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sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Novembro - o mês de SOPHIA


Comecei a escrever numa noite de Primavera, uma incrível noite de vento leste e Junho. Nela o fervor do universo transbordava e eu não podia reter, cercar, conter – nem podia desfazer-me em noite, fundir-me na noite. (...)
[Anotação no primeiro poema escrito por Sophia, «Primeira noite de Verão»]

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto, a 6 de novembro de 1919, e morreu em Lisboa, a 2 de Julho de 2004. Foi a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa, o Prémio Camões, em 1999. Foram-lhe concedidas honras de Estado e os seus restos mortais foram trasladados para o Panteão Nacional, em 2014.
Além de escritora, Sophia distinguiu-se também pela sua atitude interventiva, tendo denunciado ativamente o regime salazarista e os seus seguidores. Apoiou a candidatura do general Humberto Delgado e fez parte dos movimentos católicos contra o Estado Novo. Ficou célebre como canção de intervenção dos Católicos Progressistas a sua "Cantata da Paz", também conhecida e chamada pelo seu refrão: "Vemos, Ouvimos e Lemos. Não podemos ignorar!".
Em 1975, após o 25 de Abril, foi eleita para a Assembleia Constituinte.

Sophia de Mello Breyner Andresen fez-se poeta ainda na infância, depois de, com apenas três anos, a sua ama Laura lhe ter ensinado "A Nau Catrineta". Disse numa entrevista (concedida a Maria Armanda Passos, "Sophia, um retrato", in Jornal de Letras, nº 26, Fevereiro de 1982)
"Havia em minha casa uma criada, chamada Laura, de quem eu gostava muito. Era uma mulher jovem, loira, muito bonita. A Laura ensinou-me a "Nau Catrineta" porque havia um primo meu mais velho a quem tinham feito aprender um poema para dizer no Natal e ela não quis que eu ficasse atrás… Fui um fenómeno, a recitar a "Nau Catrineta", toda. Mas há mais encontros, encontros fundamentais com a poesia: a recitação da "Magnífica", nas noites de trovoada, por exemplo. Quando éramos um pouco mais velhos, tínhamos uma governanta que nessas noites queimava alecrim, acendia uma vela e rezava. Era um ambiente misto de religião e magia… E de certa forma nessas noites de temporal nasceram muitas coisas. Inclusivamente, uma certa preocupação social e humana ou a minha primeira consciência da dureza da vida dos outros, porque essa governanta dizia: «Agora andam os pescadores no mar, vamos rezar para que eles cheguem a terra» (…)."

Começou a escrever poesia aos 12 anos, e aos 25 (em 1944), lançou o seu primeiro livro – Poesia -, uma coletânea de poemas que escrevera até então, numa edição de 300 exemplares financiada pelo seu pai.




O real, concreto da Natureza marcou profundamente a sua obra. Era para Sophia um exemplo de liberdade, beleza, perfeição e de mistério. A Natureza é largamente citada em toda a sua obra, quer pelas alusões à terra (árvores, pássaros, o luar), quer pelas referências ao mar (praia, conchas, ondas), que é um dos conceitos-chave na sua criação literária. O mar da praia da Granja, em Espinho, onde passava férias na infância e juventude; o mar da praia de Dona Ana, em Lagos, para onde começou a ir com os filhos ainda pequenos.


Na praia de Dona Ana, em Lagos

Outro dos temas marcantes da obra de Sophia é a Grécia: a geografia, o Mediterrâneo, a luz, o ritmo, as ilhas; a Grécia primordial enquanto mito e literatura fundadora. Se desde os seus estudos de Filologia Clássica na Universidade de Lisboa (curso que não chegou a concluir) se fazia sentir em Sophia a influência da cultura da Grécia Antiga, foi sobretudo durante as suas viagens pelo Mediterrâneo (a primeira das quais em 1963, com Agustina Bessa-Luís), que a Grécia se tornou uma paixão e uma referência.

Foi no mar que aprendi o gosto da forma bela
Ao olhar sem fim o sucessivo
Inchar e desabar da vaga
A bela curva luzidia do seu dorso
O longo espraiar das mãos de espuma
Por isso nos museus da Grécia antiga
Olhando estátuas frisos e colunas
Sempre me aclaro mais leve e mais viva
E respiro melhor como na praia.
“Foi no mar que aprendi”, de O Búzio de Cós (1997)


Na Grécia, com Agustina Bessa Luís (1963)

Nos seus versos encontramos Orfeu e Eurydice, Dionísos, Endemyion, Electra, Ariadne, Antínoo, ou as Parcas; encontramos Creta e a cidade de Cnossos, Delfos ou Ítaca, lugares de encantamento para Sophia por representarem um mundo original ao qual tende regressar.


