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terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Dia 14 do Advento - Um dia

 

"Toda a gente merece ter alguma coisa boa na vida, pelo menos uma vez."

Morris Gleitzman – Um dia. Amadora: Editora Fábula, 2017. Tradução de Dulce Afonso.

Felix Salinger tem dez anos e é um menino judeu que vive há três anos num orfanato na Polónia dos anos 40 do século XX, em plena Segunda Guerra Mundial, à espera que os seus pais livreiros o venham buscar. Felix gosta de ler, escrever e contar histórias.

No dia em que encontra uma cenoura inteira na sua sopa, Felix Salinger julga ter recebido finalmente o sinal que tanto esperava: os pais estão a chegar e vão finalmente tirá-lo do orfanato. Mas, apesar da sua imaginação tão fértil, a realidade é muito mais complexa do que Felix alguma vez pensou e, quando o orfanato é atacado por soldados nazis e Felix vê todos os livros queimados, pensa que a livraria dos pais está em perigo e que tem de ajudá-los.

E assim começa a aventura de Felix, quando foge do orfanato e começa numa jornada para tentar chegar a casa à procura dos pais num país invadido pelos nazis e com muitos vizinhos delatores, mas também repleto de pessoas dispostas a ajudar. Nessa viagem, Felix vai descobrir os perigos da guerra, mas a sua determinação, inteligência e imaginação vão ajudá-lo a lidar com situações muito difíceis, no meio de nazis e cidadãos apavorados. Também encontra pessoas maravilhosas, como a pequena Zelda e o velho Barney, o que fará com que a sua vontade de viver aumente a cada segundo, mesmo diante de um cenário tão sombrio.

Um aspeto que sobressai neste romance é a inocência de Felix, uma inocência quase ilimitada, que o leva sempre a construir (imaginar?) a melhor explicação possível a partir do muito que não sabe – mesmo num cenário que não é muito agradável. E é difícil não ficarmos comovidos quando se vê uma criança a tentar contar histórias positivas para apagar da mente – da sua, ou da dos que com ele se cruzam – as verdades dolorosas de um mundo cada vez mais sombrio.

Um Dia não é, nem pretende ser, mais uma história exaustiva sobre a vida das crianças judias durante o domínio nazi. É um livro sobre a amizade e sobre o poder da imaginação e da solidariedade. Escrito a pensar num público juvenil, pode ser lido por várias gerações, que o vão entender, certamente, de forma diferente.

No seu sítio pessoal (https://www.morrisgleitzman.com/once.htm), o autor apresenta-nos a experiência que foi escrever este romance, que o levou até à história do seu próprio avô, um judeu de Cracóvia, na Polónia, e que, ainda jovem, alguns anos antes do Holocausto, foi viver para Inglaterra. Se o avô escapou aos campos de concentração nazis, muitos membros da família não tiveram a mesma sorte e, na viagem que Morris Gleitzman fez à Polónia aquando da pesquisa para este romance, encontrou, no cemitério judeu de Cracóvia, um memorial em nome da sua família.

Podemos continuar a acompanhar a história de Felix Salinger nos romances que Morris Gleitzman escreveu a seguir, dos quais destacamos


Em A seguir, Morris Gleitzman continua a contar-nos a história da amizade de Felix e Zelda. Os dois estão agora a fugir dos nazis, com o plano de se manterem vivos e encontrar novos pais.

Na sua rota de fuga, já cansados de correr pela floresta, desesperados de medo, fome e sede, Felix e Zelda encontram Genia, uma mulher generosa que lhes dá abrigo, mesmo conhecendo o risco que corre ao esconder judeus em sua casa.

Genia, o cão Leopoldo e o porco Trotsky fazem com que estes dois jovens consigam sentir um pouco da alegria que tinham antes de as suas famílias morrerem às mãos dos nazis. Mas Felix sabe que o facto de ser judeu põe em risco todos os que estiverem consigo. Só lhe resta fugir, para manter todos em segurança.

Este é assim um romance que continua a dar primazia ao valor da amizade e da compaixão, rendendo homenagem às pessoas que põem em risco a própria vida para oferecer proteção e consolo aos estranhos. Estes são os verdadeiros heróis desta história que não é apenas de ontem, de um passado remoto, mas que continua presente nos nossos dias.

Morris Gleitzman

Morris Gleitzman, autor australiano de ficção infantil e juvenil, nasceu em Inglaterra, em 1953, tendo a sua família emigrado para a Austrália, em 1969. Depois da universidade, começou a escrever argumentos para filmes, até que escrever para os jovens se tornou a sua verdadeira missão.

Escreveu o seu primeiro livro para crianças em 1985. Muitas das suas obras abordam assuntos duros, de uma forma interessante e original, num estilo descontraído e divertido, o que fez de Morris Gleitzman um dos autores mais populares autores infantojuvenis da Austrália, publicado em mais de vinte países.

Recebeu inúmeros prémios como autor de séries televisivas, guiões de cinema e livros infantojuvenis.

Para conhecer mais sobre a vida e a obra de Morris Gleitzman, visite o sítio:

https://www.morrisgleitzman.com/



segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Dia 13 do Advento - Uma aventura nas férias de Natal

 

Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada – Uma aventura nas férias de Natal. Lisboa: Editorial Caminho. Ilustração: Arlindo Fagundes

Quando acaba o 1º período, a mãe das gémeas decide que iriam passar as férias de Natal na casa da tia Judite, em Trás-os-Montes. Sem muita vontade de irem para tão longe, Luísa e Teresa pedem para levar consigo os amigos João, Chico e Pedro.

A quinta onde o grupo vai passar essas férias de Natal fica num sítio muito isolado, mas cheio de encantos e famoso devido às lendas relacionadas com tesouros escondidos.

Quando chegam, a tia Judite e a velha Elisa, que era a cozinheira da Quinta das Amendoeiras, já os esperavam com um grande lanche. Como a casa estava em obras, as gémeas convenceram a tia a deixá-los dormir todos no celeiro.

Logo no primeiro dia, quando saltam animadamente em cima de colchões velhos que alguém guardara no celeiro, encontram um papel com sinais esquisitos. Pensando tratar-se de um mapa de tesouro, resolveram seguir as pistas. Isso obriga-os a decifrar outros enigmas, a fazer perigosas escaladas e a vasculhar nas ruínas de uma aldeia abandonada. E a enfrentar chuva, vento, caminhos de lama, trovoadas súbitas, uma misteriosa cobra em pedra. Mas pior que tudo é a quadrilha que os persegue, disposta a cometer qualquer crime para lhes roubar o mapa do tesouro...

