menu

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Narrativas (mais ou menos) poéticas: uma exposição de Artes na Biblioteca




A partir da consulta e análise de livros de poesia disponíveis na Biblioteca, os alunos do 12º ano do Curso de Artes Visuais criaram, na disciplina de Desenho A, uma composição plástica tendo como suporte uma das páginas do livro. Desenvolvendo desenhos sobre as páginas fotocopiadas, utilizaram várias técnicas, como tachismo, palimpsesto, etc.
O resultado destes trabalhos pode ser visto numa exposição patente na Biblioteca do ECB até finais de janeiro.








Doping Sanguíneo

Trabalho realizado por alunos do 11º B sobre o Doping Sanguíneo.

https://prezi.com/p/g7iqh1poduxz/

Mutações Génicas e Cromossómicas


Vídeo realizado por um grupo de alunas do 11.º B sobre Mutações Génicas e Cromossómicas

Parte I

https://www.powtoon.com/online-presentation/fNvzew99abU/untitled

Parte II

https://www.powtoon.com/online-presentation/cpbP08xCan1/untitled-4

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Eugénio de Andrade - autor do mês de janeiro


"Eu nem sequer gosto de escrever. Acontece-me às vezes estar tão desesperado que me refugio no papel como quem se esconde para chorar. E o mais estranho é arrancar da minha angústia palavras de profunda reconciliação com a vida."

Rosto Precário

Nasceu a 19 de janeiro de 1923, em Póvoa de Atalaia, pequena aldeia da Beira Baixa. Filho de camponeses, deram-lhe o nome de José Fontinhas. Após a separação dos pais, viveu com a mãe em Castelo Branco, mudando-se em 1932 para Lisboa, onde frequentou o Liceu Passos Manuel e a Escola Técnica Machado de Castro. Em 1936 começou a escrever os primeiros poemas. Em 1938, enviou alguns desses poemas ao escritor António Botto que o incentivou a publicar: em 1940, aparecia assim Narciso, o seu primeiro livro de poesia, assinado ainda com o seu verdadeiro nome, que mais tarde viria a rejeitar. No segundo livro, Adolescente, publicado em 1942, é como Eugénio de Andrade que se dá a conhecer.
Depois de prestar serviço militar em Coimbra, onde conviveu com Miguel Torga e Eduardo Lourenço (foi Eduardo Lourenço quem disse que a poesia de Eugénio de Andrade era a “primeira poesia da poesia da nossa literatura”), regressou a Lisboa, em 1947, passando a exercer funções de inspetor administrativo do Ministério da Saúde.
Em 1948 publicou As Mãos e os Frutos, livro que o consagrou e mereceu os aplausos de críticos como Jorge de Sena ou Vitorino Nemésio.
Em 1950 foi transferido para o Porto, cidade onde viverá até ao fim da vida, sempre distanciado da vida social, literária ou mundana, justificando as suas raras aparições públicas com «essa debilidade do coração que é a amizade».
Publicou mais de vinte livros de poesia, obras em prosa, antologias, livros infantis e traduziu poetas como Federico García Lorca, Jorge Luís Borges, René Char ou a poetisa grega clássica Safo, entre outros.
Eugénio de Andrade foi elemento da Academia Mallarmé (Paris) e membro fundador da Academia Internacional "Mihail Eminescu" (Roménia).
Manteve sempre uma postura de independência relativamente aos vários movimentos literários com que a sua obra coexistiu ao longo de mais de cinquenta anos de atividade poética.
O prestígio nacional e internacional granjeou-lhe diversas distinções e prémios, entre os quais, o Grau de Grande-Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada (1982), o Prémio da Associação Internacional de Críticos Literários (1986), o Prémio D. Dinis da Fundação Casa Mateus (1988), o Grande Prémio da Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (1989), o Prémio Europeu de Poesia da Comunidade de Varchatz (República da Sérvia, 1996), a Grã-Cruz da Ordem do Mérito (1989) e o Prémio Camões (2001).
Em maio de 2001, recebeu o primeiro prémio de poesia "Celso Emilio Ferreiro" atribuído em Orense, na Galiza. Ainda em maio de 2001, foi homenageado na Universidade de Bordéus por altura da realização do "Carrefour des Littératures", tendo sido considerado um dos mais importantes escritores do século XX. Em 2003, com a obra Os Sulcos da Sede, recebeu o Prémio de Poesia do Pen Clube Português.
Em 1991, foi criada no Porto a Fundação Eugénio de Andrade, extinta em 2011. Para além de ter servido de residência ao poeta, esta instituição teve como principais objetivos o estudo e a divulgação da obra do autor assim como a organização de diversos eventos como lançamentos de livros, recitais e encontros de poesia.
Eugénio de Andrade faleceu em Porto, a 13 de junho de 2005, após uma doença neurológica prolongada. Encontra-se enterrado no Cemitério do Prado do Repouso, no Porto. A sua campa é rasa em mármore branco, desenhada pelo arquiteto amigo Siza Vieira, com versos do seu livro As Mãos e os Frutos gravados.

