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quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Olga Tokarczuk e Peter Handke: Prémio Nobel da Literatura 2018 e 2019



Depois de em 2018 a Academia Sueca ter decidido não atribuir o Prémio Nobel da Literatura, foram hoje divulgados os nomes dos dois galardoados referentes a 2018 e 2019: a escritora polaca Olga Tokarczuk e o escritor, dramaturgo e argumentista austríaco Peter Handke são os novos Nobel da Literatura, respetivamente de 2018 e 2019, contrariando algumas expectativas, criadas pelo próprio presidente do Comité Nobel, Anders Olsson, que assumira o desejo da Academia de tornar o prémio menos “eurocêntrico”. “Paritário mas eurocêntrico”, eis como esta notícia tem sido comentada.

Olga Tokarczuk, escritora e ativista polaca, nasceu a 29 de janeiro de 1962, em Sulechów, Polónia, e é a 15.ª mulher a receber este prémio. Peter Handke, autor de teatro, romances, poesia, argumentista e realizador de cinema, nasceu a 6 de dezembro de 1942, em Griffen, Áustria.
Henrik Petersen, editor, tradutor e crítico literário, um dos cinco especialistas exteriores à Academia Sueca convidados para colaborar com os académicos que integram o Comité Nobel e porta-voz destes jurados externos, salientou a “imaginação narrativa” da obra de Olga Tokarczuk, que, “com paixão enciclopédica, representa a travessia de fronteiras como uma forma de vida”, e “o influente trabalho” de Peter Handke, que “explorou, com criatividade linguística, a periferia e a especificidade da experiência humana”.

Tanto Olga Tokarczuk como Peter Handke são figuras que têm protagonizado alguma controvérsia, quer nos respetivos países, quer na comunidade internacional.
Olga Tokarczuk, opositora da atuação do partido no poder e estudiosa da História da Polónia, tem atacado o nacionalismo polaco de extrema-direita, a sua deriva nacionalista e xenófoba, patente, por exemplo, na agitação constante do fantasma de uma invasão islâmica ou na tentativa de reescrever a História em relação aos campos de concentração nazis instalados em território polaco.


Quanto a Peter Handke, tornou-se uma figura bastante polémica nas últimas décadas, pelas suas críticas à intervenção da NATO na Guerra do Kosovo e pelo seu apoio ao dirigente sérvio Slobodan Milošević, acusado pelo Tribunal Penal Internacional de Crimes Contra a Humanidade.


O vencedor do Nobel da Literatura de 2019, Peter Handke, tem uma obra mais difundida em Portugal, onde estão publicados volumes como A Angústia do Guarda-redes antes do Penalti, A Hora da Sensação Verdadeira, Para uma Abordagem da Fadiga, A Mulher Canhota ou Uma Breve Carta para Um Longo Adeus. Colaborador de longa data de Wim Wenders, são seus os argumentos de várias longas-metragens do cineasta alemão, incluindo A Angústia do Guarda-redes antes do Penalti (1972) e As Asas do Desejo (1987).

De Olga Tokarczuk, apenas as obras Conduz o Teu Arado sobre os Ossos dos Mortos e Viagens (que em 2018 ganhou o Prémio Internacional Man Booker) estão editadas em Portugal.


terça-feira, 8 de outubro de 2019

Livros novos de António Lobo Antunes, na Biblioteca do ECB


A Outra Margem do Mar, de setembro de 2019

Neste livro, António Lobo Antunes recupera o início da sublevação na Baixa do Cassanje, em Angola, com os incidentes ocorridos antes da guerra colonial, quando grandes plantações de algodão começaram a ser incendiadas, acontecimentos que foram fulcrais para o desenrolar do conflito.