E assim começa mais uma aventura do grupo.



Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada começaram há mais de 40 anos a escrever livros de aventuras para os mais novos e a contar a História de Portugal a todos.

Conheceram-se em 1976, quando ambas davam aulas de Português e História a turmas do 5º, 6º e 7º anos na escola básica Fernando Pessoa, em Lisboa. Cedo se perceberam que grande parte dos alunos não tinha qualquer interesse na leitura e resolveram montar um plano secreto: começaram a escrever em casa uns textos, umas histórias inventadas, contos curtos, mas sempre com ação, que depois liam nas aulas.

Mais tarde, já com muitos contos escritos, decidiram apostar na edição de um livro infantojuvenil. Em novembro de 1981, conseguiram ter nas mãos o primeiro exemplar de Uma Aventura na Cidade. Desde então, nunca mais se separaram: Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada escreveram a quatro mãos mais de 100 livros, entre os quais se contam os das coleções de literatura infantojuvenil portuguesa «Uma Aventura», «Viagens no Tempo e Outras Tantas da História de Portugal», «Asa Delta», «Ler dá prazer», «Histórias e Lendas», «A Bruxa Cartuxa», «Quero ser» ou «Inspetor Max».

A coleção «Uma Aventura», que segue as diversas aventuras de cinco jovens - as gémeas Teresa e Luísa, Pedro, Chico e João, além do cão das gémeas (Caracol) e o do João (Faial) que por vezes também entram -, tem publicados 63 livros, todos recomendados pelo Plano Nacional de Leitura.

Em maio de 2020, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada foram selecionadas como autoras do mês neste blogue. Releia aqui o que então publicámos:

https://bibliotecaecb.blogspot.com/2020/05/ana-maria-magalhaes-e-isabel-alcada.html

Para conhecer mais sobre a vida e a obra desta dupla de escritoras, visite o sítio

www.uma-aventura.pt.



domingo, 12 de dezembro de 2021

Dia 12 do Advento - Capitães da Areia

 

“Vestidos de farrapos, sujos, semi esfomeados, agressivos, soltando palavrões e fumando pontas de cigarro, eram, em verdade, os donos da cidade, os que a conheciam totalmente, os que totalmente a amavam, os seus poetas.”

Jorge Amado - Capitães da Areia. Lisboa: Publicações Europa-América. 1ª edição 1970.

Nesta obra, escrita pelo escritor brasileiro Jorge Amado em 1937, e que teve a sua primeira edição apreendida e queimada em praça pública pelas autoridades do Estado Novo brasileiro, liderado por Getúlio Vargas, a personagem central é um bando de meninos abandonados que encontram nas ruas a verdadeira liberdade. O romance descreve, em páginas carregadas de grande beleza e dramatismo, a vida de cerca de quarenta meninos, cujas idades vão dos 9 aos 16 anos, nas ruas de São Salvador da Bahia, conhecidos por Capitães da Areia.

Pedro Bala, Dora, Professor, Gato, Dalva, João Grande, Sem Pernas ou Boa Vida são adolescentes abandonados pelas suas famílias, que vivem em comunidade no Trapiche, um armazém onde se guardam mercadorias para embarque, junto ao cais, e que é a única referência de "lar" que possuem; é onde se abrigam e se escondem, vivendo como família, construindo as suas próprias regras, convictos que apenas na rua serão livres.

"O que ele queria era felicidade, era alegria, era fugir de toda aquela miséria, de toda aquela desgraça que os cercava e os estrangulava. Havia, é verdade, a grande liberdade das ruas. Mas havia também o abandono de qualquer carinho, a falta de todas as palavras boas. Pirulito buscava isso no céu, nos quadros de santo, nas flores murchas que trazia para Nossa Senhora das Sete Dores, como um namorado romântico dos bairros chiques da cidade traz para aquela a quem ama com intenção de casamento."

Neste romance, Jorge Amado retrata a vida nas ruas de Salvador, naquela época afetada por uma epidemia de varíola, onde as forças policiais perseguem estes jovens cuja rotina era andar pela cidade a pedir dinheiro ou a roubar para comer, encontrando mesmo prazer na tortura, sem qualquer sentido de justiça, esquecendo que estão perante crianças que, apesar de serem atrevidos, malandros, espertos, famintos, ladrões, agressivos, falsos, soltos de língua, carentes de afetos e de instrução, contêm uma certa pureza e sonhos: afinal, eles roubam os ricos, para sobreviverem e para partilharem com os pobres.

Num romance de denúncia social, com o tema centrado na miséria dos meninos de rua, Jorge Amado procura mostrar não apenas os assaltos e as atitudes violentas que os Capitães da Areia protagonizam, mas também as suas aspirações e pensamentos ingénuos, comuns a qualquer criança.

“Que culpa eles têm? Roubam para comer porque todos estes ricos que têm para botar fora, para dar para as igrejas, não se lembram que existem crianças com fome.”


Jorge Amado


Jorge Amado nasceu a 10 de agosto de 1912, na Fazenda Auricídia, em Ferradas, município de Itabuna, Baía, e morreu em Salvador da Baía, no dia 6 de agosto de 2001.

Com uma obra literária de mais de 50 títulos, foi um dos mais famosos e traduzidos escritores brasileiros de todos os tempos e o autor mais adaptado ao cinema, teatro e televisão.

Quando tinha um ano, na sequência de uma epidemia de varíola, a família mudou-se para a cidade de Ilhéus. Aos 14 anos, já na cidade de Salvador, Jorge Amado começou a participar da vida literária, sendo um dos fundadores da "Academia dos Rebeldes", grupo de jovens que desempenhou um importante papel na renovação da literatura baiana e cujos trabalhos eram publicados em revistas que eles próprios fundavam.

Em 1930, Jorge Amado mudou-se para o Rio de Janeiro e no ano seguinte entrou na Faculdade de Direito. Começou a dedicar-se ao jornalismo e, em 1935, já se tinha estreado como romancista com O País do Carnaval (1931), Cacau (1933), Suor (1934), seguindo-se Capitães da Areia (1937), Terras do Sem Fim (1943) e S. Jorge dos Ilhéus (1944). Nesta primeira fase da sua obra, privilegia os temas sociais, o que lhe valeu represálias por parte das autoridades políticas do Brasil.

