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quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Graham Greene - autor do mês de outubro

 


Considerado um dos mais importantes autores do século XX, o escritor inglês Graham Greene nasceu no dia 2 de outubro de 1904, em Berkhamsted, Hertfordshire, no norte de Londres, e morreu em abril de 1991, na cidade de Vevey, na Suíça. Publicou cerca de 60 romances, além de peças de teatro, coletâneas de contos e novelas, ensaios, livros para crianças, argumentos cinematográficos, ensaios e quatro livros autobiográficos. Oriente Expresso, O Terceiro Homem, O Americano Tranquilo, O Nosso Homem em Havana ou O fim da aventura foram alguns dos seus romances adaptados ao cinema.

Estudou História Contemporânea no Balliol College da Universidade de Oxford, trabalhou como editor no Oxford Outlook, foi jornalista, crítico de cinema, correspondente de guerra e diretor literário de vários jornais e editoras. Trabalhou para os serviços secretos britânicos, experiência que marcou a sua obra.

Em 1926, Graham Greene começou a trabalhar no jornal The Times, como editor assistente. Tornou-se escritor nas vésperas da Grande Depressão e muitas das suas histórias retratam a atmosfera da década de 1930. The Man Within, o seu primeiro romance, foi publicado em 1929, tendo recebido uma boa aceitação do público. Em 1930 resolveu abandonar o jornalismo como atividade principal e dedicar-se à literatura.

Em 1935 foi contratado como crítico literário pelo semanário inglês The Spectator, função que exerceu durante quatro anos.

Ao longo da sua vida, Graham Greene esteve em vários países bem distantes da Inglaterra, aos quais se referia como lugares selvagens e remotos do mundo. Nos seus romances, retrata pessoas que encontrou e lugares onde viveu.

Deixou a Europa pela primeira vez aos 30 anos de idade, em 1935, rumo a África (especialmente Serra Leoa e Libéria), onde, além de pesquisar material para os artigos que escrevia para o The Times e para um futuro livro (Journey Without Maps), também prestou serviços à Anti-Slavery and Aborigines' Protection Society.

Em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, Graham Greene foi recrutado pelo Foreign Office (Ministério do Exterior) para trabalhar para os serviços secretos britânicos (MI6), sendo enviado para a Serra Leoa, onde permaneceu até 1943. Muitos de seus romances, a partir de então, tiveram como tema a espionagem.

A Serra Leoa serviu como cenário para o livro O Cerne da Questão, publicado em 1948, uma de suas obras mais marcantes, onde narra os problemas enfrentados pelo personagem Henry Scobie, major da polícia colonial inglesa, durante a Segunda Guerra Mundial.

Ainda em 1948 escreveu o guião para cinema O Terceiro Homem, transformado em livro em 1950. Das suas viagens a Cuba resultou a obra O Nosso Homem em Havana, publicada em 1958.

Além da espionagem, outra temática frequente na sua obra é a religião. Tendo-se convertido ao catolicismo em 1926, os dilemas morais e espirituais da sua época eram representados através das suas personagens. Graham Greene era considerado o maior “escritor católico” da Grã-Bretanha, apesar da sua resistência em ser retratado dessa maneira.


Obras de Graham Greene na Biblioteca do ECB:

A inocência e o pecado – 1938

O agente secreto – 1939

O poder e a glória – 1940

O ministério do medo - 1943

O terceiro homem – 1949


O fim da aventura – 1951

O americano tranquilo – 1955


O nosso agente em Havana –1958

Os comediantes – 1966


Viagens com a minha tia–1969

O cônsul honorário – 1973

O factor humano - 1978

Monsenhor Quixote – 1982


O décimo homem – 1985


sábado, 26 de setembro de 2020

Dia Europeu das Línguas

 


Em 2001 celebrou-se pela primeira vez o Ano Europeu das Línguas (AEL), por iniciativa conjunta do Conselho da Europa e da Comissão Europeia, visando celebrar e preservar a diversidade linguística como uma riqueza do património comum da Europa. Foi ainda objetivo de AEL-2001 promover o multilinguismo e motivar os cidadãos europeus para a aprendizagem de línguas. Considerando que as competências linguísticas são essenciais para garantir a equidade e a integração, o dia 26 de setembro foi instituído como o Dia Europeu das Línguas (DEL). 

