril de 2016 esteve no Externato Cooperativo da Benedita no âmbito
da Semana Cultural e das atividades do Plano Nacional de Cinema, para conversar
com os alunos sobre a sua adaptação de Os
Maias, considera ter "o dever de pegar em textos importantes na
Cultura e na Literatura portuguesas".
Peregrinação, impresso pela primeira vez em
1614, é um relato da presença dos portugueses no Oriente e uma crónica de
viagens de duas décadas de vivência de Fernão Mendes Pinto naquelas paragens.
O filme
de João Botelho, que estreou nas salas de cinema portuguesas no passado dia 1
de novembro, é uma evocação das viagens de Fernão Mendes Pinto, no século XVI,
integrando a recriação de alguns temas do álbum “Por Este Rio Acima” (1982), de
Fausto Bordalo Dias, "como se fosse uma introdução à leitura" da
obra, disse o realizador à Agência Lusa, em abril passado, mês em que começaram
as filmagens.
Apesar
de a maior parte das filmagens ter sido feita em Portugal, João Botelho e uma
equipa reduzida (produtor, diretor de fotografia e um assistente) estiveram "a
filmar todos os fundos" em sete cidades chinesas, no Japão, na Malásia e
no Vietname e o resultado final surge-nos como se tudo tivesse sido registado
do outro lado do mundo.
O
filme é protagonizado por Cláudio da Silva, que, além de Fernão Mendes Pinto,
interpreta também a personagem de António Faria, "um corsário terrível que decapita, viola,
rouba, tudo em nome de deus". Do elenco fazem ainda parte, entre outros,
Catarina Wallenstein, Pedro Inês, Maya Booth, Cassiano Carneiro, Rui Morisson,
Jani Zhao e Zia Soares.
Peregrinação relata a chegada e a estadia de Fernão
Mendes Pinto no Oriente, apresentando a descrição das expedições dos
descobridores e conquistadores portugueses. A imagem dos navegadores
portugueses que perpassa nesta obra, e em particular a do próprio Fernão Mendes
Pinto, é sobretudo picaresca, assumindo-se este como um anti-herói, capaz das
piores façanhas para alcançar os seus objetivos (geralmente pilhar e roubar as
populações nativas para enriquecer e regressar à pátria).
O
autor é perito na descrição da geografia da Índia,
China e Japão e da etnografia: leis, costumes, moral, festas, comércio,
justiça, guerras, funerais, etc. Notável é também a previsão da derrocada do
Império Português, corroído por vícios e abusos.
Fernão
declara que são três os objetivos que o levaram a escrever o livro: dar a
conhecer os seus trabalhos aos filhos (função autobiográfica), encorajar os
desesperados e os que se veem em dificuldades (função moral), ter que dar
graças a Deus (função religiosa).
Escrita
entre 1570 e 1578, após o regresso de Fernão Mendes Pinto a Portugal, a obra só
viria a ser publicada cerca de 30 anos após a morte do autor, receando-se que o original
tenha sofrido alterações às quais não seriam alheios os Jesuítas. O texto
original fora deixado à Casa Pia dos Penitentes que submete os escritos de Fernão
Mendes Pinto ao crivo da Inquisição, que o aprova em 1603, o mesmo ano em que o
processo de análise se iniciou. No entanto, somente em 1614 Pedro Craesbeeck,
tipógrafo e impressor de origem flamenga, aceita a empreitada. O livro,
organizado por Frei Belchior Faria, foi publicado com o seguinte título (na
íntegra e em português clássico):
"Peregrinaçam de Fernam Mendez Pinto em que da conta de
muytas e muyto estranhas cousas que vio & ouvio no reyno da China, no da
Tartaria, no de Sornau, que vulgarmente se chama de Sião, no de Calaminhan, no
do Pegù, no de Martauão, & em outros muytos reynos & senhorios das
partes Orientais, de que nestas nossas do Occidente ha muyto pouca ou nenhua
noticia. E também da conta de muytos casos particulares que acontecerão assi a
elle como a outras muytas pessoas. E no fim della trata brevemente de alguas
cousas, & da morte do Santo Padre Francisco Xavier, unica luz &
resplandor daquellas partes do Oriente, & reitor nellas universal da
Companhia de Iesus."
O
Dia Mundial do Cinema comemora-se anualmente a 5 de novembro.
O
cinema, conhecido como a “sétima arte”, é considerado por muitos a arte mais
mágica, pelo poder que exerce sobre as emoções humanas. O cinema inspira, faz
sonhar, rir, chorar, gritar de medo.