Politicamente de esquerda e filiado no Partido Comunista Brasileiro (chegou a ser eleito deputado federal por este partido, entre 1946 e 1948), viu parte da sua obra apreendida pela censura do Estado Novo brasileiro e foi obrigado a emigrar, vivendo em Buenos Aires, Paris, Praga e na União Soviética.

A publicação, em 1958, de Gabriela, Cravo e Canela, representou um momento de mudança na produção literária de Jorge Amado: nesta segunda fase, que inclui romances como Dona Flor e seus dois maridos (1966), Tenda dos Milagres (1969), Tereza Batista cansada de guerra (1972) ou Tieta do Agreste (1977), faz uma crónica de costumes da vida baiana, marcada por tipos populares, poderosos coronéis e mulheres sensuais.

Em 1961, Jorge Amado foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, lugar que foi preenchido pela mulher, Zélia Gattai, em 2002, após a sua morte.

Ao longo da sua vida, Jorge Amado recebeu vários prémios nacionais e internacionais. Recebeu também os graus de Comendador e de Grande-Oficial, nas ordens da Argentina, Chile, Espanha, França, Portugal e Venezuela, Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada de Portugal, a 8 de março de 1980, e Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique a 14 de julho de 1986, além de ter sido feito Doutor Honoris Causa por mais de dez universidades no Brasil, Itália, Israel, França e Portugal. O título de Doutor pela francesa Sorbonne foi o último que recebeu em pessoa durante a sua última viagem a Paris em 1998, quando já estava doente.

Em 1994, a sua obra foi reconhecida com o Prémio Camões.

Entre a imensa obra de Jorge Amado publicada em Portugal, destacamos O gato Malhado e a andorinha Sinhá: uma história de amor, livro recomendado pelo PNL2027 dos 12-14 anos.


Esta história, inspirada na tradição popular das narrativas orais, foi escrita por Jorge Amado em Paris, em 1948, para o seu filho João Jorge, quando este completou um ano de idade. O texto andou perdido até 1976 e só em 1978 conheceu a sua primeira edição, com ilustrações de Carybé.

A história do amor de um gato mau por uma adorável andorinha assume aqui o tom fabular dos contos infanto-juvenis. Além de se transformar num improvável caso de paixão, a narrativa mostra como duas criaturas bem diferentes (ela voa, ele não) podem, não apenas conviver em paz, como mudar a maneira de ver o mundo.

sábado, 11 de dezembro de 2021

Dia 11 do Advento - O último cabalista de Lisboa

 


“Estava uma manhã resplandecente, como uma pérola opalina do colar daquele mês primaveril. Era o ano de 5266 para os cristãos-novos. O sexto dia de abril de 1506 para os [...] cristãos de alma e coração. [...] O dia do nosso primeiro seder da Páscoa ergueu-se fusco e seco, como todas as manhãs ultimamente. Há mais de onze semanas que não recebíamos a benção da chuva. E também hoje não choveria...”

Richard Zimler – O último cabalista de Lisboa. Lisboa: Livros Quetzal. 1ª edição 1996. Tradução de José Lima

Lisboa, abril de 1506. Durante as celebrações da Páscoa, cerca de dois mil cristãos-novos foram mortos num pogrom (movimento popular violento organizado contra uma comunidade, em especial uma comunidade judaica) e os seus corpos queimados no Rossio. Reinava então D. Manuel, o Venturoso, e os frades incitavam o povo à matança, acusando os cristãos-novos de serem a causa da fome e da peste que flagelavam a cidade.

Em dezembro de 1496, quatro anos depois de expulsarem do seu reino todos os judeus, os soberanos de Espanha, D. Fernando e Dona Isabel, haviam convencido o rei de Portugal, D. Manuel, a expulsar todos os judeus de Portugal como condição para lhe concederem a mão da sua filha. Segue-se um processo de conversão forçada dos judeus ao cristianismo – que passam a ser designados por «cristãos-novos» –, mas muitos continuam clandestinamente a praticar os seus rituais religiosos.

Em 1506, Portugal vive um período de seca prolongada e de peste que dizima milhares de habitantes; é preciso encontrar um culpado, um bode expiatório para esses males. Os judeus (a quem chamam «marranos») são então o alvo a abater. Os frades dominicanos dirigiam e incitavam as levas de cristãos sedentos de violência, vingando-se nos judeus e cristãos-novos acusados de todos os males que então se viviam.

O relato que constitui O Último Cabalista de Lisboa é feito a partir de uns manuscritos escritos entre 1507 e 1530 por Berequias Zarco e encontrados nos anos 90 do século XX numa velha casa de Istambul. Neles descreve-se o massacre de Lisboa em 1506 e conta-se a odisseia vivida pela família Zarco, uma família de cristãos-novos residente em Alfama naquele período de convulsão. Berequias Zarco, Pedro por batismo cristão forçado, é sobrinho e discípulo de Abraão Zarco – iluminador e membro respeitado da célebre escola cabalística de Lisboa.

No domingo de Páscoa, Berequias encontra o tio e uma jovem desconhecida mortos na cave que servia de templo secreto desde que a sinagoga fora encerrada pelos cristãos-velhos. Abraão Zarcoi e a jovem misteriosa estão ambos nus e envoltos num mar de sangue; as suas gargantas parecem ter sido cortadas por uma faca judaica, uma shoet, e o alçapão da cave está fechado por dentro.  Também desapareceu do seu esconderijo um valioso manuscrito iluminado, a Haggada (o texto utilizado para os serviços da noite do Pessach, a Páscoa judaica, que contém a história da libertação do povo de Israel do Egito conforme é descrito no Livro do Êxodo e as orações, canções e provérbios judaicos que acompanham esta festividade). Estarão os dois incidentes relacionados? Terá sido um cristão ou um judeu, como os indícios fazem crer, a assassinar o tio? Quem será a rapariga morta?

Beremias, um dos sobreviventes do massacre de Lisboa, decidiu fugir para Constantinopla quando percebeu que em Portugal não havia futuro para si e para a sua família, pelo facto de serem judeus. O relato escrito dessa experiência terrível em Lisboa esteve interrompido durante largos anos, mas em 1530 quis terminá-lo quando decidiu regressar a Lisboa, na sequência de uma visão do seu grande mestre o tio Abraão Zarco...