A Última Porta Antes da Noite, de setembro de 2018


O título é uma referência à ópera "O Castelo do barba Azul", de Bela Bartók, e ao mistério das sete portas no seu salão que o revelam... Neste livro, Lobo Antunes "abre as portas" da mente de 5 personagens que planeiam e executam um crime real ainda a ser decidido nos tribunais. Um empresário do norte é morto e dissolvido em 500 litros de ácido sulfúrico. Em 25 capítulos (25 anos de pena possível), o autor leva-nos numa viagem ao subconsciente das 5 personagens, acedendo às suas memórias e traumas de infância, traçando os seus perfis: seguros, perturbados e intranquilos e desvendando a ação.




A nossa casa está a arder, o livro de Greta Thunberg



«…ninguém é demasiado pequeno para fazer a diferença.»

Chama-se Greta Thunberg, tem 16 anos e quer que entremos em pânico.
Greta Thunberg nasceu em Estocolmo, a 3 de janeiro de 2003, foi diagnosticada com síndrome de Asperger, TDAH, transtorno obsessivo-compulsivo e mutismo seletivo e é mundialmente conhecida como a ativista ambiental sueca que, em agosto de 1918, começou a faltar às aulas às sextas feira para se sentar à frente do parlamento sueco como forma de protesto contra as alterações climáticas provocadas pela ação do homem, exigindo dos políticos suecos mais ações para as mitigar. Desde então, inspirando jovens de todo o mundo, tornou-se líder do movimento global "Skolstrejk för klimatet" (“Greve da escola pelo Clima”).

A Nossa Casa Está a Arder é a história de Greta, dos seus pais e da sua irmã Beata, que, como ela, sofre de perturbações do espetro do autismo. É o relato de como uma família sueca decidiu confrontar-se com uma crise iminente que afeta o nosso planeta.

É uma tomada de consciência de que é urgente agir agora, é um grito de socorro de uma rapariga que convenceu a própria família a mudar de vida e que procura convencer o mundo inteiro a fazer o mesmo.

Veja aqui o emocionante discurso de Greta Thunberg na Cimeira do Clima, promovido pela Organização das Nações Unidas em setembro de 2019.


terça-feira, 1 de outubro de 2019

Dia Mundial da Música


A 1 de outubro celebra-se o Dia Mundial da Música. Em 1975, o International Music Council, organização não governamental fundada com o apoio da UNESCO em 1948 e que integra a maior rede mundial de instituições e organizações que trabalham na área da música, instituiu este dia com o objetivo de levar a música a todos os setores da sociedade, divulgar a diversidade musical e, através da música, promover os valores da paz e da amizade.
Este ano, a Biblioteca do ECB comemora o Dia Mundial da Música apresentando uma exposição sobre a evolução das técnicas e dos instrumentos de reprodução musical.
Que músicas ouvimos? Como as ouvimos?
Desde o fonógrafo, criado em 1877 por Thomas Edison, ao Streaming, uma forma de distribuição digital, frequentemente utilizada para partilhar conteúdos de multimédia através da Internet, passando pelos discos em vinil, pelas cassetes, os CD ou o MP3, várias são as formas como, ao longo da história, cada um de nós acede a conteúdos musicais.





Fonógrafo

O fonógrafo foi inventado em 1877 por Thomas Edison para a gravação e reprodução de sons através de um cilindro, sendo o primeiro aparelho capaz de gravar e reproduzir os sons que gravava, abrindo possibilidade à utilização comercial do som.


Thomas Edison e o fonógrafo




Gramofone

Em 1888, o alemão Emil Berliner inventou o gramofone, aparelho que servia para reproduzir sons gravados utilizando um disco plano, o disco de 78 rotações, em contraste com o cilindro do fonógrafo de Thomas Edison. Emil Berliner foi também o fundador da Deutsche Grammophon, uma importante gravadora de música clássica, com sede em Hanover, Alemanha, a mais antiga gravadora do mundo ainda em atividade.

O disco de 78 rotações, inventado por Emil Berliner juntamente com o gramofone, em 1888, é o nome utilizado para as chapas de goma-laca - geralmente de cor negra e com um rótulo no centro chamado selo fonográfico - fabricadas de diversos modos e empregando diversos materiais, que foram utilizadas para o armazenamento de áudio entre 1895 e meados da década de 1970, mas que foram lentamente caindo em desuso a partir do advento do disco de vinil, em 1948.