Na União Europeia, existem 24 línguas oficiais e, entre línguas nacionais, regionais e dialetos, são mais de 60 as línguas faladas nos 50 países da Europa, às quais se podem juntar as oriundas de todo o mundo e faladas por todos os que escolheram viver, estudar e trabalhar na Europa, tornando este continente ainda mais rico em termos culturais, sociais, linguísticos.

Num tempo de crescente mobilidade, globalização da economia e tendências económicas em constante mudança, é mais óbvia do que nunca a necessidade de aprender línguas e desenvolver uma competência plurilingue e intercultural.

Este ano, em contexto de combate à pandemia COVID-19, o Dia Europeu das Línguas está a ser assinalado de forma virtual, para proteção de todos.

“Queremos promover o plurilinguismo. Aprender línguas é descobrir novas visões do mundo. Aprender línguas é transformar o inaudível em percetível, o estrangeiro em parceiro. Permite criar bases para a intercompreensão e o compromisso, para valores comuns de cidadania.

Aprender línguas dá acesso à diversidade e à subtileza das artes em todos os seus aspetos. Abre também horizontes académicos e profissionais, dentro ou fora do país de origem. Cria oportunidades.” (*)

(*) Declaração da Presidência e vice-presidência da EUNIC Portugal [EUNIC - European Union National Institutes for Culture, rede constituída pelos Institutos Nacionais de Cultura da União Europeia, da qual O Instituto Camões, I.P., é membro fundador; esta rede foi criada em 2006, com o objetivo de promover a cooperação cultural, através do estabelecimento de parcerias entre os profissionais do setor cultural, educativo e outros, e tendo em vista um maior entendimento da diversidade cultural e linguística europeias]

Mais informações no sítio oficial da União Europeia em Portugal

https://ec.europa.eu/portugal/

https://ec.europa.eu/portugal/events/edlangs-portugal-2020_pt

e no Facebook da EUNIC e da Representação da Comissão Europeia em Portugal

https://www.facebook.com/eunicportugal/


terça-feira, 1 de setembro de 2020

Lev Tolstói - autor do mês de setembro

 


“Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira.”

Lev Tolstoi, Anna Karenina.


O escritor russo Liev Nikoláievich Tolstói, mais conhecido em português como Leão, Leon, Leo ou Lev Tolstói, nasceu em 9 de setembro de 1828, em Yasnaya Polyana, uma propriedade familiar localizada a 12 quilómetros do sudoeste de Tula e a 200 quilómetros a sul de Moscovo, no então Império Russo, e morreu a 20 de novembro de 1910, de pneumonia, na estação ferroviária de Astapovo, na cidade russa de Riazan.

Oriundo da aristocracia russa (o pai era o Conde Nikolai Ilyich Tolstoy e a mãe a Condessa Mariya Tolstaya), a participação na Guerra da Crimeia (1853-1856) e as viagens que empreendeu à Europa entre 1857 e 1860 foram muito marcantes para Tolstói. Em Paris, assistiu a uma execução pública, experiência que lhe foi traumática, e conheceu a obra de Victor Hugo. Estes acontecimentos e a visita que fez a Pierre-Joseph Proudhon, exikado na Bélgica, em março de 1861, influenciaram-no política e literariamente e terão contribuído para o transformar num “anarquista pacifista”.

Em 1851, depois de ter abandonado as Faculdades de Direito e de Letras na Universidade de Kazan e ter acumulado dívidas, Tolstói alistou-se no exército, na guarnição do Cáucaso.