Richard Zimler


Richard Zimler nasceu em 1956, em Roslyn Heights, um subúrbio de Nova Iorque. Fez um bacharelato em Religião Comparada na Duke University e um mestrado em Jornalismo na Stanford University. Trabalhou como jornalista durante oito anos, principalmente na região de São Francisco. Em 1990 foi viver para o Porto, onde lecionou Jornalismo, primeiro na Escola Superior de Jornalismo e depois na Universidade do Porto. Tem atualmente dupla nacionalidade, americana e portuguesa. Desde 1996, publicou doze romances, uma coletânea de contos e seis livros para crianças. O Último Cabalista de Lisboa, o seu primeiro romance publicado, catapultou Zimler para o sucesso internacional, tendo sido publicado em toda a Europa, nos Estados Unidos e Brasil, onde depressa se tornou uma obra de referência.

Com uma obra muito marcada pela experiência judaica (a história, a cultura, as perseguições, o antissemitismo), Richard Zimler centra-se sempre nas relações humanas e nos sentimentos que atravessam gerações, abordando também questões tão pungentes e controversas como a homossexualidade, a emigração e a dificuldade de relacionamento entre as pessoas, obrigando-nos a uma reflexão sobre a essência do ser humano e de como as situações que se nos deparam podem alterar irremediavelmente a forma como olhamos o mundo.

Para mais informações sobre Richard Zimler e a sua obra, visite o site 

https://www.zimler.com/pt/bem-vindo


Na biblioteca do ECB pode encontrar também as obras de Richard Zimler:


À procura de Sana, 2005

Em fevereiro do ano 2000, Richard Zimler desloca-se à Austrália para participar no Encontro de Escritores de Perth. Aí, conhece Sana, uma bailarina brasileira que lhe diz que o seu livro O Último Cabalista de Lisboa influenciou profundamente a sua vida. Um dia depois, Sana suicida-se, atirando-se da janela do hotel em que ambos estão hospedados.

Zimler torna-se então personagem do seu romance e, simultaneamente, investigador e narrador. As suas buscas levá-lo-ão a Paris, onde conhece Helena, amiga de infância de Sana. Porém, à medida que vai desenrolando o fio da vida de ambas – que começa em Haifa, numa época em que a convivência pacífica entre uma palestiniana e uma judia era ainda possível –, vê-se envolvido numa teia de ilusões, crueldade e vingança que culminará no 11 de Setembro de 2001.


A sétima porta, 2007

Em Berlim, na década de Trinta, Isaac Zarco, descendente de Berequias Zarco, protagonista de O último cabalista de Lisboa, está determinado a descobrir o que revelavam seis manuscritos escritos por Berequias Zarco e encontrados em 1990 numa cave de Istambul. Isaac está convencido que o pacto entre Hitler e Estaline, o Pacto Molotov–Ribbentrop, assinado em agosto de 1939 e que estabelecia esferas de influência entre as duas potências, anuncia uma profecia apocalíptica feita pelo seu antepassado que está prestes a concretizar-se. Acredita também que, se conseguir descodificar esses textos cabalísticos medievais, pode salvar o mundo.

Passado durante a subida ao poder de Hitler, o romance A Sétima Porta junta Sophie Riedesel e um grupo clandestino de ativistas judeus e antigos fenómenos de circo liderados por Isaac Zarco. Quando uma série de esterilizações forçadas, estranhos crimes e deportações para campos de concentração dizimam o grupo, Sophie, já adulta, tem de lutar com todo o seu engenho para salvar tudo o que ama na Alemanha.


Os anagramas de Varsóvia, 2009

Polónia, ano de 1940. Os nazis isolam milhares de judeus num pequeno gueto em Varsóvia. Erik Cohen, um velho psiquiatra judeu, vê-se obrigado a partilhar um pequeno apartamento com a sobrinha e o sobrinho-neto de nove anos, Adam.

Certo dia, Adam desaparece e o seu corpo, estranhamente mutilado, só é encontrado na manhã seguinte, no arame farpado sobre o muro que rodeia o gueto. Quando um segundo cadáver aparece em circunstâncias muito similares – desta vez o de uma rapariga judia –, Erik e o seu velho amigo Izzy tentam obter respostas, lançando-se numa investigação tão sinistra quanto perigosa.

O mistério adensa-se e as dúvidas também. Serão os próprios nazis responsáveis por aquelas mortes ou estará um traidor judeu envolvido nos crimes?


O evangelho segundo Lázaro, 2016

Partindo do episódio da ressurreição de Lázaro por Jesus, descrito no Novo Testamento, no Evangelho segundo São João, Richard Zimler procura resposta para as questões que rodeiam essa ressurreição: como é que Jesus Cristo realizou o milagre? Teria algum motivo especial para o fazer?. Em O Evangelho segundo Lázaro, preenche estas e outras lacunas, narrando a história da perspetiva de Lázaro, descrevendo como ele e Jesus se conheceram em crianças, a transcendência da ligação que os une e o momento em que Lázaro acordou no túmulo, desorientado e sem qualquer memória de uma vida após a morte.

Apenas trinta anos depois da crucificação do seu velho amigo, Lázaro começa a entender a extensão do papel que sempre ocupou na vida de Jesus e talvez ainda venha a ocupar. É que a derradeira prenda de Jesus a Lázaro – deixada num dos locais malditos de Jerusalém – parece conter a chave que ajudará Lázaro a concretizar os desígnios de uma Terra Prometida. Deverá ele arriscar tudo e levar a cabo os perigosos planos de Jesus?


Os dez espelhos de Benjamin Zarco, 2018

Benjamin Zarco e o seu primo Shelly foram os únicos membros da família a escapar ao Holocausto. Cada um à sua maneira, ambos carregam o fardo de ter sobrevivido a todos os outros. Benjamin recusa-se a falar do passado, procurando as respostas na cabala, que estuda com avidez, em busca daquilo a que chama os fios invisíveis que tudo ligam. E Shelly refugia-se numa hipersexualidade, seu único subterfúgio para calar os fantasmas que o atormentam.

Construído como um mosaico e dividido em seis peças, Os dez espelhos de Benjamin Zarco entretecem-se entre 1944, com a história de Ewa Armbruster, professora de piano cristã que arrisca a vida para esconder Benni em sua casa, e 2018, com o testemunho do filho de Benjamin acerca do manuscrito de Berequias Zarco, herança do pai, talvez a chave para compreender a razão por que Benjamin e Shelly se salvaram e o vínculo único que os une.