Emil Berliner e o gramofone


Vinil

O disco de vinil, conhecido simplesmente como vinil ou ainda Long Play (LP), é desenvolvido no final da década de 1940 para a reprodução musical, que usa um material plástico chamado vinil (normalmente feito de PVC, de cor preta), que registra informações de áudio que podem ser reproduzidas através de um toca-discos.

O disco de vinil surgiu no ano de 1948, tornando obsoletos os antigos discos de goma-laca de 78 rotações - RPM (rotações por minuto) - que até então eram utilizados. Os discos de vinil são mais leves, maleáveis e resistentes a choques, quedas e manuseio (que deve ser feito sempre pelas bordas), e são melhores, sobretudo, por possibilitarem a reprodução de um número maior de músicas - diferentemente dos discos antigos de 78 RPM que apenas reproduziam uma canção por face do disco - e ainda pela sua excelência na qualidade sonora, além, também, do atrativo artístico das capas nos discos.


Cassete

A fita cassete ou compact cassette é uma fita magnética inventada em 1963pela empresa holandesa Philips, para gravação de áudio, começando a sua produção em massa em 1964, em Hanover, na Alemanha. Juntamente com os discos de vinil, as cassetes tornaram-se um dos formatos mais comuns para reproduzir música pré-gravada.
O mercado de cassetes entrou em sério declínio no final da década de 1980, com o advento do CD.


CD

Em meados dos anos 70 do século XX, a empresa holandesa Philips, produtora de artigos tecnológicos, e a sua congénere japonesa Sony criaram uma força conjunta de engenheiros, para desenvolver um novo disco digital de áudio. Em 8 de março de 1979, a Philips anunciou publicamente numa conferência de imprensa a criação de um protótipo de CD, um disco ótico digital de armazenamento de dados de áudio, um disco compacto, a laser (popularmente conhecido por CD, sigla para a designação inglesa, Compact Disc).
O lançamento dos CD começou em outubro de 1982, aparecendo primeiro no Japão e na Europa e, em fevereiro de 1983, na América do Norte.
O formato foi originalmente desenvolvido com o propósito de armazenar e tocar apenas músicas, mas posteriormente foi adaptado para o armazenamento de dados, surgindo o CD-ROM.


Walkman

Em 1979, a multinacional japonesa Sony criou o Walkman TPS-L2, um leitor de cassetes áudio portátil. Com o Walkman, costuma-se dizer que mudaram os hábitos musicais, uma vez que cada pessoa pode carregar e ouvir os seus sons preferidos, onde quiser e sem incomodar outras pessoas.


Sony Walkman TPS-L2 (1979)

Discman

Em 1984, a Sony lançou o primeiro Walkman adaptado a CD, o D-50, oficialmente chamado Discman. Posteriormente, chegaria a vez da entrada da sua antiga parceira Philips, em 1986, com o CD-10.
Atualmente perdeu muito de seu espaço para os aparelhos de MP3 (aparelhos portáteis bem menores que armazenam músicas em chips ou na própria memória), tendo sido tecnologicamente superado por estes.


Sony Discman D-50 (1984)


MP3

O MP3 (MPEG-1/2 Audio Layer 3) foi um dos primeiros tipos de compressão de áudio com perdas quase impercetíveis ao ouvido humano. Em 1998, a empresa sul-coreana Saehan inventou o leitor MPMan, um aparelho eletrónico capaz de armazenar e reproduzir arquivos de áudio do tipo MP3. Daí surgiram diversas marcas de leitores MP3 coreanas como a iRiver, a Samsung, a Cowon, ou a LG. Em 1999, a Samsung lançava na Coreia do Sul o primeiro telemóvel que reproduzia MP3.
Muitas vezes um leitor MP3 funciona também como um dispositivo móvel de armazenamento de dados e geralmente são facilmente conectados a um computador através de uma porta USB.


