
"Regressamos assim à imaginação. A essa louca às vezes fascinante e às
vezes furiosa que mora no sótão. Ser romancista é conviver harmoniosamente com
a louca de cima. É não ter medo de visitar todos os mundos possíveis e alguns impossíveis.”
Rosa Montero – A Louca da Casa. Alfragide: Edições Asa,
2004. Traduzido do espanhol por Helena Pitta.
Em A Louca da Casa, um livro algures entre o romance, a autobiografia
e o ensaio, Rosa Montero apresenta-nos um tratado sobre a imaginação. Misturando
literatura e vida, nesta obra que é considerada a mais pessoal da autora,
seguimos numa viagem através das suas recordações mais secretas, mas também do misterioso
universo da fantasia e da criação artística rumo ao mais profundo do seu ser, num
jogo narrativo cheio de surpresas.
“Um livro sobre a fantasia e os sonhos, a loucura e a paixão, os medos
e as dúvidas dos escritores – mas também de cada um de nós –, A Louca da Casa
é, sobretudo, a tórrida história de amor que existe entre Rosa Montero e a sua
própria imaginação.” – lemos na contracapa deste livro.
De Sherazade à Segunda Guerra
Mundial, passando pela paixão amorosa e pela Peste Negra, ao mesmo tempo que
partilha com o leitor um pouco das suas memórias pessoais, Rosa Montero traça
um panorama da imaginação e das possibilidades do uso da palavra escrita,
analisando as reviravoltas que a criatividade pode dar na nossa vida. Dessa
aventura, nasce este livro inesquecível para todos aqueles que amam boas
histórias.
“[…] falar de literatura é falar da vida; da vida própria e da vida dos
outros, da felicidade e da dor. E é também falar do amor, porque a paixão é a
maior invenção das nossas existências inventadas, a sombra de uma sombra, o
adormecido que sonha que está a sonhar.”
E assim descobrimos, por exemplo,
que Goethe adulava os poderosos, que Tolstoi era um energúmeno, que Rosa, ela
própria, em criança, se julgava anã, e que, com vinte e três anos, manteve um
extravagante e arrebatador romance com um ator famoso. Todavia, não devemos
fiar-nos por completo em tudo o que a autora conta sobre si mesma: as
recordações não são sempre o que parecem.
“[…] inventamos para nós as nossas lembranças, que é o mesmo que dizer
que nos inventamos a nós mesmos, porque a nossa identidade reside na memória,
no relato da nossa biografia.”
A Louca da Casa é uma história de amor e de salvação entre Rosa
Montero e o seu imaginário, um livro sobre a fantasia e os sonhos, a loucura e a
paixão, os medos e as dúvidas dos escritores, mas também dos leitores. É uma
homenagem à imaginação e à literatura como uma das suas máximas expressões, uma
ode aos romances, às boas histórias e aos escritores, estas criaturas abrasadas
pela imaginação, que se arriscam na furiosa labuta de recriar a vida, matéria
mágica e estilhaçada, com as suas palavras e personagens.
Porque a imaginação, a “louca da
casa”, como lhe chamou Santa Teresa de Jesus, é uma luz que nasce dentro de
todos nós. Na infância, a imaginação guia-nos e ilumina os nossos dias, o nosso
quotidiano é povoado pelo fantástico e todo o impossível é plausível. Porém, à
medida que vamos crescendo, a sensatez vai apagando a nossa imaginação,
perdemos o olhar múltiplo, mágico, que nos eleva acima da realidade óbvia, da
vida monumental, diz Rosa Montero. Todos aqueles que criam precisam de manter a
sua ingenuidade infantil, guardar a sua criança viva dentro de si.

Rosa Montero nasceu em Madrid, em
1951. Aos cinco anos foi-lhe diagnosticada uma tuberculose e até aos nove anos
esteve retida em casa. Foi nesse período que começou a ler e a escrever. Quando
se curou, regressou à escola para frequentar o instituto Beatriz Galindo em
Madrid. Em 1968, com 17 anos, entrou na faculdade de filosofia, curso que
abandonou no ano seguinte para estudar jornalismo. Concluiu ainda o curso de
psicologia pela Universidade Complutense de Madrid.
Em 1970, começou a escrever
alguns artigos no diário Informaciones,
de Alicante, seguindo-se uma colaboração na revista Tele-Radio e em diversos órgãos da Imprensa. A partir de 1976,
passou a trabalhar exclusivamente para o diário espanhol El Pais e, dois anos depois, ganhou o prémio Mundo de entrevistas,
área onde se especializou. Recebeu ainda o Prémio Nacional de Jornalismo (1980)
e o Prémio da Associação da Imprensa de Madrid, por toda a sua vida
profissional (2005). Hoje continua a colaborar com o jornal El País como colunista.