Insubmissos, 2020

Publicado originalmente em 1996, e inédito até agora em Portugal, Insubmissos é um romance vívido e intimista que ousa dar luz a temas como a SIDA, a homossexualidade, a solidão, o luto e o amor nas suas imensas variantes.

Depois da morte de muitos dos seus amigos, um professor de guitarra clássica, mundano, judeu e antiga estrela da equipa de basquetebol de Greenwich Village, decide abandonar os Estados Unidos e procurar uma nova vida em Portugal. Mas aquilo a que ele chama o eclipse viral da sexualidade persegue-o até ali, quando António, o seu mais talentoso aluno, testa positivo para VIH e ameaça desistir da vida aos vinte e quatro anos. Desesperado por mostrar ao jovem que ele ainda tem um futuro pela frente, «o Professor» organiza uma viagem de carro com destino a Paris, esperando ser capaz de convencer um virtuoso a aceitá-lo como aluno. O pai de António, um homem rígido e presença distante na sua vida, decide acompanhá-los e, de passagem, os três mergulham num triângulo de aventuras, violência e revelações pessoais. Será que de caminho vão encontrar uma oportunidade de redenção?


sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Comemoração do Dia Internacional dos Direitos Humanos


 

Foi a 10 de dezembro de 1945 que a Organização das Nações Unidas, criada em 24 de outubro de 1945, aprovou a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Fundada após a II Guerra Mundial, entre os objetivos principais da ONU encontram-se "promover e estimular o respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais de todos, sem distinção de raça, sexo, língua ou religião". Neste sentido, a Declaração Universal dos Direitos Humanos assume-se como uma das bases para a promoção da paz mundial, da democracia e da integridade de todos os seres humanos.

Celebrar o dia 10 de dezembro como o Dia Internacional dos Direitos Humanos é manter vivos estes princípios e valores, num compromisso com todos e cada um dos 30 artigos que compõem a Declaração Universal dos Direitos Humanos.


No âmbito destas comemorações, a turma do 8º A, na disciplina de Cidadania e Desenvolvimento e sob a orientação da professora Teresa Dias, trabalhou cada um dos 30 artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Desse trabalho, resultou a Exposição que se encontra patente na biblioteca do ECB.




Dia 10 do Advento - A bibliotecária de Auschwitz


“O que a literatura faz é o mesmo que um fósforo no meio de um campo em plena noite. Um fósforo quase nada ilumina, mas permite-nos ver quanta escuridão há à nossa volta.“ (William Faulkner, citado por Javier Marías in A bibliotecária de Auschwitz) 

António G. Iturbe – A bibliotecária de Auschwitz. Lisboa: Editora Planeta. 1ª edição 2013. Traduzido por Mário Dias Correia.

Dita Polachova é uma jovem checa de 14 anos que, tal como muitas crianças de origem judaica, conheceu o horror e o martírio no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, considerado o campo mais mortífero e implacável.

Dita nasceu em Praga, então capital da Checoslováquia (hoje República Checa), em de julho de 1929, numa família de classe média. Quando tinha 10 anos de idade, começou a Segunda Guerra Mundial.

Em 1942, a família Polachova foi deportada para o campo de concentração de Theresienstadt, na Boémia-Morávia (região da Checoslováquia), onde 150 mil judeus foram alojados em condições deploráveis. Em dezembro de 1943, foram transferidos para o campo familiar BIIb, em Auschwitz-Birkenau, na Polónia.

Dita Polachova foi para o Bloco das Crianças, cujo chefe, Fredy Hirsch, era um dos líderes do movimento juvenil sionista, movimento nacionalista que defendia o direito à autodeterminação do povo judeu e a criação de um estado soberano e independente no território onde historicamente existiu o antigo Reino de Israel. Hirsch conseguiu convencer as autoridades alemãs do campo de que ter as crianças entretidas durante o dia num barracão separado facilitaria o trabalho dos pais do campo BIIb, a que chamavam «campo familiar». Os alemães concordaram, mas com duas condições: no barracão infantil haveria apenas atividades lúdicas e seria terminantemente proibido o ensino de qualquer conteúdo escolar. Mas, de modo clandestino, Fredy Hirsch ergueu uma escola dentro de um barracão no pavilhão 31.

E aí, num lugar onde os livros são proibidos, contra todas as expectativas, existem oito livros em papel que Fredy Hirsch mantinha em segredo, dos quais Dita se torna guardiã e distribuidora, recrutando igualmente “livros vivos” para contarem histórias e ensinarem as crianças. Num campo onde o terror domina, a biblioteca clandestina, que para todos os efeitos nunca existiu, é uma forma de voar para bem longe daquela prisão. No meio do horror, a jovem Dita dá-nos uma maravilhosa lição de coragem e de esperança: não se rende e nunca perde a vontade de viver nem de ler porque, mesmo naquele terrível campo de extermínio nazi, «abrir um livro é como entrar para um comboio que nos leva de férias».


A jovem Dita Polachova

Em junho de 1944, Dita Polachova foi encaminhada para um campo de concentração alemão em Hamburg. Em abril do ano seguinte, ela e a mãe foram para Bergen Belsen, onde quase morreram de desnutrição e de tifo. Dita recuperou, mas a mãe viria a morrer em junho de 1945. O pai morrera entretanto em Auschwitz.

No dia 15 de abril de 1945, o exército aliado resgatou os prisioneiros do campo. Dita Polachova, com 16 anos de idade, voltou para Praga em julho desse mesmo ano. Descobriu então que somente a sua avó e a mulher do primo do pai estavam vivas. Reencontrou depois o também sobrevivente de Auschwitz Ota Kraus, um jovem “professor” da escola de Fredy Hirsch, dos “livros vivos” que contavam histórias no Bloco 31, e que se tornou mais escritor. Casaram em 1947 e, em 1949, foram viver para Israel fugindo ao autoritarismo do regime comunista que se instalara na Checoslováquia.