Streaming
O Streaming é uma forma de distribuição digital, em oposição à descarga de dados. A difusão de dados, geralmente em rede através de pacotes, é frequentemente utilizada para distribuir conteúdo multimédia através da Internet. As informações não são armazenadas pelo utilizador no seu próprio computador, não ocupando por isso espaço no disco rígido, para posterior reprodução — a não ser o arquivo temporário na memória cache do sistema ou se se fizer a gravação dos dados.
O Streaming permite a reprodução de conteúdos protegidos por direitos de autor, na Internet, sem a violação desses direitos, similar ao rádio ou televisão aberta, ao contrário do que ocorreria no caso de download do conteúdo, onde há o armazenamento no disco rígido, configurando-se uma cópia ilegal. A informação pode ser transmitida em diversas plataformas, como na forma Multicast IP ou Broadcast. Exemplos de serviços como este são a Netflix e Hulu (video) e o Spotify e o Google Play Música (música).



iPod

iPod é uma marca registada da Apple Inc., foi lançado em outubro de 2001 e refere-se a uma série de reprodutores de conteúdos multimédia portáteis, projetados e vendidos pela Apple. O iPod pode servir também como um armazenador de dados quando ligado a um computador.
Desde 2008, a linha de iPods inclui o iPod classic, o iPod shuffle, o iPod nano e o iPod touch.

iPod classic

A Apple anunciou o iPod Shuffle na Macworld Expo em 11 de janeiro de 2005 com a frase "A vida é aleatória" (Life is random) e "Dê uma chance ao acaso" (Give chance a chance). O iPod shuffle introduziu a memória flash (em vez de um disco rígido) para os iPods.


iPod Shuffle

A 7 de Setembro de 2005, a Apple anunciou o iPod nano. Baseado igualmente em memória flash, em vez de disco rígido, o iPod nano mede apenas 9,0 x 4,0 x 0,69 cm e pesa 42 g, é 62% menor em volume que o seu predecessor, o iPod mini, e possui um ecrã de LCD capaz de exibir 65 536 cores, conseguindo mostrar fotografias, e liga-se ao computador via USB 2.0.


iPod nano

No dia 5 de setembro de 2007, foi lançada uma nova família iPod, apelidada de touch (do substantivo toque, em português) devido ao seu ecrã sensível ao toque. O iPod Touch tem um estilo parecido com o iPhone, o smartphone da Apple Inc.. Tem acesso à internet através de Wi-Fi, tem navegação por mapas, é possível baixar aplicações na App Store, e na sua quarta geração apresenta uma câmara capaz de tirar fotos e filmar em HD. Em suma, tem as mesmas funções de um iPhone, com exceção do telefone e GPS, mas com um serviço de localização via Wi-Fi.