A
palavra Cinema vem do grego κίνημα – kinema, que significa
"movimento". Cinema é assim a técnica (e a arte) de fixar e de
reproduzir imagens que suscitam a impressão de movimento.
Os
filmes são produzidos através da gravação de imagens com câmara, ou da sua
criação utilizando técnicas de animação ou efeitos visuais específicos. Os
filmes são constituídos por fotogramas, uma série de imagens impressas em
determinado suporte e alinhadas em sequência. Quando essas imagens são projetadas
de forma rápida e sucessiva, o espectador tem a ilusão de observar movimento. A
cintilação entre os fotogramas não é percebida devido a um efeito conhecido
como persistência da visão ou persistência retiniana: o olho humano
retém uma imagem durante uma fração de segundo após a sua fonte ter saído do
campo da visão, criando-se assim no espectador a ilusão de movimento.No entanto, a perceção do movimento acontece
a nível neurológico, já posterior à fase da retina no processo de percepção
visual.
O
Cinema é conhecido como a “sétima arte”, termo usado pela primeira vez pelo teórico
e crítico de cinema Ricciotto Canudo,ligado
aofuturismo italiano,
no "Manifesto das Sete Artes", escrito em 1912 e publicado apenas em
1923. Canudo pretendia aproximar e integrar o cinema na categoria das Belas
Artes, como a música, a pintura, a escultura, a arquitetura, a poesia e a dança,
para não ser visto apenas como um espectáculo para as massas.O ideal de Canudo seria ainda
demonstrar que o Cinema é uma arte “síntese”, uma arte total, que concilia
todas as outras artes.
As origens do cinema
O
cinema existe graças à invenção do cinematógrafo
pelos Irmãos Louis e August Lumière, nos finais do
século XIX: um aparelho portátil que era, ao mesmo tempo, uma máquina de
filmar, de revelar e projetar.
Vários
“jogos óticos” inventados anteriormente, dos quais se podem destacar o thaumatrópio (inventado entre 1820 e
1825 por William Fitton), o fenacistoscópio
(inventado em 1829 por Joseph-Antoine Ferdinand Plateau), o zootropo (em 1834 por Will George
Horner) e o praxinoscópio (inventado em
1877, por Émilie Reynaud, que, em 1888, melhorou esta invenção e começou
projetar imagens no Musée Grévin durante 10 anos), estão na origem do conceito
de cinematógrafo.
Na
sua origem estão também as invenções de William Kennedy Laurie Dickson (chefe
engenheiro da Edison Laboratories, que inventou uma película de celuloide que
continha uma sequência de imagens que seria a base para a fotografia e a projeção
de imagens em movimento) e de Thomas Edison que, em 1891, inventou o
cinetógrafo e posteriormente o cinetoscópio. O último era uma caixa movida a
eletricidade que continha a película inventada por Dickson, mas com funções
limitadas: o cinetoscópio não projetava o filme.
O cinematógrafo,
instrumento capaz de capturar e reproduzir imagem em movimento, foi
desenvolvido a partir de um conceito desenvolvido por León Bouley, em 1892. No entanto,
foram os irmãos Lumière que, comprando a patente, aperfeiçoaram a máquina e, em
1895, apresentaram o seu próprio aparelho.
Louis e August Lumière
Em
28 de dezembro de 1895, na cave do Grand Café, em Paris, realizaram a primeira
exibição pública da arte do cinema: uma série de dez filmes, com duração de 40
a 50 segundos cada (os primeiros rolos de película tinham apenas quinze metros
de comprimento).
Os
filmes até hoje mais conhecidos desta primeira sessão chamavam-se Le Sortie de l'usine Lumière à Lyon(A saída dos operários da Fábrica Lumière)
e A chegada do comboio à Estação Ciotat (A
chegada do comboio à Estação de Ciotat).
Em
Le Sortie de l'usine Lumière à Lyon,
uma câmara aponta para as portas da fábrica Lumière, situada nos arredores de
Lyon, as portas abrem-se, os operários – principalmente mulheres – saem para a
rua, como se tivessem acabado um dia de trabalho. As portas voltam a fechar. O
filme acaba. Foi o primeiro audiovisual exibido na história, dirigido e produzido
por Louis Lumière.