As primeiras obras publicadas, Infância, Adolescência e Juventude (1852-1856), que compõem uma trilogia de pendor autobiográfico e que narram a história de um filho de um rico proprietário e a sua lenta perceção do abismo social que o separava dos seus camponeses assalariados, seguidas de Crónicas de Sebastopol (publicadas em 1855 e que retratam a sua experiência na Guerra da Crimeia), conferiram-lhe relevância literária quando ainda era muito jovem. No entanto, foram sobretudo os romances Guerra e Paz (1869) e Anna Karenina (1877) que o tornaram conhecido do grande público.

A obra de Tolstói inclui histórias curtas e várias novelas como A Morte de Ivan Ilitch (1886), Felicidade Conjugal (1859) e Hadji Murad (1912), além de algumas peças e diversos ensaios filosóficos e publicações não ficcionais, como A Confissão, de 1882, que descreve a profunda crise moral que o assolou durante a década de 1870, a que se seguiu o que considerou um despertar espiritual igualmente profundo, ou No que eu acredito, obra de 1884, onde confessou abertamente as suas crenças cristãs.

Através de um estilo ficcional realista, ficamos a conhecer a sociedade aristocrata russa em que viveu, embora sempre se tenha oposto à propriedade privada. A sua defesa do pacifismo (presente, por exemplo, na obra O Reino de Deus está dentro de vós, publicado em 1893) teve uma profunda influência no desenvolvimento do pensamento anarquista cristão e terá influenciado figuras como Gandhi, com quem se correspondeu entre 1909 e 1910.

Em 1862, Tolstói casou-se com Sophia Andreevna Behrs, filha de um médico da corte. Tiveram 13 filhos, oito dos quais chegaram à idade adulta.


Sophia e Lev Tolstói

O casamento, que proporcionou a Tolstói a liberdade e a estrutura familiar necessárias para poder escrever as suas obras, foi sempre atribulado e foi-se deteriorando à medida que o estilo de vida e as crenças de Tolstói se tornavam cada vez mais radicais. Renunciando à vida aristocrática, deixou a sua casa em outubro de 1910, às escondidas de Sophia. Depois de um dia inteiro de viagem, Tolstói morreu de pneumonia na estação ferroviária de Astapovo (o que lembra a morte da personagem principal de Anna Karenina). Segundo algumas fontes, passou as suas últimas horas de vida a pregar o amor e a não-violência aos passageiros do comboio.


Obras de Lev Tolstói na Biblioteca do ECB:








E também:

O demónio branco

Um caso de consciência e a tortura da carne


sábado, 1 de agosto de 2020

Herman Melville - autor do mês de agosto




Oceano Pacífico, 20 de novembro de 1820. O navio baleeiro Essex, que regressava da ilha de Nantucket, na costa leste dos Estados Unidos, um dos maiores centros baleeiros, é atacado por um cachalote macho, com 26 metros de comprimento, cerca de 8 toneladas e a cabeça cheia de cicatrizes, naquele que foi o primeiro e único ataque registado de uma baleia contra uma embarcação.

De um golpe, o animal atingiu a parte frontal do navio. Em seguida, passou por baixo do casco, arrancou a quilha e emergiu do outro lado. Afastou-se um pouco e voltou ao ataque. Em grande velocidade, atingiu o barco logo abaixo da âncora. O Essex estava condenado a ser enterrado no fundo do mar. A baleia desvencilhou-se dos destroços e afastou-se a nadar para nunca mais ser vista.

Este ataque, que deixaria os 20 tripulantes à deriva durante três meses, serviria de inspiração para um dos maiores clássicos da literatura mundial, Moby Dick, de Herman Melville.

Herman Melville nasceu em Nova Iorque, no dia 1 de agosto de 1819, e morreu na mesma cidade, a 28 de setembro de 1891. A morte do pai, em 1832, obrigou-o a trabalhar para ajudar a sustentar a família (então com oito filhos). Assim, trabalhou como bancário, professor e agricultor. Em 1839, embarcou como ajudante no navio mercante St. Lawrence, com destino a Liverpool e, em 1841, no baleeiro Acushnet, a bordo do qual percorreu quase todo o Pacífico. Quando a embarcação chegou às ilhas Marquesas, na Polinésia francesa, Melville decidiu abandoná-la para viver junto dos nativos por algumas semanas. As suas aventuras como "visitante-cativo" da tribo de canibais Typee foram registadas no livro Typee, publicado em 1846. O seu segundo livro, Omoo, de 1847, narra as suas aventuras a bordo do baleeiro australiano Lucy Ann quando, na sequência de um motim organizado pelos tripulantes insatisfeitos pela falta de pagamento, foi preso numa cadeia no Tahiti, da qual conseguiu fugir pouco depois.