O jornalista espanhol Antonio G. Iturbe descobriu, no livro A biblioteca à noite, de Alberto Manguel, referências à existência de uma pequena biblioteca num campo de concentração e a partir daí deu início a uma investigação que o conduziria até Dita Krauss. Quis então dar a conhecer ao mundo esta bibliotecária de Auschwitz, que, quase 70 anos depois, com mais de 80 anos, vive ainda em Netanya, Israel. Quando Iturbe decidiu procurar Dita, não foi difícil encontrá-la: o nome da bibliotecária de Auschwitz está na lista de sobreviventes do Holocausto do Yad Vashem (Museu do Holocausto), em Jerusalém…


Dita Polachova na atualidade

António González Iturbe


António González Iturbe nasceu em Saragoça (Espanha), em 1967, e cresceu em Barcelona. Publicou os romances Rectos Torcidos (2005), Dias de Sal (2008), A Bibliotecária de Auschwitz (2012) e A Céu Aberto (2017). Dedica-se há mais de vinte anos ao jornalismo cultural e atualmente dá aulas na Universidade de Barcelona e na Universidade Autónoma de Madrid.

Para conhecer mais sobre esta obra, ver Magazine literário da RTP, com apresentação de Teresa Sampaio, dedicado ao livro A Bibliotecária de Auschwitz, comentado pelo próprio autor.

https://arquivos.rtp.pt/conteudos/a-bibliotecaria-de-auschwitz/


quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Dia 9 do Advento - O Natal de Poirot

 

"Foi então que ouviu o ruído, vindo de cima. Louças e móveis a cair, uma série de estalidos e estrondos... De súbito soou nitidamente um grito, um grito horrível e arrepiante, que se extinguiu num estrangulamento gorgolejante."

Agatha Christie - O Natal de Poirot. Lisboa. Edições Livros do Brasil, s.d. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues. 1ª edição 1938.

O multimilionário Simeon Lee convida os membros da sua família para passar o Natal na sua propriedade. Este convite é visto com desconfiança por vários parentes, porque Simeon nunca deu provas de que se importasse com eles. Foram convidados, inclusive, Harry, uma espécie de ovelha negra da família, e Pilar, uma neta que ninguém conhecia. Na verdade, o objetivo de Simeon é desenvolver um jogo sádico com os seus familiares. Porém, um convidado inesperado bate à porta: a morte.

Na véspera de Natal, a reunião da família Lee é interrompida por um ensurdecedor barulho de mobília a partir-se, seguido de um grito de agonia. No andar de cima, o tirânico Simeon Lee é encontrado morto. Quando Poirot entra em cena percebe que, estranhamente, o ambiente não é de luto, mas de desconfiança mútua, pois a vítima era odiada por todos e qualquer um podia ser o assassino. Cabe ao genial detetive a tarefa de descobrir quem foi capaz de passar das palavras aos atos.

Hercule Poirot, ou simplesmente Poirot, é um grande detetive fictício e protagonista da maioria dos livros de Agatha Christie. De nacionalidade belga (embora muitos o julguem francês), este agente reformado da polícia belga é um detetive brilhante, pomposo e de aparência extremamente extravagante, e nada modesto. Poirot é um grande defensor da ordem e os seus métodos de investigação são únicos e infalíveis e não há mistério que resista às suas famosas “celulazinhas cinzentas”. Poirot usa, como único meio, a psicologia humana e não é um detetive de ação, mas meramente dedutivo.

Possui um grande e belo bigode, que é o que melhor o identifica, está sempre impecavelmente vestido e tem sempre uma aparência elegante e cuidada. O seu nome é deliberadamente absurdo, pois Hercule relembra o herói Hércules da mitologia grega, porém, o detetive é um homem pequeno. O sobrenome Poirot tem origem em poireau, que em francês significa alho-porro ou verruga. O personagem apareceu pela primeira vez em 1920, no romance O misterioso caso de Styles (The mysterious affair of Styles).



Agatha Mary Clarissa Christie nasceu em 15 de setembro de 1890, na cidade de Torquay, no sudoeste de Inglaterra, e morreu a 12 de janeiro de 1976, em Wallingford, cidade localizada no condado de Oxfordshire, no sudeste da Inglaterra, entre Reading e Oxford, nas margens do rio Tamisa.

Nascida Agatha Mary Clarissa Miller, adotou o nome de Agatha Christie após o casamento com o Coronel Archibald Christie, piloto do Corpo Real de Aviadores, em 24 de dezembro de 1914.

Durante a I Guerra Mundial, alistou-se, como voluntária, no Exército da Cruz Vermelha, prestando serviço num hospital, primeiro como enfermeira e depois como funcionária da farmácia e do dispensário. Esta experiência revelar-se-ia fundamental para o conhecimento dos venenos e preparados que figurariam em muitos dos seus livros.

Começou a escrever o seu primeiro livro, O misterioso caso de Styles, em 1916, que seria publicado após a Guerra, em 1920. Seguiram-se outros títulos, sem grande aceitação inicial por parte do público. O sucesso chegou em 1926 com a publicação de The Murder of Roger Ackroyd (o Assassinato de Roger Ackroyd), considerado até hoje uma das suas obras-primas pela originalidade do enredo policial.

Em 1928, separou-se de Archibald Christie e, em 1930, casou pela segunda vez, com o arqueólogo Max Mallowan, catorze anos mais jovem e com quem viajou por todo o mundo, participando ativamente nas suas expedições arqueológicas, algumas das quais serviram de inspiração para os seus livros, como Um Crime no Expresso do Oriente (1934), Morte na Mesopotâmia (1936), Morte no Nilo (1937), Morte entre as ruínas (1938) ou Intriga em Bagdade (1951).

Autora de cerca de 300 obras (entre romances de mistério, poesia, peças para rádio e teatro, contos, um livro infantil, documentários, duas autobiografias e seis romances publicados sob o pseudónimo de Mary Westmacott), em 1956, Agatha Christie  foi distinguida com o título de Commander of the British Empire e, em 1971, foi condecorada pela rainha Elizabeth II com o título de Dama da Ordem do Império Britânico, uma honra equivalente ao masculino Sir.

Hercule Poirot, Miss Marple, o casal Tommy e Tuppence, Parker Pyne ou Ariadne Oliver são alguns dos detetives que protagonizaram os seus livros policiais.

A Ratoeira é a peça que está há mais tempo em cartaz no mundo, desde a sua estreia, em 1952, tendo alcançado, no dia 18 de novembro de 2012, a marca da apresentação número 25 000.

A Rainha do Crime, ou Duquesa da Morte (como ela preferia ser chamada), morreu em 12 de janeiro de 1976. Em 2000, a 31st Bouchercon World Mistery Convention galardoou Agatha Christie com dois prémios: foi considerada a Melhor Autora de Livros Policiais do Século XX e os livros protagonizados por Hercule Poirot a Melhor Série Policial do mesmo século.