Obra
(*) Disponível na Biblioteca do ECB

Poesia
Narciso, José Fontinhas. Lisboa: ed. do Autor, 1940.
Adolescente, 1942.
Pureza, 1945.
As Mãos e os Frutos, 1948, 21ª edição, 2000.
Os Amantes sem Dinheiro, 1950, 16ª edição, 2000.
As Palavras Interditas, 1951, 13ª edição, 2002.
Até Amanhã, 1956, 13ª edição, 2002.
Coração do Dia, 1958, 12ª edição, 1994.
Mar de Setembro, 1961, 12ª edição, 1994.
Ostinato Rigore, 1964, 11ª edição, 1997.
Obscuro Domínio, 1971, 8ª edição, 2000.
O Inverno
Véspera de Água, 1973, 6ª edição, Limiar, 1990.
Escrita da Terra, 1974, 7ª edição, 2002.
Homenagens e outros Epitáfios, 1974, 8ª edição, 1993.
Limiar dos pássaros, 1976, 7ª edição, 1994.
Primeiros Poemas, 1977, 10ª edição, 2000.
Memória Doutro Rio, 1978, 4ª edição, Limiar, 1985.
Matéria Solar, 1980, 5ª edição, 2000. (*)
O Peso da Sombra, 1982, 3ª edição, Limiar, 1989.
Branco no Branco, 1984, 5ª edição, 19.
Vertentes do Olhar, 1987, 5ª edição, 2003.
O Outro Nome da Terra, 1988, 2ª edição, Limiar, 1989.
Contra a Obscuridade, 1988, 5ª edição, 1993.
Rente ao Dizer, 1992, 4ª edição, 2002.
Ofício de Paciência, 1994, 2ª edição, 2000.
O Sal da Língua, 1995, 4ª edição, Associação Portuguesa de Escritores, 2001.
Pequeno Formato, 1997, 2ª edição, 1997.
Os Lugares do Lume, 1998, 2ª edição, 1998.
Os Sulcos da Sede, 2001, 3ª edição, 2002.

Antologias poéticas
Antologia [1945-1961], Delfos, 1961.
Poemas (1945-1966), 3ª edição, 1971.
Poesia e prosa (1940-1979), 2 vol., 1980. (*)
Poesia e prosa (1940-1980), 1981; 2a ed. e aumentada.
Poesia e prosa (1940-1986). Lisboa: Círculo de Leitores, 1987, 3 vol.
Poesia e Prosa (1940-1989), 4ª edição, O Jornal/Limiar, 1990.
Poemas de Eugénio de Andrade, select., est. e notas de Arnaldo Saraiva, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1999.
Poesia, 2000.

Prosa
Os afluentes do silêncio. Porto: Inova, 1968.
Rosto precário. Porto: Limiar, 1979. (*)
À sombra da memória. Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 1993.

Antologias
Daqui Houve Nome Portugal, 1968, 4ª edição, Edições Asa, 2000.
Memórias da Alegria, 1971, 2ª edição, Campo das Letras, 1996.
Antologia Breve, 1972, 7ª edição, 1999.
A Cidade de Garrett, 1993, 3ª edição, 1997.
Fernando Pessoa, Poesias Escolhidas, 1995, 6ª edição, Campo das Letras, 2001.
Versos e Alguma Prosa de Luís de Camões, 1972, 5ª edição, Campo das Letras, 1996.
Erros de Passagem, seleção e prefácio, 1982, 3ª edição, Campo das Letras, 1998.
Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa, 1999, 7ª edição, Campo das Letras, 2002. (*)
Sonetos de Luís de Camões, Assírio & Alvim, 2000.
Poemas Portugueses para a Juventude, Edições Asa, 2002.