iPod Touch


Italo Calvino - autor do mês de outubro


Italo Calvino, considerado um dos mais importantes escritores italianos do século XX, nasceu em Santiago de las Vegas, na ilha de Cuba, no dia 15 de outubro de 1923, quando os seus pais, cientistas italianos, estavam de passagem pelo país, e morreu a 19 de Setembro de 1985, em Siena, vítima de uma hemorragia cerebral.
Iniciou os estudos superiores de Agronomia, curso que abandonou em 1940 quando, recrutado para a Juventude Fascista, desertou, refugiando-se nas montanhas da Ligúria, onde se juntou à Resistência Comunista.
Em 1941, ingressou no curso de Literatura da Universidade Turim, licenciando-se em 1947, após a guerra.
Nesse mesmo ano, publicou o seu primeiro romance, Il sentiero dei nidi di ragno (O atalho dos ninhos de aranha, na tradução portuguesa). A obra remetia para as suas experiências enquanto membro da resistência italiana e foi bem acolhida pela crítica.
Entretanto, em 1945, Italo Calvino começou a colaborar com a imprensa italiana, no jornal comunista “L'Unittá”, prosseguindo em títulos como “Il Garibaldino, voce della Democracia” e “La Republica”.
Em 1949 publicou uma coletânea de contos, também dedicados à problemática de guerra, que haviam já aparecido em publicações periódicas.
Após a publicação de Il visconte dimezzato (O visconde cortado ao meio), em 1952, Calvino abandonou o tema da guerra, preferindo o absurdo e o fantástico ao neo-realismo que marcou os seus primeiros trabalhos. A obra, que inaugurava uma trilogia também composta pelos volumes Il barone rampante (O barão trepador, publicado em 1957) e Il cavaliere inesistente (O cavaleiro inexistente, de 1959), e que causou fortes polémicas no seio do Partido Comunista Italiano (do qual que fora membro até 1956), contava a história de um homem mutilado por uma bala de canhão durante a tomada de Constantinopla.
Em 1959, viajou pelos Estados Unidos da América. De regresso, começou a editar a revista “Il Menabó Di Letteratura”, em colaboração com Elio Vittorini. Mantendo sempre um olhar crítico sobre a sociedade, entrelaçada na consciência individual e na inércia dos eventos históricos, publicou Marcovaldo (1963), uma coletânea de fábulas em que criticava o modo de vida das cidades, considerado destrutivo e vazio: Marcovaldo, um homem de família, sonhador, permanece na sua cidade durante o mês de Agosto, quando todos os outros habitantes partiram para férias, e vê o seu descanso ser interrompido por uma equipa de televisão que o quer entrevistar, precisamente por ter sido o único a renunciar às estâncias balneares.

Em 1972, publicou Le Cittá Invisibli (As cidades invisíveis), romance em que o lendário explorador Marco Polo se dedicava a contar histórias de cidades fictícias para divertimento de Kublai Khan, o imperador dos Tártaros, e que valeu a Calvino o Prémio Felrinelli.



As cidades invisíveis
Em As Cidades Invisíveis, Italo Calvino imagina um diálogo fantástico entre Marco Polo, o maior viajante de todos os tempos, e Kublai Khan, em cuja corte o mercador veneziano terá desempenhado funções diplomáticas. Porque Kublai Khan não pode ver com os seus próprios olhos toda a extensão do seu império, Marco Polo será a sua visão, descrevendo-lhe minuciosamente 55 cidades (imaginárias) por onde teria passado, agrupadas em temas como “as cidades e a memória”, “as cidades e o céu”, “as cidades e os mortos”, “as cidades e o desejo” e todas com nome de mulher (Procópia, Ersília, Olinda, Sofrónia, Tecla, Trude, …).

«As Cidades Invisíveis apresenta-se como uma série de relatos de viagem que Marco Polo faz a Kublai Kan, imperador dos tártaros. [...] A este imperador melancólico, que percebeu que o seu poder ilimitado conta pouco num mundo que caminha em direção à ruína, um viajante visionário fala de cidades impossíveis, por exemplo, uma cidade microscópica que se expande, se expande até que termina formada por muitas cidades concêntricas em expansão, uma cidade teia de aranha suspensa sobre um abismo, ou uma cidade bidimensional como Moriana. [...] Creio que o livro não evoca apenas uma ideia atemporal de cidade, mas que desenvolve, ora implícita ora explicitamente, uma discussão sobre a cidade moderna. [...] Penso ter escrito algo como um último poema de amor às cidades, quando é cada vez mais difícil vivê-las como cidades.»

(Italo Calvino)

A sua obra mais conhecida, Se una notte d'inverno un viaggiatore (Se numa Noite de Inverno um Viajante), é publicada em 1979, após sete anos de silêncio.