Sobre Literatura e Romance Policial, pode consultar neste blogue

https://bibliotecaecb.blogspot.com/2019/05/romance-policial-um-genero-literario.html


 


quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Dia 8 do Advento - Um estranho Natal

 


“Já se sabe que todas as aventuras têm um princípio, mas muitas vezes, quando esse princípio acontece, nós não nos damos conta. Quero dizer: não percebemos quando a aventura começou.”

João Aguiar - Um estranho Natal. Porto: Edições Asa, 1998. 1ª edição

“[…] continuo a sentir-me intrigado com esta aventura que o nosso Bando viveu. Sobretudo, continuo intrigado com o que se passou numa certa véspera de Natal. […] Isto pode parecer-lhes incrível, mas…”

É com esta introdução «à maneira» que o Carlos começa a contar mais uma aventura do Bando dos Quatro: quatro amigos, quatro companheiros de aventuras, sempre prontos para enfrentar o desconhecido. Desta vez, o mistério surge a menos de um mês das férias de Natal. O Carlos, o Álvaro, a Catarina e o Frederico nem sonham o que vão encontrar no sapatinho...

Nada menos que uma aventura incrível, que os leva a lutar contra gente poderosa que quer fazer de Vila Rica um depósito de lixo nuclear!

Como não podia deixar de ser, o Tio João mete-se no barulho…

O Bando dos Quatro, da autoria de João Aguiar e com ilustrações de António Jorge Gonçalves, é uma coleção de livros juvenis, publicada pela Editora ASA, com trinta volumes publicados. O título da série provém de uma série que a RTP passava no início dos anos 90 com o mesmo nome.

Na aldeia fictícia de Vila Rica, situada, segundo algumas referências, no concelho da Lourinhã, a vida corre devagar e nada de especial parece acontecer. Porém, de um momento para outro, estranhos assaltos começam a ocorrer, luzes estranhas aparecem no céu, pessoas nunca antes vistas chegam à aldeia. Então, um grupo de quatro jovens em idade pré-adolescente, os irmãos Carlos e Álvaro, com os amigos Frederico e Catarina, começam a investigar por sua conta e risco o que se passa, formando assim um grupo de investigação chamado "O Bando dos Quatro". Inicialmente, a ideia não agrada nada aos adultos da terra, pois os quatro jovens irão correr os mais perigosos riscos. Mas, com o passar dos tempos, o Professor João dos Santos, outro filho da terra, historiador recém-reformado que regressara à aldeia após um longo período de trabalho em Lisboa e tio materno dos irmãos Carlos e Álvaro, decide dar todo o apoio aos quatro jovens durante as investigações, correndo também ele sérios riscos.



João Aguiar nasceu em Lisboa, a 28 de Outubro de 1943, e faleceu na mesma cidade, a 3 de Junho de 2010. Viveu durante a infância em Moçambique, na cidade da Beira, e licenciou-se em jornalismo pela Universidade Livre de Bruxelas. Trabalhou nos centros de turismo de Portugal em Bruxelas e Amesterdão e, em 1976, regressou a Portugal, para se dedicar ao jornalismo, tendo trabalhado para a RTP e em diversos diários, semanários e revistas. Em 1984, iniciou a sua carreira literária, com a publicação daquele que viria a ser um dos seus romances mais emblemáticos, A Voz dos Deuses. Publicou ao todo quinze romances, dois livros de contos, uma obra de não ficção (Lapedo-Uma Criança no Vale) e três séries juvenis: O Bando dos Quatro, Pedro & Companhia e Sebastião e Os Mundos Secretos.

Parte da sua obra está traduzida em Espanha, França, Itália, Alemanha e Bulgária.

Em 2005 foi galardoado com o Prémio Literário 2004 da Casa da Imprensa.

Entre a obra de João Aguiar, destacamos


A Voz dos Deuses, com o subtítulo Memórias de um companheiro de Viriato, foi publicado em 1984 e tornou-se, ao longo de sucessivas edições, um "clássico" do romance histórico português contemporâneo.

Através de uma leitura apaixonante, João Aguiar dá-nos a conhecer a história de Viriato, um dos construtores da realidade ibérica. O autor, apoiando-se com fidelidade em dados etnográficos, históricos e arqueológicos para escrever o seu romance, colocou-se na pele de Tongio, velho sacerdote do deus Endovélico, que narra a história da sua vida e o seu encontro com Viriato.

“Os deuses falam aos homens com vozes diferentes, conforme eles são capazes de entender. Os jovens ouvem essas vozes no estrépito das batalhas ou no acto do amor, os velhos aprendem a escutar de outra maneira. Outrora, também eu ouvi a voz dos deuses no amor, na guerra, nos sonhos e na tempestade – até mesmo na fala de outros mortais. Agora, que já passaram oitenta invernos na minha vida – se é que não deixei escapar alguns sem dar por tal – resta-me o silêncio.”

Esta é a voz de Tongio e leva-nos até ao ano 147 a. C., quando alguns milhares de guerrilheiros lusitanos se encontram cercados pelas tropas do pretor Caio Vetílio. Em princípio, trata-se apenas de mais um episódio da guerra que a República Romana trava há longos anos para se apoderar da Península Ibérica. Mas os Lusitanos, acossados pelo inimigo, elegem um dos seus e entregam-lhe o comando supremo. Esse homem, que durante sete anos vai ser o pesadelo de Roma, chama-se Viriato.

Entre 147 e 139 a. C., ano em que foi assassinado, Viriato derrotou sucessivos exércitos romanos, levou à revolta grande parte dos povos ibéricos e foi o responsável pelo início da Guerra de Numância (conflito de 20 anos entre as tribos celtiberas da Hispânia Citerior e o governo romano. Começou em 154 a.C., com a revolta dos Celtiberos da Numância no Douro, um povoado celtibero, localizado a 7 km ao norte da cidade de Sória, situada nas margens do Rio Douro, na Espanha. A primeira fase da guerra acabou em 151, mas, em 143, a guerra reiniciou com uma nova insurreição na Numância e Roma enviou uma série de generais para a Península Ibérica para lidar com os Numantinos. Em 133 a.C., a Numância foi destruída pelas tropas romanas de Cipião Emiliano, após um cerco de onze meses que pôs fim a uma feroz resistência de vinte anos aos invasores).