Na Grécia (1988)

A sua obra, que se divide essencialmente entre a poesia (publicou cerca de 20 obras, entre 1944 e 2001) e a literatura infantil, com 8 títulos publicados, está traduzida em várias línguas e foi várias vezes premiada, tendo recebido, entre outros, o Prémio Camões 1999, o Prémio Poesia Max Jacob 2001 e o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana – a primeira vez que um português venceu este prestigiado galardão. Distinguiu-se também como autora de peças de teatro e de ensaios. Traduziu Eurípedes, Shakespeare, Claudel, Dante e, para o francês, alguns poetas portugueses.



Sophia de Mello Breyner Andresen faleceu aos 84 anos, no dia 2 de Julho de 2004, em Lisboa. A 2 de julho de 2014, o seu corpo foi transladado para o Panteão Nacional – foi a segunda mulher lá sepultada (a primeira foi a fadista Amália Rodrigues). Contudo, a memória que nos fica de Sophia é, sobretudo, a de uma mulher que amou a natureza, o mundo, as palavras e o seu poder de transformá-lo. Durante a cerimónia de transladação, Rita Sousa Tavares, sua neta, recordou aquele que foi um dos seus grandes amores – o mar –, ao qual a autora dedicou inúmeros poemas: “Se lhe dessem a escolher entre um prémio literário e um último mergulho no mar, preferia o mergulho no mar”.

Dois filmes sobre Sophia a não perder:
Sophia de Mello Breyner Andresen, realizado por João César Monteiro, em 1969


O Nome das Coisas, documentário sobre a vida e a obra da poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen, numa aproximação ao seu universo muito pessoal produzida com base em depoimentos de familiares e amigos, e em documentação fotográfica. Realizado por Pedro Clérigo para a RTP.


Obras
(*) Disponíveis na Biblioteca do ECB
Poesia
  • Poesia (1944, Cadernos de Poesia, nº 1, Coimbra) (*)
  • O Dia do Mar (1947, Lisboa, Edições Ática) (*)
  • Coral (1950, Porto, Livraria Simões Lopes)
  • No Tempo Dividido (1954, Lisboa, Guimarães Editores) (*)
  • Mar Novo (1958, Lisboa, Guimarães Editores) (*)
  • Livro Sexto (1962, Lisboa, Livraria Morais Editora) (*)
  • O Cristo Cigano (1961, Lisboa, Minotauro, ilustrado por Júlio Pomar) (*)
  • Geografia (1967, Lisboa, Ática) (*)
  • Grades (1970)
  • 11 Poemas (1971)
  • Dual (1972, Coimbra Moraes Editores) (*)
  • Antologia (1975) (*)
  • O Nome das Coisas (1977, Lisboa, Moraes Editores)
  • Navegações (1983) (*)
  • Ilhas (1989) (*)
  • Musa (1994) (*)
  • Signo (1994)
  • O Búzio de Cós (1997) (*)
  • Mar (2001) - antologia organizada por Maria Andresen de Sousa Tavares
  • Primeiro Livro de Poesia (infanto-juvenil) (1999) (*)
  • Orpheu e Eurydice (2001) (*)




Poemas não incluídos na Obra Poética
  • "Juro que venho para mentir"; "És como a Terra-Mãe que nos devora"; "O mar rolou sobre as suas ondas negras"; "História improvável"; "Gráfico", Távola Redonda - Folhas de Poesia, nº 7, Julho, 1950.
  • "Reza da manhã de Maio"; "Poema", A Serpente - Fascículos de Poesia, nº 1, Janeiro, 1951.
  • "Caminho da Índia", A Cidade Nova, suplemento dos nº 4-5, 3.ª série, Coimbra, 1958.
  • "A viagem" [Fragmento do poema inédito "Naufrágio"], A Cidade Nova, 5.ª série, nº 6, Dezembro, 1958.
  • "Novembro"; "Na minha vida há sempre um silêncio morto"; "Inverno", Fevereiro - Textos de Poesia, 1972.
  • "Brasil 77", Loreto 13 - Revista Literária da Associação Portuguesa de Escritores, nº 8, Março, 1982.
  • "A veste dos fariseus", Jornal dos Poetas e Trovadores - Mensário de Divulgação Cultural, nº 5/6, 2.ª série, Março/Abril, 1983.
  • "Oblíquo Setembro de equinócio tarde", Portugal Socialista, Janeiro, 1984.
  • "Canção do Amor Primeiro", Sete Poemas para Júlio (Biblioteca Nacional, cota nº L39709), 1988.
  • "No meu Paiz", Escritor, nº 4, 1995.
  • "D. António Ferreira Gomes. Bispo do Porto"; "Naquele tempo" ["Dois poemas inéditos"], Jornal de Letras, 16 Jun., 1999.