Os dois primeiros livros renderam-lhe muito sucesso entre o público e os críticos e um certo conforto financeiro. No entanto, a sua popularidade foi decaindo ao longo dos anos. Quando faleceu, em 1891, com 10 romances e um livro de contos publicados, estava quase completamente esquecido, sem conhecer o sucesso que alcançaria no século XX a sua mais importante obra, o romance Moby Dick. O livro, dividido em três volumes, foi publicado em Londres e em Nova Iorque, em 1851 com o título de Moby-Dick, A baleia e não obteve sucesso entre os críticos, tendo sido considerado o principal motivo para o declínio da carreira do autor.

Há quem diga que nem sequer tenham sido vendidos 500 exemplares do livro no Reino Unido e que o escritor ganhou menos de 600 dólares com as vendas do romance durante a sua vida. Atualmente, um exemplar da primeira edição vale milhares de euros.


Moby Dick, um romance sobre um cachalote branco que foi perseguido e ferido várias vezes por baleeiros e que conseguiu defender-se e destruir os seus caçadores, centra-se nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael, um professor rural oriundo de uma família tradicional que decide “velejar um pouco e ver a parte aquosa do mundo” para fugir de sua melancolia. Ismael trabalhou como marinheiro em navios mercantes, mas decide viajar num baleeiro e conhecer as baleias. A viagem a bordo do baleeiro Pequod, dirigido pelo Capitão Ahab, terá sido parcialmente inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e que, ao tentar destruí-la, se afundou. Outra fonte de inspiração para Herman Melville terá sido o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morto na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, quando se defendia dos navios que o perturbavam com premeditada ferocidade.

O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, as suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça, detalhes sobre as embarcações, arpões, e armazenamento de produtos extraídos das baleias.

Se Herman Melville não conheceu a fama que a sua obra alcançaria com o decorrer do tempo, poucos serão os livros e escritores que se poderão orgulhar de terem servido de inspiração para a criação do nome de uma nova espécie animal. Quando em 2015 um grupo de cientistas descobriu uma nova espécie de cachalotes, chamou-lhe Albicetus, albus (branco) e cetus (baleia), devido às semelhanças com a baleia descrita por Herman Melville em Moby Dick: branca, com uma magnitude fora do comum, um tom notável e um maxilar inferior deformado.

Moby Dick começa com a frase: “Chamai-me Ismael.” Segue-se a narrativa em primeira pessoa deste marinheiro que, com “uma camisa ou duas” na sua bolsa de viagem, se dirige à Ilha Nantucket, “o lugar onde encalhou a primeira baleia americana morta”. Chegado a Nantucket, entra num baleeiro com decoração bizarra (“um navio canibal, ornado com os ossos dos inimigos que caçara”) chamado Pequod, nome de uma tribo extinta de índios do Massachusetts. Um velho marinheiro esfarrapado, Elias, tenta alertá-lo sobre o capitão do navio e demovê-lo de embarcar, num prenúncio sinistro do que viria a acontecer. A viagem começa no dia do Natal. O capitão Ahab, que de início não é visto no convés, só sai da sua cabine em alto-mar para explicar à tripulação o verdadeiro objetivo da viagem: caçar e abater Moby Dick, a baleia branca (do tipo cachalote, “o maior animal do globo; a mais formidável, para enfrentar, de todas as baleias”), que lhe arrancou uma perna. Sob o seu rígido comando, a missão comercial do Pequod é alterada tornando-se uma missão de vingança pessoal. Para Ahab, o monstro que destruiu o seu corpo não é uma criatura, mas sim o símbolo de algo desconhecido. Sem medo das catástrofes naturais, dos maus presságios ou mesmo da morte, Ahab impele o seu navio em direção ao perigo.