Viriato foi um verdadeiro génio militar, político e diplomático. Mas Viriato foi, sobretudo, o defensor de um mundo que morria asfixiado pelo poderio romano: o mundo em que mergulham as raízes mais profundas de Portugal e de Espanha. É esse mundo, já então em declínio, que este livro tenta evocar.


terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Dia 7 do Advento - A Biblioteca Mágica

 


“A única coisa que sei é que há imensos livros que ainda não foram escritos e que as 26 letras do alfabeto têm mais potencial do que a cabeça de todos os homens que existem sobre a face da Terra.”

Jostein Gaarder e Klaus Hagerup – A biblioteca mágica. Lisboa: Editorial Presença, 2002. 1ª edição. Tradução do norueguês de José J. C. Serra.

Neste livro infanto-juvenil escrito por Jostein Gaarder com a parceria de Klaus Hagerup, conhecemos Nils, um rapazinho de doze anos que acaba de regressar a Oslo depois das férias escolares de verão, passadas em companhia da sua prima Berit, na cidade de Fjærland, interior da Noruega. Para não deixarem de se falar, os dois decidem recorrer às cartas, numa espécie de livro-diário, onde contam tudo o que acontece, não só no seu dia a dia, mas também à sua volta. Esta espécie de epistolário é um caderno fechado com um cadeado, cada um dos primos tem uma chave, e o livro circulará entre um e outro pelo correio à medida que vão escrevendo.

No dia que Nils vai à livraria comprar o caderno, encontra uma mulher estranha, alguém que ele e Berit haviam visto de passagem durante as férias, que lhe oferece dinheiro e faz questão de ajudar Nils a comprar o diário como uma espécie de patrocínio. Apesar de achar tudo muito misterioso e insólito, Nils aceita e conta tudo à sua prima Berit na primeira carta que lhe escreve. No mesmo dia, e antes de Berit ler a carta do primo, depara na rua com a mesma mulher em Fjaerland, e, seguindo-a, encontra acidentalmente um envelope que a mulher deixou cair da mala. Nesse envelope havia uma estranha carta, dirigida a uma tal Lilli (que mais tarde Berit descobre ser conhecida por LILII DOS LIVROS), uma bibliógrafa a quem alguém pede ajuda para desvendar o mistério de um livro que já existe, mas que apenas será publicado no ano seguinte, um livro que fará parte de uma certa «biblioteca mágica» que contém os livros que ainda não foram escritos.

Como dois jovens detetives, os dois primos vão investigar as indicações misteriosas que encontram na carta, o que se transforma numa descoberta ou num reencontro com o mundo dos livros, desde os mais antigos até aos mais atuais, onde se revelam a todos os leitores importantes características das diferentes épocas do livro.

Em A Biblioteca Mágica, onde o grande herói é sem dúvida o livro e a sua história, acompanhamos a aventura de Nils e Berir, numa narrativa cheia de suspense, e vamos conhecendo e aprendendo como foi escrito e surgiu o livro, o que são incunábulos, o que é a Classificação Decimal de Dewey (a base do sistema que hoje usamos para classificar documentos, a Classificação Decimal Universal, e que encontramos na organização de todas as bibliotecas públicas e escolares) e conceitos como Bibliógrafo, Bibliófilo, Biblioteconomia, Plágio, são trazidos à tona e explicados de forma simples e lúdica para que todos os leitores também possam entendê-los.

Esta é uma história que incita ao amor pelos livros, pela criatividade, pela liberdade de expressão e com a qual percebemos que cada livro torna uma biblioteca mágica. Cada livro é único e guarda um segredo, um mistério, uma beleza, um conselho, enfim, é especial.

Jostein Gaarder

Jostein Gaarder nasceu em Oslo em 1952. Formou-se em Filosofia e lecionou durante alguns anos as disciplinas de História das Ideias e História das Religiões no Ensino Secundário. Após a publicação de O Mundo de Sofia (1991), que rapidamente se tornou um enorme sucesso, traduzido em mais de 60 línguas e com mais de 40 milhões de exemplares vendidos, Gaarder passou a dedicar-se exclusivamente à atividade literária como autor de romances filosóficos, contos e histórias infantis, entre os quais O Mistério do Jogo das Paciências, O Enigma e o Espelho, A Vida É Breve, Maya, O Vendedor de Histórias, A Rapariga das Laranjas, O Castelo dos Pirenéus e A Biblioteca Mágica.


O Mundo de Sofia, publicado em 1991, é o trabalho mais conhecido de Jostein Gaarder, um livro que é tanto um romance, como um guia básico de história da filosofia.

Sofia Amundsen é uma menina de catorze anos que vive com a mãe na Noruega, em 1990 (o pai é capitão de um navio petroleiro e fica fora a maior parte do ano, não aparecendo no livro).

Menina curiosa, Sofia vê a sua vida transformada quando recebe na caixa de correio duas mensagens anónimas, uma com a pergunta "Quem é você?" e a outra que questionava "De onde vem o mundo?". Recebe também um cartão postal endereçado à "Hilde Møller Knag a/c Sofia Amundsen". A partir de então, através de comunicações misteriosas, Sofia torna-se aluna de um filósofo, Alberto Knox, de cinquenta anos, e passa a receber um curso de história da filosofia por correspondência.

Klaus Hagerup

Klaus Hagerup (Oslo, 5 de março de 1946 – Oslo, 20 de dezembro de 2018) foi poeta, dramaturgo, encenador, escritor, diretor teatral e autor de livros premiados na Noruega.

Entre as suas obras mais conhecidas, encontra-se A Menina que Queria Salvar os Livros, a história de Anna, uma menina que tem quase 10 anos e adora ler. A sua paixão pelos livros é tal que passa a maior parte do tempo livre na biblioteca e a sua melhor amiga é a bibliotecária Monsen. Um dia, porém, a Senhora Monsen conta-lhe algo absolutamente devastador: os livros que ninguém lê são destruídos. Só Anna pode evitar a tragédia que seria perdermos o acesso a todos esses mundos e personagens mágicos. A Menina que Queria Salvar os Livros é a história poderosa de um amor inspirador e sem limites: o amor pela literatura.


(Nota: o livro A Menina que Queria Salvar os Livros não existe na Biblioteca do ECB, mas pode ser requisitado à Rede de Bibliotecas do Concelho de Alcobaça através do serviço de empréstimo interbibliotecas)