A chegada do comboio à Estação de Ciotat, sem nenhum movimento de câmara
aparente intencional, é um filme mudo com 50 minutos de duração, composto por
um disparo contínuo em tempo real,que
apresentaa entrada de um comboio
puxado por uma locomotiva a vapor numa estação de caminho de ferro na cidade
costeira francesa de La Ciotat. No dia 6 de janeiro de 1896, foi exibido no Salão Indiano (uma saleta nos fundos de
um café em Paris), naquela que entrou para a história como a primeira exibição
pública comercial de um filme. O bilhete custou 1 franco.
Apesar
de também existirem notícias de projeções um pouco anteriores de outros
inventores, a sessão dos Lumière é considerada pela maioria da literatura
cinematográfica como o marco inicial da nova arte.
Na
mesma época, o mágico ilusionista francês o Georges Méliès, dono de um teatro nas vizinhanças do local da
primeira exibição dos Lumière, à qual assistira, quis comprar-lhes um
cinematógrafo para o utilizar nos seus espetáculos. Os Lumière não quiseram
vender-lhe o aparelho: o pai dos irmãos inventores argumentava que o
cinematógrafo tinha unicamente finalidade científica e que o mágico teria, por
certo, prejuízo se gastasse dinheiro com a máquina para fazer entretenimento.
Frustrado, Méliès conseguiu, no entanto, adquirir um aparelho semelhante em
Inglaterra, fabricado por Robert William Paul, tornando-se o primeiro grande
produtor de filmes de ficção, destinados ao grande público, criando os
primeiros efeitos especiais da história do cinema.
Georges Méliès
Méliès
começou a exibir filmes em 1896, quando adquiriu uma máquina de filmar,
tornando-se com o filme "Le Voyage dans la Lune", pioneiro em alguns
efeitos especiais. Foi ele o criador da fantasia na produção e realização de
filmes.
Em
suma, os irmãos Lumière e Meliès deram origem a dois géneros fundamentais de
cinema: o cinema documental e o cinema de ficção.
Em
Portugal, o primeiro cineasta português, Aurélio
Paz dos Reis, produziu e realizou uma réplica do primeiro filme dos Irmãos
Lumière, em 1896, Saída do Pessoal
Operário da Fábrica Confiança, gravado na cidade do Porto, e que viria a
ser considerado o primeiro filme português. É um filme de curta-metragem, mudo
e a preto e branco, com uma duração total de aproximadamente um minuto.
Aurélio da Paz dos Reis
Os
primeiros filmes não tinham ainda som. Desde o início, inventores e produtores
tentaram conjugar a imagem com um som sincronizado e amplificado. No entanto,
nenhuma técnica teve sucesso até à década de 20 do século XX: durante 30 anos
os filmes eram praticamente silenciosos, sendo acompanhados muitas vezes de
música ao vivo, outras vezes de efeitos especiais e narração e diálogos escritos
presentes entre cenas.
Em
1926, a Warner Brothers introduziu o sistema de som Vitaphone (gravação de som
sobre um disco). Em 1927, foi esta produtora que lançou o filme The Jazz Singer, um musical que pela
primeira vez na história do cinema tinha alguns diálogos e canções
sincronizados, aliados a partes totalmente sem som; em 1928 o filme The Lights of New York, também da
Warner, tornar-se-á o primeiro filme com som totalmente sincronizado.
O Beijo, lançado em 1929 e protagonizado
pela atriz sueca Greta Garbo, foi o último filme mudo da MGM e da
história de Hollywood, com exceção de dois filmes de Charles Chaplin, considerado
uma das figuras mais importantes no cinema mudo: Luzes da Cidade e Tempos
Modernos.
Se
durante os primórdios do cinema este foi, acima de tudo, uma produção europeia,
destacando-se o cinema francês e italiano, com a Primeira Guerra Mundial também a
indústria europeia de cinema foi arrasada. Os EUA começaram então a destacar-se
no mundo do cinema, fazendo e importando diversos filmes. Thomas Edison tentou
tomar o controle dos direitos sobre a exploração do cinematógrafo. Alguns
produtores independentes emigraram de Nova Iorque para a costa oeste, para um pequeno
povoado chamado Hollywoodland. Lá encontraram condições ideais para filmar: dias
de sol quase todo o ano e diferentes paisagens que puderam servir como cenário.
Assim nasceu a chamada "Meca do Cinema": Hollywood transformou-se no
mais importante centro da indústria cinematográfica do mundo e empresas como a 20th
Century Fox, a Universal, a Paramount, a Metro Goldwyn Meyer ou a Warner
Brothers tornam-se as grandes produtoras do cinema norte-americano.