Se a caça à baleia é hoje condenada e proibida, o registo mais antigo desta prática está gravado no sul da Coreia, em pinturas rupestres, que datam de há cerca de 8000 anos. Da baleia, aproveitavam-se a carne, o marfim, os ossos (para a produção de farinhas), o óleo (para iluminação e como lubrificante), a gordura e a cartilagem (utilizados para fins farmacêuticos e como suplementos alimentares).


No início do século XIX, a extração do óleo de baleia era uma importante atividade económica. A caça à baleia tornou-se cada vez mais sofisticada com a introdução dos navios baleeiros e de armas de caça mais eficazes. A partir de meados do século XIX, ficou claro que a caça à baleia estava a processar-se a um ritmo que não era acompanhado pelo crescimento natural das populações das espécies caçadas.

A comunidade internacional entendeu por isso que era urgente regulamentar a atividade. A primeira tentativa surgiu em 1931, mas o processo foi interrompido devido à Segunda Guerra Mundial.

Em dezembro de 1946, foi assinada em Washington a Convenção Internacional para a Regulação da Atividade Baleeira, de que resultou a fundação da Comissão Baleeira Internacional (CBI), entidade que ficou responsável pela regulamentação da atividade, com o objetivo de garantir uma adequada conservação das populações de baleias, permitindo assim um desenvolvimento ordenado da indústria baleeira.

O documento foi assinado por 42 estados, mas só em 1986 a CBI decidiu proibir, sem termo definido e a todos os Estados participantes do acordo, a caça à baleia para fins comerciais. No entanto, os barcos nunca deixaram de fazer-se ao mar, sobretudo os japoneses, noruegueses e islandeses. São estes os três países que caçavam e continuam a caçar em grande escala. Segundo a WDC (Conservação para as baleias e golfinhos), todos os anos o Japão, Noruega e Islândia matam aproximadamente 1500 baleias.


O Japão decidiu abandonar a Comissão Baleeira Internacional e retomar a caça da baleia nas suas águas territoriais a partir de julho de 2019. Organizações ecologistas, como a Greenpeace, consideram "lamentável e perigosa" esta decisão do governo japonês e apelam aos países mais conservadores, como a Austrália, os Estados Unidos ou os membros da União Europeia, que denunciem ao Tribunal de Justiça Internacional estas práticas e, sobretudo, que vigiem as atividades pesqueiras japonesas.


Releituras de Moby Dick


Em 1989, o escritor chileno Luis Sepúlveda, recentemente falecido vítima de COVID-19 em 16 de abril de 2020, retoma a história de Moby Dick em Mundo do Fim do Mundo. Um adolescente, entusiasmado pela leitura do romance de Melville, aproveita as férias de verão para embarcar num baleeiro e conhecer, nos confins austrais do continente americano, as terras onde o mundo termina. Muitos anos depois, já adulto, jornalista e membro ativo dos movimentos ecologistas, o acaso fá-lo regressar a essas paragens distantes por uma razão completamente distinta mas talvez igualmente romântica: a fauna marítima que habita as águas gélidas e impolutas desse mundo do fim do mundo está a ser destruída pela ação criminosa dos navios piratas.


Luis Sepúlveda, que participou no movimento ecologista e, enquanto correspondente da Greenpeace, atravessou os mares do mundo, entre 1983 e 1988, retoma este tema na obra História de uma baleia branca, de 2019.

De uma concha apanhada por uma criança numa praia chilena, ao Sul do Mundo, uma voz se eleva, cheia de lembranças e sabedoria. É a voz da baleia branca, o mítico animal que durante décadas tem guardado as águas que separam a costa de uma ilha sagrada para os povos nativos daquele lugar, o Povo do Mar. O cachalote da cor da lua, a maior das criaturas do oceano, conheceu a imensa solidão e a imensa profundidade do abismo e dedicou a sua vida a cumprir fielmente a tarefa misteriosa que lhe foi confiada por um cachalote-ancião, resultado de um pacto há muito tempo estabelecido entre baleias e marinheiros. Para cumpri-lo, a grande baleia branca teve de proteger aquele mar de outros homens, estranhos, que com os seus navios ali chegavam para tirar tudo sem respeitar nada.