Literatura Infantil
História de égua branca. Porto: Asa, 1976. Com ilustrações de Manuela Bacelar.
Aquela Nuvem e Outras, 1986, 10ª edição, Campo das Letras, 2002.

Tradução
Poemas de García Lorca, 1946, 5ª edição, 2000.
Cartas Portuguesas, 1969, 9ª edição, Assírio & Alvim, 1998.
Poemas e Fragmentos de Safo, 1974, 5ª edição, 1995.
Trocar de Rosa, 1980, 5ª edição, 1995.

sábado, 1 de dezembro de 2018

Alves Redol - Autor do mês de dezembro


"Este romance [Gaibéus] não pretende ficar na literatura como obra de arte.
Quer ser, antes de tudo, um documentário humano fixado no Ribatejo.
Depois disso, será o que os outros entenderem."


A 29 de dezembro de 1911, nasce em Vila Franca de Xira o romancista e dramaturgo português Alves Redol.

Filho de um pequeno comerciante ribatejano, desde muito novo conhece o mundo dos jornaleiros que trabalhavam nas lezírias durante as mondas (os “gaibéus”) e dos pescadores da sua região.
Sonhando ser escritor e jornalista, começou a escrever aos 12 anos num dos jornais do Colégio Arriaga, em Lisboa, onde frequentava o curso comercial. Com 14 anos, envia os primeiros textos para um jornal de Vila Franca, apresentando as suas impressões sobre as precárias condições de vida do homem rural, tema que o acompanhará ao longo da sua obra. Aos 15 anos, após concluir o curso comercial, começa a trabalhar como vendedor de mercearias e, mais tarde, de tecidos.
Em 1928, parte para Angola, onde desembarcou “com 50$00, uma garrafa de vinho do Porto na mão e a experiência de uma viagem com emigrantes de 3ª classe e condenados por crimes na militança” (in Gaibéus, Breve memória, na edição de 1965). Arranja emprego como empregado de escritório, complementando o salário curto com aulas numa escola noturna. A pobreza e uma doença obrigam-no a regressar à Metrópole (“Quando voltei de Luanda, vinha mais para a morte do que para a vida. Pagava a peita de três anos com uma anemia palustre, regressando na mesma classe em que abalara. Fui sempre até aí passageiro de 3ª” - in Gaibéus, op.cit.).
Em Vila Franca de Xira, continua a colaborar no jornal de Vila Franca e participa de forma ativa na vida social do concelho, mobilizando muita gente das classes trabalhadoras para as atividades do Grémio Artístico Vilafranquense – onde, em 1934, realiza a sua primeira palestra sobre a colonização portuguesa em África, “Terra de pretos, ambição de brancos”.

Também na Associação de Classe dos Operários da Construção Civil Alves Redol dá aulas de aperfeiçoamento profissional para os seus membros e na coletividade Sport Lisboa e Vila Franca, que aponta para uma cultura das classes laboriosas, profere e organiza aulas noturnas de alfabetização, conferências e palestras, atento e identificado com o Povo (“O meu coração colocara-se com veemência ao lado do povo”, in Gaibéusop.cit.). A polícia política encerra esta coletividade, por considerar que nela se tomava consciência das injustiças da sociedade.
Em 1932 publica a sua primeira novela, Drama na Selva, n’ “O Notícias Ilustrado”, de Lisboa. Colabora também com o jornal vilafranquense “Mensagem do Ribatejo” onde dirige, em 1939, uma página literária.
Gaibéus, um dos seus primeiros romances (1939), é considerado um dos textos literários fundadores do neorrealismo, corrente artística surgida em meados do século XX com um caráter ideológico marcadamente de esquerda/marxista, que teve ramificações em várias formas de arte (literatura, pintura, música, cinema), tomando os seus autores posição na luta de classes, denunciando as desigualdades sociais e o que consideram as injustiças da condição operária e camponesa.

Em Gaibéus, “um romance antiassunto, ou, melhor, anti-história, sem personagens principais, […] o tema nasce no coletivo de um rancho de ceifeiros migradores […]. O trabalho produtivo, a exploração descarnada do homem pelo homem, tomados nos seus aspetos mais crus, na lâmina viva do dia a dia, dominam o livro“ (in Gaibéusop.cit.). Alves Redol assim inicia o ciclo de ficção temática ribatejana de camponeses e pescadores da borda d’água, continuado em romances como Marés, Avieiros ou Fanga.