Jorge
de Sena nasceu em Lisboa, a 2 de Novembro de 1919, e faleceu na Califórnia, a 4
de Junho de 1978. Só em 2009 os seus restos mortais foram trasladados para
Portugal, tendo a viúva doado o espólio literário à Biblioteca Nacional.
Cadete
na Escola Naval, de onde foi expulso em 1938, formou-se em Engenharia Civil
(1944), trabalhando na Junta Autónoma de Estradas entre 1948 e 1959. Exilado no
Brasil, doutorou-se em Letras, lecionando em universidades do Brasil e, a
partir de 1965, em consequência do golpe militar brasileiro, na universidade de
Santa Bárbara, nos Estados Unidos, onde leciona até ao ano da sua morte.
Divide
a sua vastíssima obra pela poesia – é um dos grandes poetas do século XX,
introdutor da poesia da inteligibilidade que até hoje frutifica; pelo teatro,
com O Indesejado e MaterImperialis: Amparo de Mãe, entre outras peças; pela narrativa, com
seis livros de contos, a admirável novela O
Físico Prodigioso, e este romance, Sinais
de Fogo; pelo ensaio crítico, sendo o inaugurador da crítica literária
moderna em Portugal, especialmente no que se refere aos estudos camonianos.
O
seu intenso labor intelectual levou-o ainda à crítica de cinema e à tradução de
ficção e de poesia para português. Sem este admirável trabalho de tradução e
divulgação, em que foi pioneiro absoluto, e de que ficou testemunho nas
antologias Poesia de 25 séculos e Poesia do século XX, quantos de nós
teriam podido ler, ou mesmo ter sabido da existência de grandes poetas de
outras línguas, como Kavafis, Montale, Ezra Pound, Omar Kayyam ou Ana Akmàtova?
Conhecido também pelo
seu génio irascível e pelo ressentimento amargo contra a pátria que ele amou e
que o desprezou, Sena é um artista e um pensador a quem Portugal não fez ainda
justiça.
«Sinais de fogo, os homens se
despedem,
exaustos e tranquilos, destas cinzas
frias.
E o vento que essas cinzas nos
dispersa
não é de nós, mas é quem reacende
outros sinais ardendo na distância,
um breve instante, gestos e
palavras,
ansiosas
brasas que se apagam logo.»
Sinais de Fogo é um dos romances mais importantes
da literatura portuguesa do séc. XX. Romance inacabado, por morte do autor aos
cinquenta e nove anos, faria parte de uma trilogia a intitular “Monte Cativo”.
O
primeiro romance desta trilogia, que não chegou a ser escrito, abarcaria a
infância e parte da juventude do estudante do liceu, Jorge, até 1936; o
segundo, este mesmo Sinais de Fogo,
cuja ação decorre em escassos meses do ano de 1936, tem como pano de fundo a
guerra civil espanhola; e o terceiro, não escrito pela mesma razão do primeiro,
iria até 1959, ano em que Sena e a família tiveram de se exilar no Brasil,
devido a uma conjura falhada para depor Salazar.
A
ação de Sinais de Fogo decorre
maioritariamente na Figueira da Foz, durante o verão. É talvez a única
narrativa iniciática do nosso séc. XX: um romance de juventude da personagem
central, da sua paixão amorosa por Mercedes e da progressiva consciencialização
social e política que se consolidava também pela observação do drama dos
espanhóis, apanhados em Portugal pelo eclodir da guerra civil no seu país.
Iniciação, portanto, à vida adulta, à consciência de si no mundo, ao amor, à
sexualidade, ao compromisso. E à poesia, esse outro sinal de fogo que, num
deslumbramento quase rimbaudiano, fere o protagonista como uma revelação. A
aprendizagem da poesia faz-se, ao longo da obra, indissociável de outras
aprendizagens de vida – e tão essenciais como elas. Romance inaugural na
literatura portuguesa, marca o início da viragem de toda uma época que,
encetada com a guerra civil de Espanha, prossegue com a 2ª guerra mundial, com
a da Coreia, do Vietname, e com as guerras pontualmente localizadas, como foi a
colonial portuguesa, a qual fecha este ciclo.
Da
extensa galeria de personagens do romance, inesquecível é a figura do tio de
Jorge. E também as de alguns dos jovens companheiros deste, nos quais a
sexualidade irrompe e se manifesta de forma aviltada e violenta.