Foram sempre eles, os baleeiros, a contar a história da temida baleia branca, mas agora é chegado o momento de ouvirmos a sua voz na velha língua do mar.




quarta-feira, 1 de julho de 2020

Pablo Neruda - autor do mês de julho



De quanto deixei escrito nestas páginas se desprenderão sempre - como nos arvoredos do outono e como no tempo das videiras - as folhas amarelas que vão morrer e as uvas que reviverão no vinho sagrado. A minha vida é uma vida feita de todas as vidas: as vidas do poeta.
Pablo Neruda, Confesso que vivi

A 12 de julho de 1904, nascia em Parral, no Chile, Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto que se deu a conhecer ao mundo como Pablo Neruda. Recebeu o Prémio Nobel de Literatura em 1971 e é considerado um dos mais importantes poetas da língua castelhana do século XX. Além da escrita, seguiu também carreira diplomática, desempenhando o cargo de cônsul do Chile em vários países asiáticos, em Espanha, na Argentina e no México e de embaixador em França. Viveu durante uma época conturbada da história do seu país, do qual se ausentou com frequência, quer no desempenho das funções de cônsul e de embaixador, quer em consequência das suas ideias políticas (foi membro do Partido Comunista chileno), por causa das quais se viu por mais de uma vez forçado à clandestinidade e ao exílio. Pablo Neruda faleceu em Santiago, Chile, no dia 23 de setembro de 1973.

Começou a escrever aos 10 anos de idade, ainda estudante no Liceu de Temuco, cidade no sul do Chile. Publicou os seus primeiros poemas no periódico regional A Manhã. Quando tinha apenas 12 anos, conheceu a poetisa chilena Gabriela Mistral, que lhe deu a conhecer os escritores clássicos que iriam influenciar a sua carreira e as suas decisões políticas.
Em 1919, obteve o terceiro lugar nos Jogos Florais de Maule com o poema “Noturno Ideal”.
Aos 15 anos entrou no Instituto Pedagógico da Universidade de Santiago. Tornou-se militante anarquista e traduziu o trabalho de Jean Grave, um anarquista comunista.
A partir de 1920, começou a usar o nome Pablo Neruda, como uma forma de homenagem ao poeta, contista, dramaturgo e romancista checo Jan Neruda (Praga, 9 de julho de 1834 — Praga, 22 de agosto de 1891). Este nome literário seria utilizado durante toda a vida, adotando-o legalmente em 1946, após modificação do nome civil.
Em 1921, Neruda deixou Temuco e mudou-se para Santiago, a capital do país, para estudar pedagogia e francês na Universidade do Chile. Neste ano ganhou o prémio da federação chilena de estudantes de poesia com “La canción de la fiesta” e começou a publicar poemas na revista da federação, Claridad.
Em 1923, publicou o primeiro livro, Crepusculario, a que se seguiu, em 1924, aquele que lhe traria mais notoriedade, Vinte poemas de amor e uma canção desesperada.
Aos vinte anos e com dois livros publicados, Pablo Neruda tornou-se o poeta chileno mais conhecido. Abandonou os estudos de francês para se dedicar inteiramente à poesia.
Em 1927, foi nomeado cônsul em Rangoon, Birmânia (atualmente Myanmar), e durante cinco anos representou o Chile na Ásia. Viajou para o Sri Lanka, Singapura e Indonésia, onde casou com Maruca Reyes, de origem holandesa. Durante os anos em que viveu na Ásia escreveu Residência na terra.
Em 1933, foi nomeado cônsul em Buenos Aires, onde conheceu e se tornou amigo do poeta espanhol Federico García Lorca. No ano seguinte foi transferido para Barcelona e depois para Madrid onde voltou a casar, com Delia del Carril.
Escritor bem acolhido em Espanha, Neruda foi destituído do cargo consular quando, em 1936, eclodiu a Guerra Civil espanhola. A execução do seu amigo García Lorca, a prisão de Miguel Hernández e o sangue nas ruas contribuíram para a maturidade do poeta e para as suas atitudes políticas. Escreveu então Espanha no coração, publicado em 1937 nas linhas da frente republicanas. A guerra determinou uma mudança na atitude do poeta, que aderiu ao marxismo e decidiu consagrar a sua vida e obra à defesa dos ideais políticos e sociais inspirados no comunismo.
Pablo Neruda regressou ao Chile em 1938, com um grupo de refugiados espanhóis, após o que o governo o enviou para o México, onde conheceu o poeta mexicano Octavio Paz e produziu intensamente textos poéticos.
Em 1939, foi nomeado cônsul especial para a imigração espanhola, na cidade de Paris, pelo próprio presidente chileno Aguirre Cerda. Nesse período, foi responsável pelo projeto Winnipeg, que encaminhou dois mil imigrantes espanhóis de França para o Chile.