Ficção
Contos
  • A Menina do Mar (1958) (*)
  • A Fada Oriana (1958) (*)
  • A Noite de Natal (1959) (*)
  • Contos Exemplares (1962, Lisboa, Livraria Morais Editora) (*)
  • O Cavaleiro da Dinamarca (1964) (*)
  • O Rapaz de Bronze (1966) (*)
  • A Floresta (1968) (*)
  • O Tesouro (1970)
  • A Árvore (1985) (*)
  • Histórias da Terra e do Mar (1984, Lisboa, Edições Salamandra) (*)
  • Contos Infantis










Teatro
  • O Bojador (2000, Lisboa, Editorial Caminho)
  • O Colar (2001, Lisboa, Editorial Caminho) (*)
  • O Azeiteiro (2000, Lisboa, Editorial Caminho)
  • Filho de Alma e Sangue (1998, Lisboa, Editorial Caminho)
  • Não chores minha Querida (1993, Lisboa, Editorial Caminho)


Ensaio
  • "A poesia de Cecíla Meyrelles" (1956), Cidade Nova, 4.ª série, nº 6, Novembro 1956
  • Cecília Meyrelles (1958), in Cidade Nova
  • Poesia e Realidade (1960), in Colóquio: Revista de Artes e Letras, nº 8
  • "Hölderlin ou o lugar do poeta" (1967), Jornal de Comércio, 30 de Dez. 1967.
  • O Nu na Antiguidade Clássica (1975), in O Nu e a Arte, Estúdios Cor
  • "Torga, os homens e a terra" (1976), Boletim da Secretaria de Estado da Cultura, Dezembro 1976
  • "Luiz de Camões. Ensombramentos e Descobrimentos" (1980), Cadernos de Literatura, nº 5
  • "A escrita (poesia)", (1982/1984), Estudos Italianos em Portugal, nº 45/47

Traduções de Sophia de Mello Breyner Andresen
  • A Anunciação de Maria (Paul Claudel) – 1960, Lisboa, Editorial Aster
  • O Purgatório (Dante) – 1962, Lisboa, Minotauro
  • "A Hera", "A última noite faz-se estrela e noite" (Vasko Popa); "Às cinzas", "Canto LI", "Canto LXVI" (Pierre Emmanuel); "imagens morrendo no gesto da", "Gosto de te encontrar nas cidades estrangeiras" (Edouard Maunick), O Tempo e o Modo, nº 22 - 1964
  • Muito Barulho por Nada (William Shakespeare) - 1964
  • Medeia (Eurípedes) - 1964
  • Hamlet (William Shakespeare) – 1965
  • "Os Reis Magos", tradução de um poema do Eré Frene – 1967.
  • Quatre Poètes Portugais (Camões, Cesário Verde, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa) – 1970
  • A Vida Quotidiana no Tempo de Homero, de Émile Mireaux, Lisboa, [1979] (*)
  • Ser Feliz, de Leif Kristianson, 1980
  • Um Amigo, de Leif Kristianson, 1981
  • Medeia, de Eurípedes (inédito) [199-] (*)
Prémios
1964 - Grande Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores, atribuído a Livro Sexto.
1977 - Prémio Teixeira de Pascoaes
1979 – Medalha de Verneil da Societé de Encouragement au Progrés, de França
1983 - Prémio da Crítica, do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários, pelo conjunto da sua obra
1989 - Prémio D. Dinis, da Fundação da Casa de Mateus
1990 - Grande Prémio de Poesia Inasset / Inapa; Prémio P.E.N. Clube Português de Poesia
1992 - Grande Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças
1993 - Grande Prémio Vida Literária APE/CGD
1995 - Prémio Petrarca Associação de Editores Italianos
1995 – Homenagem de Faculdade de Teologia da Universidade Católica de Lisboa, pelo cinquentenário da publicação do primeiro livro Poesia
1995 - Outubro – Placa de Honra do Prémio Francesco Petrarca, Pádua, Itália
1996 - Homenageada do Carrefour des Littératures, na IV Primavera Portuguesa de Bordéus e da Aquitânia
1998 - Prémio da Fundação Luís Miguel Nava
1999 - Prémio Camões
2000 - Prémio Rosalia de Castro, do Pen Clube Galego
2001 - Prémio Max Jacob Étrange
2003 - Prémio Rainha Sophia de Poesia Ibero-americana.

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