Se numa Noite de Inverno um Viajante

Um romance que combina uma história de amor, uma história policial e uma análise sarcástica da indústria editorial numa brilhante alegoria da leitura. Com base numa analogia espirituosa entre o desejo do leitor de terminar de ler o romance e o desejo do amante de consumar a sua paixão, Se numa Noite de Inverno Um Viajante é a história de dois leitores confusos cujas tentativas de chegar ao fim do mesmo livro – o próprio Se numa Noite de Inverno Um Viajante de Italo Calvino – são constante e comicamente frustradas.
Este é por isso uma meditação ficcional sobre a natureza da própria ficção, um verdadeiro desafio para o leitor, desafiado a pensar a literatura com a própria literatura, bem como a envolver-se com outros personagens que fazem parte do universo literário, tais como o tradutor, o agente literário, o editor, o crítico literário ou o próprio autor.
Se numa Noite de Inverno Um Viajante é um romance sobre o prazer de ler romances, em que o protagonista é o Leitor, que dez vezes começa a ler um livro que, devido a vicissitudes estranhas à sua vontade, não consegue acabar. Temos assim o início de dez romances de autores imaginários, todos eles muito diferentes entre si. Subitamente a história interrompe-se, passando a ser a do Leitor ao ser confrontado com os sedutores mecanismos de expectativa que o autor prepara sempre com mestria e que depois perfidamente se recusa a satisfazer.

“Estás para começar a ler Se numa Noite de Inverno um Viajante de Italo Calvino. Descontrai-te. Recolhe-te. Afasta de ti todos os outros pensamentos. Deixa esfumar-se no indistinto o mundo que te rodeia. A porta é melhor fechá-la; lá dentro a televisão está sempre acesa. Diz aos outros: «Não, não quero ver televisão!». Levanta a voz, senão não te ouvem: «Estou a ler! Não quero que me incomodem!». Não devem ter-te ouvido, com aquele barulho todo; fala mais alto, grita: «Estou a começar a ler o novo romance de Italo Calvino!». Ou se não quiseres não digas nada; esperemos que te deixem em paz.”
(do primeiro parágrafo do livro)

“Pois bem, viste num jornal que saiu Se numa noite de Inverno um Viajante, um novo livro de Italo Calvino, que já não publicava nada há vários anos. Passaste pela livraria e compraste o volume. Fizeste bem”.
(pág. 8)

Em 1983, Italo Calvino publica o seu último romance, Palomar.


Palomar
Em Palomar (1983), Italo Calvino descreve as contemplações filosóficas de um homem aparentemente simples, o Senhor Palomar. Palomar é também o nome de um observatório astronómico localizado em San Diego, Califórnia, que durante muito tempo albergou o maior telescópio do mundo. Por intencional ironia, o senhor Palomar é todo olhos, mas funciona quase sempre como se fosse um telescópio ao contrário, voltado não para a amplidão do espaço, mas para as coisas próximas do quotidiano. Palomar é um livro sobre as observações minuciosas e os pensamentos que elas despertam, básicos, engraçados, estranhos, profundos, no senhor Palomar. A praia, o mar, o céu noturno, a cidade, um prado, répteis, girafas, queijos, pantufas ou morder a língua três vezes são algumas das coisas sobre as quais o senhor Palomar divaga, observa, seguindo um plano delineado ou deixando-se levar pelos pensamentos.
Neste romance, fazendo uma sábia mistura de descrição, narração e reflexão, Calvino revela a mesma inquietude de outras obras, sem esquecer aquela pitada de humor refinado que contribui para a leveza de seus textos.

“O senhor Palomar encontra-se na praia, de pé, e observa uma onda. Não se pode dizer que esteja absorto na contemplação das ondas. Não está absorto, porque sabe bem aquilo que faz: pretende observar uma onda e a observa. Não está contemplando, porque para a contemplação é necessário um temperamento adequado, um estado de espírito adequado e um conjunto de circunstâncias externas adequadas: e apesar do senhor Palomar não ter qualquer questão de princípio contra a contemplação, nenhuma destas três condições se verifica no seu caso. Finalmente, não são “as ondas” que ele pretende observar, mas uma única onda e basta: querendo evitar as sensações vagas, estabelece para cada um dos seus atos um objetivo limitado e bem definido.”