Quando em 1943 regressou ao Chile, recebeu uma grande ovação dos seus conterrâneos. Casou-se segunda vez com a artista argentina Delia de Carril, ou la Hormiguita, num matrimónio declarado ilegal pela justiça do país, por não considerar lícito o seu primeiro divórcio.
Em 1945, atingiria o pináculo da literatura nacional, ao receber o Premio Nacional de Literatura, e foi eleito senador pelo Partido Comunista; nos três anos seguintes consagrou a maior parte do seu tempo aos problemas do país.
A atividade política de Neruda foi interrompida quando foi eleito o governo de Gabriel Gonzálvez Videla que, em 1948, decretou a ilegalidade do Partido Comunista.
Pablo Neruda foi então forçado a viver na clandestinidade, durante anos que foram, no entanto, proveitosos do ponto de vista da obra literária, redigindo 250 poemas, organizados por quinze ciclos literários.
Ainda em fevereiro de 1948, deixou o Chile, atravessando a zona sul das montanhas dos Andes a cavalo. Em junho de 1949 visitou a União Soviética para participar na celebração dos 150 anos de Aleksandr Pushkin. Visitou depois outros países da Europa e o México.
No exílio escreveu Canto Geral, publicado apenas em 1950, um dos grandes poemas épicos escritos no continente americano, impregnado de intenção social, ética e política.
Regressou ao Chile em 1952, quando o governo chileno restabeleceu as liberdades políticas, casando-se pela terceira vez com a chilena Matilde Urrutia, a quem dedica Os Versos do Capitão, publicados no mesmo ano (apenas em 1966, após a morte da primeira mulher, Maruca, o casamento com Matilde seria oficializado, numa sessão privada na sua residência na Isla Negra).
Em 1953, recebeu o Prémio Lenine da Paz.
Em 1954, publicou As uvas e o vento e Odes Elementares.
Em 1965, recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Oxford, Grã-Bretanha.
Em 1970, Salvador Allende é eleito Presidente da República do Chile, como candidato da coligação de esquerda Unidade Popular, que integrava comunistas, socialistas, radicais e outras correntes populares.


(Salvador Allende)