Alves Redol sempre se envolveu na luta de resistência ao regime salazarista. Nos anos trinta, insere-se na luta antifascista clandestina, mantendo a colaboração em jornais de relevo na luta anti Estado Novo, como “O Diabo” ou “Sol Nascente”. Compreendia a literatura como uma forma de intervenção social e trazia para o universo da ficção personagens, temas e situações ignorados pela literatura, o que lhe valeu alguns conflitos com a censura (é obrigado a submeter os originais a censura prévia), a vigilância por parte da PIDE (esteve preso várias vezes), bem como o ataque dos críticos e a aversão de algum público. Talvez por isso, na epígrafe de Gaibéus, o próprio Redol afirma "Este romance não pretende ficar na literatura como obra de arte. Quer ser, antes de tudo, um documentário humano fixado no Ribatejo. Depois disso, será o que os outros entenderem".
Em Novembro de 1945, entra para a Comissão Central do Movimento de Unidade Democrática (M.U.D.), participando ativamente nas campanhas da oposição democrática aquando da realização de “eleições” promovidas pelo regime (e anunciadas pelo próprio Salazar como “livres como na livre Inglaterra”).
Escritor de importância internacional, foi traduzido em várias línguas. Pelo romance Horizonte Cerrado, primeiro volume de uma trilogia sobre os vinhateiros do Douro, recebe, em 1950, o Prémio Ricardo Malheiros, atribuído pela Academia das Ciências de Lisboa.


Em 1961 publica o que é considerado pela crítica o seu melhor romance: Barranco de Cegos.



Alves Redol também escreveu para a infância, como os livros da série Maria Flor, o romance A Vida Mágica da Sementinha ou Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos, que é considerado um dos seus mais belos livros, tendo como protagonista Constantino, um pequeno amigo que ele vê crescer no Freixial, e que, enquanto guarda as vacas, sonha em ser serralheiro de navios e fazer um barco que o leve até Lisboa.



Alves Redol morreu a 29 de Novembro de 1969, em Lisboa.

[fonte bibliográfica:
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/EFEMERIDES/AlvesRedol/BiogARedol.pdf, biografia que “é a única que é certificada pela família, não tendo os erros que muitas outras, mesmo da responsabilidade de investigadores de mérito, têm”.]


Obras
(*) constam do catálogo da Biblioteca do ECB

Romances

Gaibéus (1939) (*)
Marés (1941) (*)
Avieiros (1942) (*)
Fanga (1943)
Anúncio (1945)
Porto Manso (1946) (*)
Ciclo Port-Wine:
Horizonte Cerrado (1949) (*)
Os Homens e as Sombras (1951) (*)
Vindima de Sangue (1953) (*)
Olhos de Água (1954) (*)
A Barca dos Sete Lemes (1958) (*)
Uma Fenda na Muralha (1959) (*)
Cavalo Espantado (1960) (*)
Barranco de Cegos (1961) (*)
O Muro Branco (1966) (*)
Os Reinegros (1972) (*)

Teatro

Maria Emília (1945)
Forja (1948)
O Destino Morreu de Repente (1967)
Fronteira Fechada (1972) (*)
Contos
Nasci Com Passaporte de Turista (1940)
Espólio (1943)
Comboio das Seis (1946)
Noite Esquecida (1959)
Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos (1962) (*)
Histórias Afluentes (1963) (*)
Três Contos de Dentes Para o Ofício 4001 (1968)

Literatura infantil para quem gosta de imaginar que está dentro destas histórias

Vida Mágica da Sementinha (1956) (*)
Ciclo A Flor:
A Flor Vai Ver o Mar (1968)
A Flor Vai Pescar Num Bote (1968)
Uma Flor Chamada Maria (1969)
Maria Flor Abre o Livro das Surpresas (1970)

Estudos

Glória: Uma Aldeia do Ribatejo (1938)
A França: Da Resistência à Renascença (1949)
Cancioneiro do Ribatejo (1950)
Ribatejo (Em Portugal Maravilhoso) (1952)
Romanceiro Geral do Povo Português (1964)

Conferência

Le Roman de Tage (Edição da Union Française Universitaire, Paris) (1946)

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Recordar Amadeo de Souza-Cardoso no centenário da sua morte