Em 1999, ganhou o Primeiro Prémio
Literário e de Jornalismo Gabriel García Marquez do Instituto La Laguna de
Madrid em reconhecimento pelo seu trabalho no El Pais.
Realizou o sonho de se tornar
escritora, em 1979, com o lançamento do seu primeiro romance Crónica del desamor.
Foi professora convidada em
universidades Americanas, onde ensinou escrita criativa, e recebeu uma bolsa
para dar conferências na Universidade de Belfast no Reino Unido. Ensinou também
literatura e jornalismo na escola de Letras e na escola Contemporânea de
Humanidades, ambas em Madrid. Tem dado palestras em aberturas de cursos de
Pós-graduação e cerimónias em várias universidades, como em Salamanca, na Complutense e na Carlos III. É presença assídua nas Correntes d’Escritas, na Póvoa
do Varzim.
Com A Louca da Casa recebeu o Prémio Grinzane Cavour de literatura
estrangeira e o Prémio Qué Leer para o melhor livro espanhol, distinção que
também foi atribuída, em 2006, a História
do Rei Transparente. A Ridícula Ideia
de Não Voltar a Ver-te viria a ganhar o Prémio da Crítica de Madrid 2014.
Recebeu, já em 2017, e pelo
conjunto da sua obra, o Prémio Nacional das Letras Espanholas, galardão que o
júri fundamentou com a «sua longa trajetória no romance, jornalismo e ensaio».
Desde a morte de Pablo Lizcano,
seu companheiro durante 21 anos, em 2009, Rosa Montero passa alguns meses por
ano num condomínio em Cascais, Portugal.
Na biblioteca do ECB, encontram-se as seguintes obras desta autora:
A filha do canibal, 1998
Ramón,
homem aparentemente pacato casado com Lúcia Romero há mais de dez anos (mais
por hábito do que por amor), é vítima de um sequestro. Lúcia é uma mulher de
quarenta anos, a quem a vida já magoou, mas que nem por isso perdeu o
implacável sentido de humor - à boa maneira do detetive do policial negro. Mas
este romance transcende exuberantemente os cânones do policial clássico: o
percurso da heroína é antes uma deriva que a conduz à descoberta de verdades
insuspeitadas. Adrián, um jovem de vinte e um anos, e Félix, um anarquista
octogenário, acompanham-na no desvendar do mistério. Todos três constituem um
triângulo que confere substância a três idades da vida, encenando o drama em
que se joga o obscuro sentido da passagem do tempo. A Filha do Canibal foi agraciado com o Prémio Primavera Narrativa
de 1997.
Amantes e inimigos, 1999
Uma
coletânea de contos sobre o amor e sobre as relações amorosas, nem sempre
fáceis, nem sempre possíveis. “O amor é uma mentira, mas funciona”. É com esta
frase que Rosa Montero termina o último conto numa obra onde ressaltam os seus
notáveis dotes de contadora de histórias. É esta frase também que, para a
autora, melhor resume toda a obra. Plena de momentos narrativos
brilhantes vistos através da moldura da relação a dois, esse obscuro lugar da
dor e do prazer onde cabem o desejo carnal, a paixão, o desespero, a felicidade
e a amargura.
Paixões: amores e desamores que mudaram a história, 2000
Através
de dezoito histórias publicadas inicialmente no jornal El País e mais tarde revistas
para esta edição, Rosa Montero dá-nos a conhecer histórias de amor de grande
intensidade vividas por casais famosos como Marco António e Cleópatra, Oscar
Wilde e Alfred Douglas ou Arthur Rimbaud e Paul Verlaine. Será eterno o amor?
Existirá a paixão perfeita? Será perigoso amar? Esta obra não dá resposta a
questões tão profundas, mas contribui para a reflexão acerca de um dos temas
que mais tem preocupado o ser humano desde o princípio dos tempos.
História do rei transparente, 2006
Uma
viagem a uma Idade Média desconhecida, quando, no século XII, as cruzadas,
torneios e guerras ocupam os homens. Leola, uma camponesa adolescente, despe um
guerreiro morto num campo de batalha e veste as suas roupas para se proteger
sob um disfarce viril e sobreviver num mundo de homens. Assim começa o
vertiginoso e emocionante relato da sua vida, cheia de perigos, com amigos e
inimigos, no meio de cortes, damas e condes, combates e torneios, numa
peripécia existencial que não é apenas de Leola mas também nossa, porque este
romance de aventuras com ingredientes de fantástico fala-nos, na verdade, do
mundo atual e do que todos nós somos.