Em outubro de 1971, quando desempenhava funções de embaixador do Chile em Paris, Pablo Neruda recebeu o Prémio Nobel de Literatura.
Após o prémio, foi homenageado por Salvador Allende que o convida para ler para mais de 70 mil pessoas no Estádio Nacional de Chile, em Santiago.
Em 1972, já doente, deixa a embaixada chilena em França e regressa a Santiago.
Em 11 de setembro de 1973, tropas lideradas pelo general Augusto Pinochet tomaram controle de todo o país e cercaram o palácio presidencial de La Moneda. O golpe militar derruba o presidente Salvador Allende e instala a ditadura militar no Chile. Allende fez ainda um discurso, transmitido pelas rádios fiéis ao governo, informando que não renunciaria. Morre no mesmo dia, em circunstâncias nunca completamente determinadas. Há duas versões sobre a morte de Allende: a mais difundida é que ele se suicidara no Palácio de La Moneda, cercado por tropas do exército, com uma AK-47, arma que lhe fora dada por Fidel Castro; a outra versão defende que foi assassinado pelas tropas de Pinochet. A escritora Isabel Allende, sua sobrinha, acredita que o seu tio foi assassinado. A filha do ex-presidente, a deputada Isabel Allende, declarou que a versão do suicídio era a correta. Em 2011, na sequência de um pedido feito em representação dos familiares pela sua filha Isabel, para determinar com "certeza jurídica as causas da morte", os restos mortais do ex-presidente do Chile foram exumados. A perícia então realizada confirmou que a sua morte fora ocasionada "por ferimento de projétil" e que a "forma corresponde a suicídio".

Doze dias após o golpe militar e a morte de Allende, a 23 de setembro de 1973, morre Pablo Neruda. A realidade social turbulenta após o golpe militar de 11 de setembro parece agravar o estado de saúde do poeta. De acordo com a sua sobrinha Isabel Allende, no seu livro Paula, Neruda teria morrido de "tristeza", ao ver dissolvido o governo de Allende. Outros defenderão a tese de assassinato político a mando de Pinochet. A versão do regime é a de que morreu devido a um cancro na próstata, o que viria a ser confirmado em 2013, após um juiz chileno ter ordenado a exumação do corpo do poeta, no âmbito de uma investigação sobre as circunstâncias da morte do poeta.
Depois do golpe de Estado, "La Chascona", a casa de Neruda e Matilde em Santiago (construída em 1953, uma das suas três casas no Chile – sendo as outras a "Casa de Isla Negra", na localidade de El Quisco, e "La Sebastiana", em Valparaíso), seria vandalizada e saqueada e os seus livros queimados por forças associadas ao general Augusto Pinochet.
Encontra-se sepultado no jardim da sua propriedade em Isla Negra, na localidade de El Quisco, próximo de Santiago, no Chile, ao lado de Matilde Urrutia.
Em 1974, foram publicadas as suas memórias a título póstumo, na obra Confesso que vivi.


Em 1985, o escritor chileno Antonio Skármeta homenageou o amigo Pablo Neruda com o romance Ardiente Paciencia, que em Portugal recebeu o título de O Carteiro de Pablo Neruda e que, em 1994, seria adaptado ao cinema pelo realizador Michael Radford.


Por ocasião das comemorações do centenário do nascimento de Pablo Neruda, em 2004, Antonio Skármeta publica Neruda por Skármeta, obra que se apresenta, mais uma vez, como uma homenagem ao poeta de quem teve o privilégio de ser amigo, apresentando igualmente uma antologia pessoal e sentimental de alguns dos seus poemas.
Em 2004, também por ocasião das comemorações do centenário do seu nascimento, foi instituído o Prémio Iberoamericano de Poesia Pablo Neruda.
Em 2016, o realizador chileno Pablo Larraín dirigiu o filme Neruda, que aborda aspetos da vida de Neruda no final da década de 1940, com foco na perseguição anticomunista.


Bibliografia consultada:



Pablo Neruda. In Infopédia. Porto: Porto Editora, 2003-2011.



Obras de Pablo Neruda na Biblioteca do ECB:









domingo, 7 de junho de 2020

Dia Mundial do Ambiente - contributos do 8º C


Para assinalar o Dia Mundial do Ambiente, os alunos do 8ºC convidam-nos à reflexão sobre o nosso papel na preservação e conservação de um ambiente que se quer limpo, saudável e respeitado, através de uma série de cartazes que produziram na disciplina de Geografia.





sexta-feira, 5 de junho de 2020

Cidadania e Sustentabilidade - Roupa em segunda mão




No âmbito da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, as alunas Ana Leonor, Madalena Costa e Mariana Pina, do 10º D, explicam-nos por que razão a utilização de roupa em segunda mão é uma ótima opção para a sustentabilidade e a preservação do ambiente.