“- Não durmo há trezentos anos – disse,
tristemente, e Virgínia abriu os seus lindos olhos de espanto; - há trezentos
anos que não durmo e estou tão cansado!”
Virgínia ficou muito séria e tremeram-lhe os lábios
como pétalas de rosa. Chegou-se ao pé dele e, ajoelhando ao seu lado, olhou para
o seu velho rosto embranquecido.
“- Meu pobre Fantasma! - murmurou. Não tem sítio
onde possa dormir?”
“-Para além dos pinhais - respondeu numa voz baixa
e sonhadora - há um jardim. As ervas crescem aí muito, há aí as grandes flores
brancas de cicuta e o rouxinol canta pela noite fora. Pela noite fora canta ele
e a lua fria e cristalina olha para baixo e o teixo estende os seus braços gigantescos
sobre os que dormem.
Os olhos de Virgínia encheram-se de lágrimas e escondeu
o rosto nas mãos.
“- Está a falar do Jardim da Morte – disse ela
baixinho.
“- Sim, da Morte. A morte deve ser tão linda! Deitar-se
na terra macia e castanha com as ervas a acenar por cima das nossas cabeças e a
ouvir o silêncio. Nem ontem nem amanhã. Esquecer o tempo, esquecer a morte,
estar em paz. Você pode ajudar-me. Pode abrir-me os portais da Morte da casa, pois
o Amor está em si e o Amor é mais forte do que a Morte.
Virgínia estremeceu, correu por um momento um
calafrio por ela abaixo e houve um silêncio de alguns minutos. Parecia-lhe
estar num sonho horrível.
Então o Fantasma voltou a falar e a sua voz parecia
um gemido do vento.
“- Já alguma vez leu a velha profecia que está na
vidraça da biblioteca?”
“- Ah Muitas vezes! – exclamou a rapariga, e levantou a cabeça. – Conheço-a
muito bem. Está pintada numas letras pretas muito estranhas e é difícil de ler.
São só seis versos:
Quando uma menina loura conseguir
Preces dos lábios do pecado,
Quando a velha amendoeira florir,
E houver choros de criança,
Toda a casa fica em paz
Que volta enfim a Canterville.”
In O Fantasma dos Canterville,
de Oscar
Wilde (Editorial
Estampa, 1973, pp. 37-38)
A festa
do Halloween celebra-se em vários países no dia 31 de outubro, véspera da festa
cristã do Dia de Todos os Santos.
Alguns
estudiosos do assunto defendem que a sua origem remonta às tradições celtas do
festival Samhain, celebrado na Irlanda, Escócia e Ilha de Man entre 30 de
outubro e 2 de novembro, e que marcava o fim do verão (samhain significa "fim do verão"), associado também às
festas das colheitas e ao culto dos mortos. Outros afirmam que a festa do
Halloween começou independentemente do Samhain e tem raízes cristãs. Pensa-se
que o primeiro registo do termo "Halloween" seja de cerca de 1745,
uma contração do termo escocês All
Hallows' Eve, que significa “véspera [do Dia de] Todos os Santos”, o que dá
mais força à teoria da origem cristã da festa.
A romanização
e consequente cristianização das Ilhas Britânicas terão contribuído para a
fusão das duas tradições, a pagã e a cristã, e já em finais da Idade Média surge
o costume dos "disfarces", muito possivelmente nascido na França por
altura do flagelo da Peste Negra, que criou entre os católicos um grande temor
e preocupação com a morte.
No
entanto, se analisarmos o modo como o Halloween é celebrado hoje, veremos que
pouco tem a ver com as suas origens: só restou uma alusão aos mortos, mas com
um caráter completamente distinto do que tinha ao princípio. Além disso, foi
sendo pouco a pouco incorporada toda uma série de elementos estranhos tanto à
festa de Finados como à de Todos os Santos, a maior parte com origem nos
Estados Unidos da América (onde a tradição da celebração do Halloween terá
chegado com os colonos irlandeses), tais como as lanternas feitas de abóbora, o
jogo do "doce ou travessura", contar histórias assustadoras, assistir
a atrações "assombradas” ou a filmes de terror. Na verdade, tornou-se uma celebração
mais comercial e secular, perdendo parte do seu cariz religioso.
Vemos,
portanto, que a atual festa do Halloween é produto da fusão de muitas
tradições, levadas pelos colonos britânicos no século XVIII para os Estados
Unidos e ali integradas de modo peculiar na sua cultura. Muitas delas já foram
esquecidas na Europa, onde hoje, por colonização cultural dos Estados Unidos,
aparece o Halloween, enquanto desaparecem algumas tradições locais.