“Nada é absoluto em pintura. Aquilo que era uma verdade para os pintores de ontem, é uma mentira para os de hoje.”
(em entrevista a O Dia, 4 de dezembro de 1916)

Nascido em Manhufe, paróquia de Mancelos, concelho de Amarante, em 14 de novembro de 1887, Amadeo de Souza-Cardoso foi um dos maiores pintores portugueses, a quem se deve a grande rotura no panorama da história das artes plásticas no nosso país. Entre 1906 e 1914 viveu em Paris, cidade onde começou a sua carreira de pintor e foi amigo de grandes nomes das vanguardas europeias. Com a sua irreverência, trouxe a modernidade para Portugal quando, em 1914, regressou de Paris para fugir ao drama da I Guerra Mundial. Morreu prematuramente, aos 30 anos, no dia 25 de outubro de 1918, vítima da epidemia de gripe espanhola (ou pneumónica) que deflagrara nesse ano.

A vida de Amadeo, tão curta, mas tão intensa, acompanha as grandes transformações que ocorrem entre finais do século XIX e inícios do século XX: dos ecos da Revolução Industrial às invenções tecnológicas como a lâmpada elétrica incandescente, o automóvel ou o telefone; dos novos conhecimentos científicos nas áreas das ciências naturais ou da medicina à teoria da relatividade restrita de Einstein ou à Psicanálise de Freud, é todo um mundo de possibilidades em aberto que se apresentam e ao qual as artes plásticas não ficam indiferentes.
Contra o ensino académico, naturalista e realista, defendendo a libertação da sujeição ao real e a independência do artista face ao gosto do público, as vanguardas modernistas vão-se afirmando, mesmo que nem sempre compreendidas e aceites. O início do século XX será o tempo do Fauvismo, do Expressionismo, do Cubismo, do Abstracionismo, do Futurismo, do Dadaísmo e do Surrealismo.

Em Paris, para onde vai viver em 1906 para frequentar o curso de arquitetura (depois de em Lisboa ter frequentado um curso de desenho na Real Academia de Belas-Artes), Amadeo de Souza-Cardoso encontra-se com diversos artistas portugueses que aí se tinham instalado, como os pintores Guilherme Santa-Rita (conhecido como Santa-Rita Pintor), Manuel Bentes, Emerico Nunes, Eduardo Viana ou o escultor Diogo Macedo, desistindo do curso de arquitetura para tentar a carreira de caricaturista ou artista plástico. É também em Paris que conhece o casal Robert e Sonia Delaunay, Constantin Brancusi e Amedeo Modigliani, entre outros artistas de vanguarda.
Em 1911, inaugura no seu ateliê de Paris uma exposição conjunta com Modigliani, recebendo as visitas de Picasso, Apollinaire e André Derain, e participa pela primeira vez numa exposição de âmbito internacional, o XXVII Salão dos Independentes de Munique.



Os Galgos, 1911



Les cavaliers, 1912

1913 é um dos anos mais profícuos da sua carreira e é também o ano da sua internacionalização. Convidado a apresentar a sua obra no Armory Show (International Exhibition of Modern Art, que mostraria pela primeira vez, nas cidades de Nova Iorque, Chicago e Boston, a moderna arte europeia nos Estados Unidos da América, com obras de artistas ligados ao impressionismo, expressionismo, fauvismo e cubismo), aí participa entre fevereiro e maio com 8 quadros, sendo, entre os 300 artistas representados, um dos 10 que mais obras venderam. Ainda no mesmo ano, entre setembro e novembro, participa com 3 obras no Primeiro Salão Alemão de Outono.



Autorretrato, 1913




Cozinha de Manhufe, 1913



Dame, menina dos cravos, 1913




Procissão Corpus Christi, 1913



Barcos, 1913

Em 1914, entre junho e julho, expõe em Londres, no Salão da Allied Artist’s Association. Um mês depois, a Primeira Guerra Mundial apanha-o em Portugal, onde tinha vindo para se casar com Lucie Pecetto. Impossibilitados de regressar a Paris, instalam-se na Casa do Ribeiro, em Manhufe.



Lucie Pecetto




Sobreposição de imagens de Amadeo e Lucie. Manhufe (Amarante, Portugal). 1915.

Em 1915, o pintor russo Kasimir Malevitch “inventa” o Suprematismo, expondo as suas obras na Primeira Exposição Futurista «Carro Elétrico V», em Sampetersburgo, das quais a que mais impressiona o meio artístico é Quadrado Negro sobre Fundo Branco.