(p. 11)

Obras de Italo Calvino

(*) presentes no catálogo da Biblioteca do ECB

O atalho dos ninhos de aranha, 1947
O visconde cortado ao meio, 1952 (*)
Perde quem fica zangado primeiro, 1954
Fábulas e contos, 1956
O barão trepador, 1957 (*)
A especulação imobiliária, 1958
O cavaleiro inexistente, 1959
Um otimista na América, 1960
O dia de um escrutinador, 1963
Os oportunistas, 1963
Marcovaldo, 1963
A vida difícil, 1963
Os idílios difíceis, 1964
Cosmicómicas, 1965
A nuvem de smog e a formiga argentina, 1965
A memória do mundo, 1968
O castelo dos destinos cruzados, 1969 (*)
Os Amores Difíceis, 1970
As cidades invisíveis, 1972 (*)
Se numa noite de inverno um viajante, 1979 (*)
Ponto final, 1980
Um mistério no labirinto, 1981
Palomar, 1983 (*)
Novas cosmicómicas, 1984
Sob o sol jaguar, 1986 (edição póstuma)
Seis propostas para o próximo milénio, 1988 (edição póstuma)
Sobre o conto de fadas, 1988 (edição póstuma)
O caminho de San Giovanni, 1990 (edição póstuma)
Porquê ler os clássicos, 1991 (edição póstuma)
Um eremita em Paris, 1994 (edição póstuma)

As Cidades Invisíveis - uma exposição na Biblioteca do ECB

No ano letivo de 2016/2017, a partir da leitura de excertos da obra de Calvino, os alunos do 11º ano do curso de Artes Visuais imaginaram algumas dessas cidades, criando uma técnica mista de representação através da manipulação de mais do que um material.
O resultado do seu trabalho esteve patente numa Exposição no átrio da Biblioteca do ECB.










domingo, 1 de setembro de 2019

António Lobo Antunes - autor do mês de setembro



É muito curioso como em todas as coisas há vida. Esta oferece, constantemente, materiais maravilhosos que na maior parte das vezes um escritor não utiliza. Isso acontece porque todos nos esquecemos de olhar. Escrever é não se esquecer de olhar.

Jornal Público, 28 Novembro 2018

António Lobo Antunes nasceu em Lisboa, na freguesia de Benfica, a 1 de Setembro de 1942. Estudou no Liceu Camões, em Lisboa, e licenciou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.
Destacado como médico militar durante a guerra colonial entre 1971 e 1973 no leste de Angola, a experiência como alferes miliciano está bem patente na sua obra, sendo um tema central de alguns dos seus livros. Por exemplo, as cartas que então trocou com a sua primeira mulher Maria José Lobo Antunes, quando esta se encontrava grávida da sua primeira filha, foram posteriormente reunidas pelas suas filhas Maria José Lobo Antunes e Joana Lobo Antunes no livro D'este viver aqui neste papel descripto, que veio a originar um filme (“Cartas da Guerra”) realizado por Ivo Ferreira.
Após regressar a Portugal, em 1973, António Lobo Antunes especializou-se em psiquiatria, tendo exercido a especialidade durante alguns anos no Hospital Miguel Bombarda, até a abandonar por completo em favor da literatura.
Em 1979, publicou os seus primeiros livros, Memória de Elefante e Os Cus de Judas, a que se seguiram, em 1980, Conhecimento do Inferno. Estes primeiros livros transformaram-no imediatamente num dos autores contemporâneos mais lidos e discutidos nacional e internacionalmente. Desde então, publicou mais de 30 romances e cinco volumes que reúnem as suas crónicas publicadas semanalmente na revista Visão.
Considerado por alguns críticos e pelo (seu) público “eterno candidato” ao Prémio Nobel da Literatura (ao ponto de ser ter tecido uma lendária disputa literária com José Saramago), toda a obra de António Lobo Antunes tem sido, ao longo dos anos, objeto dos mais diversos estudos, académicos ou não, e dos mais importantes prémios, nacionais e internacionais, entre os quais se contam o Prémio Ovidio da União dos Escritores Romenos, em 2003; o Prémio Jerusalém, em 2005; o Prémio Camões, em 2007, o prémio de maior prestígio da literatura em português; e o Prémio Juan Rulfo, em 2008.
A obra de António Lobo Antunes encontra-se traduzida em inúmeros países e recentemente foi anunciada a sua publicação na Pléiade, uma prestigiada coleção francesa pertencente à editora Gallimard.
Está anunciada, anda durante este mês de setembro de 2019, a publicação de um novo livro do qual, além do título, A Outra Margem do Mar, pouco mais se sabe. Também em setembro a editora Dom Quixote lançará edições comemorativas das obras Memórias de Elefante e Os Cus de Judas assinalando os 40 anos do início da carreira literária de António Lobo Antunes.