Assente numa frágil
prosperidade que vinha desde o fim da Primeira Guerra Mundial, que elevou os
Estados Unidos à categoria de primeira potência mundial, nos finais da década de 1920 a economia americana
enfrentou uma crise sem precedentes que rapidamente se propagou a todos os
países que com eles tinham laços económicos e financeiras e que se arrastou
pelos primeiros anos da década de 1930, originando o que ficou conhecido na
História como a Grande Depressão.
Favorecidos por uma
conjuntura bélica que afastou do seu território os efeitos devastadores da
Grande Guerra, ao mesmo tempo que abasteciam a Europa e os mercados mundiais de
bens essenciais, os Estados Unidos saíram economicamente beneficiados do
conflito, apresentando, em 1919, uma imagem de sucesso, assente na sua
prodigiosa capacidade de produção e na prosperidade da sua balança de
pagamentos. Sob o lema de uma produção em massa para um consumo de massa,
viveram-se os anos da prosperidade americana e os “loucos anos 20” na Europa,
caracterizados por um clima de otimismo e de confiança no capitalismo liberal.
No entanto, essa era
de prosperidade era afinal precária. A mecanização da produção fez crescer o
desemprego crónico ou tecnológico, que chegou a atingir cerca de 2 milhões de pessoas; a
produção excedentária na agricultura originou a queda de preços e a queda de
lucros; a maior parte do consumo era realizada com recurso a créditos bancários,
incluindo a aquisição de ações, pois, acreditando na solidez da sua economia,
muitos americanos investiam na Bolsa, fazendo crescer a especulação financeira
e elevando cada ação a um valor que não era real.
A descida dos preços e
dos lucros industriais alarmou os grandes acionistas, que rapidamente começaram
a dar ordem de venda dos seus títulos.
A 21 de outubro de
1929, essas ordens de venda começaram a acumular-se na Bolsa de Nova Iorque. A 24
de outubro, o pânico instalou-se, quando 13 milhões de títulos foram colocados
à venda a preços baixíssimos e sem encontrarem comprador. Começava assim o crash de Wall Street e nos meses que se
seguiram centenas de milhares de acionistas conheceram a ruína, o que
significou também a ruína de todo o sistema bancário sobre o qual assentava a
aquisição da maior parte das ações. Entre 1929 e 1933, mais de 10 mil bancos encerraram
devido à falência, arrastando consigo toda a economia, com a falência de
empresas, a contração da produção e a queda dos preços. Da indústria à
agricultura, todo o aparelho produtivo dos Estados Unido ruiu e, em 1933, mais
de 12 milhões de americanos estavam desempregados.
Em 1939, o escritor
norte-americano John Steinbeck publicou As
Vinhas da Ira, romance que é ainda hoje universalmente considerado a
obra-prima de John Steinbeck, premiado com o Prémio Pulitzer em 1940 e que
haveria de justificar a atribuição do Prémio Nobel da Literatura, em 1962, a
este autor.
Passado durante a
Grande Depressão dos inícios dos anos 30, o romance centra-se nos Joads, uma
família pobre de rendeiros expulsos da sua quinta no Oklahoma pela seca, pelas
dificuldades económicas e pela execução de dívidas pelos bancos, que forçaram o
abandono pelos rendeiros do seu modo de vida. Numa situação desesperada, os
Joads, procurando emprego, terra, dignidade e um futuro e acompanhando cerca de
meio milhão de "Okies” sem casa, partiram para oeste, rumo à Califórnia, o
que provocou um dos maiores êxodos verificados no país. Este romance é ainda o
retrato épico do desapiedado conflito entre os poderosos e aqueles que nada
têm, do modo como um homem pode reagir à injustiça, e também da força tranquila
e estoica de uma mulher.
Em 1940, John Ford
realizou um filme homónimo, que contou com Henry Fonda numa magnífica
interpretação do papel de Tom Joad.
“[...]
e nos olhos dos famintos há uma ira crescente. Nas almas das pessoas, as vinhas
da ira estão engrossando e ficando mais pesadas, ficando mais pesadas para a
vindima.”
As
Vinhas da Ira é uma
obra intemporal, que ainda hoje nos faz refletir sobre a fragilidade dos seres
humanos e sobre a sua capacidade de reinvenção de uma nova vida.