Kasimir Malevitch, Quadrado Negro sobre Fundo Branco

É com este pintor que Amadeo de Souza-Cardoso se começa a identificar: ambos têm em comum o objetivo de criar uma arte que seja universal. No entanto, nem Malevitch esquece as suas raízes culturais russas, nem Amadeo se afasta das suas próprias, mais atlânticas. A Máscara do Olho Verde, de 1915, insere-se num conjunto de máscaras primitivas que Amadeo vai buscar às suas referências lusitanas (as antigas máscaras de lata ou madeira da tradição transmontana, nomeadamente os «caretos»), recriando de forma pessoal a sua ideia de máscara, na qual podemos encontrar influências do cubismo ou do expressionismo, mas sem ser uma coisa nem outra.


A Máscara do Olho Verde, 1915

A I Guerra Mundial trouxe também para Portugal o casal Sonia e Robert Delaunay, instalados em Vila do Conde no final do verão de 1915, acompanhados de Eduardo Viana, igualmente regressado do Paris. Os Delaunay, Amadeo e Viana vão formar a cooperativa Corporation Nouvelle (a que se juntará Almada Negreiros).


 Robert Delaunay, Mulher Portuguesa, 1916



Sonia Delaunay, Mercado no Minho, 1915


Através de Almada, Amadeo entra em contacto com o grupo dos “Futuristas” lisboetas, reunidos inicialmente em torno da revista Orpheu, na qual estava previsto colaborar no número 3 (que nunca chegou a ser publicado), envolvendo-se mais tarde noutros projetos editoriais de Almada Negreiros, como a revista Portugal Futurista, publicando trabalhos ou encarregando-se da edição gráfica do folheto satírico, estilo futurista K4. O quadrado azul, inspirado numa obra de Eduardo Viana.



Capa do folheto




Eduardo Viana, K4 Quadrado Azul, 1916
(fonte de inspiração de Almada para o folheto satírico com o mesmo nome)

Será Almada Negreiros que, em dezembro de 1916, publica um manifesto em defesa da pintura de Amadeo, considerando-o «a primeira descoberta de Portugal na Europa no século XX».



Canção popular A Russa e o Fígaro, 1916




Coty, 1917




Sem título, 1917

Em setembro de 1918, Amadeo de Souza-Cardoso vai para a casa da família em Espinho, numa tentativa de fugir à epidemia de gripe espanhola (pneumónica) que grassava na Europa e tinha já feito algumas mortes em Amarante.
No dia 25 de outubro de 1918, poucos dias depois de uma irmã, Amadeo morre em Espinho, vítima da pneumónica que tanto temia (no total, estima-se que cerca de 20 milhões de pessoas tenham sucumbido em toda a Europa).
Da obra de Amadeo de Souza-Cardoso pode dizer-se que:
  • Pintou reinterpretando e reinventando a realidade;
  • Geometrizou as formas, usou cores vibrantes, decompôs as imagens à maneira cubista, pintou círculos de cor, máscaras de influência etnográfica;
  • Usou colagens, areia, pasta de óleo, inseriu letras;
  • Estilhaçou e decompôs a imagem em múltiplas partes;
  • Morreu demasiado cedo…
Em dezembro de 1916, numa entrevista ao jornal O Dia declarara «Eu não sigo escola nenhuma. As escolas morreram. Nós, os novos, só procuramos a originalidade. Sou impressionista, cubista, futurista, abstracionista? De tudo um pouco. Mas nada disso forma uma escola.»

As mortes prematuras de Mário de Sá-Carneiro, em 1916, e de Amadeo de Souza-Cardoso e Santa-Rita Pintor em 1918 puseram fim a um primeiro modernismo em Portugal. Almada Negreiros dirá que com eles desapareceu o “fogo sagrado”. Será o mesmo Almada que, juntamente com Eduardo Viana, procurará continuar a herança.

No Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulkbenkian, em Lisboa, encontra-se a maior parte da obra de Amadeo de Souza-Cardoso exposta em Portugal .

Fontes bibliográficas:
Amadeo de Souza-Cardoso. Fotobiografia. Catálogo Raisonné. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. 2007
Belém, Margarida Cunha e Ramalho, Margarida Magalhães - Fotobiografia de Amadeo de Souza-Cardoso. Lisboa: Temas e Debates. 2009