”O que eu gostava de poder encher os livros de silêncio, e tender cada vez mais para o silêncio, e que as palavras estivessem carregadas de silêncio de maneira a que o leitor as pudesse encher como quisesse.“

Obra literária
(*) – no catálogo da Biblioteca do ECB

Memória de Elefante (1979) (*)
Os Cus de Judas (1979) (*)
Conhecimento do Inferno (1980) (*)
Explicação dos Pássaros (1981) (*)
Fado Alexandrino (1983) (*)
Auto dos Danados (1985) (*)
As Naus (1988) (*)
Tratado das Paixões da Alma (1990) (*)
A Ordem Natural das Coisas (1992) (*)
A Morte de Carlos Gardel (1994) (*)
A História do Hidroavião (com ilustrações de Vitorino) (1994)
Manual dos Inquisidores (1996) (*)
O Esplendor de Portugal (1997) (*)
Livro de Crónicas (1998)
Exortação aos Crocodilos (1999) (*)
Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura (2000) (*)
Que farei quando tudo arde? (2001) (*)
Segundo Livro de Crónicas (2002) (*)
Letrinhas das Cantigas (edição limitada) (2002)
Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo (2003) (*)
Eu Hei-de Amar Uma Pedra (2004) (*)
D'este viver aqui neste papel descripto: cartas da guerra ("Cartas da Guerra") (2005) (*)
Terceiro Livro de Crónicas (2006) (*)
Ontem Não Te Vi Em Babilónia (2006) (*)
O Meu Nome é Legião (2007) (*)
O Arquipélago da Insónia, (2008)
Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar? (2009) (*)
Sôbolos Rios Que Vão (2010)
Quarto Livro de Crónicas (2011)
Comissão das Lágrimas (2011)
Não É Meia Noite Quem Quer (2012)
Quinto Livro de Crónicas (2013)
Caminho Como Uma Casa Em Chamas (2014)
Da Natureza dos Deuses (2015)
Para Aquela que Está Sentada no Escuro à Minha Espera (2016)
Até Que as Pedras Se Tornem Mais Leves Que a Água (2017)
A Última Porta antes da Noite (2018)
A outra margem do mar (2019) (*)
Diccionário da linguagem das flores (2020) (*)

Prémios literários
Prémio Franco-Português, (1987) por Cus de Judas (Prémio instituído pela embaixada de França em Lisboa e atribuído a obras traduzidas para a língua francesa nos últimos cinco anos.)
Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, (1985) por Auto dos Danados
Prémio Melhor Livro Estrangeiro publicado em França, (1997) por Manual dos Inquisidores
Prémio Tradução Portugal/Frankfurt, (1997) por Manual dos Inquisidores
France-Culture por A Morte de Carlos Gardel
Prémio de Literatura Europeia do Estado Austríaco, (2000)
Prémio União Latina, (2003)
Prémio Ovídio da União dos Escritores Romenos, (2003)
Prémio Fernando Namora, (2004)
Prémio Jerusalém, (2005)
Prémio Camões, (2007)
Prémio José Donoso, (2008), atribuído pela Universidade de Talca, Chile
Prémio Terenci Moix (2008)
Prémio Juan Rulfo, (2008), França
Prémio Clube Literário do Porto, (2008)
Grande Prémio de Excelência do Salão do Livro da Transilvânia (2014)
Prémio literário internacional nonino (2014)
Prémio Vida e Obra de Autor Nacional - Prémio Autores de 2017
Prémio Bottari Lattes Grinzane (2018)